A Bela, o Outro Cara & Eu
27 Um futuro hipotético
Notas iniciais
Sinto algo suave percorrendo meu rosto. Dedos que traçam linhas invisíveis e me despertam pouco a pouco. Sorrio, abrindo os olhos devagar para me habituar à claridade da manhã que se espalha pelo quarto. Esperando ver Bruce ao meu lado, sou tomada por um grande assombro ao reconhecer alguém totalmente diferente na cama.
Kurt abre um sorriso cretino e apoia o peso do corpo no cotovelo esquerdo enquanto me encara desafiador.
— Bom dia, raio de sol. Dormiu bem?
Alarmada e com um sentimento revoltante se agitando dentro de mim, sou arrancada desse terrível pesadelo e me sento em meio aos bagunçados lençóis. Puxo o ar com força e hesito por um segundo antes de olhar para o outro lado da cama.
Respiro aliviada ao ver Bruce dormindo. Profundamente a julgar pela respiração cadenciada. Sobre o criado-mudo atrás dele, o relógio marca oito horas e vinte minutos.
Acho ótimo que ele não tenha acordado porque, com certeza, estranharia meu comportamento agora. E seria bem difícil contar que sonhei com Kurt, por mais que tenha sido um pesadelo horroroso e impossível de se concretizar, e não um sonho de verdade.
Confesso que tenho pensado muito no canalha nos últimos dias. Não por saudade de qualquer sentimento doentio que tive por ele um dia. Kurt assombra meus pensamentos porque, graças ao seu envolvimento com o General Ross e sua recente prisão, tornou-se um assunto recorrente.
Contrariando o que eu esperava dele, o infeliz recusou um acordo de colaboração oferecido pela S.H.I.E.L.D. Se ajudasse a conseguir provas concretas contra Ross, ele teria sua pena abrandada no final do julgamento ao qual será submetido em breve. Ao invés disso, Kurt deu as costas a esse benefício — algo que não condiz com o mesmo sujeito que desapareceu do mapa há alguns anos por medo de ser preso.
Bruce acredita que Kurt recusou a oferta por medo do general e de sofrer represálias no futuro. Eu, no entanto, sinto que algo na recusa não se encaixa com seu caráter. Ou com a falta de caráter, melhor dizendo.
Fecho os olhos por um momento e tento afastar esse maldito assunto da minha cabeça. Juro que vou me esforçar para mantê-lo em suspenso pelo menos por hoje, mesmo que eu tenha que fingir que nada disso aconteceu.
Pensando assim, levanto-me com cuidado e sigo rumo ao toalete da suíte. Depois de um banho rápido e de me vestir, sussurro um “Eu te amo” no ouvido de Bruce e abro a porta do quarto com cuidado. Antes que eu dê um passo para fora, Josh entra no meu campo de visão.
— Bom dia, amor! Já que a montanha não vai até Maomé, resolvi te fazer uma visitinha. — Ele me abraça do seu jeito caloroso, porém, de repente, vira uma estátua de gelo. — Ai. Meu. Deus. — murmura, estarrecido, sobre o meu ombro.
— Fala baixo, você vai acordá-lo — alerto baixinho, empurrando-o enquanto saio do quarto e fecho a porta do jeito mais silencioso que consigo.
Frente a frente comigo no corredor, meu irmão gagueja ao perguntar:
— Aquele é... o B-Bruce?
— Não, um androide criado para me satisfazer. É claro que é o Bruce.
Admito que, com a prisão recente de Kurt e a descoberta sobre o General Ross ter orquestrado as explosões à bomba na cidade, posso ter esquecido de mencionar para Josh que meu relacionamento com Bruce evoluiu para a parte divertida. Mesmo assim, não entendo por que tanto choque em seu semblante ao vê-lo na minha cama.
— Vocês... Vocês dormiram juntos?
— É, em algum momento nós dormimos, sim. Por que o espanto?
— Por que o espanto? — ele repete, elevando um pouco a voz. — Você estar inteira, talvez?
Reviro os olhos e me recuso a alimentar essa conversa desnecessária. Sem pestanejar, sigo pelo corredor e mentalizo o excelente café da manhã que pretendo tomar. Atrás de mim, ouço os passos urgentes de Josh.
— Amelinha, volta aqui! Nós precisamos ter uma conversa muito séria!
— Não precisamos, não. Eu sou uma mulher adulta e dois anos mais velha que você, lembra? Mudando de assunto, como o Christian está? Atendendo muitos pacientes? E o Hulk? O cachorro, é claro.
Minha tentativa de sondar alguma coisa sobre o namorado dele ou sobre o meu são bernardo não surte o menor efeito. Josh logo me alcança e continua com o tormento:
— Não me entenda mal, meu bem. Eu estou feliz por vocês, por finalmente ter rolado, mas...
— Mas ficou surpreso por eu ter sobrevivido? — completo o raciocínio, desistindo de fugir do assunto porque sei que é inútil. — Pelo amor de Deus, Josh! Eu sempre soube que o Bruce era plenamente capaz de controlar o Hulk. Ele só precisava se convencer disso.
Paro diante do elevador e aciono o botão para descer até o andar onde a cozinha fica localizada. Mentalizo o café da manhã de novo. Agarro-me à imagem de uma torrada com queijo branco e suco de laranja fresquinho. Parece uma boa imagem para me distrair um pouco da sensação constrangedora que revira meu estômago.
— E, pelo visto, Bruce se convenceu disso ontem à noite, hein?
Hesito um pouco, ciente de que Josh não vai gostar do que vou revelar. Gostando ou não, decido esclarecer de uma vez:
— Há algumas noites, na verdade. Ontem não foi a primeira vez.
Ao invés de superar, meu irmão fica ainda mais estarrecido. Branco feito papel, não diz uma palavra pelos longos instantes que transcorrem. Apenas me encara com perplexidade.
O elevador chega e Josh entra logo depois de mim. Somente quando a porta dupla de aço se fecha e o silêncio se torna mais embaraçoso do que o tópico da estranha conversa matutina, ele volta a se manifestar:
— Ontem não foi a primeira vez. Ela acabou de dizer que ontem não foi a primeira vez. Será que eu entendi direito, minha Cher do céu?
De um jeito acusatório e ressentido, devo destacar.
— Isso aí. Não gostou, me processa — afirmo, sem olhar para ele. Mantenho os olhos fixos na porta à frente e torço para que ela se abra o mais rápido possível. Não entendo por que está demorando tanto!
Chocolate quente. Talvez eu faça um bom chocolate quente no lugar do suco de laranja. E troque o queijo branco por geleia ou creme de avelã.
— E você não me contou que o evento do século já tinha acontecido antes porque...
— Porque o mundo virou de cabeça para baixo na manhã seguinte — interrompo-o, taxativa. — Você ficou sabendo, certo? Que o pior namorado que eu já tive foi preso pela S.H.I.E.L.D.? Que foi contratado para hackear o Bruce, seguindo ordens do General Ross? Que isso faz parte de um plano de vingança cada vez mais obscuro? E que, para variar, nós estamos de mãos atadas?
— Claro, essa parte chegou aos meus ouvidos perfeitamente. Você fez questão de contar tudo sobre essa parte da sua vida da última vez que nos encontramos.
Não sou idiota, capto muito bem a crítica velada. Solto a respiração e relaxo os ombros, vencida. É quando o elevador chega ao seu destino que eu tomo uma decisão.
— Tudo bem, eu devia ter contado antes. Com exceção dos detalhes, afinal eu sou sua irmã e tudo tem limite, o que você quer saber?
O ressentimento de Josh se dissipa na hora. De um jeito ansioso, ele olha para mim com um sorriso. Por incrível que pareça, controla a curiosidade até estarmos devidamente instalados na cozinha, de frente um para o outro, sentados um de cada lado do balcão americano, com o café da manhã já preparado e posto por mim há alguns instantes.
— Foi especial?
Tomo um gole de café com leite, mais para esconder um sorriso bobo que surge ao relembrar a noite no Quinjet.
— Muito.
Josh suspira e apoia o rosto entre as mãos.
— Ele foi romântico?
— Como só Bruce Banner poderia ser e, ainda assim, me surpreendeu muito. Acredita que ele pensou em cada detalhe para a noite ser perfeita? — Antes que Josh responda minha pergunta retórica, sinto um calor engraçado no estômago e concluo com um olhar distante: — É isso, foi perfeita. Eu nunca senti com outro homem o que senti com ele. Não foi apenas sexo, tinha algo a mais, entende?
— Ah, não me diga. Eu nem tenho ideia do que possa ser. — Meu irmão cruza os braços e me encara de um jeito óbvio. Depois, simula uma tosse e deixa uma palavra escapar: — Amor.
Limito-me a esconder mais um sorriso e desconverso:
— Idiota.
Como a pessoa que melhor me conhece, Josh sabe que eu nunca fui um tipo açucarado de mulher romântica. Sempre fui mais prática e direta nos meus relacionamentos. Por isso é tão difícil deixar esses pequenos sinais de sentimentalismo transparecerem. Sinto-me uma retardada quando o assunto é Bruce Banner e luto para disfarçar isso diante de outras pessoas. Mesmo que essa pessoa seja minha família.
— Em nenhum momento, você teve medo dele perder o controle? — Josh pergunta, arrancando-me do devaneio.
Bebo mais um pouco do café e mordisco a torrada com bastante mel antes de responder:
— Oh, ele perdeu totalmente o controle. Bruce estava entregue, enfim livre, todinho meu e...
— Eu quero dizer do Hulk, criatura! — interrompe-me aos risos. — Em nenhum momento, você sentiu que o Outro Cara poderia aparecer?
Reviro os olhos ao perceber minha confusão.
— Não, Bruce estava no controle. Ou, como ele mesmo disse depois, parece que o Verdão escolheu facilitar um pouco para nós.
— Quem diria? George Michael seja louvado! — Josh faz um biquinho com os lábios, visivelmente surpreso e aliviado por ter dado tudo certo. Depois de beliscar um brioche e bebericar um pouco de suco, prossegue: — E agora vocês estão assim? Dormindo juntos direto? O Sr. Stark não se importa?
Quase engasgo diante da sua inocência com a última pergunta. Um riso me vence por fim.
— Pelos comentários indiscretos que faz questão de soltar, aposto que Tony ficaria feliz em nos trancar naquele quarto e jogar a chave fora.
— Ainda assim, vocês estão na casa dele. Isso não é estranho ou inadequado?
— Nós não estamos fazendo a Torre de motel, se é o que você está insinuando. Eu sei que sou uma hóspede aqui e juro que faço de tudo para não abusar — defendo-me. — Mas... é o Bruce quem sempre acaba me procurando em algum momento da noite. Nem sempre com segundas intenções. Aliás, ele nunca diz que é.
— Que sonso ardiloso... — Josh estreita o olhar. — Com aquela cara de santo!
Balanço a cabeça e explico melhor:
— Com essa história do General Ross, ele anda inquieto e vem tendo insônia, é isso. Às vezes, quando consegue pegar no sono, tem pesadelos estranhos.
No entanto, Josh não se convence e alfineta divertido:
— Ah, que fofa! Então você faz o enorme sacrifício de resolver esses problemas, não é? Mantém o bofe acordado quando ele tem pesadelo, e exausto ao extremo para ajudá-lo a dormir depois.
— Bruce me procura para conversar.
— Conversar? — Josh arqueia uma sobrancelha.
Expiro com força e me recosto na cadeira. Derrotada, corrijo:
— A princípio, pelo menos. — Coloco mais café na caneca e um pouco de açúcar: — Em outras ocasiões, ele não diz nada. Só que quer ficar perto de mim e me ver dormir. Ele diz que isso o acalma de algum jeito.
— Perto tipo na mesma cama. — Meu irmão cruza os braços, mas parece estar se divertindo. — Que conveniente para os dois, hum?
Deixo o riso me vencer de novo e admito de uma vez:
— Tudo bem, em algumas noites, talvez na maioria delas, nenhum de nós resiste e acaba rolando. Mas eu juro que não é algo que planejamos, simplesmente acontece. Satisfeito? Podemos mudar de assunto agora?
— Última pergunta, meu bem. Vocês têm tomado precauções, certo?
Fecho a cara diante da pergunta idiota e seguro a caneca com mais força.
— Eu devia jogar esse café quente na sua cara, irmãozinho. É óbvio que estamos.
Josh ergue as mãos em rendição e se justifica:
— Ok, muito bem, desculpe. Acho que fiquei meio traumatizado com a nossa amiga Olivia Mills e sua gravidez não planejada de um certo deus trapaceiro.
Enquanto Josh se serve de mais suco, suas palavras acabam me atingindo de um jeito que eu não esperava. Pego-me colocando mais açúcar no café e mexendo devagar.
— Engraçado, eu nunca tinha pensado nisso.
— Nisso o quê? — Meu irmão torna a se concentrar em mim. — Oh! Em filhos? É natural não ter pensado, é meio cedo para fazer planos. Até pouco tempo, você nem sabia que ia ter um presente com Bruce. O bofe deu trabalho para se decidir, lembra?
Mais uma colher de açúcar e continuo mexendo o café sem pressa. Os pensamentos distantes e, ao mesmo tempo, muito focados no assunto que surgiu.
— É, mas eu não preciso planejar nada pra saber que quero ficar com ele pra sempre. E acredito que Bruce também queira.
— Pelo andar da carruagem, eu diria que é meio óbvio. Ele não consegue dormir longe de você, criatura. Esse aí está no papo.
Dessa vez, não luto para conter o sorriso bobo e também orgulhoso que me domina.
— Mesmo que o mundo nunca nos deixe em paz, a ideia de ter uma família com ele é tentadora, sabia? Eu ia gostar disso... — Paro de mover a colher dentro da caneca e a possibilidade ganha força e sentido dentro de mim. Antes que a euforia tome conta, coloco os pés no chão. — Um dia, é claro. No futuro. O que nós temos hoje já é muito especial e eu não quero acelerar as coisas. Aliás, com tudo que vem acontecendo ultimamente, eu nem devia pensar nesse assunto agora.
Josh alcança minha mão livre sobre a mesa e coloca a dele sobre ela. Com uma expressão carinhosa e compreensiva, ele articula pausadamente:
— Sendo quem Bruce é, sempre haverá riscos e complicações na vida de vocês, meu anjo. Mas eu tenho certeza que, juntos, vocês vão descobrir um jeito de fazer as coisas darem certo. Saiba que têm minha torcida, viu?
Seguro sua mão de volta.
— Obrigada.
— Agora, vamos deixar o futuro no futuro e focar no presente? — ele propõe e depois termina o suco. — Você me perguntou sobre o Chris. Bom, ele está ótimo e eu me apaixono cada dia mais um pouco. Se teve uma coisa boa em sair do nosso apartamento, Amy, foi passar esse tempo na casa do meu namorado lindo, carinhoso, charmoso, sexy. É um gentlemen no dia a dia, e um amante selvagem à noite... — Com o rosto ruborizado, ele muda um pouco o foco: — Chris foi levar o Hulk para um passeio no Central Park. Nós podemos encontrá-los lá, o que acha?
— Claro, parece divertido — concordo de imediato, tomando um gole generoso do café. Do café mais doce da face da Terra! Quase cuspo tudo de volta na caneca, porém me obrigo a engolir apesar do gosto horrível. Não consigo conter um esgar. — Eca, credo...
Fecho a cara ao notar que Josh está rindo de mim. Certamente, ele me viu colocando mais açúcar do que o necessário e, engraçadinho como é, achou que seria ótimo não me alertar.
— O amor não é doce, meu bem? — arremata num tom sonso.
***
Antes de sair com Josh — que ficou de me esperar na garagem da Torre —, passo em meu quarto para checar se Bruce já acordou. Ao ver a cama vazia, resolvo bater no quarto dele. Bruce não atende e, quando abro a porta mesmo assim, confirmo que também não está aqui ou no toalete.
Intrigada, avalio as possibilidades e decido aproveitar um recurso da Torre. Limpo a garganta e me sinto meio idiota ao falar para o nada:
— Sexta-Feira?
Quase imediatamente, a voz suave da Inteligência Artificial ressoa a minha volta:
“Em que posso ajudar, Srta. Prescott?”
— Uma informação, por favor. Aonde o Bruce se meteu?
“O Dr. Banner encontra-se no laboratório.”
— Chocada. Valeu, Sexta-Feira — agradeço, colocando-me em movimento em seguida.
“Sempre às ordens. Tenha um bom dia.”
Poucos minutos depois, dou duas batidas suaves na porta de vidro que o separa de mim e adentro seu território científico.
Atrás de uma tela holográfica com dados que não entendo direito o que significam, ele ergue o olhar na minha direção e esboça um meio sorriso. Não sei por que, mas me parece um sorriso um tanto triste.
— Amelia.
— Bruce — imito seu jeito de falar o meu nome enquanto me aproximo. — Bom dia. Posso saber por que pulou o café da manhã?
— Não estou com fome.
Paro ao seu lado e o analiso por alguns instantes. Bruce volta a trabalhar seja lá em que for. O comportamento evasivo me intriga.
— Ocupado demais para um beijo?
Ele para de digitar. Hesita por mais tempo do que eu previa para me olhar de volta. Mas enfim responde com um sussurro caloroso:
— Nunca.
Sem jeito, dizima a nossa curta distância devagar e encaixa os lábios nos meus com delicadeza e carinho, segurando o meu queixo junto ao seu. O beijo, no entanto, dura muito pouco e Bruce, de alguma forma que não sei explicar, me parece cada vez mais introspectivo.
Sem rodeios, indago de uma vez:
— Você está bem?
Ele sorri com certa surpresa, como se eu tivesse perguntado algo absurdo. Uma surpresa artificial que não me convence.
— Claro, por que não estaria?
Quando uma pessoa responde com outra pergunta assim só me deixa mais desconfiada.
— Aconteceu alguma coisa.
Bruce se mexe de um jeito tenso e une as sobrancelhas ao retrucar:
— Por que está perguntando isso?
Rio sem humor.
— Eu não estou, é uma afirmação. O que houve? Agora sim é uma pergunta, percebeu a diferença?
O Vingador me encara um tanto zonzo nos instantes que se seguem. Por um momento, questiono-me se não fui ríspida demais.
Em minha defesa, não estou brava com ele, mas sim com essa dificuldade que Bruce tem em dividir suas preocupações comigo. A essa altura do campeonato, eu pensei que tivesse evoluído. Entretanto, parece que velhos hábitos nunca morrem.
Fraquejo um pouco e acabo recomeçando com um tom mais brando:
— Você teve outro pesadelo? Alguma novidade sobre o General Ross? A S.H.I.E.L.D. conseguiu provas contra ele? O Kurt mudou de ideia e aceitou colaborar com as investigações?
Com certa apatia, Bruce diz:
— Não para todas as perguntas. Não aconteceu nada, Amelia. Mesmo. Está tudo bem.
Meu sangue dá sinais de um prenúncio de ebulição. Sim, desta vez a raiva que sinto é bem direcionada a Bruce. Acho que nem preciso dizer que não acredito nele. O fato de preferir mentir do que confiar em mim me incomoda. Subestimar a minha inteligência, como se eu já não o conhecesse de cabo a rabo, também.
Como sou orgulhosa demais para insistir e implorar que Bruce revele o que está escondendo, sendo que ele devia abrir o jogo por vontade própria, limito-me a encerrar o assunto:
— Ok, ótima conversa. É melhor eu ir.
Giro nos calcanhares, decidida a me afastar o mais rápido possível e deixar o laboratório para trás sem olhar para a cara de sonso de Bruce Robert Banner!
Sou surpreendida e impedida de prosseguir com esse intuito, quando ele segura o meu braço com uma força gentil e firme ao mesmo tempo.
De repente, estamos frente a frente de novo. Seus olhos oscilam diante dos meus. Bruce parece muito desconfortável e isso desperta uma onda de receio dentro de mim. Agora tenho medo de que algo realmente grave tenha acontecido.
Mas o que seria? E quando aconteceu? Ontem ele estava perfeitamente normal. Dentro do possível, é claro.
Lentamente, Bruce solta o meu braço. Por fim, começa a se explicar:
— Você tem razão, me desculpe. Eu... É que eu ouvi, sem querer, a sua conversa com Josh agora há pouco.
Não é a primeira vez que Bruce escuta atrás da porta, por isso nem me surpreende que tenha feito de novo e sem querer.
— Que parte? — Tão logo pergunto, a resposta surge muito óbvia. — Oh... Aquela parte.
Meu rosto queima.
— Sim, aquela parte sobre precauções, futuro e ter... uma família um dia — ele confirma.
Acho que não tem nada mais constrangedor do que seu namorado te pegar no flagra fazendo esse tipo de plano. Bom, ao menos deve estar na lista de coisas mais constrangedoras que podem acontecer.
Sentindo-me tensa, luto para organizar os pensamentos e contornar a situação:
— Bruce, foi só uma conversa aleatória com meu irmão. Uma brincadeira sobre um futuro hipotético. Não precisa entrar em pânico, okay? Eu estou feliz com o presente, muito feliz com a relação que temos agora.
— Então você não quer ter filhos um dia?
— Quero sim, um dia. Não se sinta pressionado a pensar nisso tão cedo. Eu falei por falar. Definitivamente, não quero estragar o nosso presente te fazendo entrar em parafuso.
Inquieto, Bruce protesta de um jeito mais incisivo:
— Amelia, eu não estou entrando em parafuso.
— Não?
— Eu adoraria ter um filho com você — dispara com naturalidade. — Adoraria ter uma penca deles, se fosse possível.
Sou atingida por um baque. Um baque incrivelmente bom que estampa um sorriso inevitável na minha boca. Só quero que Bruce diga isso de novo.
— Mesmo?
— Mesmo — ele confirma, olhando-me de um jeito tão sincero e terno que me sinto ainda mais feliz. — Apesar dos riscos que isso envolveria...
Desmancho o sorriso e sopro o ar com impaciência.
— Ah, não começa. Nós daríamos um jeito, faríamos dar certo.
De súbito, Bruce fica absorto em pensamentos. Sua resposta sai meio automática e distante:
— Sim, faríamos. Num futuro hipotético. Mas não faz diferença, esse é o ponto. O que eu quero, o que você quer, nada disso importa.
Às vezes, adivinhar o que está se passando em sua cabeça é muito fácil. Aprendi a ler Bruce Banner conforme nos conhecíamos. Porém, em certos momentos, ele se transforma numa verdadeira incógnita e refugia-se dentro de si mesmo. Como agora.
Suspiro derrotada e inquiro com toda a paciência do mundo:
— O que você está tentando me dizer?
Seu olhar reencontra o meu e, mais uma vez, é impossível desvendar o problema que aflige o homem que eu amo. Sim, porque agora eu tenho certeza que algo realmente aconteceu ou ainda está acontecendo.
Indicando que o assunto é mesmo sério, Bruce segura minha mão e me leva até um pequeno sofá no canto do laboratório. Assim que sentamos, ele ajeita os óculos com a outra mão e torna a se concentrar em mim. Devagar e um tanto tenso, como se pisasse em ovos, finalmente explica:
— Por causa da radiação Gama, eu... Eu não posso ter filhos, Amelia. Não posso ter nenhum filho com você porque fiquei... estéril. Totalmente e irreversível. Me desculpe.
Bruce abaixa a cabeça e enrosca meus dedos nos seus, enquanto eu luto para absorver a revelação.
— Sinto muito — é tudo o que consigo dizer, meio anestesiada.
— Quando te ouvi fazendo planos, sonhando com essa possibilidade, eu me senti péssimo. Devia ter contado antes, eu sei, não fique brava. Se eu não contei foi só porque não pensava no assunto há um bom tempo. No passado, antes do Hulk, eu até imaginei que um dia teria minha própria família. Acho que boa parte das pessoas imagina isso. Mas depois do acidente... eu aceitei que a vida tinha outros planos pra mim.
Bruce não pode ter filhos. Por isso ele disse se fosse possível. Porque não é. Claro, agora tudo faz sentido.
Não nego que a revelação me atinge e entristece. Por mais que até poucos minutos eu nem cogitasse ser mãe um dia, é frustrante descobrir que não poderei carregar um filho dele. Mas não é uma tristeza que dura muito.
No fundo, acho que estou mais triste por ele do que por mim. Triste por Bruce ter ouvido a minha conversa com Josh e remoído mais um efeito da radiação Gama em sua vida, por ele ter se preocupado com o que eu ia pensar quando descobrisse, por ter se martirizado enquanto buscava as melhores palavras para me contar. Tudo isso em um curto espaço de tempo, minutos praticamente.
— É egoísta querer que você continue comigo depois de descobrir que eu não posso... ser o homem que você merece ter ao seu lado. Eu sou incompleto, seco, e você merece mais. Muito mais do que eu posso oferecer.
Essas palavras me trazem de volta à realidade no mesmo instante. Para a realidade onde qualquer novo acontecimento ou informação que vem à tona fazem Bruce questionar se nossa relação é mesmo o melhor para mim, esquecendo-se completamente do quanto é essencial na minha vida e que não posso abrir mão dele. Simplesmente não conseguiria viver longe de Bruce.
— Quantas vezes? — Quando um V se forma em sua testa, desenvolvo melhor o argumento: — Quantas vezes mais eu preciso dizer que amo você, Bruce? Que quero você, só você e de qualquer jeito? Quantas? Pare de usar desculpas para me afastar, nós já passamos dessa maldita fase e eu não quero voltar a ela. Você não é incompleto ou seco, um homem não se resume à capacidade de engravidar uma mulher, que bobagem.
Uma chama derrete o seu olhar e me aquece instantaneamente. Por um momento, acredito que o assunto está resolvido, mas... doce engano, é de Bruce que estamos falando.
— Você não está pensando de forma racional, Amelia. Está agindo por impulso, como sempre faz. Não está avaliando de verdade o significado da minha... esterilidade na sua vida, como isso impacta o seu futuro.
Não sou conhecida pela paciência, mas, por saber que estou num terreno delicado para Bruce, procuro manter a calma e me faço muito clara na resposta:
— Eu não preciso avaliar algo, se não muda nada pra mim.
— Como não muda? É exatamente isso que estou dizendo, muda tudo.
Diabos! Que homem teimoso!
— Não muda o que eu sinto por você — reforço. — Só altera um pouco o futuro, é verdade, porque agora eu sei que não vou engravidar do homem que me tira do sério de tantas formas, mas... — Dou de ombros. — Por mim, tudo bem. Muitos casais não têm filhos, Bruce. Não é o fim do mundo.
Ele fica em silêncio por alguns segundos, ponderando. Está um pouco mais calmo quando insiste na questão:
— Você está abrindo mão de algo importante por minha causa, Amelia, da alegria de segurar um filho nos braços, de tudo que isso representa e pode trazer pra sua vida.
Acalento sua mão com as minhas e me aprofundo em seus olhos.
— Não, eu estou abrindo mão de uma convenção em troca do que realmente importa pra mim. Além disso, família não se resume a laços de sangue, Bruce. Eu ainda posso segurar uma criança nos braços, nós podemos. Num futuro hipotético, claro, sem pressão.
Bruce exala pesadamente, porém até que enfim parece compreender meu ponto. E, mesmo que ele ainda se sinta egoísta, consigo vislumbrar uma nota de alívio no seu rosto.
— Eu não quero te afastar de novo, Amelia, não me entenda mal. Só queria que você pensasse melhor, que soubesse que tem escolha.
— Eu sei que tenho.
Bruce se ajeita no sofá, ficando bem de frente para mim, nossas mãos ainda entrelaçadas formando um nó apertado.
— Se você quisesse se afastar de mim no final, seria difícil, confesso. Deus... seria um verdadeiro inferno. Acho que deixaria o Hulk assumir o total controle do meu corpo, da minha consciência, só para esquecer quem eu sou e que não teria mais você. Mas eu ia respeitar a sua decisão.
— Eu sei que ia.
Bruce me encara com um olhar estreito. A nota de alívio se transforma em uma nuance de diversão e cumplicidade. Ele me conhece como a palma da mão. Nem sei por que chegou a cogitar que eu abriria mão dele.
— Mas você já decidiu, não é? Já fez a sua escolha?
O tom retórico não me impede de responder mesmo assim:
— Há muito tempo.
— Droga, Amelia... — O resmungo não soa frustrado, mas aliviado, numa contradição engraçada.
Bruce me abraça pela cintura e dá um beijo leve na minha testa. Depois, toma meu rosto entre as mãos e me dá outro, mais quente, só que na boca. Um roçar de lábios e línguas maravilhoso, vivo e terno, que faz meu estômago afundar e meu coração errar uma batida. Ou várias, não sei ao certo.
Com a testa colada na minha, ainda de olhos fechados, ele lamenta com a voz mais baixa:
— Desculpe por ter ouvido a sua conversa, por não ter contado nada disso antes e principalmente por ter pensado que você colocaria um ponto final em tudo quando eu contasse. Eu me sinto tão idiota.
Não resisto e uma gargalhada me escapa. Bruce abre os olhos, confuso, levando-me a explicar:
— Ótimo, porque você é mesmo um idiota. Me fez perder um tempão com mais uma DR, não acredito. Josh está me esperando lá embaixo até agora, coitado. Não sei como ainda não subiu pra me apressar. Aliás... — Rapidamente, me coloco de pé, sem soltar suas mãos. — Vem comigo?
O Vingador mais forte e mais complexo fica de pé também.
— Pra onde?
Arqueio uma sobrancelha. Sei o que combinei com Josh, uma volta no Central Park com o namorado dele e o cachorro Hulk, mas decido fazer um pouco de mistério para Bruce.
— Qualquer lugar. Acho que você precisa espairecer um pouco.
Ele me olha impressionado e agradecido, como se tivesse acabado de perceber que é exatamente o que precisa agora, relaxar.
— Com licença. — Sorrio de leve e começo a tirar seu jaleco devagar.
Um rubor aquece minhas bochechas enquanto sinto o olhar de Bruce acompanhando o trabalho das minhas mãos e depois voltando para o meu rosto. Sei o que se passa na sua cabeça porque é exatamente a ideia que surge na minha.
— Mais tarde — prometo, com um suspiro. — Agora nós precisamos fugir.
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