A Batida do Coração 3: O Acorde final

29 O Reverso do Espelho e o Salto de Titânio



​A tarde de sábado no condomínio de lofts na Barra da Tijuca trazia o mesmo reflexo dourado do sol contra as vidraças de inox, mas o compasso interno daquele lugar já não era o mesmo. Kayla Drake estava de volta ao Brasil. O anúncio de sua nova turnê nacional havia esgotado os ingressos em minutos, mas antes de encarar os holofotes do Maracanã, o seu gênio Drake a guiou de volta ao ponto de partida. Ela queria ver os pais. Queria mostrar que havia vencido o asfalto, a dor e o próprio tempo.

​Ao cruzar a portaria blindada, Kayla exalava a imponência de uma lenda internacional. Ela vestia uma calça de napa preta que moldava suas pernas com uma perfeição cirúrgica, uma blusa de seda escura com um decote profundo e os cabelos negros enormes, antes retos, agora repicados em camadas modernas que emolduravam seu rosto mais magro. Os impressionantes olhos azuis estavam ocultos por óculos escuros de grife e, nos pés, uma bota de couro com salto agulha tamanho 18 ditava o compasso de seus passos. O som do salto batendo no granito do hall era firme, forte e exato. Graças à engenharia robótica de Tóquio, ela não mancava; não havia oscilação em seu quadril de titânio. Ela era uma máquina de postura perfeita.

​O Confronto no Hall dos Elevadores

​Kayla aproximou-se do painel de inox e apertou o botão do elevador privativo que levava ao sétimo andar. Ela ainda não sabia que Jace e Rebekah haviam se mudado para a casa do Itanhangá; achava que o ritmo da família continuava trancado naquele loft.

​A porta de inox se abriu com um sinal sonoro mansa. De dentro da cabine, pronta para sair, vinha Candy Lâfrer. A irmã de Logan usava uma roupa casual e trazia uma sacola de compras na mão, mas estancou no lugar ao dar de frente com a figura que bloqueava a saída.

​Kayla Drake retirou os óculos escuros com um movimento lento de dedos, revelando os olhos azuis que o mundo inteiro idolatrava, e abriu um sorriso de canto — aquela audácia Drake que Candy conhecia tão bem.

​— Oi, Candy... — Kayla disse, a voz saindo rouca, pausada e preenchida por uma saudade genuína. Ela deu um passo à frente, abrindo os braços para envolver a melhor amiga em um abraço. — Eu senti sua falta, miga.

​Candy Lâfrer não retribuiu. Em um reflexo puramente defensivo, ela deu dois passos para trás, entrando novamente na cabine do elevador, com os olhos castanhos arregalados de puro choque e uma repulsa latente. Ela olhou para a calça de napa, para o salto 18 e para a frieza cega que emanava de Kayla.

​— Não encosta em mim, Kayla — Candy disparou, a voz saindo cortante, gélida, fazendo o sorriso da guitarrista sumir instantaneamente.

​Kayla franziu o cenho, os braços caindo ao lado do corpo, a rigidez do titânio em seu quadril mantendo-a perfeitamente ereta. — O que foi, Candy? Sou eu. A sua melhor amiga. Eu voltei para o Brasil, eu vim ver meus pais, vim ver você...

​— A minha melhor amiga morreu há dez anos em um quarto de hotel em Nova York, Kayla! — Candy rebateu, a voz subindo de tom, ecoando pelo hall do subsolo com uma violência dolorosa. — O que sobrou de você foi só esse produto que a Som Livre vende. Você sumiu! Você abandonou os seus pais que passaram noites chorando nesse condomínio! Você quebrou o coração do meu irmão de um jeito que eu precisei recolher os pedaços dele no chão daquela cobertura!

​— Eu fiz a minha escolha, Candy! Eu precisava seguir o meu sonho! — Kayla tentou se justificar, o orgulho Drake blindando sua voz, embora o peito subisse em jatos curtos. — Olha para mim hoje! Eu sou a maior artista desse país! Eu venci a lesão do acidente, eu não sinto mais dor, eu posso tocar por cinco horas seguidas naquele palco!

​— À custa de quê, Kayla?! — Candy gritou, dando um passo para a frente, as lágrimas de pura raiva e decepção transbordando de seus olhos. — O Logan recebeu o prontuário do Japão nesta semana. Nós já sabemos de tudo! Nós sabemos as placas de metal que você tem no quadril e sabemos o que você fez no seu ventre! Você destruiu a chance de ser mãe, você arrancou o seu útero para conseguir pular com a porcaria de uma guitarra na Europa! Você virou uma boneca de plástico e metal, Kayla! Você trocou as pessoas que te amavam de verdade por aplausos de gente que não se importa se você está viva ou morta!

​Kayla Drake deu um passo para trás, o impacto daquelas verdades batendo contra a sua estrutura como um soco físico. Seus impressionantes olhos azuis dilataram de pavor ao perceber que o seu segredo mais obscuro havia sido exposto.

​— O Logan... o Logan sabe? — ela perguntou em um fio de voz, a vulnerabilidade trêmula quebrando sua armadura de estrela.

​— Sabe. E sente nojo do que o seu orgulho fez com a vida que vocês podiam ter tido — Candy sentenciou, a voz mansa e mortalmente séria. Ela estendeu a mão e apertou o botão do sétimo andar no painel do elevador. — Os seus pais não moram mais aqui, Kayla. Eles compraram uma casa longe desse passado. E você não tem mais lugar na nossa órbita. Fica com o seu titânio e com as suas arenas lotadas. Você está completamente sozinha.

​A porta de inox se fechou entre as duas, deixando Kayla Drake estancada no hall do subsolo, equilibrada em seu salto 18, mas com a alma completamente desabada no chão de granito.

​O Almoço no Sétimo Andar

​O elevador privativo subiu direto para o loft do sétimo andar. Candy Lâfrer entrou na sala pisando firme, ainda trêmula de puro estresse psicológico.

​A mesa de jantar da antiga sala dos Drake estava posta. Logan Lâfrer, agora o Médico-Chefe respeitado do Hospital Regional, estava sentado à cabeceira, vestindo uma camisa polo escura de linho, com as mangas dobradas, almoçando calmamente em família ao lado de Garret e Lisa Lâfrer, que haviam ido visitá-lo para passar o fim de semana. O ambiente era de uma calmaria estável, preenchido pelo som dos talheres e pelas risadas mansas dos pais.

​Candy jogou a sacola de compras na bancada da cozinha com um estalo úmido, chamando a atenção de todos.

​— Vocês não vão acreditar em quem eu acabei de encontrar lá embaixo, no hall do elevador — Candy disparou, a respiração vinda curta, os olhos fixos diretamente no irmão mais velho.

​Logan parou o garfo a poucos centímetros do prato. Seus olhos escuros, profundos e experientes, ergueram-se para encarar a irmã. Ele manteve a expressão totalmente impenetrável, a linha do maxilar rígida.

​— Quem, Candy? — Lisa perguntou, parando de beber o suco.

​— A Kayla — Candy soltou o nome como uma bomba no meio da sala. — Ela está lá embaixo. Voltou para o Brasil. De calça de napa, salto alto, agindo como se fosse a dona do mundo. Ela estava subindo aqui para procurar o Jace e a Rebekah.

​Um silêncio sepulcral desceu sobre a mesa de jantar. Garret Lâfrer trocou um olhar preocupado com a esposa, ambos lembrando-se do sofrimento que o filho havia carregado na juventude por causa daquela guitarrista. Eles olharam para Logan, esperando uma explosão, um sinal de pânico ou o colapso do cirurgião.

​No entanto, o tempo e a maturidade haviam moldado o Doutor Lâfrer em uma fortaleza definitiva.

​Logan colocou o garfo e a faca alinhados sobre o prato de porcelana com uma lentidão calculada, mansa e precisa. Ele pegou o guardanapo de tecido, limpou os lábios com calma e bebeu um gole de água, a postura ereta e o semblante totalmente gélido, sem que um único feixe muscular de seu rosto demonstrasse fraqueza.

​— Os Drake se mudaram para o Itanhangá há três anos, Candy. Ela perdeu a viagem — Logan respondeu, a voz saindo absurdamente grave, pausada, fria e completamente desconectada de qualquer traço de emoção.

​— Logan, ela sabe que você descobriu sobre a cirurgia de Tóquio... sobre o útero — Candy insistiu, aproximando-se da mesa. — Eu joguei tudo na cara dela. Ela ficou destruída. Você não vai fazer nada? Não vai falar com ela?

​Logan Lâfrer desviou os olhos escuros para a janela do loft, observando o mar da Barra quebrar ao longe na orla da Lúcio Costa. Ele deu um suspiro profundo, mas o seu peito não carregava mais o desespero do jovem namorado que chorara na beira da cama; carregava apenas a certeza do diagnóstico final.

​— A Kayla Drake tomou a decisão dela há dez anos em um quarto de hotel em Manhattan, Candy, e assinou o laudo definitivo em uma sala cirúrgica no Japão — Logan disse, o tom de voz descendo para uma nota de indiferença cortante que fez os pais respirarem aliviados. Ele olhou de volta para o próprio prato, pegando os talheres novamente. — A vida dela é feita de metal, aplausos e contratos da Som Livre. E a minha vida é feita de prontuários, salas de cirurgia e de uma realidade que ela escolheu não partilhar. A vida dela não tem mais lugar para mim, e o meu presente não tem espaço para o fantoche que ela virou. Passa o arroz, por favor, mãe.

​O almoço da família Lâfrer continuou no compasso habitual de normalidade, enquanto lá embaixo, no asfalto quente da Barra da Tijuca, a guerreira de titânio entrava em seu carro importado com os olhos azuis inundados de lágrimas, descobrindo que o preço do seu orgulho e do seu sucesso havia sido o silêncio definitivo do único homem que um dia soubera decifrar a sua música mais real.