A Bela e a Fera
8 Capítulo 8
Capítulo 8
Brittany ouviu o caminhão, a campainha da porta, e imaginou por que o entregador não deixara os pacotes na escada, como de costume. E então, entendeu. Rachel. Os boatos deviam correr depressa na cidade, e todos estavam curiosos para ver a bela mulher que estava no castelo, com a fera medonha que se escondia na escuridão, pensou Brittany, com um sorriso amargo. Mas Rachel não se importava com admiradores.
Ela mesma dissera que os homens e mulheres se interessavam apenas por sua beleza. Até mesmo a mulher a quem amara. A mulher que a enganara, traíra, magoara-a a ponto de fazê-la abandonar o emprego na embaixada. E que era uma idiota, decidiu Brittany, e não merecia uma mulher como Rachel Berry. Ela era carinhosa, generosa, e merecia uma mulher que a apreciasse. Ela vira a humilhação nos lindos olhos castanhos, a vergonha e a raiva, que não tinham desaparecido. Há quanto tempo teria acontecido? Quem seria ela?
Olhando para o pátio, logo abaixo, viu Rachel sentada à mesa de piquenique, observando Melaine brincar e desenhando alguma coisa num bloco. Quando o entregador se aproximou, deixou o bloco de lado e assinou o recibo de entrega, indicando com um gesto os degraus dos fundos, onde poderia deixar os pacotes. Mas o entregador não foi embora. Em vez disso, sentou-se ao lado de Rachel. Bem perto. Fitando-a intensamente.
Brittany rangeu os dentes quando ela riu de algo que o rapaz dissera, e ofereceu-lhe café da garrafa térmica que estava sobre a mesa.
Será que ele não tinha mais nada para entregar?
Troy apareceu. Brittany pensou que a expressão sisuda do amigo seria suficiente para afastar o rapaz. Mas se enganou. Rachel serviu café a Troy, e embora ele tomasse o café depressa, olhando para o entregador com ar muito sério, o jovem, muito bonito, e no mínimo cinco anos mais jovem do que Rachel, pareceu não perceber. Brittany teve vontade de abrir a janela e gritar, dizendo ao sujeito para ir embora. Estava com ciúme. Louca de ciúme, admitiu, passando a mão pela cicatriz do rosto.
Ótimo. Era exatamente o que precisava.
Não parecia fazer diferença o fato e não tinha direito de ter ciúme de Rachel. Ela não lhe pertencia. Tinha apenas Melaine, e sem Rachel, até mesmo cuidar dela seria difícil. Rachel, Troy, Melaine... Eles eram a família que vivia na casa. Ela era apenas uma sombra. Um eco da mulher que fora um dia. Oh, Deus, como a vida dela havia se transformado naquilo?
Nunca pensara em si mesmo como uma covarde, e era contra sua natureza agir assim. Só estava se escondendo para poupá-las. Não queria ser fonte de pesadelos para nenhuma delas.
Uma batida soou na porta atrás dela, e Brittany desviou o olhar da janela. Sabia que era a empregada, a Sra. Campello pedindo a ela que esperasse um minuto, entrou no hall da escada de serviço e dirigiu-se ao segundo andar. A empregada não demoraria muito, pensou, enquanto atravessava os corredores, parando entre o quarto de Melaine e o de Rachel. Tinha vontade de entrar no quarto de Rachel e espiar, mas não seria honesto. Entrando no quarto de Melaine, recolheu alguns brinquedos e checou a estrutura da cama alta. Logo ouviu risadas novamente e espiou pela janela. Melaine corria em círculos, enquanto a gatinha tentava pegar os laços dos tênis da menina. Agarrando a cortina, amassou o tecido delicado com força. Daria tudo para estar ali, rindo, com a filha, sorrindo para Rachel, sentindo o sol no rosto. De repente, Rachel virou-se, o olhar dirigido exatamente para onde ela estava.
Mesmo à distância, ela viu a fúria nos olhos castanhos. Por que estava tão zangada? Era ela quem estava flertando com o entregador. O rapaz acompanhou o olhar dela e rapidamente devolveu-lhe a xícara, tocando o boné num gesto de despedida ao partir.
Rachel deu as costas para Brittany, despediu-se do entregador e sorriu para Melaine, que engatinhava ao lado da gatinha. Era bom vê-la sorrir outra vez. A menina andava triste, desde aquela noite em que a mãe estivera tão perto, na cozinha, mas se recusara a vê-la. Os sentimentos de Melaine tinham sido feridos, e quando perguntara por que a mãe não a queria, a raiva de Rachel tinha aumentado.
Só que isso não a impedia de desejá-la, cada vez que ouvia a voz dela.
Tinha que parar de pensar nela, lembrou-se, mais uma vez. Cassandra a desejara pela beleza, e agora Brittany fazia o mesmo. Era melhor cuidar de Melaine, ensiná-la a tratar da gatinha, que agora usava uma coleira verde, com um sininho que tilintava enquanto tentava agarrar os cordões dos tênis.
O novo membro da família agora tinha um nome. Serabi. A própria Melaine o escolhera, assistindo a desenhos na tevê.
Rachel tornou a pegar o bloco e concluiu o desenho que fizera de Melaine. Desenhar fora seu hobby, quando era mais jovem, e embora ainda adorasse essa arte, nunca mais desenhara depois de deixar a faculdade. A empregada estava limpando a casa, e ela tinha pouco a fazer, além de cuidar de Melaine. Sorrindo, viu a menina colocar a gatinha dentro do casaco. O amor que sentia por aquela criança crescia cada vez mais.
É tudo que tem, disse uma vozinha que não queria ouvir. Então, por que a semana passada tinha sido tão feliz, tão diferente dos dias ao lado de Cassandra? Afastando esses pensamentos perturbadores, voltou a desenhar, até que o vento forte obrigou-as a entrar em casa.
Assim que entraram, Serabi correu para investigar todas as portas e frestas dentro de casa. Melaine já ia segui-la quando Rachel a impediu.
— Espere. Primeiro você vai se lavar, enquanto eu preparo o jantar.
Melaine gemeu dramaticamente, mas obedeceu, entrando no banheiro.
— Vou inspecionar suas mãos, senhorita.
— Sim, senhora — respondeu a menina, e Rachel sorriu, pegando uma frigideira e os ingredientes para fazer o macarrão cabelo-de-anjo especial que Melaine gostava. Quando a menina voltou do banheiro, Rachel mandou-a para a sala para procurar a gatinha e assistir a um desenho. O zumbido do interfone ecoou na cozinha. Virando-se, ela apertou o botão.
— Chamou, minha Senhora?
— Está perdendo seu talento para a comédia nessa cozinha. Ela sorriu, sentindo que a raiva diminuía.
— Incrível, não é?
— Por que aquele entregador demorou tanto?
Será que estava com ciúme?, pensou Rachel.
— Estava apenas sendo gentil.
— É mesmo?
— Sim. É um bom rapaz, que está estudando muito para terminar o mestrado.
— Pouco me importa o que faz. Não quero estranhos perto da minha filha.
— Entendo. Mas acho que Troy e eu podemos protegê-la muito bem.
— Pense um pouco, Rachel. Sou uma mulher muito rica, e não quero que ninguém seqüestre minha filha por causa de um resgate milionário.
— Não acha que está exagerando?
— Não, não acho.
— Então o que isso significa? Que não podemos ter visitas? Nem sair de casa? Espera realmente que Melaine se transforme numa eremita, sem motivo nenhum? — Ela ergueu o indicador, como se ela estivesse a sua frente. — Pois me deixe dizer-lhe uma coisa. Isso não vai acontecer! Não enquanto eu estiver por aqui. Ela precisa ir para a escola, brincar com outras crianças. Sente falta dos amigos, da casa e da mãe, e não se esqueça, Sra. Pierce, fui contratada para cuidar dela. E se não confia em mim para protegê-la — disparou, num tom decidido —, trate de descer e cuidar dela sozinha!
— Espere, eu... — a voz dela ressoou no interfone. — Está zangada comigo?
Ela inclinou-se, falando bem perto do aparelho:
— Não. Estou furiosa. Feriu os sentimentos de Melaine na outra noite. Estava a alguns metros dela e recusou-se a vê-la. — Rachel respirou fundo. — Ela sentiu-se rejeitada, ferida. E acha que não a quer aqui.
— O quê?
— O que acha que uma garotinha de quatro anos pode pensar ao perceber que a própria mãe não quer vê-la nem falar com ela? Que estranho, não é? Como pode sentir-se rejeitada? — provocou Rachel, sarcástica.
— Droga!
— Concordo. O que pretende fazer a esse respeito?
— O que posso fazer?
— Desça e venha falar com ela.
— Acha que não quero isso? Mas não vou aterrorizar minha própria filha.
— Ela a ama incondicionalmente. É algo que as mães conseguem dos filhos, sem precisar fazer nada em troca. — Rachel desligou o interfone, recusando-se a continuar. Mas depois de alguns instantes, apertou o botão mais uma vez. — É sua vez de jogar. Faça-o agora, ou saia de campo.
— O que quer dizer com isso? — A voz dela parecia ameaçadora, mas Rachel não se importou.
— Fique escondido até ela esquecer que tem outra mãe, até que aprenda a viver sozinha. Talvez seja melhor. — Ela desligou novamente, voltando a preparar o jantar.
Brittany chamou-a duas vezes, mas Rachel não atendeu. Por fim, recostou-se na poltrona de couro, esfregando as mãos no rosto. Mulher teimosa. Quem ela pensava que era para ensinar-lhe como cuidar da filha? Era apenas a babá, mais nada. Ela estabelecia as regras. Melaine era sua filha, e iria criá-la como achasse melhor.
Brittany estava amarrando os tênis, quando viu a patinha branca sob a porta e ouviu o miado. Endireitando-se, abriu a porta. A gatinha espiou, erguendo o olhar para vê-la. Era impossível não sorrir. A gatinha esfregou-se nos tornozelos dela, ronronando, e Brittany abaixou-se, pegando-a no colo.
— Está invadindo meu quarto, Serabi.
Era tarde, a casa estava silenciosa. Melaine estava na cama, e ela imaginava que Rachel estaria no quarto, ou no andar de baixo. Já fazia algum tempo que não ouvia qualquer ruído. A gatinha miou, e Brittany apertou-a contra o peito, decidida a levá-la de volta para a filha, antes de sair para a corrida noturna. Mas a gatinha deslizou para cima, lambendo-a no pescoço. Ela estremeceu, ansiosa pelo contato com outra criatura viva, e enterrou o rosto no pelo macio, enquanto descia as escadas. Serabi ronronou mais alto.
Brittany entrou silenciosamente no quarto de Melaine, iluminado apenas pela pequena lâmpada num dos cantos. Ela colocou a gatinha na cama e observou-a, enquanto ajeitava o cobertor. A mão da menina imediatamente pousou nas costas do animalzinho.
Ela pensa que você não a quer aqui, dissera Rachel. Desde aquela manhã, ela tentava pensar num modo de fazer a menina entender que era a melhor coisa que acontecera em sua vida.
Que precisava muito dela. Cuidadosamente, sentou-se na beirada da cama, observando-a dormir. Serabi ergueu a cabeça, lançou-lhe um olhar sonolento e voltou a dormir.
Melaine espreguiçou-se e Brittany ficou tensa.
Os olhos dela se entreabriram e ela ficou imóvel, o coração disparado. Estava tão escuro que não podia ver mais do que a silhueta dela. Não queria que pensasse que havia algo estranho ali.
— Mama?
Ela ouviu a voz trêmula e rezou para que não estivesse com medo.
— Sim, princesa?
— Está zangada?
— Não, querida. Por que achou que estaria?
— Nunca vem me ver.
— Estou aqui agora, não estou?
Houve uma pausa, e então ela respondeu:
— Sim, acho que sim.
Brittany fez o que não deveria. Inclinando-se, tomou-a nos braços. A gatinha protestou, e ela colocou-a sobre o travesseiro. Os braços de Melaine rodearam-lhe o pescoço, e ela aninhou-se. A garganta de Brittany apertou-se, e ela sussurrou, junto ao ouvido da menina:
— Eu te amo, Melaine. Te amo demais. Estou tão feliz por estar comigo agora...
— De verdade?
— É claro, meu bem. Eu te amo muito. Gostaria de poder ir lá fora, brincar com você, mas é impossível.
— Por quê?
— Porque... não posso ficar no sol.
— Seus cortes ainda doem, mama? Mamãe disse que foram muito fundos.
Brittany fechou os olhos. Fundos? Eles tinham atingido até sua alma.
— Sim, querida. Às vezes doem muito.
De um modo que ela esperava que ela jamais sentisse.
— Oh! — Melaine suspirou, aninhando o corpo quente e macio contra o peito dela. — Uma vez eu caí e machuquei o joelho. Doeu muito tempo.
Brittany sentiu a garganta seca. Ela tentava demonstrar que compreendia, e o coração dela apertou-se.
— Eu estava tão sozinha até você chegar filha!
— Eu também, mama. — A mão delicada tocou a cicatriz na garganta dela, sem parecer notá-la. — Eu te amo — sussurrou, bocejando em seguida.
Amor incondicional, dissera Rachel. E perdão? Ela acariciou-a e ninou-a, sem vontade de deixar o presente tão precioso que a vida lhe dera. Os braços dela afrouxaram o aperto, e ela percebeu que adormecera. Afastando a gatinha, delicadamente colocou Melaine na cama. Serabi ajeitou-se, e as duas bocejaram.
Brittany afastou-se.
— Não vá, mama.
Ela sorriu ternamente e sussurrou:
— Vou ficar aqui, meu bem. — E sentando-se na cadeira de balanço, pegou um livro de histórias. Os olhos de Melaine se abriram, e no escuro, ela começou, baixinho:
— Era uma vez, numa terra distante, uma linda garotinha...
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