Notas iniciais
Oi, gente ^^ Antes tarde do que mais tarde, né non? Cheguei com mais um capítulo e ele é assim... bem importante. Um divisor de águas, por assim dizer *-* Não deu tempo de fazer aqueles banners lindos (cof cof...) que eu faço com meus dotes artísticos estupendos (cof cof...), então vou postar assim mesmo. Boa leitura!

Não importa o que entre no meu caminho
Contanto que ainda tenha vida em mim
Não importa o que aconteça, lembre-se
Eu sempre virei por você
Sim, eu vim por você
Por mais ninguém, só você.

I'd come for you — Nickelback

Há um ditado que diz que a mentira tem perna curta. Nos últimos tempos, é assim que eu tenho andado, me equilibrando como posso em suas pernas incertas enquanto oculto de Amelia a verdade sobre meu retorno.

Visivelmente desconfiada, ela olha de mim para os gêmeos Maximoff de forma constante, esperando que um de nós explique por qual razão seu nome foi mencionado junto com a palavra relatório.

Sinto-me mal por não poder abrir o jogo, mas é muito arriscado e não quero preocupá-la. Além disso, algo me diz que Amelia não ia gostar de saber que tem sido monitorada há semanas por Wanda e Pietro, com a supervisão de Steve e aval dos outros Vingadores, bem como da própria S.H.I.E.L.D. Pior, com o meu conhecimento. Inclusive, boa parte desse cerco a sua volta foi ideia minha. Assim que voltei, exigi que a sua segurança fosse redobrada. Claro que eu não esperava me reaproximar, tampouco me envolver de vez com ela.

Wanda e Pietro vieram para cá com Steve pouco antes do meu retorno. Desde então, vêm acompanhando Amelia a certa distância, sempre atentos caso alguém diferente se aproxime dela e seja necessário intervir por sua segurança. Isso não ocorreu até o momento, o que me deixa aliviado.

Os gêmeos ou Steve me reportam os passos de Amelia diariamente. Em geral, eles aguardam sua saída do prédio onde ela mora e a seguem, me avisando quando Amelia por fim chega ao seu destino em segurança. O trio fez isso por semanas, enquanto ela ainda ia para a sede das Indústrias Stark, e continua fazendo agora, que ela foi promovida e passou a trabalhar mais com Tony na Torre.

— Não é o que você está pensando — sibilo, sem conseguir formular algo melhor ou menos suspeito para dizer, porém ciente de que permanecer em silêncio não melhora a situação.

— Ótimo, porque eu não estou pensando nada, Bruce. Justamente porque não estou entendendo nada. Se não for pedir muito, uma explicação viria bem a calhar — Amelia pressiona com obstinação e ligeiramente nervosa. — O que está acontecendo? Por que você precisa de um relatório sobre mim?

Abro a boca na esperança de dizer algo para desconversar, inventar alguma desculpa convincente de última hora, qualquer coisa. Embora a ideia de mentir para Amelia não me agrade nem um pouco, simplesmente não tenho escolha. É melhor assim.

Para meu alivio, Pietro demonstra que é mais rápido com as palavras e se antecipa:

— Porque ele gosta de você. Não gosta, Bruce?

Quando ele se volta na minha direção com um brilho divertido no olhar e eu assimilo melhor suas palavras, o breve alívio se esvai, dando lugar a certo incômodo. Piora quando Amelia também me encara e engole em seco. Parece que ela tomou um susto e também ficou constrangida. Ainda assim, vejo uma curiosidade quase infantil no jeito que me olha. Como se, no fundo, ansiasse por uma confirmação.

Não tenho tempo de dizer coisa alguma, pois Wanda dá força à estratégia do irmão emendando:

— Começou com uma brincadeira de Stark, sabe... Como você tem vindo com mais frequência à Torre, ele pediu que um de nós sempre avise o Bruce.

Tentando controlar um falso riso, Pietro acrescenta:

— Sabe como é... Pra ele se preparar melhor e não se sentir tão idiota na sua frente. Acho que foi exatamente isso que Stark disse.

Enquanto Amelia demonstra que está ponderando o que ouviu e decidindo se acredita ou não, murmuro ainda mais envergonhado:

— Tão idiota como me sinto agora, obrigado.

Relatório foi um modo de dizer — Wanda frisa e troca um rápido olhar comigo. — Claro que nós não sabíamos que você estava aqui no laboratório. Pensei que tinha ido direto ao escritório do Tony.

Claramente, houve um desencontro e os dois perderam Amelia de vista por um momento. Bem aqui, embaixo do nariz, dentro da Torre. E se fosse lá fora? E se fosse uma situação de risco? Não consigo deixar de ficar um pouco paranoico ao imaginar esse cenário.

— Desculpe pela interrupção, aliás. Eu não sabia que vocês estavam se dando tão bem. — Pietro dá um tapinha no meu ombro, e desejo me transformar no Hulk para atirá-lo do outro lado da sala em um segundo. — Vamos deixar o casal a sós, irmãzinha?

Mal ele diz isso, e já está levando Wanda para longe de nós. Com uma rapidez exorbitante, que só perde para a velocidade da luz, os dois vão embora, deixando uma corrente forte de vento para trás.

Amelia está com a boca aberta, como se fosse pedir para eles esperarem um pouco mais. Já que não conseguiu, ela se dirige a mim:

— Há quanto tempo esses dois estão na Torre mesmo?

Não posso pensar demais para responder ou levantarei novas suspeitas.

— Pouco mais de um mês. Faz parte do treinamento como novos Vingadores, acho, não sei os detalhes. O Capitão mencionou uma missão ontem, parece que Wanda vai acompanhá-lo, mas o Pietro... vai ficar aqui por enquanto.

— Engraçado. — Amelia cruza os braços e estreita o olhar. — Se eu tivesse um reforço rápido como o Maximoff, não ia deixá-lo para trás.

Engulo em seco, me sentindo encurralado com a observação perspicaz.

— Steve deve saber o que está fazendo. — Percebo que não foi um argumento suficiente para Amelia e emendo meio aos gaguejos: — Se fosse necessário, ele o levaria... com certeza. Não deve ser então... Eu não entendo muito bem como a cabeça do Capitão funciona, mas... E como estive afastado de qualquer missão desde... Ultron...

— Você está nervoso, Bruce?

Sou interrompido de repente. Talvez porque a incapacidade de formular uma única frase que faça sentido tenha deixado Amelia mais desconfiada.

— O quê? — Esfrego a nuca, ciente, logo depois de fazer tal gesto sem perceber, que isso não transmitiu mais confiança. Muito pelo contrário.

— Parece nervoso — ela diz e, dessa vez, não é uma pergunta. — Tão nervoso quanto aqueles dois que acabaram de sair daqui. Estranho, né? Mais estranho ainda o Tony precisar deles pra te dar recados sobre mim quando tem a inteligência Sexta-Feira sempre à disposição.

— Eu não entendo como a cabeça do Tony funciona também, mas... como Wanda disse, é só uma brincadeira.

— Certo. Só uma brincadeira.

O tom seco de sarcasmo na voz de Amelia me deixa ainda mais tenso. Sinto que estou encurralado. É nítido que ela não foi convencida. Não sei o que fazer sobre isso e acabo fazendo a única coisa que não devia.

— Será que podemos mudar de assunto?

Digo algo ainda mais suspeito.

— Por quê? — Ela ri sem humor, provando que foi mesmo uma péssima estratégia. — O rumo da conversa está te deixando desconfortável?

— Não — nego por instinto. — Eu só não estou te... entendendo.

Também não parece ter sido uma boa ideia dizer isso. O jeito duro como Amelia me encara agora em nada lembra o olhar carinhoso que me lançou ao colocar os pés no laboratório. Ela está mais do que desconfiada, está ansiosa e brava comigo. Por um momento, acho até que vai voar no meu pescoço, abrir minha cabeça e me fazer entender qual é o ponto. Mas então, para meu alívio, respira fundo e sua expressão suaviza de forma gradativa.

— Tudo bem, eu explico — diz bem mais calma, ainda assim com um tom firme e sério. — Eu não sou idiota nem quero ser inconveniente. Sei muito bem que certas coisas não são da minha conta e que não posso exigir que você ou os outros Vingadores compartilhem com uma civil, mas... — Amelia faz uma pausa e me encara de um jeito penetrante. — Mas se tiver algo diferente rolando, algo importante que me envolva sei lá de que forma, você precisa me contar o que é, Bruce. Porque, nesse caso, é meu direito saber. Se você pensa que precisa mentir pra mim, adivinhe só, não precisa. Então não minta, porque eu vou ficar muito mais que brava se descobrir que você escondeu alguma coisa que eu devia saber. Do mesmo jeito, se tem algo te preocupando, se o problema é com você, pode me contar. Confia em mim.

Engulo em seco, temendo que Amelia possa enxergar a informação que venho mantendo em segredo desde que retornei apenas me olhando como está fazendo agora. Preciso parar de subestimar sua inteligência, eu sei. Mas fui pego de surpresa, não esperava que ela percebesse que tem algo errado assim, de uma hora para outra, com base apenas no meu comportamento e no dos gêmeos aprimorados. Realmente a subestimei.

Talvez seja errado esconder a verdade? Talvez. Porém, certo ou errado, continuo convicto de que revelar que um inimigo, que nem eu nem ninguém conseguiu descobrir quem é, a usou para me obrigar a sair das sombras, deixando claro que poderia fazer muito mais do que tirar simples fotos dela a distância, não parece ser uma boa ideia.

É uma péssima ideia, na realidade. Não posso fazer isso com Amelia, trazer um problema que é meu para a sua vida. Só por estar me envolvendo com ela, finalmente permitindo que essa história aconteça, sei que estou complicando ainda mais a situação.

Além disso, tenho vergonha de admitir que a coloquei em risco simplesmente por ter entrado em seu caminho. Acho que não revelar a verdade é uma forma de me sentir menos culpado também. E de ignorar o problema enquanto for possível.

Quando o problema for resolvido, poderei me abrir e contar tudo. Por enquanto, sinto que não posso.

Consciente de que o silêncio entre nós já se estendeu por tempo demais e Amelia ainda aguarda uma resposta, finalmente me pronuncio:

— Eu confio em você.

Sou sincero quando afirmo isso. Manter a ameaça longe do seu conhecimento não tem absolutamente nada a ver com confiança, tem a ver com a minha necessidade, cada vez mais forte, de protegê-la e não preocupá-la com um problema meu.

— Não tem nada acontecendo, Amelia — minto, e não me sinto bem por isso, mas precisa ser assim. — Nada que te envolva. Só as investigações de sempre. A Nat descobriu uma pista sobre Brock Rumlow, até onde eu sei. Steve está em alerta por causa disso, mas é só.

Amelia me analisa de forma atenta e aproxima-se aos poucos, voltando a me deixar tenso e apreensivo. Quando penso que continuo em maus lençóis, sua expressão se suaviza de novo e ela assente ainda com o olhar cravado no meu:

— Tudo bem. Eu acredito em você, Bruce. Eu sempre vou escolher acreditar em você.

Uma ponta de culpa arranha a superfície da minha consciência quando ela me abraça com suavidade por um momento relativamente demorado, como que para selar a paz e encerrar o assunto. É estranho perceber que não fiquei aliviado por ela acreditar; me sinto péssimo, ao invés disso.

— Eu preciso ir. O dever me chama — Amelia muda de assunto, recuando um pouco e indicando a saída atrás de si.

— Ok.

Pode ser apenas imaginação, mas ainda vejo certa cisma em seus olhos. Então eles se fecham quando ela se reaproxima um segundo depois e sua boca encontra a minha em um beijo rápido e terno.

O toque suave dos seus lábios faz cada parte do meu corpo se aquecer. Porém, tudo esfria de maneira drástica e igualmente veloz, quando Amelia se despede com um sorriso amarelo e deixa o laboratório sem olhar para trás.

Sozinho, me pergunto se ela realmente acreditou em mim e por quanto tempo mais vou conseguir sustentar essa situação. Uma parte de mim também questiona se tenho mesmo que mentir, se realmente não tenho escolha ou se, no fundo, estou inventando desculpas.

Algumas horas depois

Descobri que Amelia deixou a Torre ao fim do expediente. Sem falar comigo. Fiquei esperando que ela fosse reaparecer entre uma pausa e outra, mas isso não ocorreu. Isso é, no mínimo, bem estranho.

Tudo bem que Tony pode ter exigido muito dela durante o trabalho, mas isso não explica por que Amelia nem ao menos se despediu de mim no fim da tarde.

Intrigado, olho o celular pela milésima vez a fim de checar se ela enviou alguma mensagem, mas não há qualquer registro disso. Há apenas uma mensagem atual, de Pietro, avisando que ela chegou em casa, que está tudo bem no perímetro e ficará de guarda até que um agente da S.H.I.E.L.D. o substitua durante a madrugada.

Por um momento, enquanto tomo banho, cogito procurar por Steve na Torre e pedir alguns conselhos sobre essa situação. Não existe a menor dúvida de que ele é um homem sábio e tem sido um bom amigo há algum tempo. Então lembro que ele não está, saiu para a tal missão que mencionou ontem.

Lembro de Tony também, é claro. E descarto a ideia no mesmo instante. Apesar de considerá-lo o meu melhor amigo, tenho que estar muito desesperado para tocar no assunto Amelia com ele e aguentar suas piadas embaraçosas. Além disso, algo me diz que ele me incentivaria a revelar a verdade, quando tudo que preciso é alguém que afirme que estou agindo da maneira correta.

É então que percebo que Steve e Tony não são as pessoas com quem eu realmente quero conversar agora. Preciso falar com ela. Apenas Amelia pode esclarecer o porquê de não ter me procurado no resto do dia. E é a única pessoa capaz de me convencer a mudar de ideia, de quem sabe me fazer enxergar que tenho sim outra escolha.

Pensando assim, me visto e deixo a Torre dos Vingadores minutos depois, conseguindo — não sei como — desviar do caminho de um distraído Tony, em um dos corredores, no último instante.

Quando cruzo o hall do prédio de Amelia, o celular vibra no meu bolso. Imaginando que é uma mensagem dela e que irá me tranquilizar, demoro a entender que, na verdade, é apenas Pietro me importunando:

“Você por aqui, Dr. Banner? Vou me afastar e dar mais privacidade a vocês dois, tudo bem? Vai fundo ♥"

Olho para trás, na direção da movimentada rua lá fora, estreitando o olhar. Mas não consigo encontrar o infeliz em parte alguma. Além de estar à paisana, Pietro pode se movimentar tão rápido que eu não conseguiria vê-lo de qualquer forma.

— Era só o que me faltava... — resmungo num tom baixo. Além de Tony, agora vou ter que aguentar o gêmeo aprimorado bancando o engraçadinho também.

Aperto o botão do elevador segundos depois e logo estou diante da porta de Amelia. Preparo-me para tocar a campainha, mas o ruído de chave na fechadura me detém. Quando ela abre a porta de repente, distraída com algo que está segurando com firmeza, me condeno por não ter ligado antes de vir.

No que eu estava pensando quando decidi aparecer assim?

— Bruce! — Ela encontra meu olhar e sinto sua surpresa me atingir em cheio. Tentando segurar a tal coisa inquieta com certa dificuldade, indaga de um jeito natural: — O que você está fazendo aqui?

Eu devia mesmo ter ligado antes.

Sentindo-me meio idiota e ciente de que estou incomodando, esfrego a nuca a fim de dissipar a tensão e balbucio sem jeito:

— Desculpe, eu... É uma hora ruim?

Finalmente vejo que Amelia está segurando a guia do seu enorme São Bernardo, tentando mantê-lo sob controle, enquanto o animal se mexe o tempo todo e me encara com uma expressão simpática e agitada.

— Você está de saída, claro. Eu devia... — Respiro fundo e observo o cachorro mais uma vez. Claramente ansioso para dar um passeio. — Eu volto depois.

Antes que eu me afaste, Amelia me retém ao disparar:

— Não, tudo bem! Eu só vou levar o Hulk para dar uma volta. — Ela disfarça um riso, como se tivesse dito algo engraçado sem perceber. — Então... você, como alter ego, pode vir com a gente se quiser.

Fico sem reação por um momento, assimilando a piada. Depois, limito-me a seguir Amelia e o tal cachorro até o elevador, perguntando-me o que eu fiz para merecer que ele carregue justo esse nome.

Tudo bem, acho que ter me distanciado por um ano inteiro e voltado sem avisar nada podem explicar a motivação de Amelia. De fato, devo merecer, embora me lembre dela ter dito que a escolha foi uma homenagem.

A porta se abre antes que eu consiga romper o estranho silêncio que nos acompanhou durante a descida até o térreo.

— Vamos, Hulk. — Amelia guia o animal para fora. Faz um carinho em seu dorso quando ele obedece de pronto. — Isso mesmo, bom menino. Gosto assim.

Limito-me a segui-la em silêncio mais uma vez. E permaneço monossilábico durante os quinze minutos que separam o prédio do Central Park. Faço apenas breves comentários — a maioria, meros gemidos de concordância — durante todo o trajeto.

***

Depois que a minha versão de quatro patas gasta todas as energias numa relaxante caminhada, vamos para uma cafeteria da região. Como não ser permitidos animais no interior do estabelecimento, Amelia se acomoda numa mesa externa e prende a guia do Hulk no encosto da cadeira, enquanto lhe fornece água em um bebedouro portátil. Me junto aos dois logo depois de comprar um tipo de bebida fria à base de café e chantilly para ela e um chá gelado para mim.

Em silêncio, observo a noite caindo aos poucos sobre a cidade que nunca dorme, enquanto uma brisa suave espalha o ar do verão por toda a parte. Sinto uma vibração proveniente do celular, mas decido ignorar a próxima piadinha de Pietro, provavelmente oculto nas sombras.

Quando torno a olhar para Amelia, ela está me encarando de um jeito tão fixo que indago por puro instinto:

— O que foi?

— Eu é que pergunto. O Hulk aqui está falando mais que você. — Ela faz um afago no cachorro e me encara de novo. — Acontece que ele não fala, Bruce. O que você tem?

Sei exatamente o que eu devia fazer agora. Me abrir, contar o que está me incomodando, ter uma conversa franca sobre hoje cedo. Porém, sem saber por onde começar ou mesmo se é uma boa ideia, desconverso:

— Nada.

É visível que Amelia não acredita. Com um olhar mais inquisidor, muda de estratégia:

— Por que resolveu me fazer uma visita surpresa?

— Por... nada também.

Acuado, bebo um longo gole do chá e observo o tráfego ficando mais denso. A refrescância gélida é um alívio para a garganta, mas em nada me ajuda a relaxar. Ao contrário, fico cada vez mais tenso e com uma sensação de incerteza apitando dentro de mim. Parece que foi uma péssima ideia ter vindo atrás de Amelia e me sinto meio bobo por ter agido por puro impulso. Parece que eu perdi a noção de muitas coisas ao me apaixonar. Estou perdendo o controle e me sentindo sufocado por mentir para ela.

— Certo. — Ela abaixa o olhar com tangível insatisfação e gira o copo entre as mãos sobre a mesa. Aos resmungos, acrescenta com ironia: — Conversa legal. Bem produtiva.

Analiso-a por um momento e me dou conta, pela segunda vez hoje, que não estou sendo justo ao subestimar sua inteligência. É óbvio que estou incomodado, é óbvio que Amelia captou isso no ar, é óbvio que é infantil continuar negando.

— Tudo bem — assinto e, quando ela ergue o olhar para mim, tomo coragem e vou direto ao ponto: — Quando você disse que acreditava em mim, estava falando sério?

— Por que a dúvida? — Amelia une as sobrancelhas. — Eu disse que sempre vou escolher acreditar em você.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Eu tenho algum motivo para não acreditar?

É impressão minha ou Amelia está jogando com as palavras?

— Também não foi isso — pontuo, tentando manter o foco e não me comprometer.

— Não entendi. — Ela apoia os braços na mesa, inclinando-se mais à frente e exalando um princípio de irritação. — Você quer que eu acredite na sua palavra ou não? Decide, meu bem.

Me sentindo levemente irritado também — mais comigo do que com ela —, coço a nuca por um segundo e anuncio:

— Eu vou refazer a pergunta.

Não tenho tempo de prosseguir, pois antes disso Amelia me corta de um jeito muito direto:

— Não precisa. Eu não sei se acredito em você. Satisfeito? — Ela joga as costas na cadeira e continua gesticulando enquanto sua voz sobe alguns oitavos: — O que eu disse mais cedo é que todo mundo têm os seus segredos, Bruce. Eu tenho os meus também e alguns te deixariam de cabelo em pé. Mas eu decidi te dar um voto de confiança. E pra falar a verdade, estou começando a me perguntar se fiz certo. Você está muito esquisito.

Olho ao redor e os rostos que observam nossa mesa — de certo, atraídos pela elevação da voz de Amelia — logo disfarçam e vão cuidar de suas bebidas e conversas particulares.

— Por que você foi embora sem falar comigo então? — recomeço, falando baixo, mas ainda assim deixando a insatisfação transparente no ar.

Amelia dá de ombros e cruza os braços contra o peito.

— Eu não sei. — Talvez percebendo que essa não é uma resposta válida, se explica melhor: — Eu estava cansada do trabalho e tentando evitar mais comentários constrangedores do Tony sobre a gente. Além disso, você podia ter ido falar comigo também. Eu imaginei que estava muito ocupado pra isso e não quis te atrapalhar.

Continuo a encarando, tentando me convencer de que foi apenas isso que aconteceu. E parece que meu olhar incisivo volta a irritá-la, já que, segundos depois, Amelia eleva a voz mais uma vez:

— Por que o drama, Bruce? O que você quer que eu diga de tão diferente?

— Não é drama, eu só quero que você me diga se está tudo bem — esclareço, embora no fundo eu esteja começando a me perguntar se não estou mesmo fazendo uma tempestade num copo d'água.

— E por que não estaria tudo bem? Tem algum motivo para não estar?

Tempestade em copo d’água ou não, a postura de Amelia também começa a me tirar um pouco do sério. Não me dar respostas claras só atiça ainda mais minha insegurança e cisma, como se elas fossem justificáveis e não apenas frutos da imaginação.

— Viu? É exatamente disso que eu estou falando!. Por que você sempre responde uma pergunta com outra? — questiono firme.

— Sei lá, Bruce! Talvez porque eu não tenho ideia de onde você quer chegar com essa conversa esquisita!

Recosto-me na cadeira e termino o chá, ao mesmo tempo em que também tento entender para onde essa conversa está indo e em que momento ela ganhou proporções tão estressantes. Tenho que manter a calma. A última coisa que desejaria agora seria me transformar no Hulk.

O trânsito está cada vez mais caótico e buzinas ressoam por toda a cidade.

— Agora você está com raiva, ótimo — observo baixinho.

Amelia estreita o olhar em minha direção e também diminui o tom. Mas sua voz soa ameaçadora mesmo assim:

— Nem de longe. Quando eu estiver realmente com raiva, você vai saber, acredite.

Sem medir as palavras, deixo escapar:

— Eu já tive algumas amostras da sua fúria, não preciso de um lembrete, obrigado.

O silêncio paira entre nós. Sinto que passei da conta e me arrependo tão logo Amelia me fulmina com o olhar.

Por que estamos discutindo mesmo?

Aos nossos pés, o São Bernardo apoia a cabeça entre as patas e abaixa as orelhas, parecendo apreensivo. No bolso do casaco, meu celular vibra de novo, indicando uma nova notificação de mensagem. Ignoro mais uma vez.

Por um momento, acho que Amelia vai me bater ou, na melhor das hipóteses, se levantar e ir embora. Ela parece confusa e cansada dessa conversa insana. Para ser bem sincero, eu também estou.

Para minha surpresa, quando volta a se manifestar, está relativamente calma:

— Eu te esperei por um ano, Bruce. Isso é o máximo de paciência que alguém conseguiu tirar de mim. Eu gosto de você, de estar com você, do que finalmente está rolando entre a gente. Mas não gosto de perder tempo discutindo a relação, muito menos quando se trata de discussões sem sentido como essa. Pra esse tipo de coisa, minha paciência é zero. Não abuse.

Seu argumento me atinge em cheio. Absorvo cada palavra e percebo que fiz mesmo uma tempestade num copo d'água. Me deixei levar pelo peso na consciência.

O problema é que já era difícil mentir para Amelia antes, quando tinha certeza que não iríamos ficar frente a frente de novo. Agora que estamos juntos, é ainda pior e mais complicado.

Reconheço que passei da conta, meti os pés pelas mãos e, provavelmente, levantei novas suspeitas com minha postura. E tudo isso só reafirma como é ruim não poder ser totalmente sincero com ela. Algo que me faz ponderar, de novo, se realmente não posso ou se também estou exagerando em deixá-la longe da verdade como venho fazendo desde que voltei.

Coloco a mão na consciência e digo a única coisa sincera que tenho certeza que posso dizer agora:

— Eu não quero brigar com você, Amelia. Nunca quis.

Meio no susto, como que dominada por uma última nuance de raiva involuntária, ela alfineta:

— Então cala a boca. — Ao se dar conta do que falou, sorri de leve, meio constrangida, e toca minha mão sobre a mesa. — Digo, então não brigue.

O sorriso se alarga quando eu retribuo o gesto e entrelaço seus dedos, ao mesmo tempo em que alcanço seu rosto com a outra mão e arrumo uma mecha de cabelo atrás da sua orelha.

A tensão entre nós se dissipa consideravelmente até não restar mais nada de ruim no ar.

— Você tem toda a razão, me desculpe. Eu nem sei o que estava dizendo... — admito, esboçando um sorriso tímido e culpado.

— Então não diz mais nada.

Envolto pelo clima agradável que substituiu o anterior, decido levar tal conselho ao pé da letra. Aproveitando que minha mão ainda está no rosto dela, trago Amelia para perto de mim e selo nossos lábios com um beijo calmo e repleto de significado.

Um sentimento avassalador e uma aconchegante serenidade se misturam e se alastram por cada parte da minha consciência. Um calor forte se espalha em mim, enquanto o celular vibra de novo.

Quando rompo o contato devagar, Amelia me deixa zonzo com o brilho intenso em seus olhos cravados nos meus. De um jeito sugestivo, ela faz um trocadilho:

— Agora você está falando a minha língua.

Sorrio, me rendendo irremediavelmente aos seus encantos, enquanto ela se arrasta para a cadeira ao meu lado, ficando mais perto de mim e ainda me encarando de um jeito penetrante.

— Eu não sei mais o que estou fazendo — sibilo, me justificando. — Quando se trata de você, eu fico totalmente no escuro, perdido.

Amelia me encara de um jeito carinhoso, esboça um sorriso cheio de promessas e profetiza:

— Deixa comigo. Eu te acho, acendo todas as luzes e te ajudo a se encontrar de novo sempre que você precisar.

É a última coisa que ela diz antes de unir sua boca à minha, logo me envolvendo com um beijo mais ousado que o primeiro. Mais caloroso, mais profundo, mais demorado e mais desconcertante. Um beijo que abala todas as minhas defesas e faz meu pulso acelerar perigosamente.

Lembrando-me do Hulk e também de outro detalhe importante, afasto um pouco o rosto e digo:

— Tem pessoas aqui. Elas estão olhando.

Com as retinas em chamas, Amelia indaga divertida:

— Isso é um convite para um lugar mais reservado, Dr. Banner?

Apesar do tom de brincadeira, logo percebo que ela está falando sério. E logo constato que meu corpo fica mais quente com a simples alusão a essa ideia.

Entretanto, fora a dificuldade técnica acerca do Hulk, outro problema ainda maior me impede de me entregar ao desejo que Amelia desperta em mim e me render a sua proposta.

Acontece que eu não posso tentar. Não posso nem imaginar que é possível encontrar um caminho para ficar de verdade com ela. Não enquanto ainda estou mentindo sobre a ameaça que me trouxe de volta. Não depois de ter olhado nos olhos dela e afirmado que não tem nada de importante acontecendo.

Nesse exato momento, percebo que estou errado e não posso mais continuar seguindo por esse caminho de mentiras e desculpas. Tenho que ser sincero com Amelia de uma vez por todas. Não posso mantê-la no escuro. Não é justo com ela.

— Eu não posso — explano meu pensamento.

Com dificuldade, aplaco o calor, resisto ao desejo e me afasto um pouco.

— Por causa do Hulk, certo? — ela deduz, voltando a se aproximar e percorrendo minha camisa com a ponta do dedo indicador com círculos suaves.

Surpreso com minha própria decisão e principalmente por ter demorado tanto tempo para enxergar algo tão óbvio, seguro suas mãos com cuidado e verbalizo com mais clareza e determinação:

— Eu não posso mais mentir para você. Pensei que podia, que era única opção, mas eu preciso te contar o que está acontecendo. O que está realmente acontecendo. Você tinha razão, Amelia, é seu direito saber. Você pode estar em perigo por minha causa.

A decisão ganha força dentro de mim enquanto seu sorriso malicioso se esvai. Amelia deve entender do que eu estou falando, já que recua e me encara apreensiva e séria, esperando a verdade pela qual tanto pediu. Não parece de maneira alguma surpresa por ter a confirmação que menti nos últimos tempos. Mas parece bem insatisfeita.

— Eu voltei por sua causa. Para te proteger. A S.H.I.E.L.D recebeu...

Paro de falar, procurando as palavras certas e formulando um resumo que não a assuste tanto.

— Como assim? Recebeu o quê? — ela indaga, me pressionando a prosseguir.

Amelia diz outra coisa na sequência, porém sua voz soa incrivelmente baixa e distante, pois é abafada por um estrondo repentino e muito alto que se propaga no ar com uma velocidade brutal.

O ar vibra com uma força massacrante espalhando uma onda de energia por toda a parte, estilhaçando vidros de lojas, prédios e janelas de carros pelo caminho. Uma gritaria ensurdecedora disputa espaço com um zumbido incômodo nos meus ouvidos, enquanto estilhaços voam até onde estamos.

Uma bomba.

O cachorro Hulk levanta apavorado e sai correndo em disparada pela avenida adiante, arrastando a cadeira na qual sua guia ainda está amarrada.

Agarro Amelia por instinto, puxo seu corpo até mim o mais rápido que consigo. Me jogo no chão com ela, movido pela necessidade urgente de protegê-la. Cubro seu corpo trêmulo com o peso do meu, ao mesmo tempo em que uma coisa disputa a atenção dos meus ouvidos: as batidas aceleradas e dolorosas do meu coração.

— Não fique verde! — ela pede no susto.

Não sei de onde tiro controle para me arrastar para longe dela ao ouvir isso. Tudo o que sei é que o mundo está girando mais rápido do que consigo acompanhar e todas as sensações estão entrando em pane.

Atordoado, vejo as veias da minha mão sobre o chão coberto de cacos. Elas estão ficando mais visíveis, saltadas e... verdes.

— Não... — Luto para retomar o controle, enquanto a característica fúria do Hulk vai despertando dentro de mim.

A situação estressante e o efeito em meu lado humano impedem que eu me acalme o suficiente para que os níveis de adrenalina no sangue se estabilizem.

O Hulk se agita na minha mente e luta com mais determinação para romper a superfície do meu ser. Atiçado pela risco iminente a minha volta, não parece que irá me obedecer como ontem, quando consegui controlá-lo.

Em algum momento em meio ao caos violento e gritos ao redor, vejo Amelia levantar cambaleando e dar a volta no que restou da mesa. Num lampejo rápido, também consigo distinguir a nuvem de fumaça densa e escura que toma conta de um dos andares de um shopping do outro lado da avenida.

As mensagens que ignorei... O que diziam? De quem eram?

Minha cabeça lateja dolorosamente e sinto que, a qualquer momento, vou perder o controle do meu corpo. Não importa quantas vezes eu já tenha me transformado, é sempre assustador e muito doloroso.

— Bruce?

Busco a imagem de Amelia e, quando a encontro bem diante de mim, com uma expressão atônita, o Hulk se detém de um jeito estranho na minha consciência. É como se a observasse através dos meus olhos desfocados. Como se hesitasse ou recuasse um pouco atrás de um véu.

— Corre — ordeno, sufocado e temendo que a transformação aconteça a qualquer momento.

Para meu desespero, Amelia não se move um centímetro.

Notas finais
Nas notas iniciais, eu queria dizer que o capítulo ia ser bombástico kkkkkkkkkk mas ia ser muito spoiler... Isso aí, parece que as coisas saíram dos trilhos, não é mesmo? Que que tá contecendo? Queria dizer que teremos algumas respostas no próximo capítulo, mas só posso prometer caos... caos everywhere :-D Justo agora que o Bruce parou de frescura e ia contar o babado, né? Bjs e fiquem à vontade para comentar, teorizar, anything ♥