A Bela, o Outro Cara & Eu
23 Consenso, padrão e vantagem
Notas iniciais
Coulson não trouxe grandes novidades esta manhã. Mesmo seus agentes mais talentosos não conseguiram descobrir a origem dos detonadores remotos instalados nas três bombas que explodiram há duas semanas. Mas uma suspeita, sobre como meu inimigo vinha seguindo meus passos, foi confirmada. Um aplicativo fantasma foi instalado no meu celular, provavelmente através de bluetooth. Esse aplicativo ativou e conectou meu GPS a uma fonte desconhecida até o dia do ataque.
Isso pode significar que meu inimigo esteve bem perto de mim. E que determinou os locais para instalação das bombas pouco antes de acioná-las, demonstrando uma frieza calculista incomparável. Ao me ver com Amy naquela cafeteria, simplesmente escolheu locais ao nosso redor e BOOM. Isso também me leva a crer que talvez ele tenha um cúmplice, alguém que cuidou da logística das bombas enquanto ele nos espionava à distância e enviava as mensagens hostis que ignorei.
A S.H.I.E.L.D. tentou vasculhar as câmeras de segurança de todo o perímetro, porém, para meu azar, as imagens daquele dia foram misteriosamente apagadas. A suspeita é que um vírus se espalhou no sistema de segurança e causou uma pane geral na região central de Nova York, desligando todas as câmeras de forma muita conveniente.
Por mais que eu pense, não consigo me lembrar de ninguém do meu passado que tenha capacidade e conhecimento para armar esse ataque tão bem executado. Tampouco imaginar o motivo.
Exames minuciosos nos escombros e resquícios das bombas também comprovaram que o Hulk foi mesmo envenenado. Uma substância extremamente tóxica, cujos efeitos nocivos foram potencializados por radiação Gama na fabricação. O resultado foi a fúria fora de controle que se abateu sobre o Outro Cara, que ficou desesperado e desnorteado pela dor e alucinações provocadas pela substância reformulada especialmente para ele. Para mim. Por sorte, o efeito passou depois de algumas horas.
Sobre essa substância, tudo o que a S.H.I.E.L.D. descobriu até o momento é que a HYDRA tinha um projeto bem parecido na base em Sokovia. Um elemento químico perigoso, que incluíram nos experimentos realizados em seres humanos naquela época.
No momento, estamos trabalhando com essa possibilidade. Que meu inimigo é da HYDRA ou possui algum tipo de conexão com ela. Se a suspeita tiver fundamento, continuo no escuro. É praticamente impossível determinar uma cabeça, em meio a tantas, que teria esse desejo de vingança. Motivos não faltam, é claro. Em Sokovia, o Hulk foi determinante na dominação da base e, tenho certeza, que deixou muitos agentes da HYDRA incapacitados com sua violência feroz.
Por outro lado, todos eles foram rendidos e se encontram em uma prisão especial desde então. Não teriam como se comunicar com alguém do exterior e orquestrar a vingança contra mim. Além disso, nesse caso, todos os Vingadores ativos naquela época seriam os alvos e não apenas eu.
As imagens de Amelia enviadas para a S.H.I.E.L.D. com a exigência de que eu voltasse e a maneira como essa ameaça obscura vem se comportando desde então não deixam dúvida. É uma vingança bem direcionada. É pessoal. É comigo. Mas quem? Quem está por trás disso?
Quanto mais eu penso e tento encontrar respostas, menos as coisas fazem sentido e mais perguntas surgem. Por isso, decido que, pelo menos por hoje, vou enterrar esse assunto e me concentrar em outro.
Amelia é como uma válvula de escape no meio das incertezas e mistérios que pairam no ar. Pensar nela — em especial na nossa conversa no Quinjet, mais cedo — é como um bálsamo, algo que me traz conforto e esperança. Ao mesmo tempo, também fico tenso, pois lhe fiz uma promessa. Prometi que iremos tentar hoje. Ficar juntos, de verdade, como um homem e uma mulher.
Sexo se tornou uma espécie de tabu para mim depois do Hulk. Não sei como ele vai se comportar, embora eu tenha certeza que não será fácil controlá-lo. Se um beijo foi o suficiente para despertá-lo quando beijei Amelia pela primeira vez, o que esperar de uma situação ainda mais íntima entre nós?
Meu medo de machucá-la é algo que não consigo ignorar. Mas meu amor e desejo tampouco. Por isso não vou desistir sem tentar. Não posso nem quero mais fugir das coisas que sinto por ela. Tenho que encontrar um ponto de equilíbrio no meio disso, uma saída, uma forma de ficarmos definitivamente juntos. Vou encontrar.
Por enquanto, faço um esforço para esquecer o Hulk e me dou ao luxo de pensar que sou apenas Bruce Banner. Não há ninguém adormecido em minha mente e ninguém capaz de despertar e emergir do meu corpo num momento de tensão. Apenas eu. Sou um homem perfeitamente normal. Estupidamente normal. Um cientista com sete doutorados e nenhum charme gritante. O que será que Amelia viu em mim, afinal?
Não... Não posso ir por esse caminho. Baixa autoestima não vai me ajudar em nada. Ela viu alguma coisa em mim, ela me ama, então eu devo ter algum encanto. Aos seus olhos, pelo menos.
Viro essa página por ora e parto para o próximo passo. O lugar onde vamos... tentar. Tive a ideia quando Amelia deixou escapar algo durante nossa conversa. Ela estava no meu colo, eu não estava pensando direito porque... Bom, ela estava no meu colo. Agora percebo que pode ter sido uma ideia boba, fruto do calor do momento.
Não, não é boba. O momento estava realmente quente e eu não estava pensando muito bem, mas pode dar certo. Ela pode gostar. Teremos mais privacidade assim e um bom distanciamento da Torre dos Vingadores é tudo o que precisamos. Além disso, há um significado por trás da escolha do lugar também.
Antes que eu me convença que a ideia é ruim e que só estou me iludindo, começo os preparativos para essa que pode ser a nossa primeira noite juntos.
***
Passa da meia-noite quando deixo meu quarto e caminho até a porta de Amelia bem em frente à minha. Sei que Tony queria exatamente isso — facilitar nosso acesso um ao outro —, quando a acomodou tão perto de mim. Talvez ele fique frustrado se descobrir que, nesse primeiro momento, não vamos usufruir da proximidade descaradamente arranjada. Tenho outro plano para essa noite e está na hora de deixar Amelia ciente de uma parte dele.
Ergo a mão, pronto para bater, mas antes disso um ruído na maçaneta e a porta é aberta com um movimento rápido. Perco o fôlego. Amelia parece um anjo. Ainda assim, tem algo de diabólico na camisola de cetim que emoldura seu corpo com uma suavidade sensual.
O branco acinzentado em contraste perfeito com o tom levemente bronzeado da sua pele. A renda delicada no decote que me desconcentra mais do que entendo. O mesmo tipo de renda acima dos joelhos deixando o restante de suas pernas à mostra como uma provocação silenciosa.
Quando consigo voltar ao planeta Terra e reencontro o olhar de Amelia, vejo um sorriso contido e uma sobrancelha um tanto arqueada.
— Eu ia perguntar se você gostou, mas acho que já tenho a resposta.
Sinto um rubor emanar em meu rosto. Eu não devia ter medido o corpo dela desse jeito. Não foi gentil.
— Isso não foi discreto, me desculpe.
Amelia ri, se apoia na porta com um olhar penetrante e me tranquiliza:
— Tudo bem, Bruce. Às vezes, é permitido deixar a discrição de lado e ser apenas um homem de carne e osso.
Não, ela não me tranquiliza. Ela tenta. Continuo tenso. Pressiono a nuca com uma das mãos, cruzando os braços de um jeito desajeitado. Evito olhar para onde não devo. Falho miseravelmente. Um esforço maior e consigo retomar o foco.
— Você precisa de um casaco — sugiro. Seu sorriso se esvai e Amelia me encara com confusão. — Nós vamos sair — explico, indicando o corredor atrás de mim.
Um brilho curioso paira em seus olhos. É nítido que ela pensou que tudo se resumiria a um convite para entrar no seu quarto ou num convite para levá-la ao meu.
— Eu pensei que... Tanto faz. Para onde? — indaga, com uma nuance de tensão também.
É bom perceber que, do seu jeito, Amelia também está nervosa. É reconfortante me sentir um pouco no controle para variar. Por fim, consigo relaxar a ponto de esboçar um sorriso tímido e peço:
— Confie em mim e apenas me siga.
Ela me encara por um momento. Acho que vai insistir na pergunta, mas acaba desistindo. Talvez saiba que é inútil, talvez tenha entendido que meu desejo é fazer certo mistério quanto ao local, com certeza confia em mim.
Sem dizer nada, Amelia caminha até o guarda-roupa, ajeita um casaco longo e escuro sobre o corpo, veste o primeiro par de sandálias que encontra em um canto do bagunçado quarto e prende o cabelo em um rabo de cavalo. Quando passa por mim, tenho que fazer um esforço para não mudar de ideia. Porque, de repente, a cama que estamos prestes a deixar para trás parece muito tentadora.
Quando Amelia se detém alguns passos à frente e olha para mim de um jeito questionador, eu desperto, fecho a porta e indico o caminho adiante. Volto a ficar ansioso.
***
Entramos em silêncio no Quinjet e partimos em modo furtivo. Apesar de não estar entendendo nada, Amelia não faz perguntas sobre o destino que tenho em mente. Ao que parece, está gostando do suspense e não quer estragar meu desejo de fazer surpresa.
Depois de determinar as coordenadas, ajustar a velocidade e acionar o modo automático, me acomodo melhor na cadeira do piloto, de modo a ter uma boa visão dela na poltrona ao lado. O jeito que Amelia está me encarando — há um calor divertido em seus olhos — me leva a dizer:
— O mundo pelos seus pensamentos.
Sem rodeios — com esse jeito que tanto amo e que tanto me assusta também —, ela revela:
— Você está me levando às alturas, Bruce, mas não do jeito que eu imaginei. — Amelia indica o Quinjet a nossa volta e o céu noturno na janela à frente do painel. — Isso é bem mais literal e, sem ofensa, um pouquinho frustrante.
Abaixo o olhar e deixo um sorriso me vencer enquanto assimilo o duplo sentido em suas palavras. Depois asseguro:
— Eu sei que te devo uma explicação sobre isso e prometo que você terá. Assim que chegarmos.
Sinto sua curiosidade crescendo pela maneira como respira fundo e se ajeita na cadeira do copiloto.
— Certo, tudo bem.
— Quanto à frustração... eu espero te compensar. — Limpo a garganta, me sentindo inevitavelmente aquecido quando ela torna a se concentrar em mim. — Não somente hoje, não somente essa noite, mas em cada momento que eu passar com você. Em cada momento que eu tiver essa sorte de fazer parte da sua vida.
Minhas palavras surtem um efeito imediato; fazem Amelia relaxar e mergulhar numa aura tangível de felicidade. Ela apoia a cabeça no encosto e sorri ao tocar meu rosto. Seus dedos brincam com meu cabelo e deslizam até meu queixo.
— Você sempre vai fazer parte da minha vida, Bruce. A sorte é minha.
Seguro sua mão, acaricio seus dedos e os beijo suavemente.
***
A enorme porta de embarque e desembarque do Quinjet se abre cerca de uma hora depois. Apesar de confusa, Amelia me segue quando eu indico a noite silenciosa que se estende lá fora. Uma olhada ao redor da colina onde pousamos, e na casa muitos metros adiante, e ela diz:
— Interessante. Por que nós estamos na fazenda da Olivia, Bruce?
Tenho que confessar que é divertido deixar Amelia cada vez mais curiosa. Me ajuda a conter minha própria ansiedade. Está muito perto de revelar meu plano. Só espero não estragar tudo até o fim da noite. Ou melhor, espero que o Hulk não estrague tudo.
— Eu preciso que você espere aqui por um instante — peço, andando de costas, voltando para o jato.
Ela une as sobrancelhas e cruza os braços. Um vento suave balança as mechas soltas do seu cabelo. A iluminação suave da lua a deixa ainda mais linda.
— Eu não estou entendendo...
— Só mais um pouco de paciência comigo. Você vai entender tudo. Só vai levar um instante, prometo.
Apesar de curiosa e talvez buscando alguma teoria enquanto analisa meu semblante, Amelia acata o pedido e não me segue de volta ao interior do Quinjet.
Levo mais do que um instante para arrumar o que é preciso, porém não mais do que cinco minutos. Enquanto ajeito tudo, fico dividido. Parece uma ideia boba e, de repente, não parece. Oscilo entre uma opinião e outra.
No fim, saio de novo. Observo-a de costas para mim, seu olhar concentrado na casa abaixo da colina, provavelmente mergulhada em lembranças. Quem sabe a mesma que me domina agora?
Agora. É este o momento. Não há mais desculpas para adiar. Tenho que lhe explicar por que estamos aqui. E, depois disso, chegará a nossa hora. A hora de tentar, de controlar o Hulk, de perder meu medo, de me entregar a Amelia.
Fecho os olhos por um instante, respiro fundo, me encho de coragem e caminho até ela. Paro ao seu lado.
— Então? — murmura ao notar minha presença.
— Então... — repito, sentindo um aperto gélido no estômago.
De repente, sou um adolescente de novo, um rapaz inexperiente prestes a se entregar à primeira mulher da sua vida. Só que não sou isso. Nem Amelia é a primeira. Ela será a primeira depois do Hulk, o que justifica meu nervosismo.
Amelia é a mulher que eu amo, que me aceita com todas as implicâncias, a mulher de quem eu tentei fugir, aquela que me esperou, a única com que eu quero dar esse passo. Porque ela não é a primeira mulher da minha vida, Amelia é última que eu vou amar.
Antes que eu fique mais tenso, seguro sua mão e a conduzo de volta ao Quinjet. Aciono o botão que fecha a comporta atrás de nós. Amelia estanca com uma expressão indecifrável diante do que vê adiante.
— Você perguntou por que estamos aqui. Por que justo aqui — recomeço.
Seu olhar explora o cenário a nossa frente. Acompanha as velas. Observa as pétalas de rosa espalhadas pelo chão. Velas em chamas e pétalas vermelhas em torno da cama que improvisei no centro espaçoso da aeronave. Amelia engole em seco. Sua reação ainda é uma incógnita.
— P-perguntei? Perguntei, é verdade.
Antes que as palavras me fujam, fico na sua frente e deixo-as fluir de dentro de mim:
— Há pouco mais de um ano, eu me despedi de você. Bem aqui, nessa fazenda, eu entrei num jato como esse e fui embora. Não sem olhar para trás, não sem lamentar, mas fui. Eu escolhi esse lugar hoje, Amelia, e armei tudo isso porque quero que você entenda uma coisa. — Espero seu olhar perdido encontrar o meu. Quando acontece, continuo: — Eu quero que você entenda o quanto é especial pra mim e que foi por isso que eu voltei. Por você. A lembrança ruim que esse lugar traz é uma página virada e, nessa noite, eu quero que ele marque um recomeço. Porque é aqui que eu quero reforçar uma promessa que te fiz. Eu nunca mais vou embora, nunca mais vou sair do seu lado, nunca mais vou a lugar algum sem você.
Se eu tivesse ensaiado, não teria soado tão bom quanto foi dizer essas palavras agora. Meio no improviso, mas carregadas de significado e verdade mesmo assim.
O silêncio da mulher na minha frente, no entanto, me deixa receoso. Talvez eu tenha falado tudo muito rápido e ela não entendeu nada.
Espero, torcendo para que Amelia só precise de um pouco mais de tempo para assimilar a explicação. À medida em que o silêncio segue imperando entre nós, começo a me sentir desconfortável.
— Por favor, diz alguma coisa. Qualquer coisa. Você quer voltar para a Torre, é isso? Você não gostou do lugar? Eu sabia que era uma péssima ideia...
Ela pisca, como se despertasse de um tipo misterioso de transe, e um brilho intenso toma conta dos seus olhos. Por um momento, acho que Amelia vai sorrir. Depois, acredito que vai se jogar nos meus braços e me beijar com toda a paixão contida nesses mesmos olhos que me encaram. Para minha surpresa, ela segue controlada. Ou sabe fingir muito bem.
Alguns instantes depois, passa por mim, deixando as sandálias no caminho até a cama improvisada com colchonetes, lençóis sedosos, alguns travesseiros e um cobertor macio. Atraído, acompanho seu calmo movimento de abrir o casaco. Logo a peça desliza por seus ombros perfeitos e Amelia a coloca de lado. Só então se vira para mim. E só então rompe o silêncio:
— Tire os sapatos, Bruce.
Meu coração dá um salto. A ansiedade dispara a mil em minhas veias e se mistura com uma sensação eufórica e pura de felicidade. Ainda assim, sei lá como, consigo me manter calmo o suficiente para não despertar o Hulk. E, sem hesitar, obedeço. Afinal, que homem, em sã consciência, não obedeceria a essa mulher linda e encantadora?
Assim que fico descalço, ela me estende a mão. E mais uma vez, sequer penso. Simplesmente caminho até Amelia e entrelaço seus dedos. Mais do que atraído, me sinto hipnotizado.
Apaixonado. Perdido. Encontrado.
Nossa distância diminui conforme Amelia se aproxima de forma lenta e naturalmente sedutora. Seu rosto fica cada vez mais perto. Fecho os olhos por instinto e sua boca encontra a minha. Um beijo suave e, ainda assim, provocante me faz esquecer do mundo.
Quando dou por mim, minhas mãos já estão em sua cintura. Um desejo primitivo e aperto seu corpo contra o meu. Uma onda de calor lascivo nos envolve. Meu coração bate mais depressa e isso me faz lembrar de algo essencial. Não sei com qual força de vontade consigo me desvencilhar do seu beijo e balbucio:
— Eu não quero cortar o clima, mas...
— Não corte — Amelia sussurra, ainda bem perto do meu rosto e deixando claro que não pensa em se afastar.
— Mas... é que eu preciso dizer algumas coisas. Coisas importantes.
— Depois.
Um beijo desconcertante no meu pescoço quase me faz acatar essa ordem. Uma leve mordida do outro lado e fecho os olhos, inebriado. Porém, quando sinto seus dedos percorrendo minha camisa em busca dos botões, insisto:
— Infelizmente, precisa ser agora.
Amelia me lança um olhar rápido, quase inexpressivo. É como se me desse o aval para dizer de uma vez, mas, ao mesmo tempo, não se importasse nem um pouco. Prova disso é que continua empenhada a me despir. Seus dedos logo alcançam o primeiro botão e o abrem. O segundo. O terceiro. Devagar, mas com determinação. O contato sutil da sua pele na minha me deixa arrepiado. Preciso falar de uma vez antes que eu esqueça de novo.
— Eu programei o Quinjet para uma viagem de retorno emergencial. Se, apenas se, o... Hulk aparecer e estragar tudo, você deve correr para o painel de navegação e acionar o isolamento da cabine imediatamente. Uma parede resistente vai se erguer e separar vocês dois. Não se preocupe, basta apertar o único botão vermelho no painel e dizer isolamento, o sistema automático vai executar a tarefa sob o seu comando em seguida. Depois, a salvo na cabine... — Paro quando Amelia chega no último botão. Ela afasta a camisa com calma e começa a tirá-la de mim. Suas mãos suaves nos meus ombros, deslizando pelos braços. — A salvo na cabine isolada, você diz iniciar viagem e depois abrir comporta. O Hulk será ejetado enquanto o piloto automático tira o Quinjet do chão. — Ela me lança um olhar de repreenda. Pelo menos prestou atenção nessa parte. — Ele não vai se machucar, é do Hulk que estamos falando. É só uma medida de segurança para o caso...
Amelia fica impaciente com algo que está impedindo-a de me livrar da camisa. Um equipamento semelhante a um relógio de pulso que coloquei antes de deixar a Torre dos Vingadores. A manga é estreita demais e não consegue transpor o obstáculo.
— Que tipo de brinquedo é esse? — inquere, examinando-o com uma expressão intrigada.
Não sei se me desespero por ela não ter ouvido minhas orientações ou se respondo a pergunta. Decido não me desesperar.
— É um monitor cardíaco. Eu costumo me transformar no Outro Cara quando atinjo 200 batimentos por minu...
O aparelho é arrancado do meu pulso e atirado em algum lugar atrás de Amelia, que argumenta de pronto:
— Você costumava se transformar nele quando atingia 200 batimentos por minuto. No começo, quando não tinha aprendido a controlar o seu lado nervosinho. Isso é passado, Bruce. Supera. Poucas vezes você perdeu o controle e sempre teve um motivo externo envolvido. A Maximoff mexeu com os seus neurônios uma vez e um maluco criou uma arma química para enfurecer o Hulk da última. Fora isso, você controla o Outra Cara muito bem.
Minha camisa vem ao chão. Mãos quentes sobem pelo meu peito, pescoço, nuca. Um segundo beijo. Mais determinado e quente que o primeiro. Esqueço tudo de novo e abraço Amelia com o meu calor e desejo. Um calor há tempos enjaulado. Um desejo prestes a me subjugar com sua força violenta.
Seu corpo é um convite tentador. E mais tentadora é a maneira como está colado a mim. Apenas o tecido fino da camisola me impedindo de senti-la contra minha pele. Por um momento, acho que vou enlouquecer.
Um novo esforço e consigo pôr fim ao beijo. Mas o sabor quente da sua língua ainda reverbera em cada partícula da minha boca. Ofegante e ainda de olhos fechados, apoio a testa na sua e confesso:
— Eu tenho medo... Medo que você seja um motivo externo também. Alguém capaz de me fazer perder a cabeça, mesmo que de uma forma boa assim, pode despertar o Hulk. Eu realmente não sei... como ele vai se comportar numa situação como essa.
Sinto uma risada leve contra o meu rosto. E fico tão surpreso com a capacidade irresponsável de Amelia em não se preocupar com um assunto sério desses, que abro os olhos e a encaro com confusão.
Então ela comprime os lábios, contendo o riso, leva as mãos ao meu cabelo, me encara com muita paciência e argumenta de um jeito categórico:
— Bruce, nem você nem ele querem me machucar. É um consenso. Toda vez que o Hulk tentou se manifestar ou mesmo quando esteve na minha frente no calabouço da Torre, ele se acalmou e você retomou o controle. Isso é um padrão. Eu acho que ele gosta de mim de alguma forma. Da minha admiração por ele, talvez. Ou dos meus belos olhos, sei lá. Seja como for, é uma vantagem. Você pode controlá-lo nessa situação também, eu tenho certeza. Só precisa confiar mais em si mesmo e acreditar que é você quem manda, porque é você quem manda mesmo. Vai ficar tudo bem.
Antes que eu sequer compreenda como essas palavras me atingem, suas mãos estão no meu cinto. Amelia abre a fivela com destreza e faz o acessório deslizar pelo cós da calça. Joga o cinto ao meu lado, sem desviar do meu olhar nem por um segundo. Abre o botão e desce o zíper lentamente.
Permito que sua confiança se torne a minha confiança também. Ela está certa afinal, nenhum de nós vai machucá-la porque a verdade é que eu não sou o único que ama Amelia Prescott. Do seu jeito primitivo, o Hulk também se importa muito com ela. Eu senti em cada vez que dividimos a consciência, por breves instantes, diante dela.
— Esquece o medo, Bruce. Esquece tudo. Só pensa em mim. — Um novo beijo no meu pescoço. Uma trilha, na verdade. Uma trilha cada vez mais próxima do destino final. Amelia ri perto da minha boca. — E, por tudo que há de mais sagrado, não corta o clima de novo ou quem vai virar o Hulk sou eu.
Envolvo seu rosto entre as mãos e sorrio, rendido e bem mais tranquilo. A confiança ganha força. Eu não vou machucá-la. Existe um consenso, um padrão e uma vantagem a meu favor. Eu tenho controle. Vou encontrar o ponto de equilíbrio antes que o Hulk pense em emergir.
— Nunca mais — assinto, antes de beijá-la com essa certeza se misturando ao desejo de tê-la em meus braços definitivamente.
Não digo mais nada. Não resisto mais. Apenas me deixo levar por seu beijo lascivo e profundo. Por seus braços que me apertam, me envolvem; são como uma armadilha da qual não quero escapar. Meus batimentos aceleram a cada instante, mas ignoro o medo, luto contra ele, venço. Deixo minhas mãos encontrarem a pele quente e macia dos ombros da mulher que eu amo. Seguro as delicadas alças da camisola, feliz por meus dedos não tremerem tanto. Faço a peça deslizar por seu corpo rumo ao chão. Minha pele encosta na sua. O calor aumenta, se espalha, me domina. Abro os olhos.
— Você é linda — constato, e sei que não é nenhuma novidade, mas precisava dizer. — Linda demais.
Um novo beijo. Uma mordida suave em meu lábio inferior. Amelia nos guia para baixo. E eu vou porque não tenho escolha. Porque quero ir. Porque a quero demais.
Deitados sobre a cama, mais aquecidos pelo nosso calor mútuo do que pelas velas ao redor, suas pernas se enroscam nas minhas e me ajudam a despir a calça.
Em algum lugar da minha mente, o Outro Cara se agita. Sinto as veias ficando enervadas e uma dor característica da transformação distendendo os músculos das minhas costas. Com determinação, penso: "Agora não, Hulk. Fica na sua. Você não quer machucá-la. Eu preciso que você fique quieto para que isso não aconteça. Eu ordeno que você fique quieto."
E, de alguma forma, transitando pelo meu consciente também, ele parece entender o recado. Resmunga em meio aos circuitos nervosos, mas recua. Chego a duvidar que realmente existe porque é como se tivesse se desligado por conta própria de repente.
Sem mais receios, deixo minha mão subir pela perna de Amelia. Aperto sua coxa, lhe arrancando um gemido baixo contra minha boca. Me afasto um pouco e observo seu corpo curvilíneo sob a luz fraca da lua lá fora e das chamas aqui dentro. Devagar, tiro a sua lingerie enquanto um sorriso travesso ilumina seu rosto. O mesmo sorriso cresce ao me ver completamente nu também, excitado e pronto para ela.
Amelia se distrai um pouco ao sentir algo embaixo do travesseiro e logo descobre alguns preservativos. Ela me olha com um desejo quente e divertido ao abrir um deles. Antes que eu pense, parte para cima de mim, se aninhando sobre o meu corpo, suas pernas ao meu redor, me preparando.
Desnorteado pelo seu toque, procuro seu rosto e dou um beijo suave em sua testa. Nem sei de onde tiro concentração para perguntar:
— Assim...? Sem preliminares?
Um riso escapa da sua garganta e ela me encara com olhos em chamas que, por algum motivo que sou incapaz de explicar agora, me deixam arrepiado.
— Eu não sei se você reparou, Bruce, mas nós estamos nas preliminares desde que nos conhecemos. Fica pra próxima.
Amelia me silencia com um beijo molhado, doce, envolvente. Ao mesmo tempo, desliza com uma suavidade cheia de volúpia e se encaixa perfeitamente em mim. Perco o fôlego e a abraço com força por puro instinto e tesão. Minhas mãos estão em toda a parte. As suas também.
Seu corpo macio e quente se movimenta. A princípio, devagar. Gradativamente, com mais ímpeto e vigor. Provoca reações, sensações, gemidos mútuos, testa meu controle mais uma vez, a minha sanidade, tudo o que eu sou.
Como alguém perdido, à deriva, sigo o ritmo das suas ondas, enquanto Amelia extrai o seu prazer do meu corpo com maestria. Estremece ao meu redor quando chega a um longo e intenso orgasmo em dado momento.
Seguro de que o Hulk não é mais uma ameaça a nós, inverto o jogo e me posiciono sobre ela. Afundo em seu corpo ainda trêmulo, ditando o movimento dessa vez. A cada estocada, sinto o prazer absoluto mais perto. E quando o gozo finalmente vem — forte e avassalador — encaixo o rosto no pescoço suado de Amelia e sussurro ofegante em seu ouvido:
— Te amo.
Às vezes eu tenho um sentimento
Profundo em minha alma
Às vezes eu tenho um sentimento
Que não consigo controlar
Às vezes eu tenho um sentimento
Profundo em meu coração
É um sentimento que eu sei que nunca acabará
Ela me traz amor
Eu sei que isso é tudo que preciso
She brings me love — Bad Company
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