A Bela e a Fera
9 Capítulo 9
Capítulo 9
Além da colina, além do muro de pedra que cercava a casa, Rachel estava parada à beira-mar, os dedos dos pés enterrando-se na areia, as mãos enterradas nos bolsos da jaqueta. Sentia-se mal por pressionar Brittany, mas nunca conhecera uma mulher tão teimosa quanto a Senhora do castelo Pierce. O vento levantava os cabelos macios fazendo-a estremecer. Mais chuva, mais trovões, pensou, dizendo a si mesma que seria bom checar se havia previsão de furacões. Olhando para a casa, viu a figura que descia correndo o caminho às escuras.
Era Brittany. Ele desapareceu junto ao portão para ressurgir em seguida, correndo na direção dela, num passo firme. Imediatamente Rachel recuou. Ela usava um capuz e um abrigo escuro, que o deixavam quase invisível na noite iluminada apenas pelas luzes de segurança que vinham da casa.
Ao vê-la, ela parou.
Por um instante, ela hesitou, mas logo se virou, andando na direção da casa.
— Rachel — disse ela, ao vê-la passar, sem fitá-la.
— Não quero que Melaine fique na casa sozinha.
— Os alarmes estão ligados.
— Isso não faz diferença se ela acordar e começar a me procurar. Por ela, não por mim, pensou Brittany sentindo a frustração dominá-la. Mas era por isso que Rachel estava ali. Para cuidar de Melaine e amá-la. Para fazer tudo que ela não podia.
— Rachel, espere.
— O quê? Outra discussão? Já sabe o que sinto.
— Sei? Uma noite se entrega nos meus braços, e na outra fica furiosa.
— Com razão, nas duas situações — disparou ela. — O beijo não tem nada a ver com a sua filha e com o quanto ela deseja estar com você.
— Eu sei — disse Brittany, aproximando-se. — Só queria ter certeza se você sabia. Rachel deu um passo para trás.
— Não vamos falar sobre isso — disse, lutando contra o impulso de atirar-se nos braços dela e beijá-la de novo. Como ela sempre conseguia arranjar um jeito de ficar na sombra?
— Isso não fará com que desapareça — retrucou ela. Um silêncio pesado pairou no ar, e Rachel podia ouvir-lhe a respiração, o vento contra as roupas dela, até que falou novamente:
— Nem eu quero isso.
Ela também não queria esquecer, mas precisava dizer o que sentia.
— Não gosto que me usem.
— Não sou aquela idiota que fez você sofrer, Rachel.
— Isso não importa. O beijo apenas mostrou como podemos perder a cabeça facilmente. — E como poderia ser maravilhoso, acrescentou, em silêncio. — Eu estava disponível, e quem eu era não fazia muita diferença.
— Por que diz isso?
— Gosto da verdade. É mais fácil encará-la.
— Então está vivendo uma mentira. — De repente, ela aproximou-se, e dessa vez, Rachel não recuou. — Nunca usei uma mulher. E amei apenas uma vez na vida. — Ela respirou fundo.
— E nada se compara ao que sinto quando você está perto. Rachel sentiu os joelhos fraquejarem, o coração disparar.
— E apenas atração.
— Atração eu conheço. É algo apenas temporário.
— E eu sou apenas temporária em sua vida, Brittany — disse Rachel, tentando manter a voz firme.
— Meu Deus, o que essa mulher fez com você? — perguntou ela, detestando aquela frieza, e querendo saber o que a causara.
Ela ergueu o queixo, num gesto de desafio.
— Ela me pediu em casamento, e cometi o erro de aceitar, acreditando que me amava. Dois dias antes do casamento, soube que iria casar-se comigo por causa de meus títulos de beleza, para me exibir para a sociedade.
Brittany murmurou, demonstrando compaixão, mas ela não queria piedade. Já bastavam as irmãs e os amigos, tentando confortá-la.
— Cassandra pretendia continuar com a amante, e eu seria um troféu para mostrar aos amigos, receber visitas e gerar um lindo casal de filhos. — Ela sacudiu a cabeça, fitando o mar. — E eu não queria nada — disse, virando-se para Brittany —, além de amor.
— Ela foi um tola, egoísta e arrogante. — Aquela mulher maravilhosa a amara e a idiota não reconhecera seu valor, pensou Brittany.
— Também prefiro pensar assim. Ela segurou-a pelo braço, e Rachel estremeceu de expectativa. Mesmo assim, reagiu.
— Não, Brittany. Não posso me envolver com você.
— Acho que não tem mais jeito... está na minha casa, cuidando da minha filha... e me deixando louca. — Ela baixou a cabeça.
O perfume dela a envolvia, e o calor do corpo de Brittany aquecia a pele, protegendo-a do vento. Rachel não podia mentir para si mesma. Apesar de saber que era arriscado, que poderia magoar-se outra vez, já que ela não sairia para a luz, nem por ela, nem pela filha, não pôde resistir. Queria que ela a beijasse novamente, precisava saber se o que havia sentido na escada era verdadeiro, se o toque dela realmente podia fazê-la arder. Ou seria apenas o mistério do rosto e do corpo que não podia ver, a dor que escondia nas sombras? Ou seria apenas o erotismo daquela voz sedutora, que vinha das sombras e parecia enfeitiçá-la?
Brittany sentiu o gosto de Rachel, antes mesmo de seus lábios se tocarem. Ouviu o gemido abafado, pedindo mais. Então, a boca de Brittany devorou a dela, e o calor espalhou-se por seu corpo, penetrando nos ossos, como um fogo incontrolável.
— Rachel — murmurou, e ela enterrou os dedos no casaco dela, puxando-a para mais perto.
— Não devíamos... — As mãos dela deslizaram pelo busto, mas Brittany segurou-lhe os pulsos, prendendo-os atrás das costas de Rachel.
— Não — gritou ela, o desejo transformando-se em raiva. — Não posso — ofegou, afastando os lábios dos dela. — Não consigo viver assim. Se não confiar em mim, não pode haver nada entre nós.
Ela lutou para livrar-se, e imediatamente Brittany soltou seus pulsos. Rachel não olhou para trás, enquanto corria para a casa, o corpo ansiando pelo dela, o coração partido.
Brittany viu-a afastar-se, tentando recuperar o fôlego. Aquilo não estava acontecendo, não podia ser, disse a si mesmo, o corpo ardendo de desejo. Mas, no mesmo instante, viu-se como uma imitação patética da mulher que fora um dia. E detestou.
Depois de uma corrida que testou até o limite seus músculos doloridos, Brittany voltou para casa, pegando um copo de água antes de subir. Ao passar pela sala, encontrou um dos desenhos de Rachel sobre a mesinha de café. Era um esboço de Melaine, dormindo na poltrona, com a gatinha. Havia outro, da casa, e mais um, de Melaine sorrindo graciosamente. O que a surpreendeu não foi apenas o fato de que eram muito bem-feitos, mas o amor que era possível detectar em cada traço. E tinham sido feitos num bloco simples, a lápis. Brittany pegou um dos desenhos de Melaine e dirigiu-se ao quarto, quase sem se importar em ser descoberta vagando pela casa. Sabia que Rachel faria de tudo para evitá-la.
Os dois dias seguintes provaram que estava certo.
Rachel deixava as refeições na porta da suíte, com uma batida na porta, e não mais do que duas palavras. Sabia que, se falasse com ela, às lembranças voltariam, e o desejo também. Também sabia que não iria adiantar, mas precisava de tempo para pôr a cabeça e o coração, no lugar. No entanto, cada vez que pensava nela, ficava mais confusa.
Melaine parecia especialmente feliz naquele dia, e Rachel tentou se concentrar na menina, para esquecer suas apreensões. Andaram na praia, catando conchas, que lavaram e colaram na moldura de um espelho antigo que ela encontrara na garagem. Um dos lados da garagem estava todo desarrumado, enquanto o outro estava em ordem e limpo. Rachel imaginou que muitas daquelas caixas deviam ter pertencido à ex-mulher de Brittany, e guardavam lembranças do casamento.
— Quer pintá-lo para combinar com seu quarto? — perguntou Rachel, e Melaine negou, com um gesto de cabeça.
— Quero dá-lo para a mama.
Rachel piscou, surpresa, mas logo sorriu.
— Aposto que ela vai adorar.
— Vou levar para ela.
— Querida, não sei se é uma boa idéia. — Mas Melaine já corria para a casa, o tesouro apertado contra o peito. Rachel seguiu-a, alcançando-a na escada. — Espere, Melaine. Precisa secar. Por que não põe em seu quarto, por enquanto?
— Não! Quero dar para ela!
Melaine soltou-se da mão de Rachel e correu escada acima. Mas Rachel foi mais rápida e alcançou-a, abraçando-a contra o peito.
— Solte-me!
— Querida, não pode vê-la. Ninguém pode.
Melaine começou a chorar e Rachel sentou-se nos degraus, abraçando-a carinhosamente e pondo de lado o espelho. Algumas conchas caíram, e a menina passou os braços e pernas à volta de Rachel, soluçando.
— O que está acontecendo aí?
Rachel não respondeu à voz que soava no interfone, sussurrando palavras carinhosas para a menina e carregando-a escada acima, sem esquecer do tesouro. Os soluços de Melaine diminuíram quando Rachel colocou-a na cama, tirando-lhe os sapatos. Embora fosse a hora em que costumava dormir, lutava contra o sono.
— Quero Serabi. — Ela pediu chorosa
Afastando os cabelos do rosto da menina, Rachel sorriu.
— Vou buscá-la.
Assim que saiu do quarto, Melaine sentou-se, desceu da cama, e empurrou a cadeira da escrivaninha até a parede. Equilibrando-se na ponta dos pés, apertou o botão do interfone.
— Mama? Tenho um presente para você. Eu mesma fiz. É um espelho.
Ela não respondeu.
— Mama?
— Foi muito gentil, querida. Tenho certeza de que é lindo.
— Você não quer?
— Quero, sim. Muito.
— Então venha buscá-lo — disse Melaine, em tom de choro.
— Não posso, querida.
— Pode, sim! — gritou Melaine. — Vi você na praia. Pode, sim. Rachel entrou, trazendo a gatinha. Ouvira o suficiente para saber o que estava acontecendo. O gemido doloroso de Brittany ecoou no interfone.
— Venha, querida — disse, tirando Melaine da cadeira e carregando-a para a cama.
A menina começou a chorar outra vez, chutando as cobertas.
— Não vou lhe dar Serabi, se continuar assim.
A garotinha suspirou, fitando-a .Os lindos olhos azuis revelavam tristeza.
— Desculpe-me — murmurou.
— Não é sua culpa, meu bem. Sei que está zangada porque sua mãe não veio até aqui. — E eu também, pensou Rachel. — Mas precisa se acalmar. Prometo que darei o espelho a ela.
— Como pode vê-la, e eu não?
— Também não a vi.
— Mas ela estava na cozinha com você!
— Estava escuro. Eu não a vi.
— Oh!
— Agora durma um pouco e descanse. Quem sabe mais tarde possamos dar uma volta de cavalo.
— Está bem — respondeu ela, pegando a gatinha. Rachel sacudiu a cabeça.
— Acho que Serabi não está com sono. — E como se quisesse confirmar que ela tinha razão, a gatinha escapou para o chão e correu.
Melaine pareceu subitamente muito só. Não podia deixá-la sozinha.
Rachel tomou-a nos braços, carregando-a para o próprio quarto, onde a colocou na cama. Tirando os sapatos, deitou-se ao lado da menina, que logo se aconchegou a ela. Colocando uma colcha sobre as duas, Rachel continuou sussurrando palavras doces.
— Eu gosto muito de você, Melaine —- sussurrou, antes de adormecer.
— Eu também de você — disse Melaine.
Brittany ficou parado no quarto de Rachel, observando-as enquanto dormiam. Queria deitar-se na cama com elas, abraçá-las. E amaldiçoou o momento em que vidro e metal haviam dilacerado seu corpo e sua vida.
Sentia-se como um monstro acorrentado, que magoava todos que gostavam dela, quando tentavam se aproximar. Estava tão feliz por ter as duas em sua vida, e só agora percebia como era solitário antes disso. A emoção, de repente, tomara conta do Castelo Pierce. Podia senti-la no ar. E sabia que, quando Rachel acordasse, haveria silêncio total, ou palavras duras. E não estava ansioso por isso.
Olhando para o espelho que segurava, observou a moldura coberta de conchas. Não havia espelhos no andar superior. Não precisava deles, nem mesmo para pentear os cabelos. Não queria recordar por que era melhor ficar longe dos outros, por que ninguém gostava de ver sua imagem.
Mas iria guardá-lo, vendo refletidas nela as imagens de Melaine e Rachel, abraçadas, como mãe e filha. E saberia que jamais poderia tê-las.
Deixando um bilhete para Melaine, agradeceu pelo presente e saiu do quarto, sentindo no ar o perfume de Rachel, que parecia estar preso às suas roupas. Subindo a escada que levava à torre, fechou a porta atrás de si, deixando o mundo do lado de fora e desejando que pudesse fazer o mesmo com seu coração.
Fale com o autor