Capítulo 10

Apesar de uma dor de cabeça insistente, Rachel cumpriu a promessa e cavalgou com Melaine pela praia. A garotinha adorou e logo sorria novamente. Para ela, no entanto, sorrir exigia esforço.

Depois de um jantar leve, um banho e algumas histórias, Melaine adormeceu e Rachel ficou sozinha no andar térreo, na biblioteca de Brittany. Tinha encontrado uma caixa na garagem, com papéis e fotos antigas, e esperava encontrar uma foto das mães juntas para dar a Melaine. Tinha certeza de que isso daria à menina mais segurança e conforto. Enroscada na poltrona de couro, com um copo de vinho a seu lado, examinou as pilhas de fotos e papéis. Alguns eram muito velhos, estavam grudados e estragados pela umidade. Então encontrou um envelope plástico com recortes de jornal. Espalhando-os sobre a escrivaninha, pegou o maior deles. A manchete dizia: Empresária Brittany Pierce envolvida em acidente de trem.

Havia a foto de um carro, todo retorcido e ainda preso às ferragens dianteiras do trem. Ela podia imaginar que pedaços do carro tinham sido cortados para tirá-la de lá.

Então, leu o artigo sobre o acidente. Uma mulher grávida tinha sofrido um ataque epilético e o carro dela ficara preso nos trilhos. Brittany tentara tirar a mulher, mas as pernas dela estavam presas, e não conseguiu. Testemunhas tinham relatado que ela voltara ao próprio carro, e com ela tentara empurrar o carro da mulher, para tirá-lo dos trilhos. Mas o tempo não fora suficiente para que escapasse. O trem tinha batido na traseira do carro de Brittany com toda a força, e segundo as testemunhas, ela fora arrastada por mais de um quilômetro, até ser atirado pela janela.

As mãos de Rachel tremiam ao ler o artigo, que falava dos negócios de Brittany, dos prêmios que recebera e das atividades filantrópicas que costumava realizar.

No fim da página havia uma foto dela, incrivelmente bonita e atraente, de vestido de gala, e ao lado, a foto da maca na qual fora transportado para a ambulância. O lado esquerdo e a cabeça estavam cobertos. O braço pendia, coberto de sangue, a na mão apenas era visível o anel de sinete.

Rachel pegou outro artigo. Brittany Pierce é gravemente ferida, dizia a manchete. Pierce sai do hospital, dizia outra. Cirurgiões plásticos dizem que os danos foram grandes demais. Pierce recusa-se a dar entrevistas. Havia outro artigo falando do prêmio que recebera da cidade de Charleston, com a foto da mulher e do bebê que ela salvara. Santana recebera o prêmio por ela, e suas únicas palavras tinham sido: A recuperação da minha mulher será lenta e difícil. Ela não estava pensando nas conseqüências ao salvar a Sra. Sara, mas apesar dos ferimentos graves, não está arrependida.

Mesmo no jornal, o comentário de Santana pareceu amargo para Rachel. Olhando dentro da caixa, encontrou a placa de metal. Pelo generoso ato de bravura, esquecendo da própria segurança... a cidade de Charleston homenageia sua filha mais corajosa...

Uma heroína. Havia mais prêmios e elogios nos outros recortes, e em nenhuma das ocasiões Brittany aparecera para recebê-los.

Quem teria guardado tudo aquilo? Nem por um segundo imaginou que Brittany o tivesse feito. Achava que Troy era o responsável, já que Santana a deixara, incapaz de viver com a mulher que virou quando as ataduras tinham sido retiradas.

Ela suspirou, pensando que talvez não fosse bem assim. Talvez elas já estivessem enfrentando uma crise conjugal e o acidente fora apenas o pretexto final para separá-las. Mas tinha a sensação de que a atitude de Santana a afetara tão profundamente que por isso escolhera viver nas sombras. Rachel imaginou como teria sido a vida dela se a esposa a tivesse aceitado como era e permanecido a seu lado. Ela deveria ter orgulho da coragem e generosidade da mulher. Mas preferira abandoná-la.

Pondo de lado os artigos, voltou à atenção para as fotos, tentando encontrar uma para Melaine. Por fim, achou uma que mostrava Santana e Brittany juntas, e ao fitar os olhos dela na foto, viu Melaine. Será que o sorriso também era igual? Ela vira apenas parte do rosto dela, naquele dia em que rachava lenha.

De repente, sentiu que era observada.

— Isso é assustador, Brittany. Pare, ou um dia desses vai acabar me apavorando de verdade, e acabarei machucando você para me defender. Onde você está? — insistiu, incapaz de vê-la no escuro.

— Aqui. — Ela acenou, e ela a viu junto à armadura que ficava num canto. Era difícil dizer qual era a mulher e qual era a estrutura de metal.

— Prefere que eu apague todas as luzes para poder se esconder melhor?

— Pelo jeito, hoje você está ainda mais sarcástica.

— Bem, então não é tão tola quanto pensei.

— O que quer dizer com isso?

— Que não vou precisar lhe dizer mais uma vez como magoou Melaine.

Ela se mexeu, puxando uma cadeira de espaldar alto para a sombra e sentando-se.

— Devia ter me ajudado, Rachel. Sabe que eu não queria magoá-la. — Um suspiro pesado ecoou na sala, e Rachel pôde sentir o sofrimento dela. — Parece que não consigo fazer nada direito ultimamente.

— É porque ainda não se acostumou com intrusos no seu santuário.

— Mas isso não me impediu de magoar minha garotinha.

— Não foi de propósito, eu sei. Mas quero que entenda...

— Está bem. Continue.

— Esta rotina não está funcionando, e temos que pensar em outra coisa. Melaine vai perdoá-la, Brittany. Aliás, já perdoou.

— Um espelho, Rachel... Pelo amor de Deus. Rachel piscou, surpresa.

— Oh, Brittany... Eu não tinha pensado nisso.

Havia espelhos no quarto dela, nos banheiros, mas em nenhum outro lugar.

— Era apenas algo que estava aprendendo a fazer. E desejou dá-lo a você.

— Eu sei — disse ela, a voz revelando arrependimento. — Tenho que compensá-la de algum modo.

— Sei que o fará. — Mas não sabia como. — Li sobre o acidente — declarou, indicando com um gesto os recortes.

— Não gosto que fique mexendo nas minhas coisas — retrucou ela, tenso.

— Poderia ter encontrado tudo na Internet, você sabe. Ela concordou, mas mesmo assim não estava feliz por vê-la remexer o passado.

— O que você fez foi um ato generoso, cheio de coragem.

— Poderia ter matado a nós duas — resmungou ela.

— Pelo contrário. Sua ação rápida salvou vidas. Um ser humano por nascer e a mãe.

— Soube que ela nasceu poucas horas depois do acidente.

— Viu a Sra. Sara e o filha?

— Não. — Ela sacudiu a cabeça. — Os médicos disseram que ela foi ao hospital, mas Santy não permitiu que entrasse. Mais tarde ela me escreveu. Deu a filha o meu nome. — A menina deve ser poucos meses mais velha do que Melaine — comentou, só então dando-se conta disso.

— Santana não permitiu que ela agradecesse a você pessoalmente?

— Eu não estava com disposição para receber elogios.

— Você ou Santana?

— O quê?

O tom dela era defensivo, e deixava claro que era melhor parar por ali. Mas Rachel insistiu.

— Como se sentiu ao acordar depois do acidente?

— Feliz por estar vivo. Feliz por elas estarem vivos. Mas estava tão dopada pelos sedativos, que mal me lembro das primeiras semanas.

Alguns momentos se passaram. Rachel bebericava o vinho, e Brittany continuava sentado no escuro. Ela podia ver o contorno da cadeira, e o abajur na escrivaninha oferecia uma visão parcial dela, da cintura para baixo, revelando a calça preta e o roupão. Estava descalço, com os pés cruzados nos tornozelos. Pés perfeitos, pensou Rachel, com um sorriso.

— E como Santana se sentiu?

— Ela não falava a respeito.

— Foi o que imaginei.

— O que esperava? A mulher dela foi esmagada por um trem para salvar outra mulher.

— Isso é o que ela pensou, Brittany. Não precisa defendê-la. Você nem conhecia a mulher e teria feito a mesma coisa se tratasse de um homem. Seu gesto foi instintivo. Santana não se conformou por você ter arriscado sua vida. E mais ainda quando viu as conseqüências.

Houve uma longa pausa, e então ela falou:

— Tem razão. — As palavras foram acompanhadas por um longo suspiro. — Lembro-me de que perguntou como pude fazer aquilo com ela... conosco. Foi então que a fiquei conhecendo realmente. Ela começou a trazer os melhores cirurgiões do país, pedindo uma opinião após a outra, sem obter a resposta que esperava.

— E qual era?

— Que meu rosto voltasse a ser como antes.

O egoísmo de Santana tinha se revelado nessa única frase, e Rachel sentiu o coração apertar-se ao imaginar a dor de Brittany.

— E então ela quis se separar?

— Não — continuou ela, num tom amargo. — Ainda ficamos mais algum tempo juntas. Quero dizer, não exatamente juntas... Ela dormia no quarto de hóspedes, com a desculpa de que não queria bater nos meus ferimentos durante a noite.

Os sinais da gravidez já deviam estar aparecendo, e ela queria escondê-los, pensou Rachel.

— E não deixou que a tocasse, não é?

Ela estava quieta, imóvel, e ela podia sentir a dor e a humilhação.

— Não. Mas não posso culpá-la. Não depois de ver minha imagem no espelho.

— Mas eu posso.

— Como?

— Se ela a amasse de verdade, não teria se importado.

— Eu não era exatamente uma princesa encantada.

— E daí? Agora também não é. Ela riu, baixinho.

— Essa sua franqueza eu adoro.

A última palavra fez Rachel estremecer.

— Continue, sei que não acabou.

— Você estava sofrendo, se recuperando de um trauma terrível. Eu li os artigos. — A voz dela não escondia a raiva da mulher que a abandonara num momento tão difícil. — Ficou semanas no hospital, enfrentou tratamentos prolongados, fisioterapia. Pelo que sofreu, tem sorte de estar viva. — O osso da coxa fora substituído por uma placa de metal, o quadril esquerdo estilhaçado, assim como todo o lado esquerdo do corpo. O ombro tinha sido esmagado, e havia pinos de metal no braço, nos dedos e nas costelas. — Sua determinação para curar-se foi admirável.

Brittany ergueu bruscamente a cabeça. Além dos médicos, ela era a primeira pessoa a dizer isso. Depois do acidente, ouvindo Santana culpá-la pelo que sofrera e pelo que tinha feito com a vida dela, decidira lutar.
— Estava tentando provar a ela que nada mudara entre nós. Depois de algum tempo, percebi que não fazia diferença. Ela já me olhava de um modo diferente.
— Como?
— Como se eu não fosse uma mulher, mas uma criatura repulsiva.

— Oh, Brittany.
A compreensão de Rachel a atingiu, fazendo-a estremecer. Ainda assim, continuou:
— Ela dormia sozinha, comia sozinha, até que, numa manhã, eu estava sozinha. Ela não conseguiu me encarar nem para dizer adeus. — Ela se mexeu na cadeira. — Deixou uma carta.
Quanta frieza e crueldade, pensou Rachel, mas não disse nada.
— Percebi que eu a levara a agir assim. Não. Não me defenda. Por favor, Rachel. Eu era a menina de ouro, que transformava em ouro tudo que tocava. E todos queriam estar perto de mim. — Era como se ela falasse de outra pessoa. — Tudo era fácil. A liberdade, o alto padrão de vida e o dinheiro. E só quando vi aquela mulher grávida presa nas ferragens, lutando para respirar, percebi quem realmente era. Naquele momento, percebi o que minha alma desejava. Era como se eu não tivesse vivido até então. — A voz tornou-se um sussurro. — Era a única coisa que eu podia fazer. A coisa certa. E Santana me acusava por tê-la feito, e tentava me fazer voltar ao que era antes, trazendo um cirurgião atrás do outro, deixando claro como sentia repulsa pelo que eu me transformara. Eu estava com raiva do mundo, por me mostrar uma mulher que eu não tinha certeza se queria ser.

Discretamente Rachel enxugou as lágrimas que escorriam pelo rosto, tentando manter a voz firme:
— E agora?
— Sei que não mudaria nada que aconteceu naquela noite. — Ela riu, baixinho. — Exceto talvez, ter pisado mais forte no acelerador.

Notas finais
Querem mas um capitulo?