A Bela, o Outro Cara & Eu
33 Lar doce lar
Notas iniciais
A casa de dois andares e um amplo sótão foi o presente de casamento de Tony e Pepper. Um exagero, mas também uma demonstração de grande amizade e votos de felicidade que nem eu nem Amelia tivemos coragem de recusar.
Ao invés disso, ficamos muito agradecidos aos dois e já trouxemos a maioria das nossas coisas para cá. Boa parte delas ainda dentro de caixas amontoadas pela aconchegante sala de estar e no quarto de casal lá em cima.
O imóvel possui ainda uma versão mais modesta do meu laboratório no subsolo, permitindo assim que eu continue minhas pesquisas e trabalhos em parceria com as Indústrias Stark e com a S.H.I.E.L.D. no conforto do meu lar. Mas não a independência total, a ponto de não ser mais necessário passar algumas horas semanais na Torre dos Vingadores, enfurnado no meu laboratório original com Tony dando seus pitacos.
Claramente, uma tática para me manter por perto e não sentir grande impacto na nossa amizade por causa da minha mudança de endereço. Algo que entendo perfeitamente e aprovo porque Tony é o meu melhor amigo e sem dúvida sentiria a falta dele também. Além disso, depois que ele voltou da Sibéria, sinto que precisa mais de mim, mesmo que não seja do tipo que se abre muito, tampouco admita que levou um grande baque.
Localizada numa rua bem tranquila e arborizada do Queens, num quarteirão onde temos poucos vizinhos, a propriedade tem ainda um quintal espaçoso com grama aparada, cercas brancas e uma casinha para o nosso cachorro, Hulk.
O único problema é que ele parece ter gostado mais da sala de estar do que lá de fora. Especialmente, de um dos sofás que fica recostado à janela coberta por cortinas cor de creme.
Josh deixou o Hulk na Torre essa manhã, porque ia acompanhar a irmã na prova do vestido. E eu o trouxe comigo depois que falei com ela pelo celular, pois achei que seria uma boa ideia o cachorro enfim conhecer onde vai morar depois do casamento. Não esperava, no entanto, que ele fosse se sentir tão à vontade e tão rápido.
Deitado no sofá ainda coberto por um plástico para protegê-lo do pó, o enorme são bernardo me encara com seus olhos castanhos amendoados e doces, a cabeça baixa entre as patas. Aposto que ele sabe que está abusando da hospitalidade, mas espera me vencer com a expressão inocente de coitadinho.
Bom, funciona. É um golpe baixo, afinal.
— Tudo bem, você venceu. Pode ficar dentro de casa, morar com a gente, tanto faz.
Como se tivesse compreendido minhas palavras, ele ergue o pescoço com uma expressão animada. O rabo peludo balançando de um jeito frenético. Os olhos dardejando com um brilho de vitória.
Sorrio para ele e afago seu dorso antes de checar a hora no celular. Amelia não é a pessoa mais pontual do mundo, porém os trinta minutos que levaria para me encontrar aqui já viraram quase uma hora e meia.
A mensagem que enviei a caminho daqui, para avisar que eu já tinha comprado nosso almoço e ela não precisava se preocupar com essa parte, ainda não foi marcada como lida. Estranho, mas talvez ela não tenha achado o celular ainda, certo?
Ergo o olhar para o Hulk versão canina e uno as sobrancelhas ao perguntar a ele:
— Ela vai me achar paranoico se eu ligar de novo? Ou apenas rir de mim daquele jeito que faz eu me sentir um idiota?
O Hulk abaixa as orelhas e volta a encaixar a cabeça entre as patas, eximindo-se de esboçar qualquer opinião.
— Ajudou bastante — ironizo, olhando para a foto do contato na tela, que mostra Amelia sorrindo de um jeito tranquilo, enquanto tento me decidir sobre ligar de uma vez ou esperar mais um pouco.
Eu nunca fui do tipo sensitivo ou que sequer acreditava nessas coisas, mas a sensação estranha que tive mais cedo me pareceu tão fundamentada, tão real, como algo esticando meus nervos ao limite, que simplesmente precisava ouvir a voz de Amelia para sossegar.
O mesmo sentimento inquietante que me perturba de novo agora.
Parece que a proximidade do casamento me deixou mais cismado do que nunca, sempre esperando que algo ruim aconteça se eu me distrair por tempo demais, se me dar ao luxo de ser descuidado, é um inferno.
O engraçado é que talvez Ross nunca dê sequência ao plano misterioso de vingança. Talvez a vingança dele seja exatamente isso, o eterno suspense que o absoluto silêncio vem semeando há meses. Talvez aquele único e catastrófico ataque à bomba tenha sido tudo, um plano orquestrado para me deixar desconfiado para sempre.
Olho para o celular mais uma vez. E que se dane, vou ligar de novo.
Nesse momento, a campainha toca e o são bernardo fica em alerta imediato, erguendo o pescoço e lançando um olhar fixo para a porta.
— Aí vem ela... — murmuro aliviado, como se um peso tivesse saído dos meus ombros. — E pelo visto perdeu a chave também.
Deixo o aparelho sobre a mesinha de centro e dou alguns passos rumo à porta da frente. Hulk chega nela antes de mim, os pelos eriçados, latidos roucos ecoando por toda a parte enquanto ele arranha a madeira com irritação. Estanco no lugar no mesmo instante, um único pensamento grita na minha mente.
Não é Amelia do outro lado da porta.
Não sei quanto tempo se passa, talvez poucos segundos, mas para mim parece uma eternidade. Uma eternidade na qual o mau pressentimento ressurge com força total, alastrando-se por cada célula, e me deixa sem reação.
Sou despertado pelos latidos insistentes e cada vez mais altos e raivosos do são bernardo. As garras continuam trabalhando freneticamente, arrancando as primeiras farpas da madeira.
Poderia ser apenas algum vizinho, certo? Uma presença estranha para o cachorro que justificaria sua reação hostil. Alguém que veio apenas me dar as boas-vindas ao bairro e nada mais. Entretanto, de alguma maneira, tenho certeza que não se trata disso. Sinto o perigo no ar, como uma fumaça densa e sufocante se espalhando de forma ameaçadora.
Além disso, se fosse um vizinho, ele se afastaria com medo do animal e diria alguma coisa. Ao invés disso, a pessoa, seja lá quem for, permanece na varanda num estranho silêncio. O Hulk continua agitado indicando exatamente isso, que o perigo existe e não moveu um músculo sequer para se afastar.
Há muitos anos, enquanto eu fugia do General Ross e vivia escondido numa favela no Brasil, um cachorro levou um tiro por mim. Hoje vai ser diferente. Não vou deixar o Hulk morrer. Nem que para isso eu seja obrigado a assustá-lo com o verdadeiro Gigante Esmeralda.
Deixo a inércia de lado e penso rápido num plano para tirá-lo da zona de perigo maior.
— Já vai! Só um instante, Amelia! Eu não consigo encontrar a chave! E o cachorro enlouqueceu... Só um minuto!
Como eu previa, nenhuma resposta vem do outro lado. Mas sei que tem alguém lá, aposto que não só uma pessoa, mas um batalhão à espreita. Ross não viria sozinho.
Agindo rápido, alcanço o são bernardo e seguro-o pela coleira na qual o seu nome — uma homenagem a mim, segundo Amelia — está gravado numa plaquinha prateada dada por Tony.
Ele é forte, pesado e está ensandecido para atacar o visitante. Demora um pouco, mas enfim consigo arrastá-lo rumo à escada que leva ao porão, enquanto acaricio o pelo do seu pescoço e digo palavras tranquilizadoras.
Porém, a única forma de fazê-lo recuar mesmo parece ser mostrando a face do Outro Cara. Quando permito que a transformação se inicie, a voz do Hulk irrompe pela minha garganta com uma ordem resmungada de um jeito animalesco:
— DESCE, CACHORRO HULK!
Pego de surpresa, o são bernardo solta um ganido de pavor, coloca o rabo entre as pernas e corre pelos degraus em disparada. Eu caio sentado no topo da escada, retomando o controle e voltando a ser apenas eu. Mesmo em meio à parca iluminação do porão, consigo reconhecer a silhueta peluda embaixo de uma mesa num canto. Ele está tremendo.
— Desculpe... Não tinha outro jeito. — Levanto cambaleando um pouco e aciono um botão de um painel eletrônico junto à parede. — Eu vou voltar e te tirar daí, prometo.
A porta metálica se fecha com um ruído gélido e imediatamente busco outro comando no painel. Tony achou prudente instalar um sistema de comunicação com a Torre dos Vingadores para o caso de emergências. Ele sabia que eu teria problemas caso me transformasse no Hulk, podendo ser preso na primeira oportunidade, então quis que eu tivesse um meio de chamar por suporte caso precisasse de ajuda.
De repente, me parece muito estúpido ter aceitado uma casa em meio à civilização. Eu devia morar num local distante, isolado. Mas isso iria prejudicar Amelia, distanciá-la do irmão e do emprego na boate. Ela já abre mão de tanta coisa por mim, só queria que tivesse um pouco de normalidade mesmo se casando com o alter ego do Incrível Hulk.
Afasto esse pensamento. De nada adianta me martirizar por essa escolha agora. Tenho que me concentrar no que está acontecendo nesse exato momento. Preciso pedir ajuda. Depressa.
Minha mão está tremendo enquanto procuro pelo símbolo da Torre, mas... antes que eu tenha a chance de apertá-lo, algo estranho e inesperado acontece. A tela oscila, fica totalmente negra e apagada. Quando volta, há apenas um símbolo exposto no centro dela. Um emblema conhecido e sombrio. Uma caveira vermelha serpenteada por vários tentáculos.
— HYDRA...
A surpresa me atinge em cheio, como um baque, os sentidos ficam ainda mais em alerta. Não é Ross, afinal, mas a HYDRA que está me caçando? Não era ele esse tempo todo, mas a organização arqui-inimiga da S.H.I.E.L.D.?
Mal tenho tempo de assimilar a revelação, preciso agir, chamar por backup, tenho que ser rápido. A urgência me arranca da inércia momentânea.
Zonzo, corro para a sala e apanho o celular sobre a mesa de centro. Para meu desespero, nenhum comando responde. A mesma tela negra com o símbolo inconfundível da HYDRA tomou conta do meu aparelho. Seja lá de que maneira, algum vírus acabou de derrubar o firewall da casa e o celular conectado ao WiFi também. O telefone fixo está mudo, indicando que a pessoa por trás do novo ataque também cortou essa forma de comunicação.
É então que a campainha toca de novo. Ressoando de um jeito melódico e pesado, como um filme de terror sobre uma casa mal-assombrada.
Nesse momento, me dou conta de algo que vinha ignorando nos últimos minutos. Não tenho outra escolha. A única maneira de sair dessa, de ter alguma chance de escapar, é deixando a mudança acontecer. Preciso do Hulk. E, para isso, preciso ignorar as possíveis consequências também.
Encurralado e a contragosto, fecho os olhos e permito que a raiva se espalhe por cada célula do meu corpo. Sinto meu coração disparando, cada batida é um salto num precipício, os nervos se esticando, uma dor de cabeça incômoda surgindo enquanto o Hulk fica mais forte na minha consciência. Pouco a pouco, ele começa a me dominar e eu deixo.
Um ruído vindo da porta interrompe a transformação e caio de joelhos sem entender mais nada, sem fôlego e trêmulo ao conter o Hulk de novo. Alguém está girando a chave, destrancando a porta.
E se for Amelia agora? E se a HYDRA recuou ao vê-la se aproximando? E se era ela o tempo todo, não disse nada porque queria me fazer uma surpresa e o ataque da HYDRA é apenas remoto por enquanto? E se ainda tivermos uma chance?
A porta é aberta devagar, espalhando um suave rangido pelo ar. Os raios de sol atrás da pessoa revelam uma silhueta feminina. Alguém que arranca a chave da porta com delicadeza e dá um passo à frente, cruzando a soleira, vindo em minha direção.
Não é Amelia.
É uma mulher mais velha, desconhecida, com os cabelos ligeiramente acinzentados e um vestido negro até os joelhos. Ela para a pouca distância de mim. Muito confiante ao vir sozinha, sem dúvida.
— Olá, Dr. Banner. Perdoe-me pela intromissão. Eu esperei tempo demais por isso e não pude aguentar mais nenhum minuto lá fora.
Um sotaque russo e um sorriso falsamente simpático surgem. Algo maligno e vítreo reluz em seus olhos. É o suficiente para romper mais um momento de inércia e me lançar rumo ao Outro Cara. Ele vem até mim, de dentro de mim, quebra a superfície que nos separa e a transformação tem início de novo.
A dor me inunda enquanto meus músculos são esticados ao limite. A camisa é tomada por rasgos enquanto me curvo para a frente, urrando, desnorteado. As mãos apoiadas no chão crescem a cada segundo e ganham a inconfundível coloração esverdeada. O pesadelo me abraça pouco a pouco.
Como se não desse a mínima para o perigo iminente, a estranha continua imóvel. Para minha surpresa, sorri mais uma vez e fecha a porta atrás de si.
Confusos, eu e o Hulk mantemos um olhar questionador na direção dela na metade da transformação. E logo nos concentramos em algo que ela retira de uma discreta bolsa à tiracolo. Uma espécie de arma. Com precisão e muita rapidez, ela ergue o punho e aperta o gatilho sem pestanejar. Algo me atinge bem no centro do peito.
Uma vez, fiquei deprimido e tentei me matar. O Outro Cara cuspiu a bala de volta como se não fosse nada de mais e salvou a minha vida. Dessa vez, é diferente. O que me atinge, atinge a ele também na mesma proporção. Ambos sentimos a mesma dor excruciante quando o líquido pegajoso inunda meu coração.
Grito atordoado, arrancando um tipo de dardo em formato de cilindro, muito maior do que dardos comuns, que perfurou parcialmente o meu peito e expulsou o misterioso líquido.
Um filete de sangue mancha minha camisa em farrapos..
O objeto propaga um tilintar pelo chão quando jogo-o para longe, ao mesmo tempo em que caio de costas, levando às mãos ao peito que parece em chamas.
Logo a sensação desconcertante e profundamente dolorosa que começou no peito irradia e se concentra na minha cabeça. Não sem antes queimar cada veia e nervo pelo caminho.
Dentro de mim, ouço o Hulk gritar, urrar, sou sacudido pela sua fúria violenta, surpreendido pelo seu medo e pela imobilidade silenciosa que vem segundos depois.
A transformação que havia parado no meio do processo, recua lentamente sem que eu entenda o motivo. De repente, sou apenas Bruce Banner de novo. E, por mais que eu tente, não consigo, de jeito algum, reencontrar o gatilho para o Outro Cara.
É assustador, mas parece que ele... desapareceu feito uma miragem.
[...]
Com um olhar cheio de fascínio, a responsável pelo disparo se aproxima e me observa com satisfação científica ao dizer:
— Então funcionou. Eu sabia que daria certo!
A dor diminui um pouco. O suficiente para que eu consiga encontrar um fio de voz dentro de mim e perguntar:
— O que você... fez comigo?
— O que você sempre quis, meu caro. Uma cura para a sua condição. O Hulk se foi, Dr. Banner. Para sempre e para o bem de todos.
Mesmo com a sensação de que levei uma surra, consigo me mexer. Zonzo com as informações e tentando entender o significado delas, começo a me levantar. Caio de novo. Tento mais uma vez. Com as pernas estranhamente trêmulas, enfim consigo me pôr de pé, buscando apoio numa poltrona próxima.
— Como assim se foi? — cuspo entredentes, fechando a outra mão com força ao lado do corpo.
A mulher inclina um pouco a cabeça, parecendo ofendida. Há frieza e sarcasmo em sua voz quando ela diz:
— Não precisa me agradecer, eu fiz de coração.
— Agradecer... O que...
Tento dar um passo à frente, porém uma tontura me impede. Com certeza algum efeito colateral da substância aplicada direto no meu coração pelo dardo brutal.
Minha garganta queima e a voz sai meio engasgada:
— O que aconteceu aqui? O que diabos você fez comigo?!
Em algum lugar distante, o são bernardo volta a latir. Ouço-o arranhando a porta do porão com desespero.
A mulher limita-se a esticar o pescoço a fim de descobrir de onde o barulho vem. Não dá qualquer importância porque percebe que o animal se encontra preso.
— Eu sei que está confuso, querido, mas você buscou isso. Quis isso. Ou, ao menos, queria há alguns anos.
— Do que você está falando?
Nada do que ela diz faz sentido. Não sei mais o que pensar nem como reagir. Acho que não estou em condições de fazer qualquer coisa no momento. Sinto-me zonzo e oco, um enorme vazio onde o Outro Cara costumava ficar. Perdido. Preso num pesadelo real.
Para onde o Hulk foi? O que aconteceu comigo?
— Lembra quando procurou o meu filho e implorou que ele te ajudasse a se livrar do Hulk? A conter a transformação?
Franzo o cenho, mais perdido do que nunca.
— Filho? De quem você está falando? Eu... Eu não entendo...
De um jeito frio e afiado, ela me critica entredentes:
— Você não se lembra. Claro, os heróis mais poderosos da Terra nunca se lembram das pessoas que deixam para trás. Elas são meros efeitos colaterais, certo? É irônico que vocês sejam chamados de heróis e para nós, da HYDRA, sempre sobre o título de vilões da história.
Um riso baixo escapa da minha garganta.
— É o que vocês são. Nada muda isso.
Ela pensa por um instante e esboça um sorriso enviesado.
— É verdade, mas pelo menos não fingimos ser outra coisa. Essa é a diferença entre os Vingadores e a HYDRA, entre a S.H.I.E.L.D. e a HYDRA. Nós não fingimos ser o que não somos. Não fingimos ser bons. Somos práticos e realistas, honestos com a nossa natureza.
Zonzo com os últimos acontecimentos, com a acusação insinuada, com a invasão e a agressão ao Hulk, faço um esforço para colocar a cabeça minimamente em ordem e entender o que está acontecendo aqui.
— Quem é você? — pergunto.
Um longo e pesado instante se arrasta antes que ela se apresente oficialmente com frieza:
— Meu nome é Nadia Sterns. E o meu amado filho...
A mulher não precisa prosseguir. O sobrenome que ela diz desperta uma memória em mim como um estalo. A epifania me domina e me leva a interrompê-la:
— Sterns... Samuel Sterns. O Sr. Azul.
Ela tem razão, alguém tentou me ajudar no passado e eu esqueci dessa pessoa enquanto fugia de novo. Alguém da Universidade Culver com quem me correspondi por um tempo e encontrei lá mais tarde.
Esse tempo todo, nunca me perguntei como ele estava, o que tinha sido feito dele. Isso porque eu tinha certeza que Samuel havia sobrevivido ao ataque de Ross naquele campus e devia ter retomado a vida sem qualquer consequência.
Pelo visto me enganei, fui ingênuo. Algo aconteceu com ele. Samuel deve estar morto. E de alguma forma, a culpa é minha.
— Então você se lembra dele! — Nadia vibra com a conclusão. — Subiu um pouco no meu conceito, Dr. Banner. Muito pouco, mas já é alguma coisa.
— O que aconteceu com el...
Reparo em algo que ela mantém nas mãos e me interrompo de imediato. A chave da casa. Reconheço o chaveiro, um emoji sorridente. Um calafrio percorre minha coluna, eriçando a nuca. O coração quase para tamanho o pavor que me atormenta. Com ou sem o Hulk, a fúria me domina e esbravejo:
— O que você fez com Amelia?! Onde ela está?!
Tento agarrar a agente da HYDRA e obrigá-la a me dar respostas, mas ela recua alguns passos com destreza, aproveitando-se também da minha insistente tontura.
— Tudo ao seu tempo, querido. Eu vou te mostrar, não se preocupe. Mas para isso...
Algo me atinge mais uma vez. Outro disparo. Dessa vez, no pescoço. Ela agiu tão rápido que só agora vejo a nova arma apontada na minha direção. Nadia abaixa um tipo de revólver em seguida e me analisa com um olhar atento, cheio de expectativa.
Surpreso, arranco o dardo — um pequeno, dessa vez — e jogo-o no chão, espalhando um suave ruído pelo assoalho.
E então o mundo gira e as luzes começam a esmaecer. Os latidos do Hulk ficam cada vez mais distantes e baixos. Minha visão é inundada por uma neblina turva.
Prestes a desmaiar, busco apoio na poltrona de novo e acabo despencando de joelhos ao lado dela. O mundo gira mais um pouco. Veloz.
— Esplêndido! Agora tranquilizantes comuns funcionam em você! Não é fabuloso?!
Sinto a mulher se aproximando. Então ela dá alguns tapinhas no meu ombro enquanto fala com frieza:
— Durma bem, querido. Aproveite enquanto pode. Quando acordar, será um verdadeiro inferno. Foi o que eu disse a sua amada e patética noiva.
Mesmo desnorteado, o comentário final não me passa despercebido. Meu coração se comprime à menção de Amelia. Ela está em perigo...
O desespero me abraça e me sufoca sem piedade.
— Meu filho é mesmo um gênio. Pensou em cada detalhe e me assegurou que iria funcionar. Confesso que cheguei a duvidar, mas agora vejo que o subestimei. Ele estará lá quando você acordar e vai explicar tudo que quiser saber, fique tranquilo.
A surpresa me atinge. É dela que tiro forças para me obrigar a perguntar:
— Seu filho? Então ele está... vivo? Samuel está...
— Meu outro filho — ela esclarece ríspida, plantando uma nova onda de choque em mim. — Aquele que você não lançou num estado vegetativo, num coma profundo e eterno, com esse maldito sangue gama. — Ela faz uma pausa para cuspir no chão. — Não se preocupe, assim que ver o Philip, você irá reconhecê-lo. Vocês até chegaram a se esbarrar em Sokovia, sabia? Felizmente para o nosso plano, você esqueceu desse detalhe também ou o teria reconhecido.
Philip... Sterns? Quem diabos é ele? Irmão de Samuel? Como assim eu já o conheço? De Sokovia? O que ela quis dizer com reconhecido?
Os pesadelos das últimas semanas começam a fazer sentido. Era mesmo uma memória. O Hulk queria que eu lembrasse. Em meio à neve e aos rostos de tantos soldados da HYDRA, ele estava lá.
Com uma nota de pânico, enfim mato a charada. Vejo o soldado que foi lançado a alguns metros de um tanque que o Hulk chutou. Em meio ao momento de fúria, um rápido olhar para o homem caído na neve. Ele ergueu o rosto e olhou diretamente para o Hulk. Com ódio e sem nenhum traço de medo.
Enquanto os colegas dele se rendiam à Viúva Negra ao meu lado e ele mesmo se preparava para fazer isso, um outro tanque lançou disparos contra o Hulk, desestabilizando minha colega de equipe também. O Outro Cara partiu em disparada para lá, ergueu o veículo como se não pesasse nada, levando os agentes da HYDRA a pularem dele para se renderem de bom grado depois, completamente derrotados.
Quando o Hulk terminou de esmagar o tanque já vazio e voltou para o ponto inicial, aquele soldado misterioso não estava mais lá. Havia escapado no meio da confusão. Desaparecido na imensidão nívea.
Mas agora eu sei exatamente quem ele é. Lembro de ter visto o seu rosto de novo há pouco tempo. Era ele o tempo todo. A mente por trás de tudo. O meu verdadeiro inimigo. Não Ross, que agora sei que foi apenas um bode expiatório no brilhante jogo orquestrado, mas outra pessoa. Alguém que eu não esperava, que mal conheço, que não reconheci a tempo.
O nome falso que ele me deu ainda ecoa na minha mente quando a escuridão me puxa para baixo: Kurt Lockwood.
Fale com o autor