A Batida do coração 2
28 A Luz nas Janelas e o Próximo Compasso
O retorno ao Brasil trazia o peso inevitável de encarar o silêncio que a poeira havia coberto. Quase nove meses após cruzarem oceanos e desertos, Jace e Rebekah desembarcarcarem no Rio de Janeiro. A viagem pelo mundo havia cumprido o seu papel: os olhos azuis de Rebekah tinham o brilho da vida recuperado, e os ombros de Jace carregavam a serenidade de quem havia cumprido uma promessa.
Mas faltava o teste final. O apartamento de Caio, o loft amplo com paredes de tijolos expostos onde o quarteto morava em seus períodos no Brasil, continuava intocado desde o dia da tragédia. Com a chave firme entre os dedos trêmulos, Rebekah empurrou a porta.
O cheiro de ambiente fechado misturava-se de forma sutil ao aroma do perfume amadeirado que Caio sempre usava. Um raio de sol cortava as frestas da cortina da sala, iluminando os grãos de poeira suspensos no ar e o contrabaixo reserva que repousava no suporte de chão. Rebekah não chorou. Em vez disso, um sorriso terno e nostálgico brotou em seus lábios. Ela caminhou lentamente até o balcão da cozinha, passando os dedos pela superfície de madeira, lembrando-se das manhãs barulhentas em que os meninos disputavam a última fatia de bolo.
Ao entrar no quarto que pertencia exclusivamente a ele, a designer sentou-se na beirada da cama arrumada. O toque no lençol macio foi o gatilho. O presente desapareceu, e um flashback avassalador a atingiu com toda a força da memória.
Flashback: A Noite Antes da Tempestade
Era a noite anterior à fatídica coletiva de imprensa. O quarto estava imerso no calor suave de uma noite de verão paulistana. Caio e Rebekah estavam deitados de lado na mesma cama, com os corpos colados sob um lençol leve. Os cabelos negros enormes dela espalhavam-se pelo peito dele, e a mão grande do baixista desenhava círculos preguiçosos nas costas nuas da namorada.
Caio a olhava com uma intensidade que parecia querer decorar cada linha do seu rosto. Seus olhos castanhos transbordavam uma paz que ele só encontrava ali.
— Sabe, Laurentis... — Caio sussurrou, a voz rouca perto do ouvido dela, puxando-a um pouco mais para perto. — Eu passei dez anos tocando para multidões, ouvindo milhares de pessoas gritarem o meu nome. Mas quando eu deito aqui e olho para você... eu percebo que o meu maior tesouro nunca esteve nos palcos. É você. Sempre foi você.
Rebekah sorriu, erguendo o rosto para selar os lábios dele em um beijo calmo e doce. — Você está muito poético hoje, Souza. O que o Jace colocou no seu café?
Caio soltou uma risada baixa, o peito vibrando contra o dela. Ele segurou o queixo de Rebekah com delicadeza, o semblante tornando-se sutilmente mais sério, carregado de planos reais.
— É sério, minha linda. Essa turnê no Brasil vai clarear as coisas com a gravadora. Assim que os shows terminarem, eu quero oficializar tudo. Quero colocar uma aliança nesse seu dedo, tirar você desse apartamento de temporada e fazer de você a minha esposa de verdade. Eu quero uma vida inteira com você, Bekah. Sem fusos horários, sem distâncias. Só eu, você e a nossa música.
— Eu aceito, meu príncipe... — ela respondeu na penumbra do passado, o coração explodindo de felicidade. — Eu vou amar ser a sua esposa.
O Despertar no Presente
CLANG!
O som estridente de um balde de metal caindo no piso de cerâmica da cozinha quebrou o feitiço do flashback. Rebekah piscou os olhos rapidamente, a imagem de Caio desfazendo-se no ar para dar lugar às paredes claras do quarto vazio. Ela respirou fundo, levando a mão ao peito. A dor já não queimava; era apenas uma saudade mansa, acolhida.
Ela se levantou e caminhou até a sala. Jace estava perto do balcão da cozinha, recolhendo o balde de limpeza que havia escorregado de suas mãos. Ele usava uma bermuda velha e uma camiseta desgastada, com um pano de prato pendurado no ombro.
— Desculpa, Bekah! — Jace disse, coçando a nuca com um sorriso sem jeito. — Eu tentei pegar o produto de limpeza na prateleira de cima e fiz uma bagunça. Atrapalhei os seus pensamentos?
Rebekah sorriu de forma calorosa, caminhando até ele e pegando o espanador de pó que estava em cima da mesa. — Não atrapalhou, Jace. Na verdade, me trouxe de volta na hora certa. Vamos trabalhar. Esse lugar precisa de ar puro e de vida.
As horas seguintes foram preenchidas pelo som de vassouras, panos úmidos e janelas sendo escancaradas para o sol do Rio de Janeiro entrar. Eles limparam o apartamento juntos, em uma parceria silenciosa e ritmada. Jace guardou os cabos e equipamentos de som espalhados, enquanto Rebekah organizou os livros e lavou as louças acumuladas. Não havia clima de velório; era uma faxina de recomeço, uma forma de organizar a casa para que as lembranças pudessem morar ali sem machucar.
O Próximo Compasso no Sofá
Ao entardecer, o apartamento brilhava, limpo e arejado. O sol poente pintava as paredes de tijolos expostos com um tom alaranjado e acolhedor. Exaustos, mas com uma sensação indescritível de alívio no peito, Jace e Rebekah se sentaram juntos no grande sofá de couro da sala. Jace esticou as pernas e jogou a cabeça para trás, enquanto Rebekah se acomodou de lado, puxando as pernas para cima do estofado.
O silêncio que se instalou era confortável, o silêncio de quem havia vencido uma guerra invisível. Rebekah olhou para o contrabaixo no suporte e, depois, virou o rosto para olhar para Jace.
— Sabe de uma coisa, Jace? — ela começou, a voz calma, madura, transmitindo uma paz que há muito tempo não habitava suas palavras.
Jace virou a cabeça no encosto do sofá, os olhos escuros fixando-se nos dela. — O que, Bekah?
— Eu estava no quarto dele agora pouco, e lembrei da nossa última noite juntos — Rebekah explicou, olhando para as próprias mãos. — Lembrei dos planos que ele tinha para nós. E pela primeira vez, eu não senti aquela queimação de desespero. Eu senti... gratidão. Eu entendi que eu nunca vou esquecer o Caio. Ele vai ser para sempre o príncipe da minha juventude, o homem que me ensinou a amar e que guardou o meu coração por dez anos. A história dele está escrita na minha pele.
Jace assentiu lentamente, estendendo a mão pelo encosto do sofá e deixando os dedos tocarem de leve nos cabelos negros enormes dela, num gesto de carinho fraternal e proteção. — Ele foi o melhor de nós, Bekah. A memória dele está segura com a gente.
— Sim — Rebekah concordou, erguendo os olhos azuis e focando-os nos de Jace com uma determinação renovada. — Mas a viagem me ensinou que eu não posso morar no cemitério. Eu preciso viver, Jace. Por mim, pelo meu trabalho, pelas nossas famílias... e por ele também. Eu vou levar o sorriso dele comigo, mas eu vou caminhar para frente. Eu vou viver por nós dois.
Jace abriu um sorriso largo, os olhos brilhando com um orgulho indisfreçável. Ele deslizou a mão do cabelo dela para o seu ombro, puxando-a sutilmente para perto. Rebekah aceitou o aconchego, apoiando a cabeça no peito do baterista, ouvindo a batida firme e constante do coração de Jace.
— Essa é a nota mais bonita que a gente já alcançou desde que essa tempestade começou, Laurentis — Jace sussurrou, a voz cheia de uma emoção contida. — A banda pode estar sem o baixo principal, mas o ritmo... o ritmo continua com a gente. Eu estou muito orgulhoso de você.
O sol terminou de se pôr no Rio de Janeiro, deixando a sala na penumbra dourada do crepúsculo. Na parede, as fotos da banda pareciam sorrir de volta. Caio Souza havia partido para a eternidade, mas no loft limpo e arejado, Jace e Rebekah davam os primeiros passos firmes em direção ao futuro, sabendo que a batida do coração deles continuaria a ditar o ritmo de uma nova e linda canção de recomeço.
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