A lenda

O povoado Stoe parecia estar deserto, nem uma viva alma nas ruelas ou tabernas. Na estalagem o dono pediu que os jovens procurassem outro local para se abrigarem, que em suas dependências não tinha lugar para artiquianos.

Algo de estranho estava acontecendo, as pessoas não agiriam dessa maneira, o povo de Stoe sempre foi hospitaleiro e alegre. Sem ter um local decente pra descansar, os dez jovens iriam dormir em um estábulo que avistaram na entrada do povoado. A febre de Randulfr não baixava e dormir ao relento só iria piorar a situação. Ele gritava por socorro, como se alguém estivesse a persegui-lo, sob efeito do delírio febril tremia de bater o queixo. Indo em direção ao estábulo, um velhinho de uns oitenta anos, vendo de sua janela entreaberta o sofrimento de Randulfr, gentilmente lhes ofereceu abrigo.

Ramifel, Gunter e Téo levaram os cavalos para o estábulo, dando-lhes água e feno, enquanto os outros se acomodavam na casa do gentil velhinho. A casa tinha certo mistério, trazia paz; a febre de Randulfr e o cansaço que dominava os corpos dos jovens sumiram como mágica. Certos de que os cavalos ficariam bem no estábulo, os

três caminhavam para a casa do velhinho, até serem surpreendidos pelo estalajadeiro.

―Vocês não podem ficar aqui! – assustado clamava o homem para os jovens.

― O que esta acontecendo senhor?

― Não! Não posso falar mais nada, vão embora!

Após avisar, o estalajadeiro correndo sumiu na ruela escura de Stoe.

Sem fazer sequer um único comentário os três voltaram a casa onde os seus amigos estavam. A mesa farta de comida, lareira aquecendo os seus corpos, enfim, uma noite merecedora depois desses dias cavalgando, dormindo no chão frio. A casa por fora parecia ser pequenina, dentro era como um labirinto de vários quartos e salas. Depois de tomarem banho e comer, o velhinho fez questão de acomodar todos a seus aposentos.

Gunter dormia sonhado com a elfa que conhecera há dias no Lago Wind. Em seu aposento uma lebre de cor branca adentrou, subindo em sua cama. O sono era tão profundo que Gunter levou um tempo para perceber o animal. Sentindo algo se mexer em sua cama, levantou atordoado vendo o bicho correr para o corredor. Sonolento, apoiando-se nas paredes, saiu do quarto à procura do animal. Os olhos embaçados viam ao longe o pequeno montinho branco correndo. No final do corredor uma porta entreaberta denunciava que a lebre passara por ali. Ele empurrou a porta, aumentado a passagem

sem fazer barulho, sorrateiro como um felino, passo a passo. A sala se fez presente com pilhas de livro e artefatos preciosos que o jovem nunca tinha visto. Espadas, cálices, elmos de ouro e armaduras brilhantes como raios de luz eram protegidas por símbolos iguais os da sala secreta no conselho, onde o ancião Mordor se escondeu do ataque daquela noite. Gunter engatinhava como criança procurando atrás das pilhas de livros e das armaduras a lebre que sumiu. Embaixo da mesa ele viu duas pernas cruzadas que balançava um dos pés calçados com sandálias brancas. Os seus olhos seguiam-nos, mas o tampo da mesa impossibilitou ver de quem era. Não havia outra forma a não ser levantar-se e encarar o dono dos pés. Tomando coragem para pedir desculpas pela invasão que cometera, ele respirou fundo e saiu debaixo da mesa. Gunter não parava de se desculpar até que seu juízo conseguiu controlar as palavras que saíam de sua boca. Sob o seu olhar assustado estava uma mulher sentada de túnica branca, fita amarela prendendo os cabelos brancos como algodão, olhos verdes iguais aos seus.

Ele, sem jeito com a situação, com o rosto queimando de vergonha pela invasão, disse.

― Desculpe-me, não tive a intenção de invadir a sua sala, eu estava...

― interrompendo o envergonhado Gunter, ela disse:

― Não se preocupe, daqui a pouco a lebre aparece.

― Como sabe que eu estava atrás da lebre e não vim aqui por vontade própria?

Levantando como se estivesse sido insultada, a mulher o encostou contra a parede, olhando dentro dos seus olhos.

― Você não sabe mentir, tem uma alma boa, muito valiosa.

― Desculpe-me mais uma vez pela invasão, vou para o meu aposento!

Como se conhecesse o passado e o futuro de Gunter, sorrindo carinhosamente a mulher disse:

― Conheci os seus pais há muito tempo!

― Como pode conhecer os meus pais? – De onde os conhece?

― Isso não vem ao caso agora, melhor você ir dormir.

Obedecendo à anfitriã, ele saiu da sala confuso, pensando em voltar, mas não era adequado estar de madrugada trancado dentro da sala com uma mulher que ele mal conhecia. A caminho de seu aposento no corredor iluminado por meia-luz viu o velhinho de pé olhando da fresta da janela e sem assustá-lo perguntou.

― O senhor está precisando de ajuda?

― Não, meu filho, pode ir dormir.

Assim que o velhinho afastou-se Gunter se aproximou da janela. Lá estavam três cavaleiros com armaduras pretas em frente à casa. Os seus cavalos negros batiam as patas dianteiras ao chão

arrancando mato, jogando-o para trás. Gunter afastou-se da janela com um olhar amedrontado.

― Quem são eles?

― São enviados do demônio. Eles estão atrás do livro que estão carregando! – disse o velho referindo-se às bolsas.

― Não estamos levando livro algum – respondeu Gunter surpreso com a certeza que o velhinho tinha a respeito do conteúdo das bolsas.

― Vocês não sabem o que estão levando e nem abriram as bolsas?

― Não, senhor, elas não têm aberturas e nada consegue romper o couro.

― Vá, acorde os outros, creio que precisaremos de ajuda!

Sem esperar que o velhinho terminasse de falar Gunter saiu correndo pelo corredor gritando.

― Miolnir, Ramifel, Téo acordem todos, estamos sendo atacados!

Atordoados com os gritos de Gunter os rapazes saltaram das camas, prontos para se defender. Saíram ao corredor e viram o amigo correndo em direção ao seu aposento. Vestidos adequadamente esperavam Gunter, que voltou com o arco e sua espada.

― Randulfr, que estava bem, perguntou:

― O que está acontecendo? – Parece que viu um dragão.

― Não, meu amigo, creio que seja pior, estamos cercados por cavaleiros negros.

Todos correram para a sala onde o velhinho se encontrava vigiando cada passo dos cavaleiros negros. Quando os jovens aspirantes a guerreiros avistaram os três cavaleiros, entraram em desespero. Eles não pareciam ser deste mundo.

O velhinho, acalmando-os, disse:

― Eles não passaram daquela marca, esta casa é protegida contra o mal. Incrédulo como o seu pai, acreditando só no que vê, Randulfr perguntou.

― Como o senhor sabe? Eles já tentaram entrar antes?

― Venham, sentem-se todos aqui, preciso que vocês saibam do perigo que os acompanha.

Com os olhares assustados eles procuravam respostas nos cantos vazios da casa. Atendendo ao pedido do velhinho, sentaram-se um por um ao lado da lareira.

Meus jovens, esta batalha acontece todos os dias, nenhum humano, elfo, anão ou qualquer outro ser vivente desta terra não imagina a guerra brutal que é travada ao nosso redor todos os dias entre o bem e o mal. Felizmente o bem continua a vencer o mal. Com tantas derrotas o mal não se dá por vencido.

Antes de existir tudo aquilo que vocês veem e tudo que conhecem, existia um lugar chamado Paraíso.

Esse local era lindo, não havia nenhum tipo de maldade, ele era habitado pelo criador e seus anjos guerreiros.

Um dos primeiros a ser criado foi Lúcifer, o anjo portador da luz, por ser um dos primeiros teve todo o conhecimento da criação. Mais belo de todas as hierarquias, sua posição entre os demais era de destaque. Um dia o Criador decidiu criar o homem, virou-se para seus anjos e disse-lhes que teriam de protegê-lo e acompanhá-lo. Foi uma ordem que o orgulhoso anjo se recusou a obedecer. Não satisfeito com a decisão do Criador, Lúcifer fez oposição.

― Se nós servimos o senhor, este homem que acabou de criar nos servirá.

As explicações do Criador não foram o suficiente para convencer o ambicioso anjo. Durante dias e noites ele arquitetou tomar o Reino do Céu.

A alma e o livre arbítrio concedido aos homens pelo Criador causaram inveja e desobediência ao anjo.

Conhecedor de sua beleza, obcecado pelo poder e pelo trono do Criador ele se rebelou, conseguindo persuadir e ludibriar quase metade dos anjos. A batalha foi inevitável, o Criador, com a ajuda dos anjos fiéis e obedientes, venceu. Derrotados na grande batalha no céu, Lúcifer e os anjos influenciados a se rebelar foram expulsos. A legião de rebelados veio parar na Terra, com Lúcifer no comando. Atormentaram, corromperam e levaram os homens a cometer pecados imperdoáveis aos olhos do Criador.

Depois da grande batalha o Criador incumbiu alguns anjos de observar os humanos, não deixando as criaturas serem ludibriadas pelos demônios e pelos rebelados. Com o passar dos tempos a humanidade começou a crescer. A união entre homens e mulheres gerou belas filhas. As filhas dos homens tornaram-se mulheres atraentes. Tal beleza despertou nos vigilantes um desejo incontrolável. Os anjos vigilantes, liderados por Samyaza, fizeram um juramento entre eles de não desistirem no momento de abandonar o posto. Materializaram-se em forma humana para saciar o desejo pelas belas humanas. Dessa união entre anjos encarnados e mulheres nasceram os gigantes nefilins. Esses híbridos com força sobrenatural despertaram a ira do Criador.

Os anjos vigilantes quebraram todos os juramentos feitos ao Criador, começaram a ensinar os segredos dos céus aos homens. Ensinaram a fabricar espadas, adagas, elmos, armaduras e escudos. Azazyel contaminou os homens, transgredindo e corrompendo todos os planos do criador.”

― Impaciente, Randulfr interrompeu o velhinho.

― Quem são esses homens que estão lá fora?

― Eram grandes guerreiros humanos, que foram corrompidos pelas promessas de imortalidade, riqueza e luxúria. Eles venderam o que é de mais precioso no homem.

― A alma – respondeu Gunter.

Confirmando a resposta do jovem balançando a cabeça, o velho seguiu contando a história.

“Selaram com sangue o pacto. Tal pacto não deixava bem claras as condições, mas uma coisa era certa, quando chegasse a hora dos ceifeiros conhecidos como anjos da morte suas almas seriam reclamadas pelo demônio. Agora são obrigados a servi-lo até o fim dos tempos.”

Com mais temor os jovens teriam que seguir viagem passando pelo povoado Valar e atravessar o Vale Aurok, inimigos de Artics, até chegar ao destino no Vale dos Magos. Ir caminhando até o povoado Valar era uma das alternativas, pois os cavalos estavam no estábulo. A outra opção era passar pelos cavaleiros negros que estavam vigiando a casa, esperando um vacilo do velho e dos jovens guerreiros. A mulher que Gunter encontrou na sala cheia de livro empilhados juntou-se a eles. Vendo a aflição e o medo dos jovens em continuar a missão, ela fez um pedido para o velhinho.

― Gabriel, por que você não os deixa usar a passagem que os levam próximo do Vale Aurok?

Bravo em ouvir o pedido e o seu nome, uma luz branca começou a se formar ao redor do velhinho, que furioso respondeu olhando para os rapazes.

― Não! Não podemos interferir ainda, eles têm que superar os seus medos, têm que ser fortes, acreditar que podem vencer.

Sentindo pena dos jovens a mulher entregou para cada um amuletos que os protegeriam e impediriam que o sobrenatural controlasse suas mentes ou rastreasse suas localizações.

O velhinho com o nome revelado pediu que os jovens saíssem pelos fundos enquanto ele atrairia a atenção dos cavaleiros.

Ainda era madrugada, eles apanharam as bolsas, atravessaram a alça ao corpo, com suas espadas e arcos saíram em silêncio.

A mais ou menos quatrocentos ou quinhentos metros do povoado viram um clarão com uma energia forte.

A noite que parecia ser um presente tornou-se um pesadelo. Mal aproveitaram o ambiente de um lar, vendo-se obrigados a atravessar sem os cavalos os caminhos perigosos até Aurok.

Tiil o taberneiro estava jogado atrás da pilha de barris de vinho com a garganta cortada. Foi encontrado por uma das mulheres que trabalhava na taberna após dois dias de longa procura.

Quando ela viu o cadáver do velho Tiil com os olhos abertos saiu gritando na taberna, fazendo todos que estavam lá correrem assustados com os gritos ensurdecedores. Ninguém conseguia fazê-la parar de gritar, deram-lhe bofetadas no rosto, mesmo assim os gritos de pânico não cessavam. O filho do taberneiro correndo adentrou a cozinha e nada, nem sinal do que atormentava a mulher, que continuava aos berros.

Mais calma depois do susto, a mulher foi levada pelas pessoas que estavam na taberna até a cozinha para mostrar o que viu.

Chegando lá o seu corpo tremia de medo. Na cozinha havia caldeirões ao chão, colheres e canecas que ela derrubou ao fugir de medo.

Escondendo-se atrás do filho do taberneiro ela apontava para uma portinha que dava acesso à adega, local onde o velho cadáver de Tiil estava.

Todos entraram na pequena adega, o filho à frente puxava a pequena multidão. Ele se aproximou da fileira de barris acomodados na horizontal e ali estava o seu pai de olhos abertos sobre uma imensa poça de sangue. Ele presenciou o motivo de tantos gritos desesperadores da mulher. Aponto de por as tripas pela boca vendo o cadáver de seu pai, ele desmaiou, caindo de cara no chão.

Enquanto uns o levaram desacordado para fora da taberna, outros tiravam o pesado cadáver da adega. Artics estava entristecida, pois o velho amigo Tiil tinha sido assassinado covardemente, ninguém tinha certeza de quem fez a maldade. O cadáver inchado foi cremado antes que o mau cheiro de decomposição tomasse conta de toda vizinhança.

As suspeitas que circulavam nas ruelas de Artics apontavam para ladrões, outros diziam que foram os forasteiros que estavam na taberna no dia da despedida dos jovens guerreiros.

Artics passou a atrair gente de todas as espécies depois da notícia que um espectro invadiu a grande sala do conselho à procura

do antigo Livro Sagrado se espalhou. Esses rumores despertaram interesse em muitos, desde mendigo a reis.

Moradores desconfiados cochichavam que os jovens tiveram como missão levar o Livro Sagrado para o Vale dos Magos a pedido de Lodur. Tal pedido teria sido feito ao conselho de Artics depois que Lodur teve uma visão alertando-o sobre a chegada de um espectro que estava a procurá-lo.

Esse livro tão poderoso nunca foi visto, a lenda diz que nele estão contidos segredos de como o universo foi construído e o que ainda vai acontecer. Mordor, o ancião, e o resto do conselho tentaram desmentir que havia tal livro dentro da grande sala, sede do conselho onde são discutidas todas as decisões sobre Artics. Lá também fica guardada toda a história e segredos de sua fundação.

A responsabilidade em entregar as bolsas estava pesando para os jovens. Assustados e perseguidos por cavaleiros negros, eles passavam pelos trechos mais acidentados subindo e descendo montanhas a beira de precipícios. Caminhar no descampado era perigoso, não podiam saber se vinha algum ataque do céu, pois os dragões dominavam o espaço.

Gunter caminhava com os pensamentos no Lago Wind, toda noite pensava na linda elfa que orgulhosa não lhe disse o seu nome.

Como se fosse castigo Caliel voltou ao lago três vezes na esperança de encontrar o jovem caçador, mal sabia que ele estava a léguas de distância. Ela fechava os olhos e ouvia a voz de Gunter,

sentia o calor do toque das suas mãos, o brilho intenso dos olhos verdes como esmeraldas.

Não tendo como encontrá-lo Caliel sofria calada, sem poder contar o segredo para qualquer outro de sua espécie, que encontrara e conversara com um humano. Gunter também não contou nada a seus pais e aos amigos que o acompanhavam.

Téo e Snow, que iam mais à frente, pediram que todos se escondessem nas pedras, ali não havia muitos lugares para se esconder. Eles ouviram vozes que aproximavam rapidamente. Miolnir encontrou uma fenda entre as pedras na abertura passavam um homem de braços abertos. Ao entrar descobriram uma caverna bem protegida. “Os anões quando faziam este caminho para vender suas preciosidades a utilizavam”, – disse Snow. Os donos das vozes estavam bem encima da pedra onde eles estavam escondidos. Téo ouviu quando um deles disse “Aqueles idiotas não poderiam ir muito longe, estão sem os cavalos”.

― Temos que encontrá-los logo – esbravejando respondeu a segunda voz.

― As pegadas somem na entrada desta pedra.

Esperando que eles os encontrassem dentro da caverna, Gunter e Téo estavam prontos para dispararem suas flechas, mas Miolnir interveio contendo os ânimos.

Um dos rastreadores se aproximou da fenda, a cada passo os jovens sentiam que seriam descobertos. Na entrada da fenda ele

olhou e não identificando o que estava dentro da fenda, chamou os outros que vieram correndo.

― Os encontrou? – perguntou o líder dos rastreadores.

― Quieto para não alertar quem estivesse lá dentro, fez sinal avisando que iria entrar.

O suspense tomava conta dos jovens que esperavam os rastreadores entrarem, as espadas em punho, prontos para a batalha.

O vento trazia o som de uivos, deixando os rastreadores temerosos. O som estava cada vez mais próximo. Randulfr e Snow rolaram uma pedra para fechar a entrada. Lá fora mal se ouvia o respirar dos rastreadores. Eles se esconderam entre as poucas pedras, mas o cheiro forte de seus corpos levara os lobos para o esconderijo.

O barulho das espadas se encontrando era tão intenso que parecia estar dentro da caverna. Grunhidos arrepiantes ecoavam. A pedra que fechava a entrada da fenda estava sendo forçada, mas era em vão, não conseguiriam movê-la. Os lobos batiam suas patas na pedra mostrando que ali dentro havia alguma coisa. O barulho das garras arranhando a pedra lembrava o barulho das espadas sendo afiadas pela primeira vez.

Depois de muito tempo o silêncio tomou conta, nem um pisar sobre a terra ecoava dentro da caverna. Gunter e Snow empurraram a pedra devagar. Em silêncio e com extrema cautela saíram um por um. Abobados, não acreditando no que seus olhos lhes mostravam, desconfiaram da própria lucidez. Todo aquele barulho e não havia

sinal algum de luta, sangue, corpos, nada. Se não estivessem juntos, passando pela mesma sensação de perigo, diriam que estavam ficando loucos.

A noite se anunciava e com ela os perigos. Era mais seguro ficar ali mesmo, dentro da caverna até o amanhecer. Hans clamava piedade, que Deus os livrasse do mal. Turiel, Connor, Axel e Snow, vendo o seu companheiro pedir proteção, uniram-se em uma só voz fortalecendo a prece.

― Depois de uma luta daquela magnitude e com a força dos golpes disparados... Sangue, corpos, partes internas ficariam ao chão, mas ali foi diferente, não havia se quer uma gota de sangue – em choque Hans não parava de falar.

― Hans está certo! Os rastros dos animais, as marcas de golpes nas pedras e um pó amarelado de odor forte foram as únicas coisas que sobraram da misteriosa batalha – disse Ramifel passando os dedos nas marcas.

O velho Gabriel e a mulher de branco sabiam que havia muitos perigos no caminho dos jovens, eles teriam que ser muito fortes para não se corromperem com falsas promessas que os levariam a morte. Enquanto eles dormiam em seus aposentos em Stoe, sob a proteção do velho Gabriel, a mulher transformou o metal simples de suas espadas e flechas em metal poderoso, resistente para destruir o mal, devolvendo-os para as profundezas.

Sentindo que os jovens estavam longe, o velho Gabriel saiu da casa fazendo os cavaleiros revelarem suas verdadeiras formas, com um clarão de luz branca de muita energia. Formas que os sobrenaturais escondiam para ludibriar os olhos dos humanos, corrompendo-os, levando-os a praticar o mal. Antes de desobedecerem ao Criador os humanos poderiam enxergar tudo e todos, inclusive falar a língua dos anjos. Depois que foram tirados esses dons como castigo, os humanos ficaram vulneráveis.

Mas aqueles utilizando a forma de cavaleiros negros eram de um escalão maior, mais forte e sanguinário, devido ao tempo e torturas que passaram no submundo. Não havia sequer lampejos de humanidade neles, somente ódio e fome de destruição dos viventes da Terra.

Se o espectro e os demônios encontrassem o Livro Sagrado levariam a seu mestre, que impossibilitaria os humanos de ter mais uma arma poderosa contra ele.

Assim que a luz do dia se fez presente entre as frestas na pedra que fechava a entrada da caverna os jovens se levantaram, saindo às pressas para chegar ao vilarejo Valar antes que a noite os pegasse no caminho.

Randulfr, com a ponta de sua espada, tentava abrir a sua bolsa sem que os outros vissem, o couro era cortado e em seguida se fechava. Entusiasmado com a descoberta ele não aguentou ficar em silêncio, chamou os companheiros que se reunirão em volta da bolsa.

Randulfr mostrava que, ao passar a sua espada na bolsa, ela penetrava o couro, abrindo-o, mas em seguida se fechava impedindo que revelasse o seu conteúdo. Eles tiveram a ideia de passar as pontas de suas espadas ao mesmo tempo, imaginando que teriam uma abertura maior. Quanto maior o ataque, melhor a bolsa se defendia. Tentaram! Tentaram! Vencidos pelo cansaço chegaram à conclusão que o tempo estava sendo perdido, agora teriam que correr ao invés de caminhar.

Assustados e nervosos, quaisquer ruídos eram sinais de alerta. O grupo corria atento à espera de movimentos atrás dos arbustos ou armadilhas. Enfim perceberam que sua missão era muito mais importante que uma iniciação. Valar estava cada vez mais próxima, eles prometeram que descansariam quando chegassem, faltava pouco depois que começaram a correr.

Na cidade sagrada dos elfos, um grupo de batedores elfos escondidos entre as árvores vigiavam caçadores que estavam no Rio Green prestes a entrar em seus domínios. Eles ouviam tudo que os caçadores falavam entre um gole e outro de vinho. Piadas, bobagens, até que um deles falou sobre o ocorrido em Artics. Bellon deixou o grupo de elfos para avisar ao rei Turon o que ouviu dos caçadores. Turon, sabendo do espectro que invadiu a sala do conselho em Artics à procura do Livro Sagrado, não poderia deixar o livro com tantos segredos só aos cuidados dos humanos.

Temendo o pior o rei dos elfos disse a Bellon:

― O livro não é uma lenda, se cair em mãos erradas significara a destruição de todos nós.

Preocupado, o rei elfo reuniu os seus melhores guerreiros designando-os a descobrirem a verdade e encontrarem o livro primeiro que as outras raças.

Caliel soube por seu pai que o rei iria enviar os melhores guerreiros em busca do Livro Sagrado. Os elfos, para obter informações, teriam que conversar com os humanos. Esperta, viu ali naquele momento difícil para os viventes na Terra uma oportunidade de encontrar Gunter.

Em frente ao palácio os elfos esperavam em seus cavalos as últimas ordens de seu rei. Turon avisou-lhes que o inimigo não era deste mundo, um oponente difícil de destruir, tinha poderes sobrenaturais que poderia manipular as suas mentes. Liane, a sacerdotisa, trouxe amuletos feitos da energia poderosa da natureza concedida pelos antigos espíritos de seus ancestrais. Eles os protegeriam da possessão, fechando o corpo e a mente contra o mal. Mas a sacerdotisa os alertou: “Os feitiços que utilizam elementos da natureza como, fogo, água, vento... Mesmo conjurados por um simples aprendiz poderão matá-los. O amuleto guarda muita energia, quando a natureza se choca com a sua própria energia grandes desastres acontecem”.

A noite chegava de mansinho trazendo os perigos sobrenaturais. Caliel saiu com o seu cavalo às escondidas deixando

um bilhete na cama explicando o motivo da partida. Ela pegou um pequeno mapa de seu pai, seguindo em direção a Artics onde iniciaria a caçada dos guerreiros elfos pelo Livro Sagrado.

Furioso por não ter recebido nenhum aviso do perigo, Turon enviou uma mensagem ao Vale dos Magos exigindo do velho Lodur uma explicação.

Em Valar os cavaleiros negros atacaram e destruíram tudo. De longe dava para ver as chamas engolindo as casas. Os jovens correram para ajudar, mas não havia nada a fazer. Ao redor restos de corpos queimavam junto aos destroços, o cheiro de carne queimada era insuportável. No meio da fumaça um dos cavaleiros negros estava à espera e apontando para o desastre disse:

― Enquanto vocês não entregarem o que queremos, nós vamos matar e incendiar todos os lugares que conhecem ou irão conhecer.

Randulfr, sem pensar nas consequências, atacou o cavalheiro negro. O cavaleiro tirou a espada de suas mãos, cravando-a no peito do jovem. No chão o jovem Randulfr valente tentava escapar. Vendo o amigo acuado os nove jovens guerreiros tentaram lutar, mas não foram páreo para ele. O cavaleiro conjurou um feitiço aprisionando os nove ao chão.

Como demonstração de seu poder ergueu Randulfr no ar sem tocá-lo. Pegou a bolsa de couro que pertencia a ele e virando–se para os seus amigos presos ao chão disse:

― Vou levá-lo! A sua alma será entregue ao mestre ou preferem que ele morra diante de seus olhos?

Randulfr, pedia aos amigos que não deixassem levá-lo, para se lembrarem da história que o velho Gabriel contou-lhes em Stoe. Com os olhos rasos d’água os jovens estavam prestes a ver o amigo a ser levado para o submundo.

Gunter tentava de todas as formas sair do poder que os aprisionava, pedia aos deuses ajuda, implorava aos seus ancestrais forças para escapar.

Do alto da montanha, como se vigiassem para não chegar mais cavaleiros ou demônios, as primeiras obras do Criador, os anjos, estavam de braços cruzados. Sem ter permissão do Criador para interferir, assistiam à luta desleal dos humanos contra o cavaleiro das trevas.

A lebre que Gunter perseguiu pela casa em Stoe estava ao seu lado, ele por um instante esqueceu o cavaleiro prestando atenção nos movimentos da lebre.

Lentamente a lebre se levantava e ele assustado perguntou a Ramifel e Téo.

― Vocês estão vendo? – Olhem! Olhem!

Sem enxergar nada, os jovens não deram atenção aos delírios do amigo.

Com os olhos fixos na lebre, não perdendo um só movimento, Gunter não acreditava no que via, aos pouco a lebre se transformava na mulher de branco.

― O que você está fazendo aqui? Eles não conseguem te ver? – perguntou Gunter com os olhos arregalados.

― Eu vim te ajudar, não consigo ver os humanos em desvantagem.

― Por favor, solte o Randulfr – pedia desesperado Gunter preso ao chão.

― Gunter, ouça bem, você tem a habilidade e a força de seus pais, a sua linhagem vem dos celestes, abra a sua mente, concentre-se. Esta espada foi criada por um anjo guerreiro, este metal não existe na Terra, pegue-a e lute pela sua vida e de seus amigos.

Um grunhido ensurdecedor liberado pelo cavaleiro, como se estivesse chamando os outros, trouxe Gunter de volta à realidade. Com a espada ao seu lado, sentiu uma imensa força, o sangue corria mais rápido em suas veias latejantes. Gunter conseguiu ver a verdadeira face demoníaca do cavaleiro. Esforçando-se para alcançar o punho da espada, o verde dos seus olhos deu lugar ao brilho azulado. Os anjos sentiram a energia que emanava do jovem. Miguel veio à frente, inclinando-se ao lado de uma árvore para ver com clareza o verdadeiro dono da energia. Gunter agarrou a espada, libertando-se.

Gunter pegou o seu arco e disparou suas flechas contra o cavaleiro, que se defendeu com sua longa espada. Enfurecido, empunhando a espada forjada no céu, ele golpeava o cavaleiro negro que os defendia. Gunter sentia sua força, raciocínio e visão aumentarem. Sabia quando e onde o cavaleiro iria golpeá-lo. Lutando por sua vida e de seus amigos, por um instante desviou o olhar do cavaleiro enxergando lá no alto da montanha os anjos, ouvia nitidamente o que eles falavam. Os pequenos ruídos nos arbusto ecoavam em seus ouvidos.

O cavaleiro sentia a poderosa energia do jovem, sabia ele que Gunter não era um simples humano. Os humanos não teriam forças suficientes para enfrentar um cavaleiro das trevas. Se continuasse a lutar, a sua volta ao inferno pela espada do jovem era certa. Fugindo, ele levou a bolsa de couro de Randulfr.

Falando a língua dos anjos Gunter quebrou o mal que prendia os seus amigos. Ramifel, impressionado com a força e as palavras estranhas que o amigo pronunciou, coçava a nuca. Irritado, procurando palavras para perguntar, andou para um lado, andou para o outro, e timidamente perguntou:

― Como você conseguiu se livrar do poder que nos aprisionava?

As perguntas para Gunter eram tantas que ele não conseguia responder aos amigos.

Randulfr, sangrando, tirou o amuleto, reclamando que o objeto não os protegia contra nada, era só um cordão com uma moeda antiga.

Gunter gritou:

― Randulfr, o amuleto, coloque-o!

Não deu tempo de abaixar para pegar o amuleto do chão, o cavaleiro surgiu das sombras para cumprir sua ameaça, dividindo Randulfr ao meio.

Téo e Miolnir, correram em direção a Randulfr, que jorrava sangue cobrindo a pequena vegetação ao seu redor. Gunter acertou a mão do cavaleiro com uma flecha. O cavaleiro soltou a bolsa de couro que roubou de Randulfr. Ele ameaçou voltar, mas Hans estava com a bolsa sob a proteção de Gunter e os outros.

Desnorteados com a morte brutal de Randulfr eles choravam pelos cantos. Ali não havia mais nada a fazer, em meio a tanta destruição e mortes.Tiveram a triste experiência de uma perda em batalha.

Téo tentando ser forte, enxugou as lágrimas e foi até os outros dizendo,que Randulfr não permitiria que ficassem tristes se lamentando. Ele faria que erguessem a cabeça e seguissem em frente.

Os jovens levantaram reunindo forças. Eles pegaram o corpo do amigo, recolheram madeiras que restaram das casas destruídas pelos cavalheiros negros, fizeram uma enorme fogueira em volta de corpo, dando-lhe um funeral com dignidade. Randulfr sempre dizia

aos amigos que se morresse não queria ser enterrado, pois tinha medo do escuro e não queria que sua alma ficasse ao lado do seu túmulo, preferia ser cremado dignamente como os seus ancestrais, libertando sua alma para o céu.

O silêncio tomava conta do que restara do Vilarejo Valar, nem os pássaros ousavam dar um pio. O estado fúnebre ao redor, ao exalar o forte mau cheiro da morte, chamava a atenção dos abutres que pairavam esperando o momento de se alimentar dos restos mortais.

Angustiados, os jovens retomaram o caminho que os levaria para Aurok. Ao longe podiam avistar a fogueira flamejante que parecia dar-lhes adeus com as chamas. Cansados, sentaram no topo da montanha olhando o extenso horizonte. Alguns não pensavam em nada, outros imaginavam a volta para casa, Gunter queria descobrir a sua história, como conseguia ouvir e enxergar tão nítido, as perguntas sem resposta enlouqueciam sua cabeça.