A Batida do coração 2

29 O Tecido da Saudade e as Cordas do Recomeço



​A ideia surgiu como um lampejo de luz na mesa de desenho de Rebekah. Ela não queria mais que a memória de Caio fosse sinônimo de silêncio ou lágrimas; queria que fosse arte, movimento e som. Decidida a homenagear o amor de sua juventude da forma mais grandiosa que conhecia, Rebekah começou a criar a coleção mais importante de sua carreira, intitulada "A Última Melodia".

​Toda a linha de roupas foi desenhada com base nos gostos, na personalidade e na essência de Caio. Havia o couro rústico e imponente que ele usava nos palcos, tecidos fluidos que lembravam o movimento das ondas de Angra dos Reis, e uma paleta de cores que transitava do azul-cobalto profundo — a cor de sua jaqueta favorita — ao dourado do pôr do sol.

​Mas o grande xeque-mate da coleção seria o desfile de lançamento no Rio de Janeiro. Não haveria uma trilha sonora mecânica ou DJs. A passarela seria montada em volta de um palco onde a banda tocaria ao vivo. E para preencher o vazio no contrabaixo que o mundo julgava impossível de ocupar, Jace e Rebekah foram atrás da única pessoa que carregava o mesmo sangue e a mesma genialidade musical: Gustavo Telles. Guga voltaria a empunhar o baixo para tocar pelo filho de alma.

​Preparativos a Todo Vapor e o Ritmo de Dois Corações

​Os meses de preparação transformaram a rotina de Rebekah e Jace em um turbilhão de trabalho. O ateliê da designer e o estúdio de ensaio da banda pareciam ter se fundido. Entre ajustes de alfaiataria, testes de luz e ensaios de arranjos musicais, os dois passavam quase vinte e quatro horas por dia juntos.

​Certa noite, por volta das onze horas, o ateliê estava silencioso, iluminado apenas pelas luminárias focadas nos manequins. Rebekah estava com um coque desfeito, uma fita métrica pendurada no pescoço e algumas agulhas entre os lábios, ajustando a barra de um casaco de veludo azul-cobalto.

​Jace entrou no espaço carregando duas canecas de café fumegante. Ele havia acabado de sair de um ensaio exaustivo com Guga, Lucas e Pedro. Ele caminhou até ela com passos silenciosos e colocou a caneca na mesa de vidro.

​— Você precisa parar um pouco, Laurentis. Daqui a pouco vai acabar costurando os próprios dedos — Jace brincou, a voz grave saindo mansa na calmaria do ateliê.

​Rebekah tirou as agulhas da boca e soltou um suspiro longo, aceitando o café. Ela olhou para o casaco no manequim e depois para Jace, os olhos azuis cansados, mas brilhando de gratidão.

​— Esse casaco precisa ter o caimento exato das jaquetas que o Caio gostava, Jace. Tem que parecer livre, entende? — ela explicou, aproximando-se e encostando-se na mesa, bem perto dele. — Como foi o ensaio com o Tio Guga hoje?

​Jace deu um gole no seu café, diminuindo a distância entre os dois. A proximidade deles já não carregava mais o peso do luto ou do constrangimento; era uma conexão natural, íntima e protetora que havia se fortalecido a cada quilômetro da viagem pelo mundo.

​— O meu pai é inacreditável, Bekah — Jace sorriu, os olhos escuros fixos nos dela. — Ele pegou o baixo do Caio e, no primeiro acorde, parecia que os dois estavam tocando juntos. O Pedro e o Lucas choraram na primeira música. Vai ser o desfile mais pesado e mais lindo da história da moda, eu garanto. Graças a você.

​Rebekah olhou bem fundo nos olhos de Jace, sentindo o seu coração bater um pouco mais forte — não de pânico, mas de uma sensação nova e calorosa. Ela estendeu a mão livre e tocou o braço dele, apertando os músculos firmes do baterista.

​— Graças a nós, Jace. Eu não teria desenhado um único croqui se você não tivesse me segurado quando o meu chão sumiu. Você me devolveu o ritmo.

​Jace cobriu a mão dela com a sua, inclinando o rosto sutilmente para frente. O ar entre os dois ficou tenso por um segundo, carregado de um sentimento novo que começava a florescer do adubo da lealdade. — Eu sempre vou estar aqui para garantir que a sua música continue tocando, minha linda.

​O Ensaio Geral: O Encontro de Guga e o Legado

​No dia seguinte, o galpão onde seria o desfile recebeu o ensaio geral com toda a estrutura montada. A passarela de espelhos cercava o palco central, onde os amplificadores roncam alto.

​Gustavo Telles estava de pé no centro do palco, com o contrabaixo elétrico de Caio Souza pendurado em seus ombros. Guga olhava para o instrumento com um respeito quase religioso, dedilhando as cordas grossas que tantas vezes haviam ditado o ritmo da nova geração. Anya assistia da primeira fila, segurando o choro ao lado de Letícia e Derick.

​Jace assumiu o seu posto na bateria, testando o bumbo. Lucas e Pedro alinharam as guitarras e os teclados. Na beira da passarela, Rebekah coordenava a entrada das modelos que usavam as primeiras peças de teste.

​— Muito bem, rapazes! — Guga chamou a atenção da banda, a postura de veterano do rock assumindo o controle. — Vamos testar a transição da terceira para a quarta modelo. O ritmo precisa ser contido, mas com o coração pulsando forte. Jace, me dá a contagem.

​Jace bateu as baquetas no alto: — Um, dois, três, quatro!

​O galpão foi inundado por uma linha de baixo profunda, encorpada e mística. Guga tocava com uma precisão avassaladora, os olhos fechados, sentindo cada nota. A batida da bateria de Jace entrou logo em seguida, firme, encaixando-se perfeitamente no compasso do pai. Era o encontro de duas eras, o legado de Santa Bárbara ressuscitando através das mãos de quem começou a história.

​Enquanto a música ecoava, uma modelo cruzou a passarela vestindo um longo vestido preto com detalhes em dourado que pareciam chamas, uma referência direta à intensidade que Caio trazia para a vida de Rebekah. A designer assistia a tudo de braços cruzados, sentindo uma lágrima solitária — dessa vez de puro orgulho e realização — descer pelo seu rosto.

​Lucas Silva, enquanto fazia um solo suave de guitarra, piscou para uma das modelos de teste que passava, mantendo o seu espírito irreverente de sempre, o que fez Pedro rir ao teclado. A vida, com toda a sua irreverência e arte, estava retomando o seu curso.

​Ao fim do ensaio da música, todos aplaudiram. Jace largou as baquetas e desceu do palco, caminhando direto na direção de Rebekah. Ele parou na frente dela, limpando o suor da testa com o braço, e estendeu a mão.

​— E aí, estilista? O ritmo está do jeito que você planejou? — Jace perguntou, o olhar brilhando de cumplicidade.

​Rebekah não respondeu com palavras. Ela deu um passo à frente, enlaçou os braços ao redor do pescoço de Jace e o abraçou forte diante de todos no galpão. Jace a envolveu pela cintura, tirando-a levemente do chão, selando o pacto de que aquela noite não seria sobre a morte, mas sobre a imortalidade do amor deles através da arte. Os preparativos estavam concluídos; o Rio de Janeiro estava prestes a assistir ao desfile que transformaria a dor na mais linda sinfonia de recomeço.