A Batida do coração 2

30 A Última Melodia e o Refrão do Recomeço



O Palácio de Cristal, no Rio de Janeiro, estava completamente lotado. A elite da moda internacional, críticos, jornalistas e fãs misturavam-se em uma plateia que guardava um silêncio reverente. A passarela, construída em vidro espelhado preto, refletia a iluminação cênica em tons de azul e dourado. No centro, o palco circular abrigava os instrumentos da banda, cobertos por uma penumbra misteriosa.

Na primeira fila da área VIP, o peso daquela noite unia duas famílias. Dona Eleonor e Senhor Paulo estavam sentados lado a lado, as mãos firmemente entrelaçadas. Eleonor segurava um lenço contra o peito, os olhos marejados antes mesmo do início, enquanto Paulo mantinha o olhar fixo no palco, com uma postura de profundo respeito. Ao lado deles, Gustavo e Anya Telles dividiam o espaço com Derick e Letícia Laurentis. Todos sabiam que aquela noite não era apenas um desfile de moda; era um ritual de passagem, a transformação da dor mais profunda em arte eterna.

Nos bastidores, Rebekah Laurentis dava os últimos retoques nos figurinos das modelos. Seus cabelos negros enormes estavam presos em um arranjo elegante, e ela usava um vestido longo de seda azul-cobalto de sua própria autoria. Seus olhos azuis, embora marejados, carregavam uma força que ela só descobrira após cruzar o mundo. Jace aproximou-se em silêncio, vestindo uma camisa preta de botões com as mangas dobradas. Ele segurou as mãos trêmulas de Rebekah.

— Está na hora, minha linda — Jace sussurrou, a voz grave cheia de ternura. — O Rio de Janeiro vai ver o tamanho do amor de vocês hoje.

Rebekah olhou nos olhos dele e assentiu, apertando seus dedos. — Vai lá, Jace. Dita o ritmo por nós.

### O Eco do Passado e o Despertar do Palco

As luzes do Palácio de Cristal se apagaram por completo. Um breu absoluto tomou conta do imenso galpão. De repente, o gigantesco telão de LED de ultra-definição ao fundo da passarela acendeu, emitindo uma luz azulada que clareou o ambiente.

A plateia soltou um suspiro coletivo. Na tela, surgiu um vídeo de arquivo inédito. Era Caio. Ele estava em um estúdio iluminado pelo sol, com o seu contrabaixo elétrico pendurado no ombro, os cabelos castanhos caindo levemente sobre a testa. O vídeo capturava o momento exato em que ele tocava o icônico e complexo solo de baixo de **"November Way"**, a música que havia consagrado a banda mundialmente. As notas graves, encorpadas e choradas ecoaram pelas caixas de som com uma nitidez avassaladora, vibrando no peito de cada pessoa presente. No vídeo, após terminar o acorde perfeito, Caio olhava para a câmera e abria aquele sorriso largo e calmo que era sua marca registrada.

Na primeira fila, Dona Eleonor desabou em um choro silencioso, sendo apertada pelo marido, que engoliu em seco, orgulhoso da imagem do filho.

Abruptamente, o telão se apagou, devolvendo o espaço à escuridão por um segundo. Então, com um estouro de luzes douradas, os refletores do palco principal se acenderam.

A banda virou tocando com uma energia avassaladora. Na bateria, Jace Drake espancava os pratos e dditava o compasso com uma força brutal; Lucas e Pedro comandavam as guitarras e teclados com lágrimas nos olhos. E no centro do palco, empunhando o contrabaixo com a autoridade de uma lenda viva, estava Gustavo Telles. Guga assumira o instrumento do filho de alma, fazendo as cordas rugirem alto, em perfeita sincronia com a batida de Jace.

### O Desfile da Saudade e as Cenas que Não Voltam

Conforme a música ao vivo tomava conta do Palácio, as modelos começaram a cruzar a passarela espelhada. A coleção **"A Última Melodia"** ganhou vida. Os casacos de couro com cortes de rock, os vestidos fluidos em azul-cobalto e os detalhes em dourado que pareciam chamas passavam diante dos olhos do público.

Ao mesmo tempo, o telão ao fundo voltou a acender, mas dessa vez mostrando um mosaico de momentos felizes. Eram cenas da vida de Caio: fotos dele rindo na praia com os meninos, momentos de bastidores de turnês, vídeos caseiros dele fazendo palhaçadas na cozinha do loft e, principalmente, fotos dele olhando para Rebekah com adoração pura. O telão contava a história de um homem que soubera amar cada segundo de sua existência.

Rebekah assistia a tudo da lateral do palco, com as mãos apoiadas na estrutura de metal, o corpo trêmulo de emoção. Seus olhos azuis refletiam as imagens do namorado e o movimento das roupas que ela criara para ele. Cada peça que passava era uma carta de amor materializada em tecido.

Quando a última modelo cruzou a passarela, vestindo um impressionante vestido de noiva conceitual em tons de off-white e detalhes dourados — uma homenagem ao casamento que eles planejavam —, a música da banda começou a desacelerar, diminuindo para um arranjo suave de piano e baixo.

### A Mensagem da Eternidade

Todas as modelos pararam alinhadas nas laterais da imensa passarela de espelhos. O público começou a aplaudir, mas o barulho cessou quando Rebekah Laurentis entrou na passarela. Ela caminhou com passos firmes, elegantes e maduros até o centro do espaço. Em vez de agradecer à plateia, Rebekah parou de costas para o público e de frente para o imenso telão.

O painel de LED brilhou intensamente e a imagem de todas as fotos desapareceu, dando lugar a um vídeo focado apenas no rosto de Caio. Ele vestia uma camiseta branca, sentado no sofá do loft do Rio. O vídeo parecia ter sido gravado por ele mesmo, em um momento de reflexão na intimidade de sua rotina.

No silêncio absoluto do Palácio de Cristal, a voz de Caio Souza ecoou pelas caixas de som, límpida, calma e profundamente reconfortante:

— *A vida é para ser vivida...* — Caio disse na tela, olhando fixamente para a lente, como se estivesse encarando cada pessoa ali dentro, especialmente Rebekah. — *Não há ensaios para a vida real. Apenas cenas que não voltam mais. Não tem como refazer algo que já foi vivido. Por isso... viva. Cante, dance, ame de corpo e alma, e nunca, nunca deixe de sorrir.*

Na passarela, Rebekah levou a mão à boca, as lágrimas rolando livremente pelo seu rosto azul-cobalto, mas seu semblante era de uma beleza pacífica. No palco, Jace largou as baquetas e limpou os olhos com as costas da mão, enquanto Guga abraçava o contrabaixo contra o peito.

O vídeo de Caio congelou em um plano dele sorrindo, com os olhos castanhos brilhando de paz. Lentamente, a imagem foi ganhando um tom preto e branco suave, e abaixo de seu sorriso, surgiram as letras douradas:

**CAIO SOUZA**

**12/10/1998 — 26/12/2025**

Um segundo de silêncio se fez no Palácio de Cristal, o tributo final de um mundo que reconhecia a perda de um gênio. Mas antes que as luzes pudessem baixar para o encerramento, o sistema de som da arena capturou um último áudio isolado, a voz de Caio que vinha do fundo do arquivo, ecoando uma última vez no coração de Santa Bárbara e do Rio de Janeiro:

— *Eu amo vocês.*

As luzes do telão se apagaram de forma definitiva. O Palácio de Cristal explodiu no aplauso mais longo e retumbante de sua história. A plateia inteira ficou de pé, chorando e ovacionando a estilista e a banda.

Rebekah girou o corpo para a plateia, com o rosto banhado de lágrimas, mas com o maior e mais radiante sorriso de sua vida. Ela olhou para a primeira fila, onde Dona Eleonor e Senhor Paulo a aplaudiam de pé, orgulhosos de verem o filho eternizado na beleza daquela noite.

Jace caminhou pelo palco de espelhos, parando ao lado de Rebekah na passarela. Ele segurou a mão direita dela e a ergueu para o público. Rebekah olhou para o baterista, o homem que a salvara do mar e que agora dividia com ela o peso e a glória do recomeço. O concerto de Caio Souza havia terminado na terra, mas a melodia de sua existência continuaria a pulsar em cada linha de roupa, em cada batida de bateria e em cada sorriso que Rebekah e Jace dariam a partir daquela noite, prontos para viverem as cenas reais que o destino ainda reservava para os dois.