A Bela, o Outro Cara & Eu
22 O último amor
Notas iniciais
Você me traz paz, você me faz sorrir
Você me dá força e todo o tempo
Você não pede nada, somente amor
E meu coração bate apenas por você
Ele bate apenas por você
This love, this heart — Phil Collins
Há menos de um ano, o Diretor Phil Coulson me repreendeu por ter hackeado a S.H.I.E.L.D. em busca de informações sobre o paradeiro de Bruce. De quebra, confiscou o meu notebook para realizar os bloqueios necessários, com a promessa de que seria devolvido algum tempo depois. A devolução nunca aconteceu. Até hoje.
Duas semanas após três bombas abalarem o coração de Nova York, sou surpreendida ao descer para uma das salas da Torre dos Vingadores. Se não é o meu antigo notebook sobre um dos sofás, é um modelo muito parecido.
Quando me aproximo e tenho a oportunidade de analisá-lo melhor, reconheço uma pequena rachadura no canto inferior direito. Uma vez, o chutei, sem querer, no meio de um cochilo e ele caiu da cama, batendo com certo impacto no piso do quarto. A marca é a prova do meu desleixo.
— Lamento pela demora em devolvê-lo, Srta. Prescott — uma voz conhecida ressoa pela sala, me fazendo olhar na direção da janela que se estende do chão ao teto e fornece uma visão ampla da cidade. — Você vai notar que o desempenho foi restringido, como eu avisei que faria na época em que o confisquei.
Coulson dá alguns passos à frente e para no centro da sala com um meio sorriso quase imperceptível.
— Ah, valeu — agradeço com ironia e um sorriso amargo. — É muita gentileza da S.H.I.E.L.D. deixar meu computador lento.
Sua presença na Torre não me surpreende. Com certeza, Coulson está aqui para uma segunda reunião a portas fechadas com Bruce e Tony. Aproveitou para me devolver o computador porque, da última vez que o vi, fiz questão de jogar essa cobrança no ar.
— É apenas uma medida de segurança, Srta. Prescott. Além disso, devo ressaltar que bloquear alguns recursos é uma resposta até generosa da S.H.I.E.L.D., já que você cometeu um crime cibernético ao hackear nossos arquivos. Está lembrada?
Sou obrigada a reconhecer que Coulson quebrou mesmo o meu galho. Outra pessoa no meu lugar teria sido detida e induzida a arcar com a responsabilidade. Ele, no entanto, decidiu pegar leve comigo e me deu um voto de confiança. Relaxo ao reconhecer que foi mesmo generoso da parte dele e brinco:
— Em minha defesa, eu só queria encontrar um bonitão que fugiu de mim.
O sorriso discreto se expande um pouco e tenho a impressão de que Coulson dirá alguma coisa despretensiosa em resposta. Antes que ele abra a boca, somos interrompidos por uma terceira voz que adentra a sala:
— Engraçado... Eu pensei que você estivesse procurando o Banner naquela época. — Tony para entre mim e o Diretor da S.H.I.E.L.D, finge surpresa e acrescenta: — Oh, certo! Banner é o bonitão? Você já foi alguma vez ao oftalmologista, Amy?
Ainda não esqueci que Stark orquestrou uma promoção e inventou um cargo de confiança apenas para me manter mais perto da Torre. Contudo, consigo reconhecer que ele estava apenas seguindo o plano paranoico de Bruce. Mais alguns dias, e talvez eu até volte a rir de suas piadas. Por enquanto, atento-me a algo implícito no que ele disse e questiono:
— Você sabia que eu invadi o sistema da S.H.I.E.L.D.?
Quem responde, no entanto, é Coulson:
— Eu mencionei em alguma conversa. Não com a intenção de te recriminar. Na verdade, eu até expus ao Sr. Stark como fiquei impressionado com o seu conhecimento em explorar redes, linguagem de programação, criptografia e protocolos de segurança. Especialmente, em quebrar tais protocolos. Se me permite dizer, eu não entendo por que você escolheu Publicidade, Srta. Prescott. Seguindo as regras e a Lei, você se sairia muito bem em Ciência da Computação, Programação ou áreas semelhantes.
— É verdade, você não tem nada de publicitária, só o diploma — Tony emenda, antes que eu assimile as palavras do outro. — Deixou muito a desejar quando trabalhou no meu Setor de Criação.
Imagino que o último comentário saiu sem querer, sem maldade, mas com franqueza. Sei muito bem que fui uma péssima funcionária quando me arrisquei nessa área. E embora tenha me saído melhor quando Tony armou aquela promoção, não consigo conter o ressentimento. A alfinetada simplesmente escapa:
— Nesse caso, ainda bem que eu não trabalho mais pra você. Longe de mim, decepcionar um gênio tão autossuficiente. Alguém tão perfeito que se sairia bem em qualquer coisa que fizesse.
Para minha total insatisfação, Tony não me leva a sério. Ao invés disso, dá um tapinha no ar e faz pouco caso:
— Não se preocupe, eu já tive funcionárias piores. E não espero que ninguém corresponda ao meu QI, sei que é impossível. — Ele faz uma pausa e olha para mim. Percebo que estava só me provocando. — Se serve de consolo, você se saiu muito bem como minha assistente de eventos. É uma pena que abandonou o barco antes da Expo Stark. Eu posso ter inventado uma vaga, Amy, mas você estava fazendo jus a ela com seu empenho. Tinha potencial.
Tony e eu franzimos o cenho ao mesmo tempo. Provavelmente pelo mesmo motivo. Ele parece intrigado com os elogios gratuitos tecidos a mim, bem como eu mesma fico. Em outros tempos, eu deixaria a estranheza de lado e agradeceria pela consideração.
Por fim, ele coloca as mãos no bolso da calça despojada, limpa a garganta e retoma o tópico anterior:
— Tinha potencial, mas ainda não era o trabalho certo para você. Nesse ponto, eu concordo com o Phil. Você quer ser de Humanas, mas a sua natureza parece estar ligada a Exatas. Então... Por que escolheu o caminho inverso? Não aplicaram o seu teste vocacional direito ou você simplesmente sente prazer em ser do contra? E o mais importante, de onde vem o seu intrigante conhecimento em informática?
Não sei como a conversa tomou essa proporção. Não sei como a minha vivência profissional nas Indústrias Stark e o crime que cometi contra a S.H.I.E.L.D. trouxeram essas perguntas à tona. Só sei que elas me causam um profundo desconforto porque, automaticamente, me levam ao meu passado com Kurt. Aprendi muito com ele. Aprendi coisas erradas com ele.
Saciar a curiosidade de Tony — e talvez a do Diretor Coulson também, pois este me encara com um olhar atento — seria abrir o jogo sobre tudo. Seria falar da pessoa irresponsável que eu era. Seria confessar que eu achava divertido quando Kurt me mostrava e até ensinava os seus truques no campo cibernético. Seria reconhecer minha inocência por não ter percebido o que ele tramava nos bastidores. Algo maior e realmente criminoso que o fez fugir quando o cerco fechou. Seria contar que quase fui presa por sua causa. Que tive sorte em ter recebido uma pena alternativa. E que escolhi uma área totalmente oposta ao meu possível talento com computadores — despertado por Kurt —, justamente porque queria virar essa página vergonhosa para sempre.
Sei que meu silêncio é suspeito, mas não consigo dizer nada decente agora. Me sinto contra a parede e cada vez mais desconfortável com o rumo da conversa. Tudo que queria era pegar meu notebook e sair daqui o mais rápido possível. Algo me diz que levantaria mais suspeitas.
Pelo jeito como Coulson olha para mim agora, uma possibilidade me assombra. Se ele ainda não investigou o meu passado, certamente irá fazer isso tão logo deixe a Torre. Ele me deu um voto de confiança, porém o meu silêncio e as perguntas de Tony devem fazê-lo reconsiderar.
Será que depois de revirar o meu passado, irá comentá-lo com Tony também? Pior, com Bruce?
— Olha só quem chegou! O bonitão! — Sou salva pelo gongo quando o Homem de Ferro esquece de mim por ora e anuncia a chegada do amigo na sala.
Engulo em seco e tento me livrar da sensação incômoda que ainda faz minhas mãos suarem, apesar do alívio imediato. Sorrio do jeito mais natural que consigo para Bruce, mas algo me diz que não sou convincente.
— Bonitão? — Ele se aproxima até parar perto de nós. Une as sobrancelhas e olha para cada rosto. — Como assim? Quem?
Tony dá um tapinha em seu ombro e diz:
— Ah, sempre tão modesto.
O silêncio se instala logo depois. Pressentindo que o assunto particular, que desejo muito manter enterrado, pode voltar à tona e se tornar ainda mais embaraçoso por Bruce estar aqui, não deixo a pausa seguir muito adiante:
— Vocês precisam conversar, não é? Eu vou deixá-los sozinhos. Com licença.
Dou meia volta e alguns passos, a fim de deixar os dois Vingadores e o representante da S.H.I.E.L.D. começarem a reunião, mas Bruce me alcança e sugere:
— Ei, por que você não fica? Seja lá o que for que Coulson vá dizer, é seu direito ouvir também. O combinado era não te deixar de fora de mais nada, lembra?
Tenho certeza que o olhar que lhe lanço agora reflete bem o meu orgulho e minha gratidão por ele levar a promessa que me fez a sério. Por termos evoluído e passado da conturbada fase dos segredos sobre a ameaça que paira sobre nós.
Mesmo assim, ainda me sinto encurralada pelas perguntas que Tony levantou há pouco e temo uma nova sabatina na frente de Bruce. Na verdade, me pergunto se ele já sabe da minha atividade ilegal em relação à S.H.I.E.L.D. e se também ficou intrigado com o meu talento para o crime.
— Depois você me conta — esquivo-me. — Eu vou almoçar com Josh e matar a saudade do meu cachorro. De novo.
Não sei por que minto para Bruce. Estive com meu irmão e o Hulk — meu cachorro perdido e, graças a Deus, recém encontrado — ontem mesmo. Josh mencionou que hoje estaria bem ocupado no trabalho. Provavelmente, nem irá almoçar. O São Bernardo está na casa de Christian desde que o encontramos em um abrigo. É lá que meu irmão tem passado uma temporada também, sempre escoltado por agentes especiais.
Bruce franze o cenho. Eu abraço o notebook junto ao corpo. Talvez com mais força do que deveria. Sinto uma leve fisgada no ombro, livre da tipoia há quatro dias. Não houve sequelas, mas o médico recomendou umas poucas sessões de fisioterapia, que eu venho adiando por achar totalmente desnecessário.
— Certo — Bruce assente, porém é nítido que continua surpreso com a minha negativa. — Te vejo mais tarde então?
— Eu estou sempre por aqui, não é mesmo? — brinco.
— Você está bem?
Droga! Ele notou meu desconforto.
— Ótima.
Forço um novo sorriso e observo por sobre o ombro dele. Coulson e Tony desviam os olhares bem nessa hora, cada um para um ponto qualquer da sala, nos dando privacidade. Aproveito o breve momento para me despedir de Bruce com um selinho rápido. E então eu deixo a sala sem olhar para trás.
Uma hora depois
Tão logo me afastei de lá, já sabia que não iria mentir para Bruce de novo. Me sinto mal por ter feito exatamente o que tanto condeno. Por mais que tenha sido uma pequena mentira e apenas para evitar uma saia justa com Tony e Coulson.
Enquanto eles seguem reunidos, tenho tempo para pensar e chego à uma conclusão vital. Bruce se abriu muito comigo nos últimos dias e está na hora de retribuir o seu esforço. Não há motivos para esconder qualquer coisa dele, afinal. Muito menos por um medo bobo do que vai pensar de mim.
Cogito esperar em seu quarto, mas acabo pegando outro caminho e seguindo sem rumo certo pela Torre. Não é nenhuma novidade que esse lugar é enorme e muito espaçoso, mas é estranho perceber, com certa angústia, que também é como uma prisão.
Sinto falta do meu apartamento, da minha bagunça, da minha liberdade e de não me preocupar com a existência de alguém maligno atrás de mim.
Não culpo Bruce por essa situação, longe disso. E estaria mentindo se dissesse que não é maravilhoso tê-lo por perto. Mas quero muito que tudo se resolva logo. Que tudo volte aos eixos. Que minha vida volte a seguir. Sem neuras e ameaças. Quero vir à Torre apenas para vê-lo, ficar com ele, passar um tempo juntos. Não por medida de segurança.
Tento esvaziar a mente desses pensamentos quando chego ao hangar. Atraída pelo Quinjet, que repousa adormecido alguns metros adiante, caminho até ele sem pressa.
É inevitável não me lembrar da tarde em que Bruce pousou um desses na fazenda de Olivia e se despediu de mim. É surpreendente perceber que a lembrança não me causa mais dor ou raiva. Realmente o perdoei. E tenho certeza que, por escolha própria, Bruce nunca mais vai fazer algo parecido. Ele parou de fugir de mim já há algum tempo.
Outra coisa que me surpreende é encontrar a moderna aeronave aberta, como um convite. Sem pensar duas vezes, subo a pequena rampa e mergulho em sem interior. O Quinjet não é a TARDIS, mas a impressão imediata que tenho é que ele é bem maior por dentro do que aparenta ser por fora.
Caminho entre as poltronas, passando as mãos por cada encosto, deixando meu cérebro se desligar de toda e qualquer preocupação. Sigo até o painel de navegação. Tomando cuidado para não esbarrar em nada e acionar algum comando por acidente, me acomodo no assento do copiloto e estico as pernas.
Pela ampla janela frontal, consigo vislumbrar boa parte de Nova York. Há sinais da destruição, mas é nítido que a cidade está se reerguendo mais uma vez. Como a fênix.
Fecho os olhos em dado momento e estou prestes a me deixar levar por um bom cochilo, quando ouço passos pelo hangar. Aproximando-se com certa determinação. Logo dentro do avião em forma de pássaro. Reconheço a respiração de Bruce e deduzo que ele já sabe onde estou.
— Não se preocupe, eu não toquei em nada. Só queria um lugar diferente para pensar na vida.
Leva alguns segundos para o ruído dos seus passos romperem o silêncio de novo. E quase nada para estancarem bem perto de mim. Sem cerimônia, Bruce se ajeita na poltrona principal. Permanece calado por mais um momento e só então se manifesta:
— Você disse que ia sair, mas o Pietro não sabia de nada. Desistiu do almoço com o seu irmão?
Também sem cerimônia, decido assumir de vez:
— Eu menti, desculpe. Não tem almoço nenhum.
Bruce não questiona o motivo pelo qual agi assim. Tampouco parece chateado com a descoberta. Nem ao menos fica surpreso. De um jeito intrínseco dele, simplesmente parece respeitar o meu espaço e não ligar para as minhas esquisitices. E essa compreensão natural que reserva a mim me faz ter ainda mais certeza de que devo me abrir com ele.
— Lembra do conhecido que eu reencontrei esses dias?
— Kurt Lockwood? Eu pensei que você não quisesse falar sobre ele.
Fico um pouco surpresa por Bruce lembrar o nome do meu ex-encosto. Eu não me recordava de ter mencionado, mas devo ter dito.
— E não quero mesmo. Mas eu preciso falar de mim e acho que uma coisa vai levar a outra — esclareço.
Tentando disfarçar certo desconforto com a menção a Kurt, mas claramente interessado no que tenho a dizer, Bruce se ajeita na poltrona, ficando de frente para mim, e incentiva:
— Tudo bem. O que está afligindo você, Amelia?
Não nego que estou aflita. Quebrar a imagem perfeita que Bruce demonstra ter de mim é algo que eu não gostaria de fazer. Mas acho que, a essa altura do nosso relacionamento, ele precisa conhecer os meus defeitos e erros. Pensando assim, começo meio sem jeito:
— Quando você foi embora... Digo, alguns meses depois disso, eu fiz uma coisa errada. Meio ilegal e nada bonita. Eu usei o perfil de agente da Olivia para hackear a S.H.I.E.L.D. Eu só... queria descobrir se sabiam onde você estava. Só curiosidade, entende?
Claro que não foi só curiosidade. Tenho a impressão de que Bruce sabe muito bem que foi muito mais do que isso que me levou a procurá-lo, já que um brilho de satisfação surge em seus olhos. Uma nuance nesse mesmo brilho me diz que ele não ficou surpreso com a revelação.
— Eu conheço essa história. Coulson me contou quando eu voltei.
Diante da confirmação, uno as sobrancelhas e replico com certa incredulidade:
— Você já sabia? Por que não me disse nada? Por que nunca me questionou a respeito?
Dessa vez, há carinho e compreensão em seu olhar.
— Eu imaginei que você não queria que eu soubesse. Que se quisesse, contaria no seu próprio tempo — talvez percebendo que preciso saber sua opinião, ele acrescenta: — Você não agiu certo, mas também não foi algo tão grave. O próprio Coulson entendeu isso. Por que eu não entenderia?
Esse homem não existe.
Apesar de aliviada, ainda tenho que contar a outra parte. E sobre essa, não sei se ele reagirá do mesmo jeito.
— Valeu por compreender. De verdade. — Limpo a garganta e prossigo: — Bom, o Coulson ficou impressionado com o que eu fiz. Tony também. Eu não expliquei a nenhum dos dois, porque envolve coisas bem pessoais, mas eu quero que você saiba. — Faço uma pausa. Procuro as melhores palavras. Palavras que não me causem tanta vergonha. — Nem sempre eu tive bom gosto para homens, sabe? Eu namorei esse cara e não conseguia enxergar os seus defeitos, embora ele tivesse muitos. O jeito irresponsável e malandro era o que mais me atraía. — Percebo que Bruce fica desconfortável, talvez com ciúme, e retomo o foco: — Kurt nunca escondeu de mim que era hacker. E eu sabia que ele usava esse... talento para se dar bem. Pior, com o tempo, eu... me interessei pelo assunto e ele não viu o menor problema em me ensinar o caminho das pedras. Eu nunca prejudiquei ninguém, Bruce. Nunca fiz nada além de quebrar firewalls e invadir sistemas de segurança por pura diversão. Era do desafio que eu gostava e da aprovação do meu namorado na época. Mas, juro, não fiz nada além de testar meu conhecimento em campo. Era como se eu anunciasse um assalto, mas desistisse da ideia antes de receber o dinheiro, entende?
Bruce demora alguns instantes para assimilar o que ouviu. Sua expressão é menos suave do que há pouco. Ainda assim, não parece bravo.
— E o tal Kurt? Fez algo além disso?
Meneio a cabeça de forma afirmativa e complemento com a explicação:
— Ele se envolveu em um plano maior do que os pequenos desvios de dinheiro que costumava fazer. O FBI descobriu, rastreou o IP e chegou até mim porque o filho da mãe usou o meu computador. Kurt fugiu para não ser preso, me deixando numa situação bem complicada. Meus pais conseguiram convencer o júri que eu não estava envolvida com a quadrilha que contratou meu ex, mas eu recebi uma pena alternativa de todo jeito por nunca ter denunciado as atividades criminosas dele. Um ano de serviço comunitário. Eu já tinha cumprido mais da metade dessa pena, quando Loki e o exército de Chitauris invadiram Nova York. Então, o Hulk me salvou e foi o incentivo que faltava para eu mudar de vez. Eu juro que me tornei uma pessoa melhor, Bruce. Só voltei a burlar a lei, invadindo a S.H.I.E.L.D., porque estava preocupada com você e... com saudade também. Você sumiu, eu disse que seguiria em frente, mas não consegui. Precisava de notícias suas. Precisava sentir que você não tinha desaparecido por completo.
Pronto, sinto que terminei a minha confissão. Falei até de sentimentos que não queria expor, mas simplesmente saíram de mim. Me sinto constrangida, com vergonha da pessoa imatura que eu era e com medo do que Bruce deve estar pensando de mim agora, contudo estou mais leve também. Foi bom ter aberto o jogo, independentemente de como ele vai reagir.
Só gostaria muito que Bruce dissesse logo o que achou de tudo isso. O silêncio longo e sepulcral que se instalou no Quinjet está me matando de ansiedade.
Para minha agonia, Bruce ainda me tortura mais um pouco. Até que sua expressão se suaviza de novo e ele finalmente diz alguma coisa:
— Você não precisa ter vergonha de nada, Amelia. Eu não acredito que você era uma pessoa horrível antes, como está querendo me convencer que era. E mesmo que tenha sido, eu não ligo para o seu passado. Eu só me importo com a mulher maravilhosa que o Outro Cara salvou e trouxe para a minha vida.
Fico zonza com suas palavras. Meu coração se aquece de um jeito inevitável e cada partícula de tensão no meu corpo se dissipa quando o profundo alívio me invade.
— Você não existe, Bruce.
Um sorriso discreto e agradecido percorre seus lábios.
— Você apenas se deixou levar pela pessoa errada. Eu também já cometi esse erro. De fazer uma escolha ousada, de querer a aprovação de alguém, de ignorar os riscos envolvidos. — Estou prestes a perguntar do que Bruce está falando, quando ele me dá uma dica: —Alguma vez eu já te contei como o Hulk surgiu?
Busco o assunto em questão na minha memória e respondo:
— Um pouco em uma das nossas ligações. E eu tenho certeza que também li alguma coisa quando invadi o sistema da S.H.I.E.L.D.
— Eu me deixei levar pela pessoa errada também. Me convenci que estava fazendo uma coisa boa pelo mundo e firmei a parceria com ele sem pensar duas vezes. Juntos, nós tentamos recriar o soro do supersoldado através de radiação gama. As coisas não saíram como o esperado e o Outro Cara é a prova disso. — Parece ser difícil para Bruce continuar, porém, depois de uma breve pausa, ele o faz: — O homem em quem eu confiei passou a me perseguir pelo mundo. Não para me ajudar a reverter a consequência do acidente. Ele só queria me capturar, subjugar e talvez me usar como uma arma, já que o Hulk é muito mais potente do que um supersoldado. E também queria vingança porque, no acidente, a filha dele foi ferida.
Talvez por eu ter confidenciado experiências do meu passado, Bruce resolve retribuir com um relato pessoal também. Um relato que me prendeu a cada frase revelada, mas que também me leva a uma observação:
— Você nunca mencionou nomes. E eu não prestei atenção neles quando li...
— General Thaddeus Ross — ele me interrompe ao revelar o primeiro nome e desvia o olhar por um momento antes de acrescentar o outro: — E sua filha, Betty.
Eu devia perguntar a Bruce se existe alguma chance do tal Ross ser a pessoa que anda o ameaçando e explodindo bombas pela cidade para deixar o Hulk transtornado.
Só que, quando ele conversou comigo há duas semanas, lembro que alegou não ter nenhum suspeito em vista. Disse também que a possibilidade inicial havia sido desconsiderada por falta de indícios. Nesse caso, acredito que Bruce desconfiou do general num primeiro momento, mas a S.H.I.E.L.D. não deve ter encontrado prova alguma contra ele.
Seja como for, é o segundo nome que Bruce menciona que realmente atrai minha atenção. Ou melhor, a clara hesitação em sua voz ao dizê-lo. A fim de descobrir o motivo e o que essa pessoa significou ou ainda significa para ele, sondo:
— Por que ela estava com você na hora do acidente?
Bruce não demora quase nada para responder:
— Betty é doutora em biologia celular. Estava me ajudando com o projeto. Ela não teve culpa, foi tão manipulada quanto eu.
Ainda assim, a formalidade em sua resposta me dá a impressão de que existe algo nas entrelinhas. Uma desconfiança surge e me incomoda. Preciso tirar a dúvida.
— Ela era só isso para você? Uma ajudante?
— Não — Bruce responde com certa cautela, olhando fixo nos meus olhos. — Definitivamente, não era só isso.
Minha suspeita se confirma e o ciúme me espreita como um diabinho. Não faz sentido me sentir assim, não posso ter ciúme do passado, de um Bruce que ainda não me conhecia. É claro que ele deve ter tido outras namoradas antes de mim. Assim como eu tive outros antes dele.
— Entendo — me obrigo a dizer isso, porém o ciúme insiste em permanecer. — Então... você a amava?
Não faz sentido me torturar com essa possibilidade, mas preciso saber que tipo de sentimento eles tinham.
Bruce parece não concordar comigo, pois tenta se esquivar:
— Amelia...
Com insistência, o interrompo:
— Você a amava, Bruce? Sim ou não?
É visível que Bruce não quer me magoar, mas também sabe que é melhor dizer a verdade. Não há motivos para mentir afinal, há?
Embora contrariado com o rumo da conversa, ele responde:
— Sim.
Engulo em seco e finjo que a afirmação não atiça ainda mais o diabinho ao meu lado. Procuro fazer pouco caso, como se não ligasse mesmo, quando faço outra pergunta:
— E ainda ama?
Bruce franze o cenho com confusão e descrença.
— Como eu poderia?
Eu só queria uma resposta sincera e não outra pergunta. Por mais que tenha entendido que Bruce está comigo e, portanto, não deve amar outra pessoa, meu lado irracional está inseguro e sendo atacado pelo monstro do ciúme.
Odeio isso, mas me vejo obrigada a insistir:
— Um pouco pelo menos. De algum jeito. Sei lá. Me diga você.
Bruce se ajeita de novo na poltrona. Ele busca minhas mãos e as envolve com as suas.
— Não existe amor ou saudade, apenas carinho pela pessoa que ela foi pra mim. Betty Ross faz parte do meu passado.
O alívio que sinto ao sentir a sinceridade em cada palavra é suficiente para fazer o diabinho no pé do meu ouvido se desintegrar, sucumbindo junto com o ciúme infundado. Minha respiração fica automaticamente mais leve e juro que Bruce não precisava dizer mais nada. Só que, para minha sorte, ele diz:
— Você é o meu presente, Amelia Prescott. E espero te merecer também como meu futuro, porque eu não consigo mais imaginá-lo sem você.
Pensando melhor, eu precisava ouvir essa declaração linda também. Precisava porque agora, além do alívio, sou invadida por uma felicidade tão genuína e intensa que um sorriso bobo me vence rapidamente. Não há razão para ciúme ou insegurança. Como eu fui boba!
— Ótimo! — Deixo escapar uma risada e, completamente relaxada e satisfeita, reflito em tom divertido: — Quer saber? Eu nunca quis ser a primeira mulher na vida de um homem mesmo. Eu quero ser a última.
— Você é.
A nova declaração de Bruce, dita de um jeito ainda mais franco e com o olhar cravado no meu, me pega de surpresa e fico em silêncio. Totalmente entorpecida pelo efeito avassalador que exerce no meu coração.
Bruce me ama. De verdade. Redescobrir isso leva meu coração a disparar de um jeito frenético e quente. Não sei como pude duvidar do seu sentimento por um instante. A partir de hoje, nada nem ninguém vai abalar essa certeza.
Devo ter ficado muda e com uma cara de boba por mais tempo do que consigo precisar, já que Bruce pigarreia para me despertar e questiona meio encabulado:
— Mas e você? Ainda sente alguma coisa por aquele sujeito? Pelo tal... Kurt?
Confesso que é maravilhoso perceber que Bruce também ficou com ciúme de mim. É nítido no seu olhar, que carrega uma expectativa apreensiva, e no seu corpo inteiro, que fica retesado de repente.
A ideia de torturá-lo um pouco com essa sensação é tentadora, mas também seria imaturo e maldoso da minha parte. Por isso, asseguro com firmeza:
— Cruzes, não! De jeito nenhum, pode ficar tranquilo. Ele é passado mesmo.
O alívio é perceptível em seu semblante agora. E acho que Bruce também se sente bobo por ter sentindo ciúme e insegurança por um momento. De qualquer forma, é reconfortante descobrir que não sou a única sujeita a fraquezas desse tipo.
Com certa timidez, ele emenda:
— Bom saber, porque eu também pretendo ser o seu último amor, Amelia.
Entrelaço suas mãos com mais calor ao ouvir isso e afirmo sem pestanejar:
— Você é, Bruce.
Um sorriso o vence. Discreto e suave como sempre, mas está lá, evidenciando a felicidade que despertei.
Ficamos em silêncio por um breve momento, até que ele lança um olhar meigo e incerto na minha direção ao insinuar uma sugestão irresistível:
— Se você não tiver mais confissões ou perguntas a fazer, eu gostaria muito de te beijar agora.
— Eu aprovo.
Faço mais do que me inclinar para terminar com a distância e possibilitar que o beijo aconteça. Me levanto, deixo a poltrona do copiloto e parto para o colo de Bruce, me aninhando perfeitamente ao seu corpo acolhedor. Ignoro certa surpresa em seus olhos e encaixo minha boca na sua sem mais demora.
O beijo é doce e nos envolve um pouco mais a cada instante. Bruce se entrega ao momento e sinto suas mãos percorrendo meu rosto, minhas costas, minha cintura. Sempre me puxando para mais perto dele de um jeito delicado, sempre me abraçando com carinho e desejo. É como se quisesse colocar um fim definitivo à distância quase inexistente entre nós. Como se meu corpo colado ao seu fosse pouco e ele quisesse mais do que isso. Talvez menos roupas entre nós. Talvez nenhuma.
A essa altura, o beijo se torna mais intenso e profundo. Meu corpo se arrepia com os toques de Bruce e, ao mesmo tempo, me sinto cada vez mais quente. Minhas pernas fraquejam um pouco quando me ajeito melhor sobre ele.
Tenho certeza que Bruce sente o desejo despertando também. Se espalhando, ganhando força, subjugando-o, fazendo-o perder a cabeça sem perceber. É impossível não notar o sinal claro de excitação em seu corpo sob o meu. E mostrando que eu também estou muito a fim, começo a abrir sua camisa com certa pressa.
É bem nessa hora que ele deve perceber minhas segundas intenções pois, de um jeito gentil e resoluto, segura meus pulsos e põe fim ao beijo.
— Amelia... nós não podemos.
Me recuso a abrir os olhos e encosto a testa na sua. A pele está tão quente, que me pergunto se Bruce não foi acometido por uma febre violeta e súbita enquanto me beijava.
— Por que não? Você disse que queria tentar. Assim que eu ficasse boa, e eu estou ótima.
— E eu quero... É tudo o que eu mais quero, acredite. — Consigo roubar um beijo rápido antes dele prosseguir: — Mas não pode ser assim. Alguém pode aparecer.
— Alguém tipo o Hulk? — suponho, abrindo os olhos a contragosto.
Bruce passa as mãos pelo meu rosto, ajeitando meu cabelo atrás das orelhas.
— Não só ele. É claro que é a minha maior preocupação, mas não dá para esquecer de Tony e Pietro. Eles estão na Torre e podem nos procurar a qualquer momento.
Respiro fundo e me afasto um pouco. É frustrante, mas tenho que dar o braço a torcer. Ele tem razão. Um flagrante seria constrangedor. Passo o olhar pela aeronave a nossa volta e brinco:
— Que pena... Nada contra uma boa cama, mas me deu vontade de testar o Quinjet.
Quando volto a me concentrar em Bruce, me deparo com um olhar indecifrável. Ele parece ter alguma coisa em mente. Provando que estou certa nesse ponto, ele sugere meio envergonhado:
— Vamos tentar hoje à noite. De madrugada, quando eles estiverem dormindo. Eu passo no seu quarto. É só uma tentativa, Amelia. Por favor, me desculpe se não der certo e eu te decepcionar. Eu vou me esforçar para manter o Hulk longe, mas há uma chance...
Antes que Bruce termine a ressalva, me agarro apenas à parte que gostei de ouvir e o interrompo afoita:
— Eu vou colocar a minha melhor lingerie!
Bruce sorri, vencido. Acaricia meu rosto de novo ao dizer de um jeito romântico:
— Eu não ligo para o que você vestir, Amelia. É só você que importa.
Fico sem reação por alguns instantes. Novamente, me pergunto se Bruce Banner existe mesmo. Isso foi uma das coisas mais gentis e fofas que já saíram da sua boca. Percebo que exatamente por isso, ele merece uma recompensa maior.
— Vou escolher uma camisola bem sexy também.
Por mais que tenha dito que nada disso importa, noto uma nuance quente em seu olhar ao ouvir minha ideia luxuriosa. E antes que me afastar dele se torne mais difícil, dou um beijo em sua testa, me levanto e caminho rumo à saída do Quinjet.
Com um frio delicioso no estômago e as pernas ainda fracas de desejo.
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