Notas iniciais
O capítulo que todos esperavam

Capítulo 14

Parte dela sofria pela mulher gentil e terna, forçada a esconder-se. Pela mulher que desejava poupar sofrimento aos outros, mas sofria sozinha, escondida nas sombras.
Rachel percebeu como gostava de Brittany. E teve medo. Tinha sido muito magoada por Cassandra, mas reconhecia que Brittany era capaz de enxergar além das aparências.
De certo modo eram parecidas. O acidente mudara a vida dela por completo, alterando planos e prioridades. O noivado rompido mudara a sua vida, fazendo-a perceber que podia confiar em poucas pessoas. E que era difícil encontrar alguém que a visse como era realmente, e não apenas sua beleza.
Brittany achava que era bonita demais para querer uma mulher como ela. Mas não percebia que ela não enxergava as cicatrizes, não notava como ela procurava esconder que mancava levemente. Ela havia se encantado com a voz na escuridão, com os beijos ardentes que deixavam seu corpo em fogo, com a mulher que conseguira ver nela a artista escondida.
E imaginou como podia ter se apaixonado por uma mulher que não podia confiar nela, nem mesmo o suficiente para mostrar-lhe o rosto.
Em seu quarto, Brittany andava de um lado para o outro, como uma fera enjaulada. Além das paredes, a tempestade rugia, e ela sentia cada raio, cada trovão, ecoando em seu corpo. Passando os dedos nos cabelos, ainda molhados do banho, esfregou a nuca dolorida. Queria ir até ela, tocá-la, mesmo sabendo como era perigoso. Para as duas.
A noite anterior provara isso. Bastara um toque e todo o autocontrole desaparecera.
Rachel queria o que ela não podia lhe dar. Permitir que outro ser humano, além de Troy o visse. Ela não entendia o que isso significava. Ela não podia correr o risco. E se ela a rejeitasse? Como ela se sentiria depois?
Viver nas sombras estava acabando com ela, deixando-a mais infeliz a cada dia. Sentia falta do sol, de entrar numa sala com as luzes acesas.
Sentia falta de Rachel.
Brittany olhou para a grande porta em arco, percebendo que o vento rugia tão forte nos corredores que parecia querer abri-la.
Andando até ela, colocou a mão na maçaneta decorada. Por um momento, viu as cicatrizes na pele e flexionou os dedos. Então, virou a maçaneta e abriu-a.
Rachel estava sentada na poltrona, junto à janela, com as pernas dobradas para o lado. Apenas uma pequena lâmpada brilhava no canto do quarto, e percebeu como se acostumara ao escuro.
Um raio caiu bem perto, a luz tremeluziu, apagou e voltou em seguida.
Naquele instante, soube que Brittany estava ali. Seu corpo estremeceu de antecipação, e apertando o roupão contra o corpo, virou-se para a porta.
— Por que está aqui?
— Honestamente, não sei.
Pelo menos, era sincera, pensou Rachel.
— Sente-se — convidou.
Ela deu um passo na direção dela e parou.
— Meu Deus, está gelado aqui dentro — disse, indo até a lareira e colocando mais lenha.
— Não estou com frio.
— Está úmido. Vai acabar doente. -E talvez a luz acabe. — Brittany acendeu um fósforo e a pequena chama iluminou suavemente seu rosto.
Rachel viu as marcas no pescoço.
— Não precisava fazer isso.
— Eu sei.
— Saia, Brittany.
— Já está cansada da minha companhia?
— É claro que não. Mas sei que não é seguro. — Ela suspirou.
— Você nem imagina o quanto eu desejo que me toque. Mas quero mais além de estar em seus braços — confessou, com sinceridade. — Quero tudo de você.
Ela ficou parada, segurando um pedaço de madeira que ia colocar nas chamas.
— Não quero apenas a mulher nas sombras, a voz que me faz sentir viva quando diz meu nome. Não apenas o corpo, que não me deixa tocar por completo. — Ela parou, como se precisasse de coragem. — Já tive a metade do amor e da atenção de uma mulher antes. Já tive as migalhas... — Rachel engoliu em seco, antes de continuar: — Não vou aceitar isso de novo.
Quando ela não respondeu, o coração de Rachel apertou-se e a dor foi quase insuportável. Por fim, ela falou, lentamente:
— Não poderemos ter nada, se não confiar em mim. Tudo parece temporário, como se tivéssemos usando uma a outra.
Por um longo momento, apenas fitou-a, travando uma batalha interna entre o que desejava e o que não podia ter. Brittany ergueu a mão para ela e convidou:
— Venha para mim, Rachel. Enquanto ainda tenho forças. — A mão dela tremia. — Venha ver o monstro que deseja que a toque.
— Você não é um monstro. — Rachel levantou-se, olhando para a mão estendida no ar. Os dedos de Brittany tremiam, e ela apressou-se para ela, segurando-lhe a mão e apertando-a contra o rosto.
— Oh, Rachel — gemeu Brittany. Ela puxou-a para a sombra.
— No escuro — sussurrou — somos iguais. Não, shh... Não sou a antiga rainha da beleza. Você não tem cicatrizes. Somos apenas duas pessoas, Brittany . Não existe nada além disso.
— Não podemos ficar aqui, e na luz...
— Na luz somos duas pessoas, cada qual com suas imperfeições. — Ela ergueu o olhar, vendo a silhueta das cicatrizes que ela escondera por tanto tempo, mas não com nitidez. — Me mostre.
Brittany respirou fundo, sabendo que aquele era o momento em que perderia tudo que tinha conseguido e que tanto desejava. Virou-se para o fogo, lentamente, levando-a consigo.
A luz espalhou-se sobre o rosto de Brittany, que se encolheu, num gesto instintivo, embora não deixasse de fitá-la. Ela esperou. Esperou pela repugnância, pela rejeição no rosto de Rachel.
Mas nada aconteceu.
Rachel observou-a, lentamente, sentindo a tensão que a dominava, como se esperasse vê-la sair correndo dali. Mas não iria a lugar algum. Ela encontrara coragem para mostrar-se, e não iria decepcioná-la. Aquele momento significava muito para ela, revelando-lhe coisas que Brittany não conseguira dizer. E aquela confiança era o maior presente que poderia receber.
Ela ainda era uma mulher muito bonita. Só de fitar aqueles lindos olhos Azuis, iguais aos da filha, o coração dela disparou.
— Seus olhos são maravilhosos — disse ela. — E parece que esperei décadas para vê-los.
Por um instante, ela apenas saboreou o momento. Então, seu olhar voltou-se para as cicatrizes. Quanta dor ela devia ter sofrido, imaginou, tocando com a ponta dos dedos as marcas que tanto o faziam sofrer. Brittany fechou os olhos, respirando pesadamente.
Eram como marcas das garras de um animal selvagem. Duas tinham cortado a testa, próximo aos cabelos, uma descia pela sobrancelha. Havia outra no canto de uma pálpebra, perto do olho. Mais uma descia pelo rosto, até a mandíbula, continuando pelo pescoço, até desaparecer dentro da camisa.
Brittany continuava imóvel, como uma estátua de pedra, os braços ao lado do corpo, os punhos cerrados. O coração de Rachel quase se partiu ao pensar nos anos de solidão, acreditando que a aparência a impedia de ser amada, esquecendo o ato de coragem que provocara as marcas.
— Você sobreviveu a tudo isto — sussurrou ela, surpresa e emocionada.
Brittany fitou-a nos olhos, que se aproximava ainda mais.
— Rachel...
—Shh.—A mão dela deslizou para a nuca de Brittany, puxando-a para mais perto. Ela beijou de leve as marcas na testa, nos olhos, no pescoço, ternamente, abrindo um a um os botões da camisa e continuando a beijar as cicatrizes que atravessavam o ombro.
Ela gemeu, agarrando-a pela cintura e tentando afastá-la.
— Rachel, não!
Ela abraçou-a, compreendendo o medo e a ansiedade.
— Por favor, Brittany, não me afaste. Você suportou tanta dor. Agora são apenas marcas na memória. — Ela sacudiu a cabeça, mas Rachel continuou beijando cada cicatriz, e os lábios dela eram como um bálsamo. — Não vejo deformidade. O que vejo são sinais de sua coragem. Ferimentos de uma guerra à qual sobreviveu.
O coração de Brittany batia forte, e ela deslizou a mão pelas costas macias, enterrando os dedos nos cabelos sedosos. Com um gesto brusco, inclinou a cabeça dela para trás.
— Não quero sua piedade.
Os lábios dela curvaram-se num sorriso, antes de fitá-la diretamente.
— Minha maravilhosa fera — disse, num tom baixo e sedutor. — A última coisa que sinto por você é piedade.
— Há muito mais — murmurou Brittany. — Minhas costelas, meu quadril... a perna.
— Eu não me importo. Quando vai entender isso?
— Eu nunca... Isto é, depois do acidente nenhuma mulher me tocou... — Ela sorriu, suavemente.
— Nossa... é quase virgem, então?
Brittany riu baixinho, mas ficou imóvel quando Rachel encostou o corpo ao dela. Sentia cada curva, os seios macios sob o roupão, percebendo que ela estava nua sob o tecido fino.
Cada célula de seu corpo vibrava, clamava por Rachel. Brittany murmurou o nome dela, as mãos percorrendo o corpo perfeito.

Notas finais
Ate....