A jovem elfa

Depois de muito caminhar, parecia que os deuses estavam do seu lado. A quinhentos metros avistou um cervo na beira do lago. Estava muito longe para acertá-lo, até mesmo para ele sendo um exímio arqueiro. Entre os arbustos Gunter se aproximava cada vez mais a procura de uma mira melhor. Passo a passo evitando que seu pisar fizesse barulho nas folhas ao chão. Posicionado mirou! Mirou! E lá se foi uma flecha mortal. Antes que a flecha o matasse, um barulho na água assustou, tirando-o da trajetória da flecha dando ao animal mais uma chance de sobreviver.

Decepcionado por errar uma presa tão fácil, ele foi até o lago lavar o rosto e tirar as folhas dos arbustos de sua roupa. Ao se abaixar tocando a água, um suave barulho do outro lado do lago o assustou como fez com o cervo. Rapidamente muniu-se de seu arco a espera de um ataque. Para a sua surpresa, uma linda jovem elfa de beleza irreal deitada sobre uma pedra dentro do lago, completamente nua. A chuva tocava sua pele fina que reluzia aos olhos do jovem caçador, estático sem ao menos respirar, admirava as curvas do corpo

que as gotas da chuva percorriam com extrema delicadeza. Os longos cabelos prateados espalhados na pedra a tornava mais esplendorosa.

Gunter nunca tinha visto uma garota elfa, sabia das histórias e dos perigos que ouviu sobre o seu povo, não imaginava que tanta beleza poderia estar concentrada em um único ser. A vontade de se aproximar ou até mesmo tocá-la o fez perder a noção e a discrição de um cavaleiro, perdidamente enfeitiçado pela beleza élfica.

A jovem levantou lentamente, inclinou o rosto esculpido pelos deuses ao céu, esticou os braços para trás espreguiçando abriu os olhos. O jovem caçador, todo atrapalhado, tentou se esconder, mas ela o tinha visto entre os arbustos bem antes de tentar abater o cervo. Quando ele voltou o seu olhar para pedra a elfa havia sumido nas águas cristalina do lago. Gunter correu para a margem tentando encontrá-la no fundo, mas não, nada. Com o pensamento confuso, louco para encontrá-la, ele gritava andando em volta do logo.

― Apareça, não vou lhe fazer mal.

Depois de gritar exaustivamente em volta do lago, atrás dele uma voz suave o assustou.

― Porque está à minha procura? perguntou a Elfa ainda despida com a adaga empunhada. Assustado, o jovem caçador virou-se e sem nenhuma cerimônia disse: Você é linda!

Ao se aproximar do caçador a elfa sentiu algo que jamais sentira na presença de um humano. Vestindo a sua túnica sob os olhos de admiração do jovem ela o perguntou.

― O que você ainda faz aqui?

― Eu nunca tinha visto uma elfa, só ouvi histórias da beleza de seu povo.

― Agora que já viu pode ir embora!

― O meu nome é Gunter, e o seu?

Sem dar a mínima atenção, ela montou seu cavalo branco de crinas transadas, sumindo entre os arbustos. Ele correu atrás, mas o cavalo puro-sangue da elfa era veloz como o vento.

Voltando para casa ele não se lembrava mais do que tinha ido fazer no Lago Wind, como todos os outros homens na presença de uma elfa. De longe avistou um fervor de gente em sua casa, todos com tochas nas mãos. Esquecendo-se por alguns instantes da elfa ele correu em direção a sua mãe.

― Mãe o que houve? O que está acontecendo?

― Graças a Deus ela respondeu com lágrimas nos olhos de preocupação.

― Por onde você andou menino?

Antes de Gunter responder Arator furioso bateu com raiva na mesa velha de madeira, fazendo a jarra dágua subir e transformar-se em duas no chão.

― O que passa pela sua cabeça, garoto! perguntou o pai, babando de raiva.

― Fui caçar perto do Lago Wind.

Todos, vendo que o jovem estava bem, despediram-se de sua mãe e foram embora.

Arator disse cada vez mais furioso: Você não sabe que amanha é o dia de partir? Ficou o dia todo longe de casa!

Para alívio de Gunter, suaves batidas na porta interromperam o sermão que levaria seu pai a lhe dar uma surra.

Liv, a mãe, caminhou devagar até a porta, pelas frestas na madeira avistou Freya, neta de Fair. Rapidamente passou as mãos nos cabelos, arrumou o vestido, com os nervos à flor da pele abriu a porta.

― Freya! O que aconteceu?

― Boa noite, senhora! Não aconteceu nada, queria ver o Gunter e saber como ele está.

Liv sabia que o filho não tinha amizade com a neta de Fair, sem entender nada pediu que a moça entrasse, enquanto foi chamar o filho tirando-o das garras do pai.

― Gunter, meu filho o que você fez com a neta de Fair? perguntou apertando o seu braço e olhando em seus olhos.

― Nada, mãe, eu nunca conversei com ela respondeu Gunter sob o olhar de Arator.

― Vai lá! Ela está te esperando. Anda, menino!

Gunter viu a jovem de longe, linda com vestido azul, cabelos negros compridos até a cintura. Gunter se perguntava por que aquele dia estava escondendo tantas surpresas?

― Oi! Não é tarde para uma garota andar sozinha pelas ruelas de Artics?

― Como você está? perguntou a moça colocando, os seus longos cabelos sobre o ombro esquerdo.

― Estou bem! Preparando-me para o grande dia com tom de ironia respondeu Gunter.

― Sempre vejo você e seu avô cavalgando, mas não entendo o que a traz a minha casa? sorriu ele.

― Meu avô gosta de passar pelos treinos, lembrança de sua juventude o faz bem.

― E você? questionou o jovem

― Sei que amanhã você partirá com os outros, queria vê-lo mais uma vez!

― Não conversamos. Não somos amigos. Mal te vejo nas festas comemorativas disse Gunter, não acreditando que a garota mais cobiçada de Artics estava preocupada com ele.

― Nós podemos começar uma amizade agora, que mal tem? sorridente a garota o viu confirmar.

Liv, esperta, percebeu que os olhos da garota diziam muito mais que as palavras que saíram de sua boca.

― Freya, os seus pais sabem que está aqui em minha casa? perguntou Gunter coçando a nuca.

― Não. Para sair coloquei roupas embaixo dos lençóis, eles não vão perceber que saí.

― Desculpe-me, mas tenho que te levar para casa agora mesmo.

Avisando seus pais que iria acompanhar a moça até sua casa, Gunter saiu com Freya pelas ruelas escuras de Artics. Como um jovem bem educado, ofereceu o braço à moça.

Com o braço entrelaçado ao jovem, ela observou que do alto da casa de Gunter as estrelas pareciam estar mais próximas.

― Sorrindo, ele disse:

― Sempre que posso vou para cima do telhado contemplar a Lua e as estrelas.

― Gostaria muito de ir ate lá com a cabeça sobre os ombros de Gunter ela sorriu.

Sentindo o calor e a respiração quente de Freya ele prometeu que quando voltasse de sua missão a levaria para ver as estrelas do telhado de sua casa.

Próximo à casa de Freya, eles param observando se não havia luzes acesas, os pais dela não tinham percebido que a moça havia saído. Por segurança ela teria que voltar pela janela de seu quarto. Gunter, segurando a moça que subia até a janela, pedia que não fizesse barulho. Mas ao escorregar ela se desequilibrou, caindo nos braços fortes do jovem.

A moça, agradecida por ele não deixá-la cair ao chão, deu-lhe um beijo. Retribuindo o afeto de olhos fechados Gunter

imaginava a elfa em seus braços. Com muita dificuldade a moça estava dentro de seu quarto e Gunter a caminho de casa.

Um nevoeiro tomava o centro de Artics, onde fica a grande sala do conselho. Gunter, achando estranho, aproximou-se. Luzes acesas mostraram que algo de suspeito estava acontecendo lá. Para não ser percebido ele subiu em cima de uma árvore a cem metros do conselho. Em poucos instantes, quatro grandes lobos de olhos vermelhos, pelos pretos, dentes grandes e brancos, sentindo o cheiro do jovem chegaram embaixo da árvore, os uivos estridentes fizeram Gunter pressionar as mãos contra os ouvidos. As pessoas acordaram com os uivos, mas o medo e o nevoeiro não as deixaram sair de suas casas.

Um homem estranho saiu da sala do conselho, com um gesto os lobos foram até ele. Vestido com roupas marrons, pele pálida, cabelos vermelhos, ele assoviou. O som se perdeu na imensidão da noite, mas alcançou quem era necessário. Desceu do céu um dragão vermelho que obedecia como um cão às ordens da estranha figura. Montado em seu dragão o homem sumiu entre as nuvens, enquanto os lobos de aparência demoníaca o seguiam por terra.

Aos poucos as pessoas saíam de suas casas. Gunter caminhava em direção à sala do conselho quando foi alcançado pelo pai de Freya. Adentrando a sala eles depararam com os velhos livros e a mesa da solução de três metros de comprimento e dois de largura feita de carvalho branco partida ao meio. As tochas umedecidas com

gordura de animais que clareavam o ambiente estavam jogadas ao chão, queimando o assoalho, prestes a incendiar a grande sala.

Ouvindo as vozes das pessoas, o ancião Mordor, que estava escondido dentro de uma sala secreta, saiu aterrorizado. O ancião não estava em condições de responder a qualquer pergunta naquele momento. As paredes e o teto da sala onde o ancião estava tinha símbolos de proteção contra demônios desenhados. Gunter lembrou que o seu avô havia mostrado figuras parecidas de um velho livro quando criança.

Mordor, vendo que Troi estava presente, pediu que reunisse todos do conselho urgentemente, sem dar muitas explicações ao pai de Freya. A maioria das pessoas já estava em suas casas e Gunter saía da sala do conselho quando uma forte mão segurou o seu ombro esquerdo. Ele tentou desembainhar sua espada, mas foi impedido. Sem perceber que era Arator, o seu pai, o jovem media forças com o oponente.

― Calma, garoto! disse Arator em voz baixa.

― O que o senhor está fazendo aqui? E a minha mãe?

― Ouvimos os lobos e ficamos preocupados com você.

― Pai, isso já havia acontecido antes?

― Há muito tempo em Aurok com o seu tataravô. Como um dos membros do conselho ele recebeu um livro, segundo o meu pai continha muitas coisas ruins escritas.

― Pai, o senhor não vai acreditar nas coisas que eu vi!

― Filho! Sinto muito, mas você não viu nada ainda. Vamos que a sua mãe está preocupada.

Rapidamente os anciões estavam reunidos na sala bagunçada do conselho. Mordor, que presenciara a destruição, clamava por uma solução urgente antes que o espectro resolvesse voltar. Discutiram por toda a madrugada sem chegar a uma decisão até que Amir, em seus lampejos, teve uma ideia que levaria o problema para fora de Artics. Atentos às explicações, chegaram a um consenso quando a escuridão dava lugar a um lindo dia.

Todos estavam no centro de Artics na expectativa de o conselho entregar o mapa com o destino da missão. Apreensivos, os jovens e familiares reclamavam da demora, até que a porta da sala do conselho se abriu. saíram os anciões, seguidos dos serviçais que carregavam dez bolsas de couro marrom lacradas. Somente os membros do conselho sabiam o que estava dentro.

Cada jovem ficou encarregado de proteger sua bolsa, devidamente colocada em seu cavalo pelos serviçais. Os anciões entregaram-lhes o mapa para onde seguiriam com as bolsas. Gunter recebeu das mãos do ancião Mordor um cordão com um pequeno livro de ouro, prêmio por ser o melhor do grupo. Proibidos pelos anciões de revelar o caminho, os jovens se despediram de familiares e amigos.

A taberna estava cheia, só se falava dos jovens que partiram com as estranhas bolsas de couro. Um forasteiro muito bêbado

perguntou o que tinha dentro das bolsas, todos ficaram em silêncio dentro da taberna do Tiil. Sem resposta o forasteiro começou a cantar uma velha canção de guerra do tempo que Aurok e Artics eram uma só. Tiil conhecia todos de Artics como a palma de sua mão, mas não se lembrava dos três homens que estavam sentados ao fundo. Um dos homens acenando pediu que lhes servissem bebidas. Tiil pediu ao filho que servisse os forasteiros, enquanto fingia arrumar as mesas ouvindo a conversa. Um dos homens disse que o seu mestre tinha o enviado a Artics para seguir os jovens e matá-los caso não entregassem o que estavam levando em segredo. Assustado Tiil tropeçou na mesa deixando que os forasteiros percebessem que ouviu toda a conversa. Tiil foi em direção ao balcão tentando despistar os homens passando por uma pequena porta de acesso para cozinha, mas o outro forasteiro, que fingia estar bêbado, foi avisado que o taberneiro tinha ouvido o que não devia. Sem nenhuma piedade o forasteiro cortou-lhe a garganta. Arrastou o corpo até a adega onde havia pilhas de barris de vinhos. O cadáver de Tiil foi colocado atrás de uma delas. Dominados pela bebida ninguém na taberna percebeu o sumiço do velho Tiil, nem mesmo o seu filho, talvez por estar acostumado com os desaparecimentos frequentes do pai depois que a sua mãe morreu. Os quatro homens saíram cavalgando em disparada no mesmo sentido que os dez jovens tomaram.

A jovem elfa, que adorava ultrapassar os limites da floresta onde fica a passagem para o vale dos elfos, havia encontrado mais

um motivo para sair às escondidas. Pensando em Gunter durante toda a noite, Caliel sentiu que algo diferente estava acontecendo. Algo que lhe fazia sorrir ao lembrar-se de Gunter em meio à madrugada. Com medo de seu coração a colocar em uma das armadilhas do destino, fingia não saber distinguir o sentimento que a fazia querer vê-lo novamente. A lembrança do sorriso, a maneira que ele a olhava, a voz, os seus olhos verdes como as pedras encontradas pelos anões nas escavações.

Sabia que não poderia confidenciar com sua mãe o contato que teve com o humano, pois era proibido pela lei dos elfos. Só lhe restou guardar o segredo que atormentava os seus pensamentos. O orgulho e arrogância não a deixaram falar o seu nome. Sem saber, eles tinham algo em comum, gostavam de contemplar a Lua e as estrelas.

Caliel falante da língua dos animais e das plantas como poucos de seu clã, conversava o caminho todo com o seu cavalo.

A Floresta Agriin esconde um paraíso que os humanos e o mal não penetraram graças à magia e à poderosa guarda dos elfos. O caminho para chegar até a cidade sagrada dos elfos propiciava a quem conseguisse passar pela guarda um grande desafio. Existia em Agriin um grande labirinto de árvores, que magicamente se movimentavam confundindo aqueles que não soubessem as palavras mágicas que as acalmariam. Passando pelo labirinto chegaria ao Rio

Green, onde as fortes quedas dágua da cachoeira camuflavam a entrada da cidade sagrada.

Ao chegar a sua casa, Caliel teve que explicar para os seus pais porque saiu dos limites da floresta novamente, sabia ela que lá fora os perigos para um elfo eram enormes.

Depois de ouvir os seus pais e jurar que não iria cometer o mesmo erro, Caliel pediu permissão para caminhar. A cidade sagrada era muito bonita, com jardins extensos de gramas verdes, grandes fontes de água. Elfos tocavam e cantavam as mais belas canções para conquistar suas amadas. Nas margens do Rio Green, que cortava a cidade, as crianças brincavam, canoas subiam e desciam com os elfos pescando. Uma ponte arqueada sobre o rio fazia a passagem para o bosque de belas árvores frutíferas. Bem no alto fica o Jardim da Lua, local para adorar a Lua e as estrelas. Os casais gostavam de se encontrar no jardim à noite para a Lua abençoá-los. À esquerda o grande castelo do rei dos elfos, Turon. Caliel desde pequena gostava de subir na torre do castelo, lá de cima tinha a sensação de tocar na Lua e nas estrelas. Poucos tinham acesso a este lugar. Ela e os filhos do rei corriam brincando nos corredores e escadarias, seu pai é membro da guarda real e sua mãe trabalhava no castelo.

Dessa vez era diferente, Caliel pensava no jovem de olhos verdes, cabelos negros como a noite e sorriso fácil. Ela não sabia como encontrá-lo, isso a deixava inquieta. Gunter tinha algo que os

jovens elfos da cidade sagrada não tinham. Caliel estava definitivamente fascinada pelo humano.

Os dez jovens partiram rumo a oeste para o Vale dos Magos, mal podiam saber o que estava dentro das bolsas de couro. Os anciões pediram lhes que a encomenda fosse entregue o mais rápido possível e que não conversassem com ninguém a respeito.

Seguindo o mapa até Aurok, passariam pelo povoado de Stoe e Valar, onde as pessoas são extremamente acolhedoras e os vinhos são os melhores.

Os jovens queriam saber de Gunter o que tinha acontecido na noite passada. Não querendo assustar os companheiros desconversou dizendo que não viu nada, por que estava em cima de uma árvore escondido.

Mas Ramifel contou que avistou os quatro lobos e um dragão vermelho pelas frestas de sua janela. Disse que viu Gunter e o pai de Freya entrarem na sala do conselho depois do alvoroço.

Quase um dia de cavalgada entre trilhas no meio do mato, evitando as perigosas estradas, que sempre guardavam surpresas desagradáveis como: ladrões e assassinos a espera de viajantes e mercadores distraídos.

Todos estavam quietos, parecia que nem respiravam; só se ouviam as baforadas de seus cavalos. Gunter era o que estava mais distante da realidade, os seus pensamentos estavam divididos, ora na linda elfa, ora lembrava-se dos lobos. O entardecer anunciava que

havia pouco tempo antes que a escuridão da noite caísse como um manto sobre suas cabeças. Do alto da montanha o vento era frio e forte, não havia lugar para passar a noite, só pedras e penhascos. Os cavalos estavam cansados e sedentos.

Cavalgaram por mais um quilômetro, até chegar à beira do Rio Green. Era o máximo que poderiam continuar por aquele dia. Do outro lado uma velha cabana era o melhor que poderiam ter. Uma ponte de madeira em péssimas condições era o único caminho até a cabana. Tiraram todo o peso dos cavalos, atravessando um de cada vez até a última bolsa de couro.

Em frente à velha cabana, eles chamaram, Chamaram... E nada de aparecer uma viva alma. Ramifel bateu na porta que se abriu até o canto com um ruído de arrepiar. Algumas paredes e parte do telhado estavam destruídas, havia também marca de queimado por toda ela. Talvez os moradores tenham sofrido com os ataques dos dragões, disse Snow. Os jovens não estavam em condições de escolher, já estava escuro e aquela velha cabana era o único lugar que os protegeria do frio e do sereno. Téo e Miolnir acenderam uma pequena fogueira para mantê-los aquecidos e os predadores afastados. Em volta da fogueira comeram pães e carne, que suas mães preparam para a viagem. Entre uma conversa e outra, Randulfr, muito curioso, quis abrir a sua bolsa de couro; o ato foi repreendido por seus amigos. Bravo por não saber o que estava carregando dentro da bolsa, ele foi esfriar a cabeça lá fora junto dos cavalos.

A noite virou madrugada e Gunter ao acordar percebeu que Randulfr não estava entre eles. Acordou Ramifel avisando que o amigo não voltara. Os dois levantaram em silêncio para não acordar os outros e saíram para procurá-lo. Randulfr estava ao chão, aparentemente nenhum animal havia o atacado. Os dois o levaram para dentro e deitaram-no perto da fogueira. Ramifel e Gunter passaram a madrugada de guardas, imaginando que algo poderia acontecer.

O dia amanheceu e Randulfr estava inquieto, a sua presença causava alvoroço nos cavalos. Ao tentar montar, o seu cavalo o derrubou por duas vezes. Algo raro tratando-se de um artiquiano criado e treinado com cavalos. Depois de muita insistência Téo consegui acalmar o cavalo, facilitando que Randulfr montasse.

Ramifel notou que havia pegadas que o levariam para trás da cabana, sinal de que eles não estavam sozinhos. Contando a descoberta para Turiel e Miolnir, Gunter atento ouviu a conversa dos três rapazes e confidenciou a sua suspeita.

― Amigos, não contei antes porque era apenas uma suspeita disse Gunter aos três rapazes.

Turiel que estava sentado sobre um cupinzeiro levantou com os olhos arregalados.

― Você esta suspeitando do que, Gunter?

― Creio que estamos sendo seguidos desde Artics.

― Como você sabe? perguntou Ramifel com a mão na espada presa a sua cintura.

― Olhem para aqueles arbustos, não veem nada de estranho?

― Não, não vejo nada resmungou Ramifel.

― Quando a luz do sol bate algo brilha e se movimenta, não é normal acontecer isto no meio do mato.

― Então vamos avisar os outros e surpreender quem está nos seguindo.

― Não! Vamos embora, Randulfr não está bem disse Gunter olhando em direção aos arbustos.

Faltando um dia para chegar ao povoado Stoe, os jovens guerreiros ficaram mais cuidadosos com os perigos que a missão lhes trouxe. Sabiam que o seu seguidor tinha interesse nas bolsas. Randulfr queimando de febre, sem condições de guiar o seu cavalo, balançava a ponto de cair. Téo teve a ideia de colocar Randulfr na sua garupa, amarrando-o em seu corpo. Era necessário galopar para obter uma distância considerável, assim poderiam surpreender o seguidor com uma armadilha no povoado. A exemplo de Randulfr, Miolnir também quis abrir as bolsas. Atormentando por todo o caminho, ele não se conformava em levar algo sem saber o que era. Cansados de ouvir a voz de Miolnir, chegaram a um consenso, deixando-o abrir a bolsa que ele transportava. Miolnir procurou de todas as formas onde abrir a bolsa e nada, nem sinal da abertura. Então não só ele queria abrir, mas todos ficaram curiosos. Ramifel

com uma adaga tentou rasgar o couro, a bolsa resistia todos os ataques. Gunter pediu para os rapazes pararem, porque elas estavam protegidas por um feitiço. As bolsas abririam sozinhas assim que chegassem ao lugar para onde foram destinadas. A frustração tomou conta dos jovens que mal perceberam a entrada para o povoado Stoe. Passaram cerca de quinhentos metros até que Snow olhou o mapa que estava em sua responsabilidade, percebendo o erro.

Ele quis tapear o grupo dizendo que a estreita trilha do lado direito deixada para trás era um atalho que descobriu. Sugeriu ao grupo que seria melhor tomá-lo que perder tempo seguindo em frente. Gunter, conhecendo o amigo, tomou-lhe o mapa das mãos, em seguida o resto do grupo veio conferir a grande façanha de Snow. Não demorou muito para perceberem, como Gunter, que Snow havia passado a entrada com o mapa nas mãos. Snow levou muitos tapas na cabeça por não prestar atenção ao mapa, pois era a sua vez de guiá-los pelo caminho certo.