Notas iniciais
Boa leitura ♥

Meu corpo inteiro envolto por uma estranha sensação de dormência, a cabeça parece pesar uma tonelada e a garganta está seca de um jeito doloroso. Sinto como se eu tivesse levado uma surra ou estivesse com uma baita ressaca no meio do deserto. As duas coisas, na verdade.

Pois é, nada bom.

Quando enfim consigo romper o estado de torpor, abro os olhos devagar e levo longos instantes para me habituar com a luz ao meu redor, por mais fraca que ela seja.

Ouço o ruído contínuo de maquinários por perto e sinto o ar frio da ventilação artificial entrando nos meus pulmões lentamente. Tento me mexer e descubro, com uma nota de pânico, que meus movimentos estão limitados por algum tipo de amarra.

Atônita, abro mais os olhos e ergo o tronco o máximo que consigo a fim de examinar a situação em que me encontro. O simples movimento me deixa zonza, levando-me a pender a cabeça para o lado e fechar os olhos por alguns instantes. Puxo uma boa dose de ar antes de abri-los mais uma vez.

Então eu vejo.

Travas nos punhos e nos tornozelos me mantêm presa num tipo de cadeira reclinável. Busco me livrar delas, mas é inútil, pois são feitas de um material metálico muito resistente e parecem funcionar por algum comando eletrônico que eu, claro, não tenho como acionar.

O cenário à minha volta é completamente desconhecido e nada animador. Parece um tipo de central ou laboratório, com computadores dispostos em uma longa banqueta, junto a um que parece o servidor. Armários com tubos de ensaio e máquinas que eu não tenho ideia da utilidade espalhadas pelo mezanino.

A iluminação é fraca, chegando a ser um tanto sombria e azulada. Algo que junto com a cadeira na qual estou presa dá um ar de cativeiro ao lugar.

Não há janelas, uma única e larga porta de aço está fechada à minha frente e as paredes são escuras como chumbo. Em uma dessas paredes, vejo o emblema em alto relevo de uma caveira bizarra com tentáculos ao redor.

Levo apenas alguns segundos para deduzir que fui trazida para um covil da HYDRA.

E diziam que a maligna organização era carta fora do baralho... Parece que quando se corta uma cabeça, nasce outra no lugar mesmo.

— Amy?

Alguém diz o meu apelido, tenho certeza que o ouço em algum lugar à minha esquerda, pronunciado por uma voz familiar que me deixa muito surpresa e confusa.

— Graças a Deus, você acordou!

Estreito o olhar na direção de outra cadeira, igual a minha, e reconheço o homem preso nela. Com uma aparência péssima, está a última pessoa que eu esperava ver agora.

— Kurt? É você? O que está fazendo aqui?

Ele parece muito aliviado em me ver, ou talvez apenas por ter companhia. De repente, me lembro que, enquanto eu apagava sob o efeito de duas doses de tranquilizantes, aquela maldita mulher disse que iria atrás de Lockwood. Era dele que ela falava, claro. Só não entendo o motivo...

— Eu poderia te perguntar a mesma coisa, mas acho que a resposta é meio óbvia. — Mesmo com os movimentos limitados, ele consegue dar de ombros. — Acho que nós dois fomos sequestrados. — Ele respira fundo, como se tentasse conter o pavor visível em seu rosto, e então despeja num ritmo acelerado: — Eu estava preso na S.H.I.E.L.D., lembra? Então uma confusão começou, houve uma invasão, gritaria para todos os lados, troca de tiros e agentes de uma tal... HYDRA, acho, me arrancaram da minha cela! Foi então que uma mulher injetou alguma coisa no meu pescoço e fim! Eu apaguei completamente e, quando recuperei os sentidos, estava aqui, preso nessa maldita cadeira, vi você bem aí e... Ai, caramba! Nós estamos ferrados, não estamos?!

Zonza com o relato e incomodada por revê-lo, deixo a cabeça cair para trás por um momento e murmuro:

— Ah, não... Quando aquela desgraçada disse que seria um inferno assim que eu acordasse, não estava mentindo. Eu estou mesmo no inferno.

Após um longo minuto de silêncio, ouço a voz do infeliz de novo:

— Sério, princesa? Até num momento como esse você não consegue deixar o rancor de lado? Eu sei que pisei na bola quando te deixei para trás e por tudo que aprontei antes disso, mas...

Ele parece tão ofendido que me vejo obrigada a interrompê-lo para esclarecer:

— Não é rancor, Kurt, é só desprezo. Eu fiquei com muita raiva na época, admito. Mas, olhando para trás agora, minha vida melhorou tanto depois que você foi embora, depois que esclareci minha situação com a justiça por sua culpa, claro, que eu devia te agradecer por ter sido um babaca comigo. Só Deus sabe em qual buraco eu estaria agora, se você tivesse continuado ao meu lado. Ah! Por falar nisso, muito obrigada por ter desaparecido. Bons tempos!

Mesmo com a iluminação fraca que predomina nesse lugar, consigo ver o rosto dele pasmo e ultrajado por um instante. Uma reação que é a cara dele, ficar ofendido por ouvir nada mais que a verdade.

Aos poucos, esse semblante se dissipa e dá lugar a outro. A mudança é tão drástica e inesperada que desperta uma sensação estranha dentro de mim. Kurt parece... sorrir?

— Engraçado você dizer isso quando está em um buraco desses. E garanto que não é por minha causa.

— Não importa — retruco na hora, estranhando o tom de voz um tanto frio dele. — Tenho certeza que você me arrastaria para algo bem pior do que isso.

Kurt me analisa por um longo momento, uma expressão indecifrável acompanhada de um sorriso enigmático que começa realmente a me incomodar, acendendo uma espécie de alerta dentro de mim.

— Nesse caso, acho que eu posso acabar com a cerimônia e partir para o próximo passo de uma vez — anuncia de forma repentina.

Estou prestes a questionar o que diabos ele quis dizer com isso, mas fico paralisada com o que Kurt faz nesse meio tempo. Ele simplesmente se livra das travas nos braços e pernas como se não fossem absolutamente nada, sem um pingo de trabalho. Então, se levanta da cadeira e estica o corpo como alguém que acabou de tirar uma longa soneca e está pronto para retomar o dia de onde parou.

Não estou entendendo mais nada e isso é perturbador.

— Como você...?

A pergunta morre na minha garganta enquanto engulo em seco, e ele me ajuda:

— Como me soltei? Fácil, eu nunca estive preso de verdade. Chama-se dissimulação, princesa. Só um teatrinho para brincar com você, desculpe, não resisti.

Minha mente fica à mil diante dessas palavras e da maneira como Kurt está agindo agora. É como se eu tivesse sido lançada num vórtice de informações soltas, mas que juntas significam algo grande que ainda não consigo enxergar como um todo.

Peças de um quebra-cabeças são forçadas a se encaixarem em busca de algum sentido. Uma onda de choque e epifania me domina no final e, por um longo instante, simplesmente não consigo acreditar na revelação a que chego, por mais que esteja clara feito água bem diante do meu nariz.

Apenas por um longo instante fico assim em suspenso. No seguinte, enquanto mantenho o olhar atônito fixo nele, deixo a frase se formar sozinha:

— Você está trabalhando com a HYDRA.

Kurt abre um largo sorriso, espreguiçando-se mais uma vez, chegando a bocejar como se estivesse entediado. Então, começa a caminhar na minha direção e o alerta dentro de mim apita mais um pouco.

— Eu não estou, eu sou da HYDRA. Percebe como o peso é diferente?

Parece que ele não disse nada, porque não consigo absorver o significado e concluo outra coisa:

— Você hackeou o celular do Bruce a pedido deles. Foi você, claro. A HYDRA te contratou para isso, não foi? E o General Ross também...

Meu antigo namorado — agora, uma completa incógnita para mim — ri como se eu tivesse dito uma completa asneira e esclarece na sequência:

— Ross? Aquele velho caquético que não teve competência para acabar com o Hulk? Não, ele foi só um bode expiatório. Eu precisava jogar a culpa em alguém e ninguém melhor do que o homem que perseguiu Bruce Banner por tanto tempo.

Mal assimilo o que ouvi, ele continua:

— A ideia foi minha. O plano, a mensagem no celular do Banner, o ataque à bomba que tirou o Hulk dos trilhos, tudo. Ah! E da minha mãe, é claro, ela me ajudou com os detalhes porque também precisava, e ainda precisa, de uma boa dose de vingança.

Ele se inclina na minha direção e tem o atrevimento de acariciar meu cabelo entre os dedos. Esquivo-me como posso, e Kurt continua falando:

— A HYDRA não me contratou, Amy, ela me acolheu há muito tempo e eu abracei a causa de bom grado.

Diante de tamanha revelação, tudo o que consigo dizer é uma pergunta pouco elaborada, porém muito importante:

— Por quê?

— A versão resumida? Por causa de uma coisinha que o seu noivo fez e a S.H.I.E.L.D. acobertou. Viu? É por causa dele que você veio parar nesse buraco. — Kurt se afasta como se essa resposta vaga fosse o suficiente, e me analisa de corpo inteiro com um olhar insinuante que me enoja. — A propósito, você ficou muito gata vestida de noiva. Uma pena que esse casamento não vai rolar. Sinto muito.

Um calafrio percorre minha coluna e um peso horrível comprime meu estômago. Mau pressentimento define bem.

— Eu não... Eu não estou entendendo...

Sinto-me tão patética presa nessa cadeira, ouvindo uma loucura atrás da outra, sem conseguir reagir, mal assimilando a situação para articular alguma coisa com nexo. Isso é pior do que o pior pesadelo que já tive. Torço pelo momento em que vou conseguir despertar.

Mas não consigo.

Para piorar, o mundo sombrio que surgiu diante de mim de repente parece girar à minha volta e desperta uma náusea tão incômoda que sinto que vou acabar vomitando a qualquer momento. Com certeza, ainda efeito da dose cavalar de tranquilizantes.

Para meu desespero, Kurt continua falando de um jeito dissimulado:

— Tudo bem, eu imagino que seja difícil mesmo entender, é muita informação para processar de uma vez. Tipo: Meu ex não é quem disse ser, armou para cima do meu atual namorado e de mim esse tempo todo! Caramba, ele é da HYDRA e eu estou presa numa base no meio do oceano! Sim, nós estamos no meio do oceano, numa das primeiras bases da HYDRA, aliás. Foi desativada há muito tempo, quando as ramificações se espalharam pelo mundo, e a S.H.I.E.L.D. nunca conseguiu descobrir a localização. Por isso é bom não ter esperanças num resgate milagroso, também não vai rolar. Onde eu parei mesmo?

Ele volta a mexer no meu cabelo, e eu me encolho mais uma vez. Só que não tenho para onde ir, então me limito a fuzilá-lo com o olhar. Algo que não o abala nenhum pouco. Ao contrário, é como um incentivo para continuar perto e ser mais frio e provocador com as palavras:

— Eu sei que essa cabecinha linda está fervilhando de tantas perguntas e palavrões, mas não é melhor esperar pelo Dr. Banner e a minha mãe para colocarmos todas as cartas na mesa?

Meu coração dá um salto e ao mesmo tempo é como se algo o apertasse dolorosamente. Seria um alívio ter o Bruce ao meu lado agora e poder contar com a ajuda esmagadora do Hulk para nos tirar daqui.

O problema é que também sou acometida por uma onda tangível de medo. Se a HYDRA planejou trazê-lo à força para cá ou o atraiu me usando como isca é porque tem alguma carta na manga para conter o Outro Cara, se for preciso. Isso significa que Bruce está em perigo tanto quanto eu.

Ao mesmo tempo que preciso dele, não quero vê-lo envolvido nesse pesadelo insano. O desespero me revira por dentro. O mau pressentimento se intensifica. Estamos ferrados.

— Assim nós conversamos todos juntos como deve ser. Eu, você, ele e a minha mãe. Você já a conhece, aliás. A costureira do ateliê de noivas, sabe? Eu sempre amei os disfarces dela, mas esse foi sensacional, tenho que admitir! Sabe como ela conseguiu te enganar? Eliminando a verdadeira costureira. E você nem notou a diferença porque a minha mãe usou uma máscara tecnológica que criou um rosto igualzinho ao da falecida e um simulador de voz. Não é genial? Eu amo a tecnologia!

Minha cabeça vai explodir. Estou zonza, com medo e muita raiva ao mesmo tempo. Não acredito que fui enganada esse tempo todo, e é assustador pensar na dimensão do que está acontecendo agora.

Como fui tão cega? Como todos nós fomos? Não chegamos nem perto de decifrar o mistério e agora ele ameaça me sufocar...

— Quem é você? — murmuro, desnorteada, perdendo a paciência, acho que começando a entrar em pânico de verdade.

Kurt recua um pouco, me olhando com um irritante ar de superioridade. Então, com muita tranquilidade, faz cada palavra ecoar de um jeito pesado pelo cativeiro:

— Meu nome é Philip Sterns. Meu verdadeiro nome. Kurt Lockwood é a persona que eu criei há muito tempo, quando me infiltrei no mundo hacker. A HYDRA achou que seria útil manter a identidade e eu concordei. Foi mesmo inteligente e muito útil nos últimos tempos.

Que diabos...

Ele nunca se chamou Kurt Lockwood? Meu ex-namorado nunca existiu? Quem é esse homem na minha frente e por que está fazendo isso? Por mais que ele tenha explicado por alto, é tudo muito surreal e não consigo processar direito.

— Philip Sterns? — repito, tentando puxar alguma referência na memória. — Isso devia significar alguma coisa para mim?

— Não, mas espero que signifique algo para o Banner, já que ele matou o meu irmão. — Kurt... Digo, Philip fica introspectivo por um momento. Então dá um tapa no ar, corrigindo-se: — Praticamente. — Após uma pausa, ele se retifica de novo: — Tudo bem, o Sam não morreu depois que foi infectado com o sangue gama do seu precioso Vingador, mas ele ficou... diferente. Não, bizarro é uma definição melhor. Como a cabeça de alguém em coma pode crescer tanto? Como alguém sobrevive tanto num cenário assim? Eu não entendo, nossa mãe não entende, nem a HYDRA conseguiu descobrir o que está acontecendo com ele, mas tem sido horrível assistir ao sofrimento do meu irmão por todos esses anos. Alguém precisa pagar pelo o que aconteceu a ele e ninguém melhor do que o idiota que o colocou nessa situação.

Engulo em seco, desviando o olhar, lutando para assimilar tudo que ouvi, mas incapaz de acreditar que a motivação de Kurt — Philip Sterns, droga! — tem fundamento. Tenho certeza que é um mal-entendido, as coisas não aconteceram como ele está relatando.

— Você é louco — acuso, horrorizada com tudo. — O Bruce nunca machucaria uma pessoa inocente. Pelo menos, não por querer isso. Se o seu irmão se feriu mesmo, tenho certeza que foi um acidente infeliz.

Philip sorri com amargura e, como se estivesse falando com uma criança, argumenta pausadamente e com uma falsa paciência:

— Claro que foi um acidente, Amy. Isso exime o seu noivinho perfeito da responsabilidade? Claro que não. Bruce Banner nunca mais procurou por Samuel Sterns, nem se preocupou se ele estava vivo ou morto. Ele simplesmente foi embora, caiu no mundo, fugindo e deixando os efeitos colaterais para trás como sempre fez. Mas quando Banner precisou de ajuda, meu irmão estava lá, se esforçando, se doando para encontrar uma cura para a transformação que tanto o perturbava. Aliás, sabe como o Sam foi infectado? Uma amostra de sangue do seu queridinho Vingador caiu dentro de um ferimento na cabeça dele. Sabe o que Banner estava fazendo na hora? Tentando fugir da Universidade Culver, era lá o laboratório do meu irmão. Eu vi as filmagens depois de muito tempo, quando a HYDRA me acolheu e me deu um propósito a perseguir. Foi durante a confusão que o destino do meu irmão foi selado e a culpa foi sim desse maldito que você tanto venera.

Eu conheço uma parte dessa história. Bruce não gosta muito de falar sobre o passado, mas lembro muito bem que ele me contou que tinha sido neutralizado nas dependências da Universidade Culver e levado pelo General Ross num avião militar. Horas depois, enfrentou o Abominável no Harlem. Ele não deixou Samuel para trás por vontade própria, era uma situação complicada, simplesmente não teve escolha.

— Ele não estava fugindo. Bruce foi capturado, seu imbecil.

— Eu sei disso também, princesa. — Um sorriso azedo surge e Philip me olha como se a imbecil fosse eu. — Mas e depois? Depois que deu um jeito naquela criatura... abominável e escapou do Ross? O que Bruce Banner fez, hum? Para onde foi? Ele nem se lembrou do meu irmão depois que a poeira abaixou. Porque o Sam era descartável para ele, claro. Nenhuma circunstância muda o fato de que o meu irmão é um morto-vivo por causa dele.

Rio sem humor e minha garganta protesta por estar muito ressecada.

— Você acha mesmo que a poeira abaixou para o Bruce depois daquilo tudo? Ele passou anos vivendo de forma clandestina, sem destino certo, escondido do Ross, da própria S.H.I.E.L.D. porque não sabia o que ela queria com ele, fugindo dele mesmo, evitando qualquer confusão porque tinha medo que o Hulk perdesse o controle e machucasse alguém inocente!

— Ele já machucou! — Kurt... Philip esbraveja com um grito tão estrondoso que, confesso, me encolho de susto numa reação natural e humilhante. — Você não entende, Amy? — desafia com um tom mais suave. — Ele já machucou. Meu irmão era inocente. Agora, só me resta vingá-lo.

— E quem vai vingar as pessoas de Nova York? — questiono, estreitando um olhar feroz na direção dele. — Aquelas que foram atingidas por um ataque covarde que você mesmo armou só para abalar o Hulk? Sabe de uma coisa? Kurt Lockwood era um idiota, mas você, Philip Sterns, é mil vezes pior, não passa de um hipócrita maldito.

Recebo um olhar tão gélido e mortal como resposta que, por um momento, acredito que ele irá partir para a violência nua e crua e, quem sabe, me silenciar de uma vez.

Vejo as mãos dele se fechando com força ao lado do corpo, mas é como se estivessem no meu pescoço. Chego a sentir dificuldade em respirar, tamanha a tensão que percorre o espaço à nossa volta.

Quando penso que ele dará um último passo na minha direção e acabará com o problema, o desgraçado relaxa consideravelmente, ergue as mãos em rendição, sorrindo de um jeito sonso como alguém confrontado por um bom argumento, e explica o que para mim não tem justificativa alguma:

— Ok, mea culpa nesse caso. O que posso dizer, princesa? Não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos. Aquilo foi um teste necessário para um bem maior. E também uma forma de provar o meu ponto, justamente que o Hulk não pode mais viver entre nós. As pessoas tinham esquecido isso e precisavam que alguém as lembrasse que ele sempre estará sujeito ao descontrole. E eu precisava mostrar ao Bruce o que ele é de verdade, um monstro, uma aberração.

Meu sangue ferve. Pena que estou presa à essa cadeira ou eu mesma partiria para a violência física agora mesmo.

— Cuidado, é do homem que eu amo que você está falando.

Philip sorri de um jeito torto e confuso, inclinando a cabeça.

— Por falar nisso, imagine a minha surpresa quando descobri que vocês tinham essa ligação especial? — Ele ri e meu sangue entra em ebulição de vez. Respiro fundo para me acalmar, sem sucesso. — Uma baita ironia ver a minha ex-namorada apaixonada pelo mesmo cara que deixou o meu irmão em coma. Essa vingança é como um chamado do destino para mim, percebe? Trágico e poético, você não acha?

Tento pesar bem a minha resposta porque sei que estou numa situação muito desfavorável aqui, claramente em perigo e posso piorar tudo se cutucar a onça com vara curta. Mesmo assim, não consigo conter totalmente o tom agressivo e firme em cada palavra que cuspo na direção dele:

— O que eu acho é que você é o verdadeiro monstro dessa história, Kurt, Philip, o diabo que seja. Não o Bruce, não o Hulk, só você. Aliás, sabia que ele salvou a minha vida uma vez? Caso tenha esquecido, ele lutou contra um exército alienígena, outro de robôs, contra a própria HYDRA, salvando outras pessoas pelo caminho também. Nada disso condiz com uma aberração, ele é um herói. Não perfeito, mas um herói, alguém sujeito a falhas que está sempre se reerguendo e tentando fazer o melhor que pode. Você não é capaz de entender porque tem um coração podre e...

— Tsc-tsc. — O infeliz balança a cabeça em desaprovação. — Você não consegue evitar, não é? Defendê-lo? É como dizem, o amor é cego. Bem, mas eu aposto que consigo mudar a sua opinião até o fim do dia, princesa. Aposto meu coração podre nisso.

Engulo em seco, o alerta dentro de mim reverberando em cada célula e arrepiando minha nuca com um calafrio intenso. A curiosidade quase me leva a perguntar o que ele tem em mente, o que pretende fazer comigo até o fim do dia, porém a verdade é que não tenho certeza se quero mesmo saber.

— Não me chame de princesa, me dá vontade de vomitar — limito-me a dizer, com um sorriso enviesado e um olhar frio na direção do vilão que ninguém viu chegando, mas que estava lá o tempo todo.

Um segundo depois, o silêncio pesado que se instalou é rompido pelo ranger da porta de aço logo à frente.

A mulher — aquela maldita que se passou pela inocente costureira — entra primeiro e me lança um sorriso mínimo antes de se livrar da máscara tecnológica. Quando o rosto verdadeiro é revelado, reconheço na expressão alguns traços de Kurt... Philip!

Não gosto do que vejo, ela é tão monstruosa quanto o filho. Um rosto de boneca de cera, bem conservado para a idade, como se ainda usasse uma máscara. Alguém dissimulada e fria por natureza.

— Ah, ela acordou. Prazer em conhecê-la oficialmente, Srta. Prescott. Lembra de mim do ateliê? Eu me chamo Nadia Sterns, na verdade.

— Encantada, Vaca Sterns — retruco com azedume.

A infeliz perde totalmente a importância assim que algo atrás dela chama a minha atenção acima de qualquer outra coisa. Três agentes entram na sequência, empurrando, com certa dificuldade, um tipo de câmara transparente reforçada em alguns pontos por um tipo de aço.

A estrutura em muito me lembra aquela que Tony tem no subsolo da Torre dos Vingadores e que usou para prender o Hulk na última vez em que ele perdeu o controle. Justamente por causa dessa infame família Sterns.

Mas é o que eu vejo dentro da câmara que realmente conquista minha atenção e desperta um imediato sentimento de preocupação, ao mesmo tempo em que meu coração dispara feito louco. Logo, fica apertado e o medo me domina de vez.

Bruce está lá. Dentro dela. Preso numa espécie de maca vertical com travas bem mais grossas do que as que me mantêm contida nessa cadeira reclinável. Ele está desacordado, pálido, parece frágil demais, os cabelos grudados na testa suada.

Os agentes brutamontes que trouxeram a enorme câmara se despedem com o nojento “Hail, HYDRA” e deixam o lugar. A porta de aço é lacrada de novo, selando quatro pessoas aqui dentro.

Sem que eu consiga evitar, meus olhos se enchem de lágrimas enquanto volto a olhar para Bruce, apavorada por ele e com raiva das pessoas que o colocaram nessa enrascada covarde.

— O que vocês fizeram com ele?

Não preciso olhar para Philip ou Nadia para saber que estão sorrindo com fria satisfação. Sinto isso no ar, enquanto meu estômago revira pela milésima vez desde que despertei aqui.

— Nós curamos o Dr. Banner, querida. Matamos a besta que existia no homem. Sendo mais clara, o Hulk está morto — a mulher revela sem rodeios e tangível crueldade na voz.

Abro a boca, mas nenhuma palavra sai. Nem sequer um xingamento. Não sei o que pensar, nem sei direito o que sinto agora. Choque, apenas choque.

— Não é sensacional? — Philip pergunta, um segundo depois. — Nós conseguimos! Enfim uma cura para a condição dele! É genial, Amy, admita! Foram anos buscando isso e enfim o monstro verde é carta fora do baralho!

Uma lágrima morna rompe a resistência que eu ainda lutava para manter. Teimosa, ela escorre pela lateral do meu rosto em chamas, ao mesmo tempo em que a euforia no meu coração por reencontrar Bruce se aquieta de um jeito doloroso.

Não acredito que fizeram isso com ele. Não sei lidar com o fato dele estar sozinho e em perigo desse jeito. Não consigo acreditar que o Hulk... se foi. Não consigo aceitar que ele está morto.

Morto?! Não consigo, não dá, simplesmente não posso. Deus me ajude, porque eu não vou aceitar isso nunca!

Notas finais
Eita nóis! Algumas referências aqui: A criatura que o Kurt/Philip mencionou, com a qual nosso Vingador verdão lutou no filme O Incrível Hulk, é Emil Blonsky. Por causa de um experimento (no qual se voluntaria), ele vira um monstrão pavoroso chamado Abominável. A Universidade Culver foi onde o General Ross capturou o Bruce e era lá que Samuel Sterns fazia testes com o sangue do Bruce para tentar conter a transformação dele. No capítulo, foi mencionado que a cabeça de Samuel está crescendo desde que ele foi infectado e entrou em coma. Para quem não sabe, o Líder é um vilão beeeeeeeem cabeçudo kkkkkkkkk Agora, a pergunta que não quer calar é: o Hulk está morto mesmo? Beijos e inté o próximo capítulo!