A Bela, o Outro Cara & Eu
13 Indo com calma
Notas iniciais

Beije um pouco mais, pense um pouco menos.
Think a little less — Michael Ray
É engraçado. Eu tinha certeza que Bruce havia ido embora agora há pouco, mas aqui está ele de novo. De volta, no meu quarto e bem na minha cama. Exatamente onde eu quero.
Sou envolvida por seus braços, seus beijos e carícias que me tiram o fôlego. Cada parte de mim está em chamas e o deseja cada vez mais perto. Infelizmente, as roupas atrapalham um bocado meus planos para essa noite e impedem um contato mais íntimo.
Buscando uma solução para isso, solto uma risada divertida e inverto nossas posições com um movimento rápido e preciso. Agora por cima de Bruce, me livro do vestido de qualquer jeito, me deliciando com seu olhar tímido, mas que não consegue esconder certa cobiça.
Abro sua camisa às pressas, arrancando alguns botões por acidente que se espalham pelos lençóis bagunçados.
Estou prestes a me debruçar sobre Bruce a fim de beijá-lo de novo, mas o susto que levo me paralisa no mesmo instante. Sua pele está com uma estranha tonalidade verde, as veias de seu peito perigosamente saltadas bem como aquelas que sobem pelo pescoço. Seus olhos me encaram cheios de um pânico preocupante, tal como aconteceu quando nos beijamos antes. As íris estão tomadas pela mesma cor que indica a sua transformação no Incrível Hulk.
— Bruce?
— Amelia...
Num gesto rápido, ele me afasta e cambaleia pelo quarto. Desnorteado e completamente fora de controle. Suas costas crescem, se alargam, o tom verde fica mais intenso, o restante das roupas é rasgado pelos músculos que se expandem sob o tecido. Engulo em seco.
Ao tentar me levantar, tropeço nos lençóis e caio no chão, ao mesmo tempo em que a parede do quarto vem abaixo quando um baque violento a atinge em cheio.
— Hulk esmaga! — o Outro Cara rosna com fúria, massacrando uma das portas do meu guarda-roupa também.
Assustada, abro os olhos e me sento ofegante na cama. O coração disparado de um jeito doloroso enquanto me acostumo com a claridade parcial do quarto perfeitamente intacto à minha volta.
Bem na minha frente, com uma expressão indecifrável, Josh se manisfesta:
— Você estava gritando feito doida, gata. Está tudo bem?
— Sim, foi só... — Respiro fundo e ignoro a sensação forte de que a experiência foi real. — Um pesadelo esquisito.
Ao contrário do que eu esperava, meu irmão nem me dá algum tempo para que eu recupere totalmente o ar. Ao invés disso, sorri sem humor e já emenda:
— Hum. Sabe o que é ainda mais esquisito? — Ele mostra duas peças de roupa até então ocultas atrás de si. — Eu encontrei isso na sala e essa no banheiro. Pode me dizer o que significa, Amelinha?
Observo o casaco de Bruce e a sua camisa nas mãos de Josh. As duas peças aparentemente ainda úmidas da chuva. Não entendo por que meu irmão está soando tão tenso, mas decido que o melhor é não pensar muito e responder logo:
— Eu dormi sozinha, se é isso que você quer saber.
— Graças a Cher! Bowie é pai! — Josh leva a mão ao peito, visivelmente aliviado, e despenca sentado na cama. — Melhor assim. Ufa!
— Desculpe... O quê? — Franzo o cenho, entendendo cada vez menos enquanto o suor frio do pesadelo ainda escorre pela minha nuca. — Você ficou animado quando eu contei que ia sair com o Bruce e sempre demonstrou que torcia pela minha felicidade.
— Eu fiquei animado e é claro que torço por você, meu amor. Sempre! — Josh esclarece apressado, fazendo um carinho no meu rosto. — É que... quando vi essas roupas largadas e ouvi os seus gritos, eu fiquei tão preocupado com a sua integridade física. Mesmo vendo que você estava dormindo sozinha, eu não consegui evitar e imaginei que fosse alguma reação traumática de ontem. Sei lá o que passou pela minha cabeça, mas... Bom, Bruce é o Hulk, lembra?
Não sei se estou mais envergonhada com o comentário ou irritada com mais um paranoico na minha vida.
— Lembro, ninguém me deixa esquecer — resmungo, incomodada com o assunto. — As coisas não evoluíram tanto assim. Nós só... nos beijamos.
Tão logo termino de esclarecer, percebo que não foi justo usar "só" para me referir a ontem. Não foi só um beijo, foi o melhor beijo do mundo e cheio de significado, foi importante e muito especial. Não querendo ser convencida, mas tenho certeza que para Bruce também significou algo. Ficou bem claro que sim, que ele estava ali por inteiro, finalmente entregue.
Um sorriso bobo me vence quando vejo a alegria refletida nos olhos de Josh. Ele estava mesmo na torcida por isso desde a primeira vez que notou meu interesse pelo alter ego do Gigante Esmeralda.
Sem pensar direito, acabo emendando numa tentativa de mudar o foco dos meus sentimentos para qualquer outra coisa:
— É verdade que ele se descontrolou um pouco, mas...
Josh praticamente pula da cama ao se levantar muito sobressaltado. Leva as mãos ao rosto e despeja com os olhos arregalados:
— Não! Eu sabia!
Expiro com força e completo entredentes:
— Mas não aconteceu nada. Eu estou bem, não fiquei traumatizada, Bruce não perdeu outras roupas, o Hulk não deu as caras e não há nada quebrado por aqui. Relaxa.
— Relaxar?! Como?! Isso podia ter virado uma catástrofe! Você podia ter se machucado! Prince do céu! Você está em perigo!
Josh parece mais desesperado agora, o que me irrita profundamente. Fecho a cara, disposta a não alimentar mais essa conversa insana sobre a minha vida íntima. Afasto o lençol com um gesto brusco e marcho em direção à saída do quarto. Para minha infelicidade, sou seguida através do corredor por ele e sua preocupação excessiva.
— Você tem que me prometer que vai ir com calma, Amelia Prescott! Por todo o amor que você tem por seus lindos sapatos! Por todas as batatas fritas do mundo que você tanto ama! Me prometa que só vai dar o próximo passo quando tiver plena certeza... Quando Bruce tiver plena certeza também que pode controlar o Hulk. Mesmo que demore semanas, meses, anos! Mesmo que seja impossível dar o próximo passo!
Fecho os olhos por um momento, controlo a raiva como posso e chego mais rápido à porta do banheiro. Giro nos calcanhares e fulmino meu querido e inconveniente irmãozinho com um olhar nada amigável. Ele estanca no lugar antes de recuar um pouco, visivelmente assustado, mas ainda assim parece irredutível em relação aos argumentos que expôs. Não sei se estou com mais raiva dele ou se com a possibilidade de ter alguma razão.
E se for impossível ficar de verdade com Bruce? E se o Hulk for um empecilho eterno para nós?
Tão logo esse pensamento vem, afasto-o da cabeça o mais rápido que consigo. Vamos dar um jeito e contornar o problema, tenho certeza. Só temos que encontrar esse jeito. Não deve ser tão difícil assim, mas se for tudo bem. Vale a pena esperar mais um pouco por Bruce.
Apesar de, no fundo, concordar com Josh e ter ciência de que tenho que ir com calma por enquanto, não consigo evitar a indignação por sua intromissão constrangedora nem a resposta atravessada que lhe dou:
— Escuta. Eu não dormi quase nada essa noite e, quando finalmente peguei no sono, tive um sonho ótimo que virou um pesadelo bizarro. Acordei com você fazendo perguntas inconvenientes e agora esse escândalo desnecessário. Eu preciso de um banho, Josh. Preciso muito. Eu quero me arrumar em paz e sair daqui sem ouvir qualquer outro comentário sobre esse assunto. Pelo menos por hoje, me dê um tempo. É isso, com licença.
Sem esperar por qualquer resposta, entro no banheiro e fecho a porta com um baque estrondoso. Respiro fundo e conto mentalmente até dez.
— Você bateu a porta na minha cara! — Josh reclama do outro lado e, por um momento, posso imaginar sua mão sobre o peito e a expressão indignada.
— Eu pedi "com licença"!
— Isso ainda não acabou, Amy. Você tem que prometer...
Paro de ouvi-lo quando meus olhos encontram uma meia largada sobre o cesto de roupas. Pego-a sem pensar duas vezes, abro a porta de novo e jogo na direção de Josh. Ele segura a meia no ar por puro reflexo e me encara com confusão.
— Pronto, agora você é um elfo livre. Vai cuidar da sua vida! — esbravejo.
Tranco a porta sem esperar por qualquer reação, me livro da camisola de qualquer jeito e entro no box logo depois.
O banho fumegante me ajuda a relaxar um pouco, mas não a ponto de me convencer que seria uma boa ideia baixar a guarda e trocar qualquer palavra com Josh durante o café da manhã.
A todo instante, ele demonstra inquietação e abre a boca algumas vezes como se fosse dizer algo. Porém, parece lembrar do meu pedido, já que não fala nada no final.
Por via das dúvidas, demoro apenas alguns minutos para engolir o café com um waffle e menos ainda para me arrumar para mais um dia de trabalho. Quanto mais rápido eu sair daqui, melhor. Assim meu irmão poderá refletir sobre o significado da palavra “limite" e eu poderei pensar melhor sobre o tópico “Bruce Banner & Incrível Hulk: como ficar com um sem despertar a fúria do outro?”
Antes de voltar para o quarto a fim de buscar a bolsa, me pego cheirando a camisa esquecida ontem e que meu irmão largou em cima da minha cama junto com o casaco com o qual Bruce tentou me proteger da chuva. O cheiro de sândalo impregnado no tecido me deixa inebriada. Sinto meu coração acelerar de um jeito engraçado e sou transportada para ontem à noite. Cada momento repassando na minha cabeça. Cada sensação despertando de novo. Aquele beijo me fazendo perder a sanidade...
Sorrio e solto um suspiro inevitável. Ótimo, agora me sinto bem idiota. Mas uma idiota feliz pelo menos.
Coloco as duas peças numa sacola e, já que me arrumei bem rápido e saí do apartamento com uma boa folga no horário, decido passar numa lavanderia express antes de ir para a Torre dos Vingadores, assim devolvo as roupas de Bruce já limpas e passadas. E aproveito o tempo de espera para pensar mais um pouco.
***
— O que tem na sacola?
É a primeira coisa que Tony fala assim que o elevador se abre e eu ponho os pés na enorme sala de estar. Exato. Nada de "Bom dia"", nada de "Como vai?", apenas uma pergunta aleatória e cheia de uma curiosidade que me deixa em alerta imediato enquanto ele vem em minha direção.
Por falar em curiosidade, é impossível não reparar nos trajes inadequados que o Homem de Ferro está vestindo e fazer uma observação automática:
— Você ainda está de pijama.
Ele diminui o ritmo dos passos e olha para si mesmo, como se somente então percebesse isso.
— Você chegou muito cedo — justifica-se, lançando um olhar furtivo para o interior da sacola.
Escondo-a atrás de mim com um movimento brusco e sorrio de um jeito seco.
— Bem, há muito a determinar sobre o evento que você jogou no meu colo e o prazo está apertado. Então eu pensei em chegar um pouco antes do horário para otimizar o tempo, só isso.
Exato, oculto o fato de que não dormi direito, acordei com Josh fazendo escândalo e achei melhor sair de casa bem rápido. Prefiro que Tony pense que eu sou uma funcionária exemplar, mesmo porque será bom ocupar a cabeça com outra coisa por algumas horas.
— Sério? — Tony faz uma careta de insatisfação. — Você chegou mais cedo para trabalhar? Em que realidade alternativa isso é uma boa ideia?
— Na nossa realidade mesmo, chefe. — Tenho que me controlar para não rir do seu desprendimento e natureza irresponsável. — Como você chegou tão longe pensando assim?
Cheio de si, ele argumenta:
— Gênios não são escravos do tempo como a maior parte das pessoas. Meu raciocínio é mais rápido e eficaz. Meu QI elevado permite que eu encontre uma solução ou invente algo novo sem me preocupar com o tic tac do relógio. E, claro, sendo bilionário e o líder das Indústrias Stark, eu posso delegar as funções que me deixam entediado, mas que precisam ser feitas, para outras pessoas. Assim eu posso me dar ao luxo de dormir um pouco mais, como um reles mortal.
Temendo alimentar o assunto e ouvir Tony falar bem de si mesmo por horas a fio, limito-me a assentir com um meneio de cabeça. Estou quase me convencendo a pedir desculpas por ter atrapalhado o seu sono — embora Tony pareça muito agitado para alguém que acabou de acordar —, quando ele muda de assunto sondando num tom insinuante:
— Então... Você e Banner, hum? Como foi ontem à noite?
Ignorando um ardor imediato no rosto, reviro os olhos e caminho em direção ao sofá. Não bastou a conversa constrangedora com meu irmão, agora o destino quer que eu enfrente uma sabatina de Tony Stark também? Sem chance!
Afundo no sofá, acomodando a bolsa e a sacola da lavanderia ao meu lado.
— Isso é muito pessoal, Tony. Desculpe, prefiro não contar. Eu vim aqui como sua funcionária e só o que peço é que você se comporte como meu chefe.
— Tudo bem. — Ele senta perto de mim e propõe sem rodeios: — Eu te dou um aumento se você contar. Que tal?
Minha primeira reação é soltar uma risada diante de tamanho absurdo. Entretanto, ao perceber por sua expressão que Tony está falando sério, decido dar corda apenas para ver até onde ele vai:
— O que você quer saber, chefinho querido?
— Tudo, é claro. Inclusive os detalhes sórdidos.
Rio sem humor dessa vez e balanço a cabeça negativamente, sem acreditar no que acabei de ouvir.
— O que eu vou dizer não é nenhuma novidade, mas você é muito pervertido. E inconveniente. Podia apostar com Josh para descobrir qual dos dois me tira do sério primeiro.
Tony abre a boca e eu entendo de imediato que vai aproveitar meu último comentário para prosseguir com essa conversa maluca. Sou mais rápida e corto qualquer possibilidade ao pedir de um jeito mais sério:
— Posso esperar no escritório enquanto você toma um banho e se arruma? Se for tomar café, não tem problema, eu espero também.
Um rápido olhar para a sacola, que sem querer deixei meio aberta, e Tony se levanta. Com um olhar sonso e um notável e cretino sorrisinho, ele responde:
— Claro, me espere lá. Ou... se preferir, pode passar no laboratório do Dr. Banner e entregar as roupas dele primeiro. Tenho certeza que ele vai adorar uma visita surpresa, já que também parece ter caído da cama hoje. Fica a dica, Sra. Hulk.
Antes que eu tenha a oportunidade de assimilar o comentário sugestivo ou o apelido que faz meu coração palpitar, Stark já desapareceu num corredor e estou sozinha na sala. Sozinha com uma decisão a tomar. Devo ir direto para o seu escritório ou devo seguir o seu conselho?
Juro que não quero dar esse gostinho a Tony, mas quem eu estou tentando enganar? É óbvio que quero ver o Bruce primeiro. É óbvio que tenho que ir exatamente para onde quero ir.
***
À medida em que desço alguns andares e caminho pelo corredor que me levará ao laboratório, diminuo o ritmo dos passos. A ansiedade é um monstro que faz um nervosismo irracional crescer dentro de mim. Ao mesmo tempo, a expectativa por encontrar um certo alguém me faz retomar a determinação. Por fim, uma alegria genuína me invade quando o reconheço do outro lado do vidro que reveste o moderno lugar. É, estar apaixonada é uma montanha-russa de sensações difícil de explicar.
Bruce está distraído, concentrado em gráficos suspensos de forma holográfica diante dos seus olhos. Ele ajeita os óculos e faz anotações em um compacto computador ao seu lado na banqueta.
Analisando daqui, poderia ser apenas mais um cientista de jaleco no seu habitat natural. Mas, para mim, é o homem mais encantador que já andou sobre a Terra.
Finalmente o nervosismo vai embora e tenho certeza que estou exatamente onde devo estar, onde quero estar e com quem preciso estar.
Dou algumas batidas na porta para anunciar minha presença. Embora ela já esteja aberta, não entro ainda.
Mergulhado no trabalho e, portanto, sem olhar para mim, Bruce articula meio seco:
— Desista, Tony. Você não vai arrancar nada sobre ontem. A sua curiosidade já extrapolou todos os limites da inconveniência e não está me ajudando. Eu quero ficar sozinho, por favor.
Pobrezinho... Pelo visto, Tony também pressionou o coitado. Lembro que pareceu mesmo agitado há pouco, quando me recepcionou na sala, e agora entendo que eu não fui a primeira pessoa com quem Tony conversou depois de acordar. Antes de me azucrinar com comentários indiscretos, ele fez o mesmo com o amigo.
Controlo a vontade de rir da saia justa pela qual Bruce passou e me pronuncio:
— Oi.
Um segundo depois, ele olha para mim. De imediato, meu coração se aquece.
Há surpresa em sua expressão e outra coisa também. Há um calor que faz meu coração bater mais rápido, como se tivesse levado um susto, só que um susto bom.
O tempo parece congelar por segundos intermináveis. Sinto uma forte conexão e uma inegável felicidade me invadir. Definitivamente, sinto-me bem boba e cada vez mais à mercê dessa montanha-russa.
— Oi. — Meio atrapalhado, ele minimiza os dados suspensos e balbucia: — Desculpe, eu pensei que fosse...
— Tony? Percebi — interrompo e, em seguida, vou direto ao ponto: — Você quer ficar sozinho então?
Bruce finalmente relaxa, deixando um sorriso tímido e lindo romper seu semblante antes meio tenso.
— Não. Não mesmo — ele afirma com o olhar fixo no meu. — Você é bem-vinda, pode entrar.
— Quer dizer que ontem foi tão traumático que você não consegue nem se abrir com seu melhor amigo? — brinco ao cruzar a porta, logo dando a volta na banqueta.
Sem desviar o olhar de mim nem por um instante, Bruce justifica-se:
— Digamos que por ele ser o Tony dificulta um pouco as coisas.
Solto uma risada compreendendo o ponto, paro bem na sua frente e deixo escapar baixinho:
— É, sei como é.
— Ele não te... importunou, foi? — Bruce franze o cenho. Minha careta é a confirmação que ele precisa. — Oh... Eu vou matá-lo — ameaça, soando envergonhado por eu ter passado por tal situação.
— Esquece isso, eu não vim falar sobre ele — tento tranquilizá-lo, ao mesmo tempo em que me aproximo um pouco mais e insinuo: — Na verdade, eu não vim aqui para falar muito.
Abandono a sacola com suas roupas sobre a banqueta e o encaro. Alcanço seus óculos, retiro-os com calma e coloco sobre a superfície também. Sei que, a essa altura, Bruce sabe muito bem aonde pretendo chegar. Mesmo assim, decido esclarecer de vez com uma ordem sussurrada:
— Me beija.
É isso. Finalmente me sinto mais segura em relação a Bruce e ao que está rolando entre nós. O suficiente para lidar melhor com a avalanche de emoções que desperta em mim. O bastante para ser eu mesma apesar de, no fundo, ainda me sentir meio boba perto dele.
É por isso que não entendo absolutamente nada quando ele segura meu rosto de um jeito delicado, como se eu fosse quebrar, e ergue seu queixo ao mesmo tempo em que abaixa um pouco minha cabeça. E então, sem mais nem menos, deposita um beijo bem longe de onde eu gostaria. Bruce me beija na testa.
Embora uma parte de mim ache o gesto até fofo, pois me faz lembrar da maneira como se despediu na noite passada, minha reação imediata é rir com confusão e questionar:
— O que diabos foi isso? Eu virei freira e não fiquei sabendo? — A segunda é envolver sua nuca e tentar de novo: — Me beija de verdade, Bruce.
Por alguma razão, ele ainda hesita enquanto me encara com um olhar indecifrável, cheio de palavras não ditas. Por fim, solta a respiração e aproxima o rosto devagar, ao mesmo tempo em que fechamos os olhos. Quando encaixa sua boca na minha e envolve meus lábios sem pressa, meu corpo se aninha ao seu numa resposta natural.
O beijo, que começou calmo, teima em continuar calmo por mais que eu me esforce em vencer a inexplicável resistência de Bruce. Mesmo suas mãos na minha cintura parecem meio travadas em comparação com o calor que espalharam em minha pele ontem.
Frustrada e definitivamente confusa, rompo o contato e questiono:
— Por que você está se segurando?
Para minha infeliz surpresa, Bruce se afasta de vez, me soltando e recuando alguns passos. Sem olhar para mim, ele balbucia com culpa na voz:
— Você sabe por quê. Viu o que aconteceu ontem.
Não sou idiota nem tenho Alzheimer. Sei exatamente do que ele está falando.
— Certo... Quando as coisas ficaram meio verdes entre nós? — Dou alguns passos em sua direção. Reencontro seu olhar e o sustento até ele fazer o mesmo comigo. — Mas você controlou o Hulk. Nada aconteceu de verdade. Aliás, nós já conversamos sobre isso, ontem mesmo, e eu pensei que estava tudo esclarecido.
— E como eu disse ontem, podia ter acontecido — Bruce frisa, soando um tanto amargo. Não comigo, mas parece que com ele mesmo. Em seguida, é a doçura em pessoa quando emenda: — Eu quero encontrar uma solução, Amelia, um ponto de equilíbrio, mas preciso que você me ajude. Aparecer aqui tão linda e me beijar assim não está ajudando.
Arqueio as sobrancelhas ao mesmo tempo em que tento conter um sorriso apaixonado gerado por suas palavras e pelo efeito acelerador que causam no meu pulso.
— Se você quer que eu te ajude nisso, não pode me dizer esse tipo de coisa — aviso.
Bruce sorri fraco.
— Nós temos que ir devagar, é isso que quero dizer.
Como se meu corpo se recusasse a aceitar essa condição, me aproximo um pouco mais. Reduzo nossa distância a quase nada. Apenas alguns centímetros nos separam quando alcanço seu rosto. Faço um carinho em seu cabelo e analiso a situação de verdade, obrigando-me, inclusive, a reconhecer que foi a mesma coisa que Josh aconselhou.
Por outro lado, Bruce parece um coelhinho assustado e isso é encantador, além de muito excitante. Tenho que me segurar para respeitar o seu pedido.
— Tudo bem. — Respiro fundo e me dou por vencida. — Devagar se vai longe, é o que dizem.
Um longo momento se passa enquanto permanecemos assim. Perto um do outro e envoltos por uma tensão tangível. Não sou capaz de me afastar ainda. Parece que Bruce também não. Em parte pela mesa perto dele, em parte porque talvez não queira.
É engraçado pensar em como chegamos aqui. Depois de tantos desencontros e teimosia.
Algo na minha expressão deve ter denunciado a repentina introspecção, já que ele finalmente rompe o silêncio com uma pergunta:
— O que foi?
Demoro um pouco para colocar a cabeça em ordem e formular as palavras certas.
— Eu tentei esquecer você, Bruce. Tentei mesmo. Sorte a sua que não consegui.
Ele me encara e juro que vejo um meio sorriso percorrer seu rosto. Parecendo que gostou do que ouviu, retribui a confissão de um jeito calmo e firme ao mesmo tempo:
— Eu nem cheguei a tentar. Acho que porque, no fundo, sempre soube que seria impossível te tirar da minha cabeça.
Mais uma vez, suas palavras me atingem em cheio e causam um turbilhão dentro de mim impossível de traduzir. Só sei que é intenso e voraz.
Se por um lado é maravilhoso saber que Bruce pensou em mim esse tempo todo e foi incapaz de superar seja lá o que for que sente, por outro é impossível manter o controle agora. Nesse caso, tudo o que me resta é alertá-lo para o perigo iminente:
— Sinto muito, eu não consigo ir devagar depois dessa.
Sem me importar com mais nada, beijo-o de novo. Movida apenas por esse sentimento teimoso e irresistível que me tortura com um frio desolador quando estou longe de Bruce e me envolve em fogo quando estou com ele. Entrego-me ao que sinto e a quem quero, como se não houvesse amanhã. Sou aquecida cada vez mais por seus lábios, suas mãos, seu corpo junto ao meu, com a mesma intensidade das palavras que ele disse.
Estou ciente do auto controle que deve estar lutando para manter agora. Ainda assim, Bruce corresponde com o mesmo ardor carinhoso de ontem. Parece ter encontrado o ponto de equilíbrio, afinal. Se agarrando a ele, talvez. Está tentando.
Tudo estaria perfeito agora, se não fôssemos bruscamente interrompidos por alguém que entra no laboratório sem nem ao menos bater.
— Banner, relatório. Meu irmão disse que a Amy...
Já havia reconhecido o seu sotaque russo bem antes de me desvencilhar de Bruce e me voltar na direção da porta. Mesmo assim, não posso evitar a surpresa que sinto ao reconhecer a figura de Wanda Maximoff a poucos passos de nós.
O fato de ter se referido a mim e desistido do restante da sentença ao ver que eu estou bem aqui me deixa profundamente desconfortável. Mais do que isso, curiosa e desconfiada. A expressão pálida de Bruce só incrementa o alerta que acende dentro de mim.
Antes que eu diga qualquer coisa, sequer formule uma pergunta, um vento forte invade o ambiente, balançando meu cabelo e levantando alguns papéis espalhados em outra banqueta. Logo, Pietro para ao lado de Wanda e, sem me notar ainda, debocha:
— Esquece, você é muito lenta. O Capitão está te esperando no Quinjet, vai logo. Eu mesmo dou o relatório.
— Pietro... — Bruce o interrompe, soando mais desconfortável do que eu. Encurralado, eu diria. Como alguém pego em flagrante e desesperado para contornar a situação.
Quando o irmão de Wanda finalmente se volta em nossa direção, me vê e fica branco feito papel, tenho certeza que tem alguma coisa muito esquisita acontecendo.
O silêncio impera e alimenta a suspeita. Os gêmeos aprimorados e o alter ego do Hulk se entreolham de um jeito estranho, quase se comunicando em silêncio, como se eu não estivesse aqui, como se tivesse havido algum desencontro entre os três e que nos colocou nessa situação esquisita.
Irrito-me por me sentir excluída do mistério e envolvida nele ao mesmo tempo.
— Vão em frente, Bruce está esperando — desafio com o olhar cravado nos gêmeos. — O que vocês dois têm a dizer sobre mim? Espero que o relatório não seja muito extenso.
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