Vale Aurok

Aurok estava em festa com a chegada dos mercadores que vieram comprar a farta colheita de trigo, repolhos, abóboras, beterrabas, ervilhas, nabos e feijões. Eles não vinham somente para comprar, também vendiam novidades vindas de outros vales, condados e vilarejos por onde passaram. Gritos e risos agitavam os cavalos que relinchavam assustados com tanto barulho. Um campo baldio foi liberado pelo conselho de Aurok para que os mercadores instalassem suas barracas, carroças e acendessem as fogueiras que os aqueceriam nas noites frias do vale. Um fluxo constante de pessoas ligava Aurok ao acampamento.

Mesmo com um local determinado a rua principal estava cheia de carroças e cavalos que comiam o capim que crescia timidamente no chão batido. Um grupo de mágicos e engolidores de fogo fazia a alegria das crianças, enquanto os mais velhos negociavam as mercadorias.

Com o cair da noite a luz do luar dava às estreitas ruas que cortam o Vale Aurok como um labirinto ares de mistérios. A multidão agitada em volta de barracas e tendas todas iluminadas por tochas e aquecidas por fogueiras garimpava os melhores preços e

novidades. Tanta alegria era sinal de que as noites seguintes prometiam. A guarda foi reforçada para evitar tumultos e possíveis confusões.

As tabernas estavam cheias, uns comendo, outros bebendo, mas o que chamava a atenção era a quantidade de pessoas ouvindo os trovadores contando histórias de dragões, cavaleiros alados, elfos, anões e magos. Histórias que deixavam até os mais corajosos arrepiados. Um dos trovadores começou a contar a história de Aurok e Artics, como foram construídas e os motivos de tanto ódio entre elas. As madeiras entrelaçadas estalavam no meio do fogo, de vez em quando leves explosões espalhavam centelhas clareando ao redor da fogueira. O inverno estava longe, mas as noites estavam extremamente frias. Os guardas fazendo a ronda no meio da multidão resolveram se aquecer na aconchegante e disputada fogueira. As histórias sobre Aurok e Artics foram proibidas sob pena de morte a quem as contasse. Entretidos com as histórias ninguém percebeu a presença dos guardas que, as ouviram e imediatamente interromperam o trovador sob ameaça de levá-lo à forca. O trovador se levantou e imediatamente sumiu na multidão. Os guardas esboçaram uma perseguição, mas foram atrapalhados por todos que ouviam as histórias em volta da fogueira.

Os jovens chegaram ao vale pelo portão oeste conduzindo as sentinelas amarradas. Abordados pelos guardas que faziam a proteção, eles foram levados até o conselho. Na presença dos anciões

os guardas foram desamarrados e os garotos, identificados como artiquianos, ficaram presos em uma cela dentro do conselho.

Os elfos cavalgavam na trilha seguindo para Valar e não imaginavam a destruição que os seus olhos iriam presenciar. O caminho estava escuro para qualquer humano, mas para os elfos a luz fraca do luar, que descia por entre as folhas das árvores, era tão clara e forte como a luz do sol aos olhos dos humanos. O cheiro da morte estava mais forte a cada trecho cavalgado. De repente, o piar de uma coruja rasgou o silêncio tirando a concentração dos elfos.

Eles se assustaram ao ver o que sobrou de Valar. Animais se alimentavam dos restos mortais que encontravam em meio aos destroços. O cheiro insuportável não permitia que ficassem parados ali tentando descobrir pistas. Aurok não estava muito longe; com os seus cavalos puro-sangue, linhagem mantida pelos elfos dos primeiros cavalos vindos de Âmbar, chegariam antes do amanhecer.

Os demônios perderam as pistas dos jovens, que sumiram na beira do rio formado pelas quedas-d’água da cachoeira. Temendo represálias do seu mestre por falhar mais uma vez, os demônios se esconderam atrás das árvores e arbustos à espera de qualquer ser que fosse em direção a Aurok. O espectro pactuado com o demônio estava assumindo o comando do exército formado pelos orcs, gigantes nefilins, demônios e amaldiçoados, devido à sucessão de falhas para encontrar o Livro Sagrado.

Os olhos dos lobos brilhavam no escuro como brasa de fogo. Inquietos eles tentavam apanhar as nuvens de mosquitos que rondavam as suas cabeças. O vento trouxe um cheiro agradável fazendo que erguessem os focinhos sentindo os elfos. O cheiro estava cada vez mais forte, os demônios mal conseguiam conter os lobos. O espectro ouviu os cavalos e não demorou a emergirem os vultos da escuridão. Os cinco elfos com os seus cavalos brancos galopavam em direção à armadilha. Orgulhosos e de cabeças erguidas, seus mantos ondulavam brilhando como prata na luz do luar.

Caliel, a bela elfa, tinha um poderoso arco e uma aljava cheia de flechas guarnecidas com penas de cisnes em suas costas. Uma espada presa na cintura do lado esquerdo e uma adaga inseparável.

Bellon e os outros traziam em suas cabeças elmos forjados em prata e ouro, igual à elfa eles também tinham uma espada presa ao cinto, um arco e uma aljava cheia de flechas em suas costas.

O espectro e seus comandados tinham certeza de que a emboscada seria bem executada, mas o vento mudou de direção soprando o ar pesado do mau cheiro dos lobos para cima dos elfos.

Bellon, o primeiro a sentir o cheiro, acenou sutilmente para Caliel e os outros. Os elfos ficaram em alerta, olhando de um lado a outro a espera de um ataque. Caliel enxergou os olhos dos lobos à espreita na escuridão. Os elfos, trocando sinais entre si, mudaram repentinamente de direção, galopando entre as árvores desviando de galhos e arbusto.

O espectro e os demônios, montados nos lobos, abandonaram seus esconderijos perseguindo os elfos. Usando os poderes conseguidos por meio do pacto com um poderoso demônio, o espectro ergueu suas mãos, de onde saíram raios rumo aos elfos. Os raios iluminaram as árvores com um clarão aterrorizante que atingiram dois dos elfos, tornando cavalos e elfos uma mancha de sangue entre os troncos das árvores e folhas de arbustos.

Caliel, Bellon e Rauthar se embrenharam, na floresta fugindo. Os demônios sedentos por sangue avançavam tentando separá-los. Eles não conseguiram entrar nos pensamentos dos elfos, assim, o espectro com os poderes malignos providenciou arcos e flechas envenenadas. Não tendo habilidade com as armas, os demônios dispararam uma chuva de flechas negras a esmo.

Os elfos em disparada se aproximavam do rio, mas ponte de acesso para o outro lado era estreita, mal cabiam duas pessoas lado a lado. Caliel, usando sua habilidade e conhecimento na língua dos animais pediu para os cavalos que dessem o melhor salto. Um grito escapou dos lábios da elfa quando viu o rio de aproximadamente sete metros crescer a sua frente. Os cavalos saltaram. No meio do rio parecia que não seria possível alcançar o outro lado. As patas traseiras apoiaram-se na beirada do barranco, quase levando cavalos e elfos para dentro do rio.

Os lobos tentaram os feitos dos cavalos élficos, mas o impulso não foi o suficiente para chegar à metade do rio. Lobos e

demônios mergulharam, deixando o espectro bravo. Ele subiu no topo de uma pedra onde podia ver os elfos galopando a caminho de Aurok. O espectro ergueu as duas mãos batendo uma contra a outra incendiando trechos e trechos atrás dos elfos. Os guardas, vendo o fogo e os três cavaleiros vindo em sua direção, abandonaram os seus postos. O fogo consumia tudo que estava a sua frente, os portões de Aurok estava há oitocentos metros. As badaladas do sino de alerta soavam sem parar, como se o guarda transferisse todo o seu medo para os golpes contra o sino.

A multidão que estava na festa quando ouviram as badaladas, imaginou que algum engraçadinho bêbado teria subido até a guarita para tocar o sino.

Os elfos ultrapassaram os guardas que corriam em direção ao portão, faltando cinquenta metros da entrada dois guardas caíram como se desistissem de suas vidas. Caliel e Bellon voltaram para buscá-los. As chamas vorazes incandesciam pedras destruindo toda a vegetação. Os elfos agarram os guardas pelos cintos, puxando-os para cima dos cavalos, as labaredas estavam tão próximas que chamuscaram os rabos dos animais. O clarão das chamas silenciou o povo em Aurok; boquiabertos com a altura das chamas, ficaram paralisados. Rauthar vendo todos parados gritou.

― Corram! Salvem as suas vidas.

As pessoas pareciam formigas quando a trilha é interrompida, uma batia na outra, o caos estava feito. Crianças e mulheres

gritavam, cães latiam assustados procurando abrigo em baixo das carroças. Os cavalos agitados com os gritos e com o corre-corre arrancaram as estacas do chão, em disparada atropelaram homens e mulheres.

Sem a menor consideração com os guardas e os elfos os portões estavam sendo fechados. Rauthar desceu de seu cavalo impedindo que os guardas fechassem os portões com os seus amigos lá fora.

Caliel, Bellon e os guardas passaram pelos portões como um relâmpago. Rauthar fechava os pesados portões de madeira subestimando as labaredas. O elfo só teve tempo de levantar os braços para proteger o rosto. O fogo voraz que vinha destruindo tudo a sua frente de repente se apagou, como se alguém tivesse abafado, tomando-lhe o oxigênio.

O conselho adiou a festa por alguns dias, até os moradores recuperarem de suas feridas e acalmarem os nervos. Os elfos não entenderam como o fogo avassalador teria apagado a poucos centímetros dos portões de Aurok.

Convidados a se apresentarem ao conselho assim que raiasse o dia, os elfos levaram os cavalos para o estábulo, e em seguida descansariam em uma pequena estalagem designada para convidados do conselho.

O cerco estava se formando, cada passo da humanidade estava sendo vigiado pelos demônios. Os ataques eram só uma

distração, enquanto há noroeste de Aurok, passando pela Floresta dos Mortos uma fortaleza no Vale dos Amaldiçoados foi erguida. Um plano bem maior se desenvolvia. Os amaldiçoados eram pessoas com a aparência desfigurada, rejeitados pelas famílias que os consideravam monstros, eles eram obrigados a viverem isolados.

O dia em Aurok se fez, o barulho da chuva no telhado convidava para ficar mais um pouco na cama quente de colchão de palha macia, privilégio que naquele momento as pessoas de Aurok não podiam desfrutar. Os jovens dormiram presos na pequena cela fria do conselho. Assim que amanheceu, os elfos estavam à espera dos anciões na entrada do conselho. Aos poucos eles chegavam, os olhares contemplando a beleza dos elfos eram inevitáveis. Caliel, Bellon e Rauthar seguindo os anciões entraram desconfiados, pareciam que já conheciam o local. A sala do conselho de Aurok era igual à de Artics em todos os detalhes.

Todos acomodados em volta da mesa enquanto o servo trouxe frutas, pães e bebidas. Caliel, sem rodeios, foi direto ao ponto, deixando os anciões desconfortáveis, pois as mulheres não tinham o direito de participar dos assuntos do conselho.

― Os senhores sabem se alguns jovens passaram por aqui? – quando ela perguntou o silêncio tomou conta da sala.

― Por que vocês elfos estão à procura dos jovens humanos? – questionou o ancião antes de responder à jovem elfa.

― Lodur, o mago, pediu a Turon, o rei dos elfos, para ajudar a encontrá-los.

― Está muito estranho, por que o mago iria pedir ao um rei elfo para ajudar a encontrar os jovens humanos?

― Bellon levantou derrubando a cadeira e disse:

― Seu velho, acha que estamos mentindo!

Assustados com a reação do elfo os anciões olharam-se e com um discreto sinal permitiram que Askell dissesse aos elfos sobre os jovens.

― Eles capturaram as nossas sentinelas em uma emboscada, chegaram aqui com elas amarradas, nós as soltamos e os jovens estão sob nossa proteção.

Caliel tomada por um sentimento de alegria, levantou-se.

― Queremos vê-los agora!

Rauthar e Bellon não entenderam a pressa de Caliel para ver os jovens humanos.

O ancião Askell foi incumbido de levar os elfos até a cela onde estavam os jovens. Caliel não tinha certeza se Gunter estava entre aqueles jovens sob a proteção de Aurok. Na cela bem ao fundo das dependências do conselho estavam os jovens, pensativos como se arquitetassem um plano.

Rauthar e Bellon olhavam minuciosamente os jovens, procurando as bolsas de couro, enquanto o olhar de Caliel se entristecia por não encontrar Gunter.

― Askell chamou os guardas. – Não está faltando um jovem?

― Os guardas olharam, olharam. Sim! Está faltando um!

― Como vocês deixaram um garoto escapar, seus incompetentes?

O olhar entristecido da elfa voltou a brilhar mais intenso, agora ela tinha certeza de que Gunter estava vivo e esteve preso junto aos outros.

― Guardas, entrem nesta cela agora! – ordenou Askell.

Empurrando os jovens que estavam à frente, os quatro guardas entraram revirando, jogando tudo ao chão. Os guardas não sabiam o que dizer para o ancião que cobrava uma explicação. Os elfos ouviram o respirar do jovem vindo de cima do armário feito com uma espessa madeira de carvalho branco, perceberam que um plano estava preste a ser executado.

Miolnir olhou para os elfos, que viraram as costas como se não estivessem vendo o que estava prestes a acontecer. Ramifel golpeou o ancião Askell na cabeça, enquanto os outros imobilizavam os quatro guardas. Gunter saiu do esconderijo assim que os guardas foram dominados. Trancaram o ancião e os guardas dentro da cela. Pegaram as bolsas e correram para a sala ao lado onde as armas estavam. Quando passou pela porta correndo Gunter viu a bela elfa que tirava o seu sono, voltou para confirmar se os seus olhos não estavam ludibriando sua mente.

Parou, olhou nos olhos da elfa, que sorriu timidamente; ele caminhou em sua direção, mas Bellon tomou-lhe a frente, ficando entre os dois. Gunter se afastou sem dizer uma palavra, os seus olhares diziam o suficiente. Caliel viu Gunter seguir os seus amigos que saiam as pressas da sala com as armas.

Bellon e Rauthar avisaram os anciões que seus guardas estavam presos na cela com Askell.

― Por que vocês não interferiram? – quiseram saber os anciões.

― Os guardas foram surpreendidos quando entraram na cela, se tentássemos alguma coisa eles os matariam – explicou Rauthar aos anciões.

Caliel tentava ver da janela para onde os jovens foram.

Um dos anciões saiu para tocar o sino em cima da grande sala do conselho, avisando os guardas que precisariam de ajuda. Em pouco tempo o conselho se encheu de guardas. Retomando a consciência Askell e os guardas gritavam pedindo ajuda. Os anciões mandaram os guardas soltarem Askell e os outros, enquanto os anciões exigiam que os elfos mostrassem para onde os jovens foram. Bellon disse que não sabia para onde foram. Caliel sabia, ela pensou, pensou e disse:

― Eles foram naquela direção, eu os vi pela janela correndo para os portões da entrada oeste. Bellon percebeu nos olhos de Caliel

que estava mentindo para proteger os jovens. Os jovens correram para o norte do vale desaparecendo nas ruelas.

Os anciões, querendo saber sobre o interesse dos elfos nos jovens, deixaram as dependências da estalagem à disposição dos elfos. Gentilmente eles aceitaram, também queriam descobrir porque o fogo não ultrapassou os portões.

Gunter sentiu que poderia falar com a elfa mais uma vez, como no Lago Wind, sem a interferência de estranhos. Téo e Snow queriam partir para o Vale dos Magos a oeste de Aurok. O término da missão estava tão próximo que se pudessem sairiam correndo deixando todos os perigos para trás.

Os outros jovens não concordavam com Téo e Snow, eles queriam ficar mais uns dias escondidos em Aurok até os lobos e os demônios se afastarem. Logo os anciões iriam retomar os dias festivos para comemorar a chegada dos mercadores, uma oportunidade para se infiltrar entre os moradores de Aurok.

Bellon e Rauthar foram para o portão principal procurar uma explicação, sobre o que impediu o fogo de destruir o vale. Caliel saiu à procura dos jovens, que encontraram abrigo em uma velha casa afastada do centro de Aurok.

Gunter, sem parar de pensar na elfa, estava inquieto. Téo, vendo a agonia do amigo, perguntou.

― O que atormenta os seus pensamentos?

― Estou preocupado com tudo que vem acontecendo, a morte de Randulfr, os cavaleiros e demônios nos perseguindo.

― Todos nós estamos com os mesmos sentimentos que você, com a atitude que teve em Valar todos nós vemos em você um grande líder, estamos vivos graças a você.

― Preciso de um tempo, vou tomar um ar – disse Gunter.

― Vou com você.

― Não! Eu preciso ficar um pouco sozinho.

― Tem certeza?

― Sim meu amigo.

― Se ao anoitecer você não aparecer vamos procurá-lo ―Téo alertou o amigo.

― Voltarei antes do anoitecer – Sorriu Gunter lembrando-se de sua mãe ao ouvir as recomendações do amigo.

Gunter precisava voltar para encontrar a elfa, saber pelo menos o seu nome.

Depois do susto as pessoas saíam de suas casas com os olhares atentos, curiosas para saber o que acontecera. Aos poucos as ruelas de Aurok estavam cheias. O jovem passava na multidão sem chamar atenção dos guardas. Caliel percebeu que estava sendo seguida pelos guardas, para despistá-los entrava em uma ruela e outra. Eles conheciam os becos e ruelas de Aurok como as palmas de suas mãos. Não tendo como escapar, a jovem elfa começou a entrar nas tendas.

Na tenda de tecidos um casal viu a jovem tentado fugir dos guardas, acenaram para que ela entrasse em sua tenda. Sem saber onde a elfa estava, os guardas entravam em todas as tendas, vasculhavam todos os cantos.

A gentil mulher pediu que a elfa trocasse de roupa, que usasse o vestido de sua irmã.

Caliel não gostou da ideia, mas não havia outra escolha, teria que se vestir como as humanas de Aurok. O vestido cinza com detalhes brancos cobriu-lhe o corpo como se fosse feito especialmente para ela. Um lenço na cabeça e uma cesta com a espada, adaga e suas roupas élfica pendurada no braço, ela saiu agradecida ao casal. Como se fosse uma autêntica donzela de Aurok, passou pelos guardas, que pararam para olhar o andar atraente da jovem.

Em meio ao pequeno aglomerado de pessoas Caliel viu o jovem Gunter. Ele caminhava rápido a ponto de sumir do alcance de seus olhos. Sob os olhares dos guardas ela não podia correr. Caliel tinha certeza de que Gunter estava indo para a sala do conselho onde eles se encontraram pela ultima vez. A jovem caminhou até o aglomerado, mas ele tinha sumido. Para não passar pelos guardas novamente Caliel cortou caminho, entrando em uma ruela deserta, sombria até para os elfos. Ela procurou pelo jovem nas proximidades do conselho se arriscando, chegando mais perto da grande sala, mas ele sumiu sem deixar pistas.

Gunter tinha visto os guardas caminhando em sua direção. Sem pensar ele entrou embaixo de uma carroça que servia como abrigo para um mercador que roncava com um porco sob a lona. Os guardas demoraram a se afastar, ele vigiava cada movimento deles. Assim que o local ficou seguro o jovem correu até a grande sala do conselho, onde ouviu os guardas recebendo ordens dos anciões para encontrá-los imediatamente. Na porta da taberna havia dois homens conversando, Gunter perguntou-lhes se por acaso viram elfos passando por ali. Um respondeu que não viu, mas o seu amigo contou que na estalagem havia elfos. O homem disse que há duas ruelas atrás da sala do conselho, ele encontraria a estalagem. Gunter saiu correndo pelas estreitas ruas, por alguns instantes ele se esqueceu de que os guardas estavam a sua procura e chamar a atenção daquela maneira era pedir para ser capturado. Ofegante, ele chegou a tempo de ver a jovem de vestido cinza com uma cesta pendurada no braço entrando na estalagem.

Gunter empurrou a porta, a mesma tocou nos sinos que anunciaram a sua presença no recinto. No balcão não havia ninguém, somente uma cadeira vazia com um pedaço de pão e um copo liberando fumaça ao lado.

Pegou um pequeno sino que estava em cima do balcão e começou a chacoalhar. Um homem com mais o menos uns trinta anos um garotinho apareceram apressados.

― O que deseja, jovem? – perguntou o homem.

― Estou à procura dos elfos, eles ainda estão aqui?

― Quem é você?

― Sou amigo deles, eles me disseram que estariam aqui em Aurok.

― Ainda estão aqui, sim.

― O senhor pode me dizer em que quarto estão?

― O mais alto está no primeiro quarto à esquerda, o de cabelos amarrados no segundo a direita e a mulher subindo a escada no final do corredor.

― Obrigado, senhor

― Ah! A mulher acabou de subir.

― Obrigado.

Ele subiu as escadas, o corredor parecia não ter fim. De frente com a porta ele deu três batidas, as batidas foram tão fracas que ninguém apareceu. Bateu mais uma vez e nada; ao encostar-se à porta o peso de seu corpo abriu uma brecha pela qual mal dava para enxergar dentro do quarto.

Terminou de abrir a porta entrando no aposento da jovem, estava sem graça pela invasão, mas não havia outra alternativa.

― Tem alguém aqui? Tem alguém aqui? – ele perguntava olhando nos cantos.

O quarto estava escuro, Caliel não reconheceu a voz de Gunter, colocou a adaga em seu pescoço fazendo um pequeno corte.

― Quem é você? Responda antes que eu atravesse esta adaga em sua garganta.

― Gunter, meu nome é Gunter.

Quando ouviu o nome do jovem Caliel o soltou devagar, andou três metros no quarto escuro até a janela, abriu deixando que a luz do dia clareasse o rosto que tanto queria ver novamente.

Eles ficaram se olhando sem dizer uma palavra, era como se o tempo parasse naquele instante e suas almas se reencontrassem depois de muito tempo.

Gunter, com o pescoço sangrando, tomou a elfa em seus braços, suas respirações ofegantes aceleravam o pulsar de seus corações. Um beijo eternizou o terceiro encontro, que foi interrompido pelo dono da estalagem batendo na porta.

― O senhor deseja alguma coisa? ―perguntou a elfa arrumando, o cabelo.

― Moça, havia um jovem estranho procurando pelos seus amigos, ele veio aqui?

― Não, não vi.

― Tudo bem, obrigado, moça, desculpe pelo incômodo.

“Será que ele ainda esta nas dependências da estalagem?”, pensou o estalajadeiro andando pelos corredores.

Gunter havia saído pela janela se escondendo no telhado. Caliel fechou a porta, mas os seus olhos não encontraram Gunter no quarto. Ela foi até a janela pedindo para que ele entrasse novamente.

― Eu ainda não sei o seu nome? Quando eu te vi pela primeira vez você não quis falar o seu nome.

― Sinto muito, eu me arrependi, todo esse tempo não consegui tirar você dos meus pensamentos. Eu me chamo Caliel.

― Caliel, eu também não consegui parar de pensar em você, mesmo passando por vários perigos o seu rosto estava presente em minhas lembranças.

― Gunter, você precisa ir embora agora.

― Por que me manda embora?

― Precisa ir! Bellon e Rauthar estão chegando.

― Estamos só conversando.

― Não! Você não entende, minha raça não gosta de ter contato com os humanos. Elfos e humanos se unem quando têm problemas em comum, que possam destruir a vida em nosso mundo.

― Então...

― Caliel interrompeu o jovem.

― Isso mesmo, eu não poderia sentir nada por você, se descobrissem não posso imaginar o que aconteceria comigo.

― Caliel, prometa que vai me encontrar hoje à noite, assim que ouvir as badaladas do sino avisando os moradores para se recolher.

― Vá antes que eles nos vejam juntos.

― Promete! Assim que ouvir o sino.

― Onde?

― Na torre do sino.

― Vá! Eles estão subindo as escadas.

― Você está linda com esse vestido.

Os elfos bateram à porta, eles ouviram que havia duas pessoas no quarto. Discretos, não falaram nada com Caliel. Rauthar caminhou até a janela, olhou para todos os lados procurando alguém, o cheiro de humano exalava forte no ar. Gunter caminhou no telhado, descendo pelo outro lado pisando o monte de lenha encostado na parede da estalagem.

Como prometera a seu amigo Téo, Gunter voltou antes do anoitecer. Téo percebeu que Gunter estava diferente, sorridente, o olhar não era o mesmo de antes. Os outros também notaram a diferença e não quiseram questionar aquele que estava se transformando em um grande líder do grupo.

Lodur, voltando para o Vale dos Magos, sentiu uma força maligna vindo de noroeste, força essa que deixou o grifo inquieto e fez o velho corpo de Lodur arrepiar dos pés a cabeça. Ele resolveu seguir os seus instintos. Sobrevoou os arredores da Floresta dos Mortos o Vale dos Amaldiçoados em busca do foco de tanta energia maligna. Lodur avistou uma grande fortaleza erguida no Vale dos Amaldiçoados. Com os poderes da magia arcana ensinada pelo seu mestre Klaus, aperfeiçoada com os longos anos, Lodur invocou o feitiço da invisibilidade voando mais próximo do vale e da Floresta dos Mortos.

Para sua surpresa e preocupação os gigantes nefilins com poderes sobrenaturais estavam no Vale dos Amaldiçoados protegendo a fortaleza. Cerca de cem anjos guerreiros estavam nas montanhas em volta do vale observando cada movimento na fortaleza. Eles viram Lodur sobrevoando com o grifo, mas o mago não tem poderes suficientes para vê-los em suas formas divinas.

Lodur voltou imediatamente para o Vale dos Magos ciente de que era necessário reunir todos da ordem. Homens, elfos, anões, magos e todas as criaturas não corrompidas para se unirem contra o mau que traria dias de trevas para a Terra.

Aros sentiu a presença do mago, olhou para o céu e lá estava o grifo batendo suas asas sob a luz do luar indo embora. Ele foi até o aposento de Lodur, onde o mago estava andando de um lado para outro preocupado.

― Lodur, o que está acontecendo? – preocupou-se Aros, vendo o amigo agoniado.

― Sente-se, aqui Aros.

― O que aconteceu, Lodur?

― Aros, dias de aflições estão por vir.

― Como? Se os demônios estão presos há séculos nas profundezas do submundo...

― Aros, escute! Uma fortaleza foi erguida no Vale dos Amaldiçoados, ela está sendo protegidas pelos gigantes nefilins.

― Gigantes, Lodur?

― Sim! Vou te contar com surgiram.

“O Criador incumbiu alguns anjos de observarem a sua criação humana; com o passar dos tempos, a humanidade começou a crescer. A união entre Homens e mulheres gerou belas filhas. As filhas dos homens tornaram-se mulheres atraentes, tal beleza despertou nos vigilantes um desejo incontrolável. Os anjos vigilantes liderados por Samyaza fizeram um juramento entre eles para não desistirem no momento de abandonar o posto. Eles se materializaram na forma humana para saciar o desejo pelas belas humanas. Dessa união entre anjos encarnados e mulheres nasceram os gigantes nefilins. Esses híbridos com forças sobrenaturais despertaram a ira do criador”.

― Lodur, o que vamos fazer?

― Não sei! Temo que o Criador tenha enviado anjos guerreiros para destruir tudo isto.

― Não temos forças para lutar contra o sobrenatural.

― Há uma esperança, Aros! Há uma esperança!

― O que está dizendo?

― Amanhã eu vou para Aurok, preciso reunir todos que podem lutar por essa terra.

Miguel foi avisado por um dos anjos em seu comando que Lodur estava sobrevoando o Vale e a Floresta dos Mortos. Imediatamente ele partiu para o Vale dos Magos para encontrá-lo, mas ao chegar ouviu o velho mago conversando com Aros, era uma

oportunidade de descobrir o que Lodur sabia a respeito do que viu. Miguel soube de tudo que Lodur viu e quais seriam os seus planos referentes à situação. Ele voltou para os arredores do Vale dos Amaldiçoados onde os seus liderados faziam a vigia. Convocou todos os anjos para uma reunião perto da Floresta dos Elfos.

― Irmãos, os humanos vão reunir forças entre o seus para lutar contra os anjos que foram banidos por nós. Nesta batalha não temos permissão do nosso pai para lutar. Os humanos terão que ser fortes e superar as tentações oferecidas pelo traidor Lúcifer.

Mesmo que os humanos estejam sendo destruídos, não temos permissão de ajudá-los até que a ordem seja dada, vocês entenderam?

O silêncio dos anjos foi para Miguel a certeza de que todos haviam entendido a mensagem.