A Batalha dos Nefilins- O Livro Sagrado
5 Os elfos
Os elfos
Caliel pedia para o seu cavalo branco puro-sangue que corresse o mais rápido que pudesse; ouvindo a elfa, ele corria como se fosse levado pelo vento.Destemida, não se incomodou com os rumores sobre um espectro que andava pelas terras de Artics.Bellon, no comando dos cincos guerreiros elfos, seguia para Artics. Ele nunca escondeu dos pais de Caliel o seu interesse pela bela jovem, mas ela, indomável, livre, gostava mesmo das histórias de seu povo. Treinar para ser uma grande guerreira seguindo os passos de seu pai, aprender a magia escondidas nos velhos pergaminhos e aperfeiçoar a sua comunicação com a natureza, ela não via em Bellon a liberdade de ir e vir. Ela tinha certeza que se casasse com Bellon a sua vida mudaria a liberdade teria fim. Seria como as outras elfas, o espírito guerreiro e aventureiro seria aprisionado nas tarefas da cidade sagrada.A população de Artics estava apavorada sem saber quem matara Tiil ,o taberneiro. Estranhos circulavam nas pequenas ruelas fazendo perguntas sobre o espectro, entre uma pergunta e outra eles queriam saber para onde os jovens foram. Depois de tantosacontecimentos ruins, foi decidido pelos membros do conselho que Artics deveria convocar todos os seus guerreiros que estavam em Orion fazendo os rigorosos treinamentos. Como uma solução imediata para intimidar os estranhos e possíveis ataques, os guerreiros que estavam nos arredores voltariam para reforçar a proteção.Próximo a Artics, Caliel se escondeu a espera dos elfos, não era seguro chegar sozinha, a recepção dos humanos poderia ser hostil. Bellon e os elfos não deveriam estar muito longe. Ela sempre se abaixava colocando as orelhas ao chão tentando ouvir as vibrações que indicaria a aproximação deles.O falcão de Bellon pairava silencioso observando a elfa; com um relinchar o seu cavalo denunciou a presença do falcão. Rapidamente Caliel se levantou, oferecendo ao falcão seu antebraço para pousar. Obedecendo, ele pousou. Como um gesto de carinho o falcão tirou uma folha presa nos cabelos da elfa com o bico.― Ela perguntou onde estava Bellon e ele respondeu que estava próximo. Alertada pelo falcão da proximidade dos elfos, ela não podia segurá-lo por muito tempo, o elfo desconfiaria. Antes de liberá-lo pediu para não avisar Bellon que a tinha encontrado. Entendendo o pedido, pôs-se ao céu olhando para trás e se despedindo.Quando filhote, Bellon o levava aos treinamentos, Caliel gostava de acariciá-lo. Com o passar do tempo e o convívio nostreinamentos o falcão parecia obedecer mais à jovem que ao seu dono.Um bando de cavaleiros portando a bandeira com as cores azul e branca de Arkar, reino dos homens, passou por Caliel, indo para Artics. A princípio ela pensou que fossem os elfos, mas o barulho que vinha em seus ouvidos encostados ao chão não era de cinco elfos cavalgando, mas de um bando bem maior. Escondida, via a poeira que levantava dos cascos dos cavalos. Caliel sabia que os elfos não viriam pela estrada empoeirada, eles utilizariam as trilhas do meio do mato, evitando deixar o mínimo de rastros de seus animais.Os cavaleiros de Arkar passaram pela reforçada segurança dos guardas de Artics. Os cincos elfos desciam o morro em seus cavalos; antes que eles chegassem aos guardas, Caliel juntou-se a eles.Bellon, vendo Caliel se juntar a eles, ficou muito irritado, desceu do cavalo e puxou a de cima do animal segurando-lhe os braços esbravejando.― O que você pensa que está fazendo, Caliel?― Me solta, eu não tenho satisfação a lhe dar, Bellon!O elfo apertava-lhe o braço com raiva.― Solte-me, este é o último aviso!Agindo como uma serpente, em poucos golpes Bellon estava dominado. Caliel prendeu-lhe o pescoço entre suas pernas e aos poucos apertava.― Caliel, você não pode fazer isso! – disse Fir, chamando a atenção dos dois, que pareciam não ter crescido.― Caliel, você vem conosco, mas está proibida de se envolver neste assunto! – disse Bellon, massageando o pescoço.A caminho dos guardas Caliel gentilmente aproximou-se de Bellon pedindo-lhe desculpas por sua agressividade, tocando seu ombro. Aceitando suas desculpas retribuídas com um sorriso no canto da boca, o olhar de Bellon sempre denunciava o que as palavras se enrolavam em dizer.― Parem! O que vocês elfos querem aqui? – perguntou os guardas apontando suas armas.― Estamos aqui representando o rei dos elfos, Turon, da Floresta Agriin, somos protetores da cidade sagrada dos elfos, queremos falar com os anciões do conselho.― Não tenho permissão para deixar vocês entrarem.― Peço que avisem o conselho da nossa chegada.― Bran, toque o sino uma vez pedindo reforço para escoltá-los até o conselho – disse o líder dos guardas.Assim que ouviram o soar do sino, imediatamente quinze guardas se deslocaram até a entrada de Artics.― Capitão! – saldou o jovem guerreiro.― É necessário que escoltem estes elfos até o conselho, se possível acompanhe-os dentro da grande sala. Sete entram, o restante se posicione em volta da sala – foram as ordens do capitão.Cercados pelos guardas os elfos foram escoltados até a grande sala do conselho. Amir, o ancião,recebeu-os. Pediu que entrassem e perguntou o porquê de estarem longe da cidade sagrada. O elfo Bellon, explicou o motivo da presença e a preocupação de Turon a respeito da invasão do espectro à procura do Livro do Sagrado. Mordor, ouvindo toda a conversa da sala ao lado, pôs-se fora dela pedindo para que os elfos entrassem. Ele pediu para os guardas irem tomar ar fresco lá fora.
A notícia de que havia elfos dentro da grande sala do conselho se espalhou, moradores e forasteiros se aglomeraram nas ruelas ao redor esperando para vê-los sair.Dentro da sala estava Ragna, o homem de confiança do rei de Arkar. Vestido elegantemente com roupas finas de seda, anel de ouro nos dedos e a boca cravejada de dentes de ouro, ele não se sentiu confortável com a presença dos cinco elfos. Mordor, esperava que eles fossem tolerantes uns com os outros, devido aos longos tempos de batalhas que lutaram do mesmo lado. Mas a incompatibilidade entre as raças era maior, antes que a sala do conselho se tornasse um rio de sangue o ancião começou a contar o ocorrido.Todos queriam saber onde estava o Livro Sagrado e esclarecer os rumores de que os jovens partiram para uma missãolevando bolsas mágicas de couro, sendo que numa delas estaria o Livro.Mordor, esperto como uma raposa velha, disse-lhes que há milhares de anos não se ouvia falar do Livro Sagrado, talvez pudesse ser até uma lenda. E os garotos levaram nas bolsas pergaminhos sem utilidade para testar suas responsabilidades, pensando que estavam protegendo algo importante.Caliel não quis entrar para ouvir as perguntas sobre o livro, o seu interesse era outro. Amir, o ancião, vendo que a elfa ficaria fora da sala, resolveu fazer-lhe companhia.Ela percebeu que o velho Amir estava admirando a sua beleza e aproveitou para perguntar.― O senhor conhecer algum jovem chamado Gunter?― Gunter! Gunter! Gunter! – o ancião tentava garimpar o nome em suas lembranças.― Talvez ele more aqui, é um jovem de olhos verdes, cabelos negros, tem mais ou menos a minha altura, é caçador.― Se não me falha a memória um dos jovens que partiu chama-se Gunter – forçando a memória ao máximo Amir conseguia lembrar, mas não tinha bem certeza.― Eles foram para onde? – aproximando-se cada vez mais do ancião perguntou a jovem.― Foram para oeste, ao Vale dos Magos – fascinado com a linda jovem, Amir respondia a todas as suas perguntas sem pensar.Os cincos elfos, percebendo que Mordor não falaria mais nada, despediram–se educadamente de Ragnar. O ancião Mordor os acompanhou até a porta. Bellon, olhou dentro dos olhos do velho e disse-lhe:― Nós sabemos que o livro a cada século fica sob a proteção de uma raça membro da ordem dos protetores. O livro existe e faz parte de nossa história também, vamos encontrá-lo mesmo que os humanos tentem ficar no caminho.Mordor, pediu a Amir que acompanhasse os elfos por todo o corredor até a saída. Bellon, olhava o corredor a caminho da saída à procura de pistas, marcas ocultas aos olhos dos humanos deixadas de propósito pelo espectro. Amir caminhava admirando a elfa que estava a sua frente, o seu andar suave deixava o ancião em situação que mal conseguia fechar a boca.Fir, acompanhando o estado de Amir, adiantou os passos, tocando uma tocha umedecida com gordura de animais onde uma mosca se deleitava esfregando suas perninhas uma na outra. A mosca, desnorteada, entrou na boca de Amir, engasgando-o. O ancião tossia como um cão. Bellon, viu a travessura de Fir, que deixou por um instante a postura de elfo voltando aos velhos tempos de criança. Caliel se preocupou ao ver o desespero do velho, agarrou-lhe pelas costas apertando-lhe a barriga até que a mosca caiu longe, cheia de saliva.Quando chegaram à porta, avistaram as pequenas ruas em volta da grande sala do conselho cheias de pessoas para vê-los. Escoltados pelos quinze guardas, eles passaram por um corredor humano. Entre a multidão estava um demônio. Os elfos não tiravam os olhos dele.Fir, devagar puxava a sua adaga, Bellon evitando o pior não deixou. Sob os olhos dos humanos os demônios escondem suas verdadeiras faces, ludibriando-os aponto de serem considerados iguais. Para aqueles que conseguem enxergar a outra face, eles não passavam de vermes rastejantes das profundezas, aproveitadores, causadores de conflitos.Fora de Artics, Caliel contou aos cinco elfos que sabia para onde os jovens humanos tinha ido. Bellon, bravo com a atitude de Mordor por não contar a verdade, virou-se para a Caliel.― Como sabe para onde foram?― Amir, o ancião, disse que os jovens foram para oeste, para o Vale dos Magos.Bellon mandou Fir voltar para a cidade sagrada avisar o rei Turon para onde iriam. Fir também tinha como obrigação dizer aos pais de Caliel que ela estava com Bellon.Ragnar deixou a postura de nobre de lado ao perder a paciência batendo na mesa, exigindo que Mordor falasse o que estava acontecendo. Por que os elfos estavam atrás do Livro Sagrado? Mordor, acuado, dizia que não tinha as respostas para tantasperguntas, que conhecia a lenda do livro como todas as pessoas, por meio de velhos livros, pergaminhos e pelos contadores de histórias.― Ele disse que, se Mordor e o conselho estiverem escondendo algum segredo a respeito do livro, Artics iria ser destruída. Arkar com seus guerreiros e aliados invadiriam, incendiando cada canto imundo de Artics. Matariam velhos, crianças e suas mulheres seriam escravas de seus soldados.Os representantes de Arkar saíram frustrados, esperavam arrancar do conselho todas as informações sobre o livro e o paradeiro dos jovens.Ragnar, preocupado, não sabia como contar ao seu rei que falhou em sua busca.Gunter e os outros descansaram o suficiente para seguir o árduo caminho. Eles não eram mais aqueles jovens de olhares e sorrisos alegres, a dor e a luta pela sobrevivência os transformaram em homens, guerreiros sedentos por vingança com alma de garotos. Volta e meia ouvia-se alguém chamar, a voz parecia ser a de Randulfr.― Ramifel disse para os amigos não darem atenção, era mais uma tentativa dos demônios em ludibriá-los aproveitando-se do momento de tristeza e, no mais, todos presenciaram o corpo de Randulfr sendo cremado.Depois que Ramifel chamou a atenção de seus amigos a voz desapareceu, eles não podiam deixar suas mentes vulneráveis àmanipulação. Gunter estava focado, desfrutando de sua audição e habilidades ampliadas. Ouvia os menores ruídos de pequenos animais nas folhas do chão. Sabia ele que de todos os acontecimentos nesses últimos dias em sua vida o que deixou a melhor lembrança foi no Lago Wind. Bastava fechar os olhos que conseguia sentir a elfa respirando deitada, sendo tocada pelas salientes gotas de chuva.Faltava pouco para chegar ao Vale Aurok, do alto podia-se avistar a Montanha dos Anões, a Fenda dos Dragões a nordeste e o Vale dos Magos a oeste. Nuvens escuras cobriam o cume da Montanha dos Anões, trovões e raios anunciavam a forte tempestade. As rajadas de vento eram tão fortes que mal dava para andar. Snow, magrinho, dava um passo para frente e três para trás. A noite estava cada vez mais perigosa, não havia alternativas, teriam que encontrar abrigo por mais uma noite. Todos de acordo saíram da trilha entrando na floresta, que estava abaixo. Uivos vindos do alto da montanha rochosa apressavam a entrada na floresta. Demônios caçadores enviados das profundezas da escuridão, montados nos grandes lobos negros de olhos vermelhos, farejavam os jovens. Com os amuletos junto ao corpo, os demônios não poderiam utilizar os poderes para entrar em suas mentes e encontrá-los, teriam que seguir os rastros e o cheiro dos humanos, muito apreciado por criaturas que vivem entre nós há milhares de séculos, servindo carne humana como banquete. Axel teve a ideia de urinar dentro de um cantil e espalhar em pontos formando círculos para marcar território comoanimal, para confundir os lobos. Dividiram-se para marcar uma extensa área. Não satisfeito, Téo tirou sua manta de pele, enrolou em uma pedra, pingou os restos de urina do cantil e rolou a pedra pelo penhasco.As rajadas de vento cada vez mais fortes pareciam que iriam arrancar as árvores pelas raízes. A única claridade era dos raios que cortavam o céu, seguidos de estrondosos trovões. Os uivos dos lobos podiam ser ouvidos de longe. Quando sentiram o odor mais forte correram em círculos entre uma árvore e outra, deixando os demônios enfurecidos em seus lombos. Os lobos desceram o penhasco quebrando arbustos e galhos de árvores em sua frente atrás das pistas forjadas pelos jovens.Os demônios, ao perceber que os seus lobos foram enganados, castigaram os animais com chibatadas para eles aprenderem a não serem enganados facilmente.As mensagens enviadas para Lodur no Vale dos Magos nunca chegaram a suas mãos. Estranhando a falta de notícias de Turon, rei dos elfos, e dos outros membros da ordem, Lodur foi até o Jardim da Magia procurar Aros, seu velho amigo, que saberia com certeza se alguma mensagem tinha chegado. Aros também estranhou a ausência das mensagens.
― Quando eram jovens aprendizes de feiticeiro Lodur e Aros foram alunos de Klaus, o mestre dos magos. Klaus procurou em muitos vilarejos, vales e condados jovens que um dia poderiam ser oseu sucessor. Entre milhares de jovens, Lodur e Aros se destacaram, executando feitiços e encantos com perfeição. Desde pequeno Lodur era o mais sábio, generoso, de uma sintonia forte com a natureza. Os seus dons despertaram a admiração de Klaus e a inveja de Aros.Aros queria ser o mestre dos magos de qualquer maneira, a qualquer custo. Ele pensava que os poderes adquiridos de um mestre poderiam ressuscitar os seus pais. Klaus enxergava em Aros uma sombra escura quando tentava entrar em seus pensamentos. Aros era extremamente competitivo, não aceitava perder e ouvir “não” como resposta.Antes de morrer um mestre pode transferir os seus poderes e conhecimentos para o seu sucessor, caso o sucessor não tenha tentado matá-lo. Na hora da transição os pensamentos se tornam um, deixando que o mestre enxergue toda a vida do sucessor. Qualquer suspeita de falsa conduta, o poder irá para um recém-nascido, que demonstrará ter poderes ao completar sete anos, com dezesseis anos os poderes se tornarão mais fortes.O tio de Aros foi banido do Vale dos Magos por tentar matar o seu mestre na época. Quando soube que o jovem Aros estava sendo treinado por Klaus, que ficou com a vaga de mestre depois que ele foi banido, contou ao sobrinho como fazer para conquistar o lugar de seu mestre. Sem pensar nas consequências Aros fez tudo que o tio mandou. Ele lançou um feitiço em Lodur que controlava a sua mente.Tal feitiço fez o jovem Lodur atentar contra a vida de seu mestre Klaus.Klaus sabia dos perigos e cobiças que o poder traria. Quando Lodur se aproximou, Klaus sentiu que havia algo de errado com o jovem. Assim que o mestre se distraiu, Lodur, com os olhos virados, sendo controlado por Aros, atacou com um punhal. Ferido no peito Klaus paralisou o jovem, quebrando o feitiço que o tornara um fantoche. O mestre convocou com urgência todos os magos do vale para se reunirem no Jardim da Magia. Aros, feliz, tinha certeza de que o seu plano foi executado com êxito para ter uma reunião dessa magnitude. Para ele Klaus anunciaria quem seria o seu sucessor.Todos reunidos no jardim com medo do pior se perguntavam o que havia acontecido para Klaus convocar uma reunião de urgência com todos os magos. Com manchas de sangue em sua túnica branca Klaus chegou com o jovem Lodur. Aros, não se aguentava de alegria ao ver que Lodur estava com um punhal na mão e o mestre Klaus com sangue no peito. Klaus pediu que Aros, o levasse até a parte mais alta, onde todos poderiam vê-lo e ouvi-lo. Com Aros e Lodur, ao seu lado o mestre contou a todos que o jovem Lodur tinha tentado matá-lo para ficar com os seus poderes e ser o novo mestre dos magos. A notícia deixou todos sem saber o que fazer, foi como uma chuva de meteoros em suas cabeças.Klaus, pedindo silêncio, acalmou o ímpeto dos magos, que imediatamente queriam a expulsão do jovem assassino do vale.Bravo, Klaus gritou com uma voz aterrorizante, que arrepiou até o alegre Aros. Com todos em silêncio ele disse:― Senhores, a atenção está voltada para este jovem, mas ele foi forçado a fazer esse ataque.― Como, se ele esta com o punhal nas mãos? – questionaram os magos.― Um feitiço fez dele um fantoche, instruído para me matar.― Mestre Klaus, sabe quem colocou o feitiço em Lodur?― Sim, mas não vou condená-lo, sei que foi um velho inimigo que o instruiu a fazer esse feitiço.― Diga, mestre, quem foi, precisamos castigá-lo.Klaus, segurando as mãos dos dois jovens, sentiu que Aros tentava se soltar quando ouviu ele dizer que sabia quem fez o feitiço.― Não posso, mas vou anunciar quem será o meu sucessor, depois da posse vou-me ausentar por um tempo. O jovem Lodur será o meu sucessor. Nesse momento Aros sentiu como se o punhal estivesse cravado em seu peito. As palavras de Klaus deixaram-no entorpecido de ódio.O mestre seguiu dizendo:― Vou transferir parte dos meus poderes e conhecimentos para Lodur.Com muita raiva Aros saiu correndo para o seu aposento. O ato de rebeldia levantou suspeita entre os magos, de que ele seria o traidor. No dia seguinte Klaus transferiu boa parte de seus poderes.Como prometeu o velho mago foi embora sem falar para onde ia ou quando retornaria.Lodur, depois de conversar com Aros no jardim, dirigiu-se até o seu aposento com a ideia de enviar mensagens aos anciões dos vales e vilarejos. Ele precisava com urgência saber de notícias de Turon, rei dos elfos, e de Arkar reino dos homens. Temendo que suas mensagens estivessem sendo interceptadas por alguém infiltrado no Vale dos Magos, preferiu não utilizar os serviços dos mensageiros. Escreveu as mensagens, depois as levou até o pombal, lá escolheu os dois pombos mais resistentes. Lodur amarrou as mensagens nas patas dos pombos mensageiros e os trouxe junto ao peito confidenciando o destino, e em seguida soltou-os. Se em sete dias não tivesse resposta, algo de errado estava acontecendo, ele teria que fazer uma longa viagem até os outros membros da ordem dos protetores da Terra para saber o que ocorria.Os jovens entraram nas terras de Aurok sem perceber que estavam sendo vigiados pelas sentinelas que ouviram os uivos dos lobos nas proximidades.Gunter ouviu o respirar das sentinelas que estavam entre os arbustos e fez sinal para os outros jovens que estavam sendo observados. Eles tentaram se esconder, mas do alto das árvores sentinelas observavam os seus movimentos ao chão. Eles correram até o grande tronco de carvalho branco em busca de proteção, mas não havia como escapar da emboscada. Presos sob a proteção dassentinelas seguiam para Aurok. O odor dos humanos era mais forte com tantos reunidos, foi fácil para os lobos encontrá-los.Os lobos vinham sedentos por sangue sob o comando dos demônios. As sentinelas e os jovens correram entre as árvores em direção à queda-d’água de uma cachoeira. As sentinelas que ficaram no topo das árvores foram encontradas pelos demônios, que entraram em suas mentes ordenando que se jogassem. Agonizantes, buscando o último sopro de vida, elas se debatiam ao chão sendo comidas pelos lobos. Sem poder ajudar os capturados, os jovens e as sentinelas, fugiram entrando em uma passagem secreta atrás da queda-d’água, evitando que os lobos sentissem os seus cheiros.Os jovens, agora prisioneiros das sentinelas, seguiam para Aurok dentro da passagem secreta. Falomir, o líder das sentinelas, quis saber o que havia dentro das bolsas. Os jovens guerreiros não podiam responder o que não sabiam. Falomir ordenou às sentinelas retirarem as bolsas dos jovens. Gunter reagiu, mas os outros estavam com as espadas encostadas em suas gargantas.― O líder das sentinelas disse batendo no rosto de Gunter:― Se você reagir mais uma vez os seus amigos serão decapitados.Falomir tentou abrir as bolsas de varias maneiras sem sucesso e nervoso perguntou:― Qual de vocês sabe abrir estas bolsas?Em silêncio os jovens olharam um para o outro.― Eu disse quem vai abrir estas malditas bolsas?― Gunter, cansado de ouvir as insolências de Falomir, retrucou as ofensas:― Quem você acha que é? Não consegue abri-las com sua espada, seu filho de uma porca?Falomir, insultado pelo jovem na frente de seus comandados, começou a bater em Gunter, que estava com as mãos amarradas. Téo, vendo o amigo apanhar sem poder se defender, gritou.― Pare! Pare! Porque você não o enfrenta em um duelo, se você vencer nós abriremos as bolsas, mas se for derrotado terá que nós libertar!Falomir, confiante, aceitou o duelo, em seu pensamento o jovem que mal tinha pelos no rosto não conseguiria derrotá-lo.O círculo humano em volta deles foi formado, apenas espadas foram escolhidas como armas. Gunter, com a espada feita pelo anjo, era a esperança de seus amigos. Falomir atacava sem parar, Gunter não conseguia contra-ataca. Com um golpe Falomir lançou o jovem contra o círculo humano. Enquanto estava caído em cima de uma sentinela Gunter conseguiu pegar um punhal e lançá-lo perto de Miolnir. As sentinelas empurraram o jovem para cima de Falomir. Gunter atacava como se estivesse lutando sozinho. Falomir tentava responder aos ataques, mas Gunter parecia prever onde seriam. Falomir notou que Gunter planejara algo, mas não conseguia saber com clareza o quê. Ele não acreditava que era possível o jovem estarlutando como um experiente guerreiro se há pouco não conseguia levantar a espada.As sentinelas, vendo o seu líder perdendo o duelo, esqueceram-se dos outros jovens. Miolnir cortou as cordas com o punhal, libertando os seus amigos.Gunter, com Falomir dominado sob sua espada, viu quando as sentinelas partiram para atacá-lo quebrando o acordo em defesa de seu líder. Para surpresa das sentinelas os jovens também entraram na briga, a passagem secreta tornou-se um campo de batalha. Depois de horas de luta as sentinelas foram derrotadas, os jovens guerreiros as amarraram e seguiram para o Vale Aurok.Em Stoe as ruas permaneciam desertas, mesmo depois que o velho Gabriel expulsou os cavaleiros negros. Os moradores, mesmo sendo protegidos pelo círculo sagrado, viviam assustados, escondidos em suas casas. O velho Gabriel, com a janela entreaberta, avistou quando cinco cavaleiros elfos se aproximaram do círculo de proteção. Sem o menor impedimento entraram no vilarejo. Os elfos passaram ao lado da janela. Gabriel teve a certeza de que não estavam possuídos por demônios.Os amaldiçoados não conseguiam quebrar os encantos do círculo que impediam a entrada do mau. Mesmo assim eles encontram formas de atacar e destruir o vilarejo utilizando armas construídas pelos homens como: catapultas, lançando bolas de fogo ou enormes pedras e flechas flamejantes, forçando os moradores aabandonarem o vilarejo. Os elfos não encontraram ninguém. Tiveram que retomar o caminho para Valar sem nenhuma informação.Lodur todas as noites, antes de dormir folheava, um velho livro. Segundo ele os livros traziam paz para o seu espírito. Concentrado no livro de folhas amareladas pelo tempo, não percebeu quando um anjo de armadura azul-celeste e manto vermelho entrou silenciosamente em seu aposento. O barulho vindo da janela que fica de frente com ao salão dos aspirantes a feiticeiros, roubou-lhe a atenção.“Talvez tenha esquecido a janela aberta ou um feitiço mal executado”, pensou ele. Lodur se levantou deixando o livro aberto e devagar caminhou até a janela. O vento leve balançava as cortinas de um fino tecido que o rei dos elfos, Turon, dera-lhe na sua última visita ao Vale dos Magos. Ele ficou na janela por alguns instantes observando os outros magos que lá em baixo conversavam ao lado da fonte cristalina.Exausto em pensar na ausência de notícias, voltou para a mesa resmungando e percebeu que o livro estava fechado. Em silêncio, sem fazer movimentos bruscos, ele caminhava de lado em direção ao seu cajado, mas, antes de qualquer reação, o anjo apresentou-se a sua frente. Assustado com a presença do celeste, Lodur sentou-se na cama para recuperar o fôlego.― Não tenho mais idade para levar sustos – disse o mago com a mão sobre a testa.― Não fique assustado! Meu nome é Miguel, sou um mensageiro cumprindo ordens.― Porque está aqui, se há milhares de anos vocês não se manifestam?― Lodur, estou aqui para alertá-lo novamente, alguns dias atrás, enquanto você dormia, entramos em seus sonhos para avisar que o mal está à procura do Livro Sagrado; você, sendo um membro da ordem de protetores da Terra, não poderá deixar que o livro seja encontrado pelos demônios.― Eu me lembro do aviso, no dia seguinte envie uma mensagem pedindo que ele fosse entregue aqui no Vale dos Magos.― Dias de aflições irão acontecer, nós não temos permissão para ajudá-los, essa luta será de vocês.― Como sempre nós humanos temos que lutar, você sabia que os humanos não têm poderes como vocês?― Os humanos têm muito mais que poderes, vocês não descobriram como usá-lo ainda.Miguel saiu sem deixar que Lodur fizesse perguntas que no momento não poderiam ser respondidas, as resposta seriam vivenciadas pelos humanos. Lodur não conseguia dormir, quando começava a cochilar uma voz o despertava. Preocupado com a voz de mau agouro ele andou de um lado para o outro dentro do extenso quarto a noite inteira. Ao amanhecer Lodur procurou o seu amigo, Aros. Antes de tomar café avisou que iria se ausentar por uns dias,deixando-o responsável pelo Vale dos Magos. Sem dar explicações detalhadas ele assoviou e em poucos instantes um animal alado desceu do céu. O animal magnífico com cabeça de águia, dorso coberto de penas, patas dianteiras aquilinas, quartos de leão. Aros se assustou quando avistou o animal que conhecia somente nos livros. Lodur pediu permissão para o grifo, que se inclinou, deixando o velho mago montar em seu lombo. Sobrevoando o vale Lodur disse que não iria demorar.
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