A Beira Da Loucura

2 Dupla Personalidade


Durante toda a semana eu continuei indo até o quarto de Adair, sempre no mesmo horário – as 17:30 da tarde – que era a única hora que ele abria a porta do quarto, se eu fosse alguns minutos antes ela estaria trancada e ele não me receberia. Nossas conversas não estavam sendo muito produtivas, se é que aquilo pode ser considerado como um dialogo pois só eu falava, era mais um monologo, mas eu não vou desistir continuarei indo lá até que ele resolva abrir a boca. Eu estava andando rapidamente até o final do corredor – onde fica o quarto dele – meu relógio de pulso marcava cinco e trita e cindo da tarde. Droga ! E se ele tivesse problema com atraso também e não abrisse a porta pra mim ?! Dei três batidas gentis em sua porta e não ouve nenhum movimento, bati mais duas vezes e nada então resolvi eu mesma abrir a porta – eu sei que isso não é educado mas no momento eu não estou ligando muito para minha falta de educação –, girei a maçaneta e a porta estava destrancada mas não havia ninguém lá dentro, bufei insatisfeita e já estava saindo do quarto quando vi o livro que ele sempre lia quando eu ia visita-lo em cima da cama, ele nunca me falava sobre o livro nem ao menos me deixava ver o nome do mesmo e aquilo estava despertando minha curiosidade, peguei o livro em mãos e li o titulo "A normalidade é antiquada", um livro bem típico para quem se encontra num hospício, estava receosa em estar fuçando as coisas dele então coloquei o livro de volta sobre a cama, mesmo minha curiosidade querendo me fuzilar por tal ato eu dei uma ultima olhada no livro e sai do quarto, agora que já descobrir o nome é só eu dar uma pesquisada na internet – o que é bem melhor do que eu ter continuado no quarto dele e ser pega pelo mesmo –. Caminhei rapidamente pelo corredor indo diretamente para o meu quarto, quando abri a porta encontrei Adair sentado na minha cama encarando a parede.

– Eu estou aqui pois você se atrasou então resolvi vir até seu quarto mas você não estava aqui ai resolvi esperar. – Eu nem acreditei quando ouvi o som da sua voz e saber que ele se importava de certa forma com as minhas idas ao quarto dele me fez dar um sorriso de lado.

– Tudo bem. – Falei me sentando ao seu lado. – Desculpa pelo atraso, eu estava com alguns problemas... Fico feliz que você tenha vindo até aqui. – Ele me olhou e continuou em silêncio. – Adair sobre o que fala o livro que você sempre está lendo ? – Ele me encarou por alguns minutos e virou o rosto para parede.

– Você não gostaria de saber. – Pelo visto eu vou ter mesmo que procurar saber mais sobre esse livro na internet. – Eu tenho que ir embora.

– Não, espera ! – Ele me olhou novamente, talvez minha voz tenha saído mais desesperada do que o necessário. – É que a gente mal conversou, fica mais um pouco.

– Eu não quero ficar mais. – Olhei para seu rosto e ele continuava com aquela feição inexpressível, ele nunca mostrava nenhuma reação – não sorria ou fazia careta, não chorava ou parecia triste. – a unica feição que eu já vi em seu rosto foi a de raiva, acho que é o único sentimento que habita a sua mente perturbada.

– Tudo bem, tchau Adair, nos vemos amanhã certo ?

– Acho que sim, tchau.

Ele saiu rapidamente e eu continuei sentada encarando o lugar que ele havia sentado por alguns minutos, depois peguei meu notebook e fui para uma parte mais escondida do patio pois o sinal do meu modem só pegava do lado de fora – dentro dos quartos é quase impossível manter o sinal da internet decente pois de minuto em minuto ela cai. – Eu digitei o nome do livro dele no google e quando ia clicar na resenha que eu havia encontrado eu simplesmente desisti, estou invadindo de mais a privacidade dele e com esse pensamento fechei a página, entrei no meu e-mail e havia duas mensagens novas uma da minha mãe e a outra da minha amiga, cliquei na da minha mãe.

"Querida estou morrendo de saudades, como estão as coisas ai ? Já escreveu muita coisa para o seu livro ? Me mantenha informada sobre tudo e tenta não demorar muito para voltar, te amo."

Sorri ao terminar de ler e logo em seguida respondi.

"Oi mãe, eu também estou com saudades, aqui está tudo bem e ai como está ? As coisas que estou descobrindo aqui estão sendo ótimas para o livro, mas ainda estou organizando meus pensamentos por isso não escrevi muita coisa. Você sabe que para manter contato com você não é muito fácil, eles não me deixaram trazer o celular e eu só tenho o computador, e a internet do meu modem pega pessimamente mal aqui e aliás se eles descobrirem sobre esse modem eu provavelmente serei banida ou sei lá, então talvez demorarei um pouco para mandar noticias mas não se desespere, também te amo."

Enviei e olhei ao meu redor para ver se não havia ninguém ali, depois de me certificar que não havia um ser vivo por perto abrir o e-mail da minha amiga.

"Jeniffer eu quero te matar como você vai para um lugar desses e não me fala nada ?! Sua maluca ! Se não fosse por sua mãe eu estaria desesperada até agora achando que você foi sequestrada, eu sei que seu livro é muito importante para você mas você também é muito importante para mim então volta logo porque eu estou falecendo de saudades, se cuida sua retardada e me manda noticias."

Dei uma curta risada enquanto lia o e-mail da Emma, ela nunca muda esse jeito dramático exagerado dela.

"Oi Emma, primeiramente me desculpa por não ter te avisado é que eu sabia que você iria fazer o maior teatro e não me deixaria vir então fica calma que daqui a pouco eu estou de volta ! E não faleça por favor eu preciso de você quando eu voltar para a casa Srta. Drama, estou com saudades também e eu não sei quando vou poder mandar noticias porque manter contato aqui é meio difícil e como você deve saber estou sem celular o que complica mais, assim que der mando noticias, beijos."

Fechei o notebook e guardei o modem no bolso da minha calça, voltei para o meu quarto quando abrir a porta levei um susto ao ver novamente Adair sentado na minha cama, esse cara precisa parar de fazer isso.

– Conta a história de um homem que se faz de louco para ser feliz. – Eu o olhei confusa. – O livro, ele fala sobre isso.

– Ah sim, claro ! – Falei me sentando ao seu lado. – Me conta mais sobre ele.

– Ele se finge de louco e começa a fazer tudo o que vem na sua cabeça, até alguém da sua família decidir interna-lo, mas ele não se arrepende de nada do que fez por mais que no final ele tenha acabado em uma clínica, porque enquanto ele estava lá fora se fazendo de maluco foi tão libertador que não havia como se arrepender. – O olhei um pouco assustada.

– E por que você está lendo esse livro ?

– Eu o acho interessante. – Ele desviou os olhos da parede e me olhou. – A loucura é uma forma de liberdade.

– Você me emprestaria esse livro ?

– Não, eu vou ler ele de novo.

– Quantas vezes você já leu ele ?

– Acho que mais de dez vezes, não sei ao certo.

– Você faria o mesmo que o personagem se fosse uma pessoa comum ?

– Eu tenho que ir. – Então ele saiu mais uma vez do meu quarto deixando uma pergunta no ar.

Fiquei pensando em como o Adair parecia estar falando dele mesmo enquanto me contava sobre o livro e essa obsessão que ele tem pelo mesmo é meio estranha, com esses pensamentos eu acabei dormindo. Fui acordada as quatro horas da manhã por um barulho que parecia ser uma batida na janela e então olhei para a mesma e vi um D desenhado nela, parecia ter sido feito com sangue, continuei encarando a janela por mais alguns segundos e depois a fechei com o pedaço de pano que era para servir como cortina e cobri meu rosto com o lençol.

Ao acordar a primeira coisa que fiz foi ir até a diretoria avisar sobre o ocorrido na madrugada, eu havia ficado realmente assustada com aquilo, um dos inspetores do local foi até meu quarto comigo e afastou o pedaço de pano da janela e simplesmente não havia nada lá, ele me olhou com desaprovação.

– Aqui é um lugar sério e nós não toleramos esses tipos de brincadeiras Srta. Dawnson.

– Eu juro que não foi brincadeira inspetor. – Falei um pouco desesperada.

– Se continuar com esse comportamento vamos achar que a senhorita é como eles e te internaremos aqui. – Ele falou de um modo rude como se aquilo fosse uma ameaça.

– Não será necessário. – Falei encarando a janela rapidamente.

Ele saiu do meu quarto e eu fiquei nervosa, aquilo não foi um sonho pois foi muita real para ser apenas um sonho e não foi uma alucinação também porque eu não sou louca ! O pedaço de pano que ainda cobria a janela quando eu acordei comprovava a minha teoria, pois eu nunca o fechava e se estava fechado é porque realmente havia acontecido. O resto do dia fiquei pensando no que houve na minha janela, e quando sai do quarto percebi que os inspetores me encaravam de maneira diferente, aposto que aquele inspetor arrogante já deve ter fofocado para todos o que aconteceu no meu quarto, mas eu estou pouco me fudendo para esses idiotas de branco.

Novamente atacaram de madrugada, quando desci para o patio para ver o que havia acontecido dessa vez encontrei um dos internos com o corpo todo furado por facadas e o maldito D estava lá estampado na lateral de sua barriga, voltei para o meu quarto e consegui voltar a dormir rapidamente acho que já estou me acostumando com esses acontecimentos medonhos. Acordei e a primeira coisa que veio a minha cabeça foi o D desenhado no corpo do morto e mais uma vez fico tentando imaginar qual deles poderiam ter feito aquilo e minha conclusão novamente foi a mesma: nenhuma. Fui para o refeitório tomar café e vi Adair sentado sozinho na mesa mais afastada que tinha no local, peguei minha bandeja e fui até o mesmo que me olhou e tomou o ultimo gole do seu suco.

– Bom dia.– Falei evitando ser muito calorosa ou entusiasmada.

– Olá.– Falou friamente e saiu.

Bufei e voltei a comer, fiquei reparando nos outros internos e em como alguns deles agia feito crianças do primário, deve ser difícil ser assim sua vida toda ou talvez eles nem tenham consciência disso mas mesmo assim eu não deixo de ter pena.

No horário de sempre fui visitar o Adair, ele estava deitado ouvindo um CD, as musicas eram legais mas eu não fazia ideia de quem estava cantando.

– Quem canta ? – Perguntei me deitando ao seu lado.

– Belle and sebastian, é uma banda.

– Eu gostei da música, qual o nome dela ?

– Another sunny day.

– Como você veio parar aqui ? – Perguntei um pouco insegura porque provavelmente ele vai me mandar embora ou ele mesmo vai sair, ele parece sempre fugir de perguntas pessoais.

– Por que você quer saber ? – Falou abaixando o som que estava ao seu lado.

– Por que você simplesmente não me responde ? – Falei virando de lado ficando assim com o cotovelo apoiado na cama e meu rosto apoiado na minha minha mão, eu o encarava enquanto o mesmo continuava na mesma posição em que eu o encontrei quando entrei, deitado de barriga para cima encarando o teto.

– Eu fui diagnosticado como psicopata com oito anos após matar um cachorro a facadas.

– Por que você fez isso ?

– Eu não lembro.

– Como você não se lembra ?

– Por que você faz tantas perguntas ? Isso me deixa com raiva.

– Me desculpa. – Eu não posso estragar as coisas logo agora que estamos progredindo, então melhor deixar as perguntas para depois.

– Por que você está aqui ? – Não respondi, talvez ele ficasse bravo se soubesse que era para escrever um livro e achasse que eu estava investigando ele para publicar sobre ele, o que talvez seja o que eu realmente esteja fazendo. – Ouvi dizer que é por causa de um livro, você parece inteligente então deve ser boa escritora.

– Obrigada. – Sorri por mais que eu saiba que ele não percebeu o meu sorriso porque estava concentrado de mais com o teto branco. – Quando eu publicar meu livro irei trazer um para você, na verdade seria bem legal ver ele entre esse monte de livros que você tem. – Falei olhando para o amontoado de livros a minha frente.

– Pode ser. – Ele falou ainda encarando o teto.

– O que tem no teto ? – Falei encarando o teto também.

– Nada, ele só me acalma.

– E por que está nervoso ?

– Para de perguntar. – Droga, falar com ele é como pisar em ovos.

– Eu tenho que ir, tchau Adair. – Falei mais não obtive resposta então me retirei do quarto.

Fui até a diretoria para saber sobre o homem que havia morrido no patio, a diretora do local falou que o nome dele era Tobias Mendez, tinha vinte e sete anos e estava internado lá a cinco anos, ele era esquizofrênico mas a mesma disse que ele estava indo muito bem com o tratamento e os remédios.

– O paciente Adair está a quanto tempo aqui ? – Falei demonstrando totalmente minha curiosidade.

– A mais ou menos quatro anos, se não me engano. – Ela falou assinando algum papel que estava em cima da sua mesa.

– Pode deixar eu ver a ficha dele ?

– Claro. – Falou abrindo uma gaveta.

Me entregou um papel branco cheio de letras pequenas digitadas no computador, lá dizia que ele tem vinte cinco anos, a mesma idade que eu – pensei automaticamente –, e que ele havia sido diagnosticado com dupla personalidade e resquícios de psicopatia severa.

– Dupla personalidade ? – Perguntei confusa.

– Sim, o Adair é como se fosse duas pessoas em uma, ele tem o lado normal e o lado psicopata, mas ele não se lembra de nada quando o lado psicopata se manifesta é como se o lado normal fosse desligado.

– Ele sabe disso ?

– Ele acredita que quando ele fica muito irritado algo toma conta do corpo dele, algo esse que ele denomina como monstro, e ele desmaia e quando acorda não lembra de nada que o suposto "monstro" fez enquanto se apoderava de seu corpo, tadinho ele nem imagina que o "monstro" faz parte dele, mas com os remédios nós conseguimos manter a parte ruim dele adormecida.

– Uau, eu nunca vi nada parecido. – Falei espantada com o relato da diretora.

Então agora as coisas fazem sentido, ele se afasta das pessoas com medo de ficar irritado e ser possuído pelo tal monstro, por isso ele olhava pro teto enquanto falava comigo para manter a calma com medo de fazer alguma besteira, isso é um pouco cruel eles deviam contar para ele que com os remédios ele pode viver "normalmente", mas ao invés disso eles deixam o coitado se privar do mundo. É como se eu estivesse num jogo de adivinhações e eu acabei de descobrir a primeira charada, eu estou gostando de brincar desse jogo. Jeniffer 1 x 0 Mistérios.