A Batida do Coração 3: O Acorde final

30 O Reencontro no Itanhangá e o Acorde do Perdão



​A rejeição no hall dos elevadores e as palavras cortantes de Candy ecoaram na mente de Kayla Drake como um zumbido torturante enquanto ela dirigia seu carro de volta ao hotel. O choque de saber que seu segredo mais íntimo — a reconstrução de titânio e a perda do ventre — era de conhecimento de Logan e de sua família a deixou vulnerável, despida de sua armadura de estrela internacional. Mas o gênio Drake, embora ferido, ainda guardava a impetuosidade de buscar suas origens. Ela precisava dos pais. Precisava do porto seguro que um dia renegara.

​Como os canais oficiais da Som Livre continuavam a monitorar seus passos e a esconder o paradeiro de Jace e Rebekah para mantê-la focada na turnê, Kayla não hesitou. Ela recorreu ao mesmo detetive particular de elite que seu pai usara dez anos atrás. Dinheiro não era problema para a maior artista do país.

​No fim da tarde de domingo, o arquivo digital chegou ao seu celular. Era um endereço nobre: uma estrada arborizada e silenciosa no coração do Itanhangá, um condomínio fechado cercada pela mata atlântica.

​A Chegada na Estrada do Itanhangá

​Desta vez, Kayla não quis o carro importado ou os motoristas da gravadora. Ela alugou uma moto esportiva de alta cilindrada, preta e fosca, resgatando a velha essência da garota rebelde que cruzava a orla da Barra da Tijuca. Ela vestia a mesma calça de napa preta, mas trocara o salto 18 por botas de montaria sem salto, adequadas para pilotar.

​O ronco rústico do motor ecoou pelas paredes de pedra do condomínio até parar em frente a uma imensa propriedade de estilo colonial, com um jardim verdejante e palmeiras imperiais. Kayla desligou a moto. O silêncio do lugar, quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelo som do vento nas folhas, trazia uma paz que ela não sentia há uma década.

​Ela desceu da moto, tirou o capacete com movimentos lentos e balançou os cabelos negros enormes em camadas. Seus impressionantes olhos azuis, agora desarmados e marejados, fixaram-se no interfone de bronze ao lado do portão de ferro trabalhado.

​Com os dedos trêmulos, ela apertou o botão.

​O sinal sonoro tocou duas vezes até que o som de estática indicou que alguém havia atendido do outro lado, dentro da casa grande.

​— Pois não? Quem deseja? — a voz mansa, madura e inconfundível de Rebekah Laurentis ecoou pelo alto-falante.

​Kayla sentiu a garganta travar, um nó de emoção apertando seu peito. Ela engoliu em seco e aproximou-se do microfone.

​— Mãe... sou eu — Kayla soltou, a voz saindo rouca, pausada e visivelmente embargada pelo choro reprimido. — É a Kayla. Eu estou aqui no portão.

​Do outro lado da linha, o silêncio foi imediato. O som de uma respiração sufocada indicou o choque brutal de Rebekah. Dez anos de ausência, de cartas não respondidas e de uma busca que parecia ter terminado no metal de Tóquio, desabaram sobre a mãe naquele milésimo de segundo.

​— Kayla...? Meu Deus... Kayla! — Rebekah exclamou, a voz quebrando em um pranto instantâneo.

​Sem mais nenhuma pergunta, o som eletrônico do portão de ferro destravando ecoou pela rua silenciosa. O acesso estava liberado.

​A Sala das Linhas Cruzadas

​Kayla caminhou pelo caminho de pedras do jardim, segurando o capacete sob o braço esquerdo. Cada passo era firme — o titânio em seu quadril garantia a mecânica perfeita —, mas seu coração operava em uma frequência cardíaca acelerada e puramente humana.

​Ao empurrar a imensa porta de madeira da sala principal, ela estancou.

​A sala era ampla, iluminada pela luz suave do fim de tarde que entrava pelas vidraças. No centro do ambiente, parados lado a lado sobre o tapete persa, estavam Jace e Rebekah Drake.

​Jace vestia uma camisa de sarja escura, as mãos fortes presas nos bolsos da calça, e seus olhos escuros, idênticos aos da filha, fixavam-se na figura que cruzava o batente. Rebekah estava com as lágrimas escorrendo livremente pelas bochechas, segurando um lenço contra o peito. Eles não se moveram imediatamente. Havia um peso denso no ar, o histórico de uma ruptura dolorosa e o eco do relatório de Tóquio que Logan os entregara dias atrás. Eles sabiam o que a filha sacrificara pelo palco.

​Kayla deu dois passos para dentro da sala, deixando o capacete cair no chão de madeira com um estalo abafado. Ela olhou para o pai — o homem cujas palavras ela triturara no quarto de hotel em Manhattan — e sua armadura de arrogância Drake ruiu por completo.

​— Pai... — Kayla chamou, as lágrimas finalmente transbordando de seus impressionantes olhos azuis, fazendo sua voz falhar de forma dolorosa. Ela caminhou até o centro da sala, parando a poucos passos de Jace, com os ombros largos tremendo sutilmente. — Me perdoa... por favor, me perdoa. Eu fui cega, eu fui egoísta... Eu passei dez anos ouvindo o mundo inteiro gritar o meu nome em estádios lotados, mas a verdade é que o silêncio sem vocês dois era insuportável. Eu senti tanta falta de vocês... Senti falta da sua bateria, pai. Senti falta do seu abraço, mãe.

​Jace Drake continuou imóvel por um instante, a linha do maxilar rígida, absorvendo o impacto do sofrimento real na voz da filha. Ele não via mais a estrela de titânio ali; via a sua menina, a garota teimosa que ele criara com tanto orgulho e que o asfalto e a indústria haviam machucado. E como os pais de verdade sempre fazem, quando o amor de sangue bate de frente com o orgulho, as barreiras evaporam.

​Jace deu um passo longo à frente, tirou as mãos dos bolsos e abriu os braços largos.

​— Vem cá, minha guitarrista... — Jace disse, a voz rústica descendo para uma nota de profunda emoção, o choro contido de um pai que finalmente recuperava a sua herança.

​Kayla desabou. Ela correu e jogou-se contra o peito largo de Jace, sendo erguida do chão pelo abraço esmagador e protetor do pai. No mesmo instante, Rebekah envolveu os dois, cobrindo o rosto de Kayla de beijos e misturando suas lágrimas aos cabelos negros em camadas da filha.

​O loft antigo e a dor do abandono foram sepultados naquele abraço de três vias. Jace apertava a filha contra si com tanta força que o metal invisível sob a pele de Kayla parecia ceder diante do calor daquele afeto biológico e real.

​O Acordo de Acolhimento

​Após longos minutos de um choro coletivo e desabafado, Jace afastou a filha sutilmente, segurando o rosto de Kayla com suas mãos calejadas, olhando bem no fundo dos olhos azuis dela.

​— O orgulho Drake cobra um preço muito alto, minha filha... e nós sabemos o que você sacrificou na reabilitação daquele palco — Jace disse, a voz pausada, fazendo uma referência madura e respeitosa ao segredo da cirurgia, sem trazer julgamentos ou culpas para o momento. Ele deu um sorriso de canto, aquele mesmo sorriso rústico de sua linhagem. — Mas o seu arranjo com a vida não terminou, Kayla. O que passou, passou. O mercado da música pode ter construído uma muralha ao seu redor, mas aqui dentro... você continua sendo a nossa menina.

​Rebekah segurou a mão de Kayla, acariciando os dedos da filha com uma doçura infinita. — A casa está aberta para você, meu amor. Sempre esteve. Esse jardim, esse quarto lá em cima... tudo aqui foi pensado esperando o dia em que a nossa melodia voltaria para o compasso certo. Você não está mais sozinha.

​Kayla drake limpou as bochechas pálidas, olhando ao redor da sala grande e ensolarada, sentindo o calor do abraço dos pais curar uma parte da frieza que o titânio injetara em sua estrutura nos últimos anos. O palco do Maracanã a esperava na próxima semana e a estrada internacional continuaria cobrando seus limites, e ela sabia que o amor de Logan Lâfrer fora perdido definitivamente no passado. No entanto, ali, entre os braços fortes de Jace e o colo mansa de Rebekah, a guerreira de titânio redescobriu que, não importa o tamanho da renúncia ou a intensidade do sucesso: a sua estrutura mais real sempre teria um porto seguro para recomeçar o seu arranjo mais humano.