A Bela, o Outro Cara & Eu
24 Parece um sonho
Notas iniciais
Por mais que eu esteja olhando para as velas queimando ao meu redor e sentindo o calor aconchegante das chamas espalhado no ar, a minha mente está vagando, absorta, meio em suspenso em um lugar desconhecido.
Por mais que meu corpo nu esteja entrelaçado a outro corpo nu em meio a uma confusão de lençóis, travesseiros e pétalas de rosa, ainda não acredito no que acabou de acontecer entre mim e Bruce. Aquela frase batida e clichê — Parece um sonho! — não para de se repetir em algum lugar da minha cabeça. No entanto, o toque contínuo e carinhoso no meu ombro, além de me deixar arrepiada, me dá a certeza de que tudo isso foi e é mesmo real.
— No que você está pensando?
A voz de Bruce em minha nuca me causa mais um arrepio incrivelmente bom e me faz sorrir de forma quase involuntária.
— Em muitas coisas e em nada ao mesmo tempo. — Coloco o seu braço em volta da minha cintura e entrelaço sua mão quente. — Nós podemos ficar aqui? Tipo, pra sempre? — sugiro.
— Tipo... ignorar o mundo lá fora e simplesmente passar o resto da vida fugindo? Eu pensei que você não aprovasse esse tipo de comportamento.
Apesar de captar o tom divertido da resposta, sinto a alfinetada também. Há pouco tempo, eu critiquei muito Bruce por ter ido embora para viver às margens da sociedade. Mesmo que eu tenha apenas exposto uma fantasia com meu comentário, ele não deixou essa contradição passar despercebida.
— Estraga prazer — resmungo, dando-lhe uma precisa cotovelada.
Quando ele se encolhe e geme, no entanto, eu fico com dó. Viro em sua direção e faço um carinho em seu rosto. Depois de alguns instantes o observando e pensando no que fizemos, um riso escapa da minha garganta. E diante do semblante confuso que recebo de volta, explano:
— Quem diria que, com essa cara de bobo e jeito quietinho, você fosse se revelar um amante tão intenso e desconcertante, Dr. Banner. Se fosse um aplicativo, eu te avaliava com cinco estrelas bem merecidas agora mesmo.
Um sorriso tímido dissipa a expressão anterior. Sua mão alcança uma mecha do meu cabelo e a coloca atrás da minha orelha. Novo arrepio. Olhos quentes cravados em mim. Nova onda de calor. Então, uma resposta:
— Quando você diz esse tipo de coisa, com esse seu jeito, quem fica desconcertado sou eu.
O beijo que acontece em seguida é uma reação natural diante do clima irresistível que se intensifica entre nós. A atmosfera de sonho está de volta ou nunca se dissipou. O sabor doce dos seus lábios é mais uma prova de que tudo é real.
Entretanto, não consigo embarcar nesse clima propício de novo. Isso porque, de repente, me lembro da criatura por trás do homem e uma pergunta cheia de curiosidade surge na minha cabeça. Afasto-me de sua boca, ignoro a frustração em seus olhos e anuncio:
— Eu preciso perguntar uma coisa!
— Agora? Certo, ok.
A atenção que Bruce concentra em mim me deixa profundamente sem graça. Porque eu percebo que é um questionamento meio idiota e que eu poderia adiar. Para piorar, não tenho ideia de como perguntar de uma forma que não soe estranha.
Ao invés de pensar nas melhores palavras e perguntar de uma vez, começo a me enrolar:
— O Hulk está com você o tempo todo, não é? Digo, mesmo que fique controlado na maior parte do tempo, continua dentro da sua cabeça. Como alguém louco pela senha do WiFi, só esperando uma brecha para usar e abusar da sua internet?
— É uma analogia interessante. — Bruce une as sobrancelhas, provando que, na verdade, a comparação só causou confusão nele. — Aonde você quer chegar com ela?
Questionamento idiota ou não, respiro fundo e vou direto ao ponto:
— Eu sei que você conseguiu controlá-lo, mas eu quero saber se, por acaso, mesmo sem acesso à sua "internet", o Hulk viu o que aconteceu aqui.
Bruce pensa demais para responder — o que me deixa mais curiosa — e quando finalmente diz alguma coisa, é evasivo:
— Eu não tenho certeza. — Mais um momento de reflexão depois, ele explica melhor: — Em dado momento, foi como se só eu e você existíssemos. Eu me desliguei completamente dele ou ele de mim, não sei bem, talvez as duas coisas. Mesmo agora, o Hulk ainda parece... distante. Como se tivesse encontrado um lugar mais profundo na minha mente e se trancado lá.
Ouvir isso, me deixa aliviada, porém preocupada também. Não quero gerar nenhum incômodo para o Verdão, tampouco magoá-lo.
— Você acha que ele ficou com raiva? Ou talvez... traumatizado?
— Não. — Bruce, claramente, faz um esforço para não rir do comentário. — Eu não acho que tenha sido esse o caso.
Tenho medo de perguntar isso, mas ignoro e sigo em frente:
— Excitado?
Mesmo com a pouca iluminação no Quinjet, é nítido que o rosto de Bruce enrubesce de imediato. Os olhos crescem e ele parece zonzo de vergonha.
— Não! Amelia, por Deus, isso é...
— Eu sei, constrangedor, desculpe! — apresso-me em dizer, antes que a coisa piore. Afoita, tento me justificar: — É que esse lance de dupla personalidade, alter ego e transformação numa fera verde já era bem confuso sem o fator sexo envolvido. Eu fiquei curiosa. — Como ele me encara com um olhar estreito, decido ser mais clara: — Eu só quero entender como o Hulk deixou as coisas rolarem entre a gente e se ele está bem com isso. Realmente bem, entendeu?
Bruce me analisa por um longo instante. Parece meio intrigado quando diz de uma maneira retórica:
— Você se importa com o Hulk. De verdade.
— Não fique com ciúme, mas sim. Você pode ser o meu crush, ele é o senpai — brinco.
O alter ego do Incrível Hulk me envolve em seus braços, e eu me aninho ao seu corpo por puro instinto, de novo guiada pelo clima irresistível e natural entre nós. Por um momento, acho que Bruce não vai dizer mais nada. No entanto, enquanto percorre meu ombro suavemente com os dedos, enfim me dá uma resposta:
— Bom, ele também se importa com você, eu sinto. Acredito que foi justamente por isso que se comportou tão bem hoje. O Outro Cara não quer mesmo te machucar, Amelia. E acho que entendeu que seria arriscado ficar próximo da superfície enquanto você acabava com o meu auto controle. Ele facilitou bastante e tenho certeza que não foi por mim que fez isso.
Não consigo conter um sorriso ao ouvir essas coisas. Nem o calor violento e urgente que reacende em cada parte do meu corpo. Estou muito grata ao Hulk por ter sido bonzinho conosco. E aliviada por ele não ter espiado, é claro. Estou mais feliz ainda pela paz na voz de Bruce ao concluir isso e pelo o que aconteceu entre nós ter sido possível.
Também estou ansiosa por uma segunda dose, confesso, e não faço questão de disfarçar meu desejo. Simplesmente deixo minha mão ganhar vida própria e percorrer o peito de Bruce. Sinto seu coração bater mais rápido quando lhe toco nessa altura e continuo seguindo a trilha rumo abaixo.
Quando ele toma minha boca para si e me leva ao limite com um beijo delicioso, o ardor do desejo se intensifica em cada terminação nervosa do meu corpo. E aquela vontade de ficar aqui para sempre — a salvo do mundo e dos problemas que ainda temos que enfrentar lá fora — volta a me atiçar.
***
Não sei quanto tempo se passou, mas quando acordo em algum momento da madrugada, as velas já queimaram por completo. O Quinjet só é iluminado pela Lua que paira no céu limpo e irradia pelo painel frontal com uma luz suave. Uma rápida olhada para Bruce ao meu lado e constato que ele está dormindo de um jeito bem profundo. A expressão em seu rosto é uma mistura de cansaço e satisfação. Bruce parece em paz e feliz. Quase sou vencida por um riso involuntário ao perceber que lhe dei uma canseira e tanto.
Sem querer despertá-lo, porém me sentindo inquieta e doida para esticar um pouco as pernas, afasto o braço que repousa na minha cintura com cuidado e me levanto devagar. Puxo uma manta que ficou dobrada perto do meu travesseiro e me enrolo com ela. Bruce está parcialmente coberto pelos lençóis que reviramos juntos.
Essa lembrança espanta o resquício de sono que eu sentia até então e me aquece de uma forma inevitável. Guardando a imagem do semblante sereno de Bruce Banner em meu coração, saio do Quinjet e mergulho na noite lá fora.
O céu está estrelado e o vento é apenas uma brisa sútil que sopra de vez em quando. Sem saber exatamente aonde pretendo ir, deixo a relva sob meus pés me acariciar enquanto caminho despretensiosamente pela colina onde Bruce pousou o Quinjet.
Paro um pouco adiante, assim que meu olhar avista a antiga casa de Olivia Mills. Penso por um momento enquanto um filme passa pela minha cabeça. Olho para trás e não há sinal de que Bruce acordou. Volto-me para a frente e, quando dou por mim, já segui adiante com passos mais certeiros.
Poucos minutos depois, alcanço a varanda. Subo os degraus e procuro a chave extra onde ela costumava ficar — sob um vaso de planta ao lado da porta —, só que não a encontro. Um pouco frustrada, porém imaginando que a S.H.I.E.L.D. pode ter retido a chave por medida de segurança, depois que Liv foi embora, me sento no balanço da varanda. Aperto a manta sobre meu corpo e fico admirando a noite, pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada em específico.
Estreito o olhar algum tempo depois, quando percebo uma silhueta ao longe, aproximando-se com certa urgência e olhando tudo em volta. Bruce relaxa visivelmente ao me ver e diminui o ritmo dos passos. A calça e a camisa parecem ter sido vestidas às pressas pelo caimento meio torto no corpo.
— Pensou que eu tinha fugido, Doutor? — brinco, enquanto ele sobe os degraus.
Bruce ergue o olhar e eu vejo que há preocupação e alívio nele. Automaticamente, entendo o que se passou por sua cabeça paranoica, desmancho o sorriso e me corrijo baixinho:
— Sequestrada talvez...
— Não tem graça.
Ele não deixa passar batido. Sua expressão se fecha, mas até dando bronca Bruce exala uma delicadeza natural.
Espero ele se acomodar ao meu lado no balanço e só então argumento:
— Não tem nenhuma alma viva em quilômetros, Bruce. Duvido que o seu inimigo covarde tenha alguma ideia de onde estamos. Além disso, eu não vou viver com medo da minha própria sombra. Você devia relaxar um pouco também e...
Paro de falar quando sinto sua mão sobre a minha. Olho para baixo, na direção do pequeno espaço entre nós no balanço de madeira branca. Observo seus dedos entrelaçando os meus e correspondo ao gesto sem resistir. Reencontro o seu olhar e ouço quando ele diz:
— Eu não consigo evitar. É impossível não me preocupar com você, Amelia. Você é tudo pra mim. — Meu coração dispara inevitavelmente sob o som dessas palavras mágicas. — Eu sou tão grato pelo Hulk ter te salvado no passado e permitido que você faça parte da minha vida agora, mas não consigo parar de temer o futuro. Não enquanto essa pessoa estiver lá fora, à solta, tramando o próximo passo para me atingir e você em consequência. Parece que o mundo nunca vai nos deixar em paz...
Aperto sua mão com mais força em sinal de apoio. Entendo perfeitamente o medo que Bruce sente, mas sigo relutante em me torturar como ele faz, em ficar pensando no que pode ou não acontecer amanhã ou depois de amanhã. Além disso, eu tenho fé nele, nos Vingadores e na S.H.I.E.L.D. Tenho certeza que o mistério será solucionado antes que mais gente se machuque.
— Você também é tudo pra mim, Bruce. É por isso que eu não vou deixar você alimentar esse maldito assunto. Não hoje, pelo menos. Está tudo tão... perfeito. Vamos manter assim? — Não espero ele responder, simplesmente me aproximo mais, descanso a cabeça em seu ombro e mudo o foco da conversa: — Lembra quando nós conversamos nessa mesma varanda, há mais de um ano?
— Quando você me surpreendeu dizendo que já sabia quem eu era de verdade? Que sabia sobre o Hulk e que era eu por trás daquelas ligações o tempo todo?
— Exato. E, se bem me lembro, eu tentei te beijar naquele dia e você se afastou — recordo como uma alfinetada.
Bruce passa um braço em volta de mim, repousando a mão no meu ombro e me aninhando mais ao seu corpo.
— Eu me arrependo tanto dessa parte. Você não faz ideia.
Olho para ele e retruco:
— Ótimo. Bem feito.
Mas não consigo me manter durona por muito tempo, nem sei se quero. Não quando ele me encara de volta de uma forma tão intensa que a minha pele se arrepia no ato. Não quando sua outra mão envolve meu rosto e me puxa delicadamente para junto do seu, espantando o arrepio e me deixando incrivelmente quente. Tampouco quando ele me beija devagar e de um jeito profundo.
Um sorriso reflexivo surge depois que ele se afasta.
— O que foi? — estranho.
— Nada, só pensando no que a Olivia diria se nos visse aqui agora.
A menção à minha melhor amiga me leva a pensar sobre o assunto. Encolho-me no ombro de Bruce e replico:
— Ah, eu sei exatamente o que aquela maluca diria. "Bonito! Que bonito, hein? Que cena mais linda! Será que eu estou atrapalhando o casalzinho aí?" E depois ela abriria um sorriso enorme e ficaria feliz pela gente até nos deixar bem constrangidos.
— Soa exatamente como uma reação dela. — Bruce estremece um pouco ao rir. Depois de alguns instantes em silêncio, ele pondera: — É injusto que a Olivia tenha feito tanto para nos ver juntos, e agora não esteja aqui para ver de fato o que aconteceu.
— Nem me fala. — Respiro fundo e deixo a relva adiante dominar as retinas enquanto reflito sobre outro ponto. — É engraçado o que as pessoas fazem por amor, né? Sem pensar duas vezes, a Liv abandonou o próprio planeta e seguiu um deus trapaceiro por aí.
— Trapaceiro e fraco — O alter ego do Incrível Hulk debocha, levando-me a rir ao entender a referência. — Olivia pode voltar um dia.
— Não para ficar — retruco com uma ponta de tristeza. Daquele tipo que se sente quando você é adolescente, sua melhor amiga começa a namorar e você sabe que não terão o mesmo tempo juntas dali em diante. — Ela encontrou o lugar dela — prossigo, no fundo conformada. — Não no mundo, mas no universo. Isso vai além do Loki e da história dos dois, aliás. A Liv tem um pai e um meio-irmão alienígenas. Deus... Ela é metade alienígena e teve bebês alienígenas com outro alienígena! Não tem mais ninguém na Terra, nada que a prenda aqui, nenhum laço.
— Ela tem os amigos — Bruce argumenta, mas sinto que no fundo diz isso só para me consolar de alguma maneira. — Pode até não voltar para ficar, mas com certeza pensa naqueles que deixou para trás e um dia isso pode trazê-la de volta. Nem que seja para matar a saudade e nos constranger com algum dos seus comentários pertinentes.
Talvez não tenha sido só para me consolar. Sinto certa verdade em suas palavras. Uma visitinha rápida à Terra pode mesmo estar nos planos futuros de Olivia Mills. Ai dela se esqueceu de mim assim tão fácil, de Josh e dos Vingadores!
Suspiro com uma mistura de raiva e saudade, mas decido deixar esse assunto em suspenso. Então volto a observar a linda e silenciosa noite diante de nós.
— A gente pode ficar aqui o resto da madrugada e ver o nascer do Sol juntos? — sugiro, imaginando que será um lindo espetáculo.
— Claro. É o que você quer?
Há certa descrença no tom de Bruce. E admito que isso abala um pouco a minha própria certeza. Tento convencer a mim mesma de que é uma ótima ideia passar a noite aqui, esperando amanhecer, e argumento:
— Sem dúvida! É tão romântico.
Porém, longos instantes de silêncio depois, fico insuportavelmente entediada com o marasmo a nossa volta, com o ruído dos grilos e sofro por antecedência ao imaginar a espera até o astro rei subir no horizonte. Não deve demorar mais que uma hora para os primeiros raios de sol surgirem, ainda assim não estou disposta.
No momento seguinte, expiro com força e me ponho de pé, ao mesmo tempo em que volto atrás:
— Nem pensar. O Sol nasce todo dia e eu preciso de um bom banho e da minha cama agora. Podemos voltar?
Ao contrário do que eu esperava, Bruce não levanta do balanço de imediato. Ao invés disso, ele abaixa a cabeça por um instante — acredito que para esconder um sorriso — e quando me encara de novo, fala em tom de brincadeira:
— Eu não sei se já te disseram isso, mas você é meio bipolar, Amelia Prescott.
— Eu sei! — exclamo, sem conseguir negar algo tão intrínseco. — E odeio ser assim. Ou amo? Sei lá. — Dou de ombros, estendo a mão na direção dele e insisto: — Vamos, Doutor?
Bruce parece meio zonzo com a minha resposta confusa, contudo acaba levantando e segurando a minha mão no final.
Ele não a solta nem por um instante enquanto seguimos pela relva rumo ao Quinjet.
Depois que damos um jeito na bagunça e o deixamos com cara de jato profissional de novo, nos acomodamos nas poltronas frontais e Bruce inicia os comandos de decolagem.
Algum tempo depois
É engraçado voltar para a Torre dos Vingadores e ver Bruce preocupado de novo. Não com o problema conhecido, mas com outra coisa. Pelo o que entendi, com base nos comentários que ele soltou sem querer e por uma inquietação tangível, Bruce tem medo que Tony esteja acordado e nos pegue em flagrante. Tem medo que o amigo conclua que passamos a noite juntose que me importune com as suas piadinhas sem noção. Isso mesmo, ao que parece, Bruce Banner não quer que eu fique mal falada.
Esse pensamento me faz rir enquanto nos esgueiramos pelos corredores. Levo a mão à boca, a fim de abafar o som. Só Deus sabe o autocontrole que preciso manter para não gargalhar mais alto, quando Bruce se volta para mim com uma expressão de desespero.
Respiro fundo e torno a seguir os seus passos silenciosos logo depois.
Seja como for, duvido que Tony esteja acordado a essa hora. Além disso, Pepper — que voltou de uma viagem de trabalho ontem, no fim da tarde — deve ter se encarregado de mantê-lo bem ocupado.
Sinto vontade de rir de novo ao conjecturar sobre a vida íntima deles, entretanto consigo conter o ímpeto.
Assim que chegamos no corredor onde nossos quartos ficam de frente um para o outro, sinto que Bruce está procurando algo para me dizer, tentando se despedir e encerrar a noite, mas não sabe como exatamente.
Uma nuance de confusão surge no seu rosto quando eu abro a minha porta e o guio pela mão rumo ao interior do quarto. Meu olhar carregado de significado parece ser esclarecedor, já que ele diz:
— Eu pensei que você quisesse dormir.
— Eu disse que preciso de um bom banho e depois cama. Você está incluso nas duas coisas — esclareço, fechando a porta com cuidado.
— Amelia... Você pretende me enlouquecer? — ele questiona quase com um sussurro, porém não soa como um protesto. — Mais?
Jogo os braços em volta do seu pescoço.
— Algo assim, Dr. Banner.
Selo seus lábios com os meus demoradamente e me afasto na sequência. Ando de costas na direção do banheiro, deixando as sandálias pelo caminho. Tiro o casaco que vinha usando sobre a camisola e, antes de largá-lo em qualquer lugar, pego um preservativo que tinha escondido em um dos bolsos.
Bruce me acompanha com um olhar hipnotizado enquanto a camisola também cai pelo meu corpo rumo ao chão. Não demora muito e ele vem até mim.
Embaixo da água quentinha do chuveiro, Bruce esfrega a minha pele suavemente com sabonete e uma bucha macia. Faço o mesmo com ele e sinto que há algo muito íntimo e natural nessa ação. Entre um beijo e outro, entre olhares cheios de palavras não ditas, não resistimos e nos rendemos um ao outro mais uma vez.
Percebo que Bruce está ainda mais solto e à vontade. Acho que se esquece completamente do Hulk de novo. E acho que o Hulk permitiu que isso fosse possível de novo. Bruce está livre e entregue. Feliz nos meus braços e eu nos dele.
Algum tempo depois, vamos para debaixo dos cobertores e juro que dessa vez apenas dormimos. Abraçados e exaustos.
***
Um barulho irritante e contínuo invade meu sonho pouco a pouco. Parece que fica cada vez mais alto e insistente quanto mais eu tento ignorá-lo.
Com relutância, abro os olhos devagar e vejo um vulto desfocado, em pé perto da cama. A pessoa pigarreia mais uma vez e Bruce se mexe ao meu lado. Sentamos quase ao mesmo tempo quando finalmente a presença espanta o sono de nós dois de uma vez.
Não tem nada à mostra, porém mesmo assim puxo o cobertor mais para cima de mim e me recosto à cabeceira. Bruce, por sua vez, mal se mexe; parece paralisado pelo choque. Talvez ele esteja com vergonha pelo flagrante, mesmo que não tenhamos motivos para isso.
— Tony... O que você está fazendo aqui? — Bruce pega sua calça no chão e começa a vesti-la embaixo da coberta.
— Engraçado, eu poderia perguntar a mesma coisa, já que este não é o seu quarto. Acontece que a resposta é muito óbvia. — Ele cruza os braços e encara nós dois com um olhar perspicaz. — Então... a Torre continua de pé e sem qualquer dano estrutural. Isso é muito bom, Bruce. O Hulk não deu as caras, certo, Amy? Tudo rolou naturalmente por aqui?
— Não faz isso... — Bruce pede, em protesto, muito sem graça.
Mergulho embaixo do cobertor, recusando-me a alimentar essa conversa embaraçosa.
— Não me levem a mal, eu não queria interromper a manhã seguinte do casal, mas está meio tarde. É quase meio-dia, na verdade. Vocês dormiram bastante. O que é compreensível depois de uma farra. A moça escondida aí queria isso há muito tempo e você estava na seca há anos. — ele retoma, e eu me limito a escutar enquanto me faço de morta. — Eu fui até o seu quarto, Bruce, só que você não estava lá. Deduzi que tinha finalmente sucumbido à doce Amy, algo que as câmeras do corredor acabaram confirmando. Esperei mais um pouco, enquanto pude, mas... nós temos um assunto importante a tratar e não dá para esperar mais. Sinto muito.
De repente, Tony para de falar e eu noto que o seu humor inconveniente deixou de pairar no ar, sendo substituído por uma tensão esquisita. Ele veio atrás do amigo por um motivo específico, apesar das piadinhas iniciais.
Tomada pela curiosidade, me ajeito na cama de novo e olho para ele com apreensão.
— O que aconteceu? — Bruce indaga, preocupado também. Tony abre a boca. Hesita e olha de mim para ele. — Tudo bem, você pode falar na frente dela. Nós não temos mais segredos.
Se Tony não estivesse aqui, eu iria pular em cima do Bruce, agarrá-lo com vontade e tirar o seu fôlego agora mesmo só por esse comentário espontâneo e cheio de significado para mim. É maravilhoso ver o quanto a nossa história evoluiu, que a sinceridade venceu no final de tudo e que ele quer que eu faça parte da sua vida por completo. Sem mais segredos, como bem pontuou.
— Ah... vocês são tão fofos juntos! — Por um momento, o sujeito brincalhão está de volta. Logo depois, no entanto, Tony volta a ficar sério. — Infelizmente, eu não tenho certeza se a Amy deveria ouvir essa parte. Pelo menos, não agora.
— Olá! Eu estou bem aqui, caso não tenha percebido — protesto, acenando brevemente.
Bruce me olha por um instante. Depois, volta-se para o Homem de Ferro e argumenta resoluto:
— Eu insisto. Seja lá o que você tiver a contar, pode dizer na frente dela.
Sua mão encontra a minha e eu a aperto com carinho. Quando olho para Tony, ele parece muito pensativo. Talvez ponderando se deve se dar por vencido ou não. De repente, começo a ficar realmente preocupada.
— Ok — Stark sibila, por fim. — Depois não diga que eu não avisei.
— Desembucha, pelo amor de Deus — perco a paciência, mas minhas palavras soam incrivelmente baixas.
Mais uma troca de olhar com Bruce, e Tony anuncia:
— A S.H.I.E.L.D. descobriu quem hackeou o seu celular, meu amigo.
Há um silêncio cheio de um suspense sufocante no quarto. Demoro algum tempo para me situar e entender do que Tony está falando. Depois me lembro que o celular de Bruce foi rastreado de alguma forma. E que foi assim que o seu inimigo soube aonde ele estaria no dia das explosões. Foi assim que enviou aquelas mensagens ameaçadoras também.
— Quem foi? — Bruce quebra o silêncio, fazendo a pergunta que ainda está entalada na minha garganta.
— Um sujeito chamado... — O Homem de Ferro olha para mim de um jeito estranho. — Kurt Lockwood. Soa familiar para você, Amy?
Fale com o autor