A iniciação

O povo de Artics conhecido pela fama de ter os melhores guerreiros, sempre esteve em grandes batalhas. Desde pequenos os garotos treinavam duro para enfrentar os desafios da iniciação. Ao completar dezesseis anos de idade, os garotos que superassem os desafios se tornariam guerreiros e os que não conseguissem ficariam com os trabalhos braçais do vale.

Gunter nunca quis ser um guerreiro como os outros, apesar de participar dos longos e cansativos treinos. Os seus pais compartilhavam da mesma opinião, não queriam que o filho se tornasse um guerreiro. Quando jovem seu pai saiu para o desafio da iniciação com um grupo de jovens incumbidos de rastrearem um dragão, que vinha aterrorizando todos os vales. Modrik, um dos aspirantes a guerreiro, sabia que os dragões viviam a nordeste do vale Arouk, na fenda dos dragões.

― O caminho até a fenda levara dez dias, passando pela floresta dos Elfos negros disse Arator.

Assustado com a ideia de passa pelos elfos negros, Jofre sugeriu:

― Por que não vamos pelo Vale Aurok?

― lembrando-se das histórias que eram contadas pelos anciões e mercadores.

― Não! Levaríamos quase o dobro de dias passando por Aurok disse Modrik.

Modrik, assumindo o papel de liderança do grupo, preocupado com a união e segurança de todos, teve a ideia de propor uma votação.

― Caros amigos! Quem prefere ir para Aurok dê um passo para direita e aqueles que preferirem atravessar a Floresta dos Elfos Negros deem um passo à esquerda.

Surpreso com o resultado, Jofre não se conformava com a escolha de seus amigos.

― Seus idiotas, vocês acham que passar pela Floresta do Elfos negros irá nos deixar mais fortes. A confusão entre os aspirantes estava decretada.

― Modrik o mais controlado do grupo disse: Não podemos brigar, ferir uns aos outros, temos que nos unir, só assim retornaremos a Artics. A decisão foi justa, Jofre, cabe a nós o respeito a quem escolheu atravessar a floresta.

Arator, pai de Gunter, havia escolhido o caminho menos perigoso, pois naquelas terras não havia caminhos seguros, como nos tempos de seus ancestrais. Arator e Jofre conheciam as histórias a respeito dos perigos que habitavam a Floresta dos Elfos Negros.

Talvez os anciões e os mercadores tenham aumentado um pouco a história, mas para que conferir se era verdade ou mentira? Aqueles que escolheram Aurok demonstravam nos olhares que o melhor seria viver na mentira que morrer descobrindo a verdade.

Faltando poucos dias para Gunter e os outros garotos partirem para a sua missão, ele perguntou ao pai.

― Pai, foi na missão de iniciação que conseguiu essa cicatriz no rosto?

Arator nunca conseguiu esquecer aquela noite aterrorizante e com uma tristeza profunda respondeu:

― Sim, foi a caminho da Floresta dos Elfos Negros, os outros não tiveram a mesma sorte! Lembro-me como se fosse hoje!

Depois de uma votação seguimos o caminho mais curto para a fenda dos dragões, caminho este que cruzava a Floresta dos Elfos Negros.

O dia dava lugar ao crepúsculo, em pouco tempo a escuridão da noite predominaria. As noites naquele local eram muito frias, precisávamos encontrar abrigo, o vento e a chuva fina eram congelantes, os cavalos estavam cansados, nós estávamos famintos. Faltava meio dia para a entrada da floresta, uma boa noite de sono acalmaria os nervos do grupo.

Modrik, Jofre e eu ficamos responsáveis pela procura de um lugar adequado para o abrigo. Alfred e Tomas foram apanhar lenha que restara seca para fogueira e os outros saíram em busca de alguma

caça. O vento era tão forte no descampado que resolvemos montar a tenda entre as árvores que estavam logo à frente. Alfred e Tomas chegaram com um monte de galhos secos, eles nos ajudaram a estender a manta feita de pele de animais emprestada pelo pai de Jofre. O abrigo estava montado há tempos e nada dos outros voltarem da caçada. Sabíamos que à noite éramos vulneráveis, presas fáceis para os predadores noturnos. Atrás das árvores Jofre jurava ter visto vultos, não acreditamos no começo, porque ele estava com a mente na floresta dos elfos, qualquer barulho ele estava pronto para lutar.

― Jofre dessa vez ouviu! Ele gesticulava pedindo silêncio. Todos ficaram quietos. Ouvimos barulho de galhos partindo entre as árvores. O barulho vinha de longe e nem sinal de vida dos outros.

Ficamos em posição de ataque, cada vez o barulho se aproximava, não conhecíamos bem o que vivia naquelas terras.

De repente um animal grande em disparada veio em nossa direção, Jofre sem titubear saltou aplicando um golpe de mestre decapitando o bicho. O cervo estava fugindo dos garotos que chegaram a tempo de presenciar o bicho se debatendo ao chão.

Éramos um grupo de quinze jovens, nem todos conseguiriam se tornar guerreiros em Artics ou até mesmo sobreviver há certos desafios. A fogueira dentro do abrigo nos aquecia, o cheiro da carne assada lembrava os lares que deixamos para trás. Todos bem alimentados e com sono, chegou a hora de escolher as sentinelas.

Ninguém queria ser o primeiro devido o cansaço, tiramos a sorte nos palitinhos, assim formaram os quintetos. Eu estava no primeiro quinteto, o tempo parecia não passar. No céu avistávamos o gigantesco dragão batendo suas asas, sumindo nas nuvens. A Lua clareava o descampado, de longe poderíamos ver se alguma coisa tentasse se aproximar, o ataque em tal situação era mortal para qualquer intruso. Depois dos revezamentos a escuridão da noite nos deixava, nascia um belo dia.

Todos com as forças renovadas seguiram rumo à floresta. Tomas, com a sua flauta, entoava as velhas canções de guerras e conquistas do povo de Artics. Estávamos animados, menos o Jofre. Cabisbaixo parecia sentir que algo ruim iria acontecer, eu daria o meu cavalo pelos seus pensamentos.

A quantidade de árvores estava aumentando a cada trecho percorrido, era sinal que em pouco tempo chegaríamos à entrada da floresta. Para atravessar a floresta levaríamos um dia cavalgando rápido, não era bom deixar que a noite nos alcançasse dentro dela.

Um falcão pairava soberano no céu, parecia que vigiava os nossos passos. Ele apareceu depois que as árvores começaram a aumentar no caminho. Eu e Jofre ficamos preocupados, segundo os contadores de histórias os elfos poderiam falar a língua dos animais e os falcões eram os seus olhos no céu. Não sabíamos que atitude tomar, se abateríamos o falcão acreditando que a ave era um espião ou se era mais um cansado a procura de comida.

Depois de algum tempo avistamos a imensidão das árvores, do alto parecia que levaríamos uma eternidade para atravessa lá. Tivemos que descer puxando os cavalos pelas rédeas, a trilha ficou perigosa um simples deslize cavaleiro e montaria cairia do alto do penhasco.

Diante da floresta decidimos não entrar, todos concordaram em ficar o resto do dia à beira da floresta e ao cair da noite acampar ali mesmo. Com o resto do dia e toda noite pela frente, tínhamos muito tempo para descansar. Soltamos os cavalos, estendemos a manta de couro e começamos a montar a tenda. Havia sobrado metade do cervo para a refeição da próxima parada. Acendemos uma pequena fogueira, Tomas colocou o resto de cervo para assar.

Modrik e Jofre avistaram um lago bem longe, sem pensar fomos tomar banho e dar água para os cavalos.

Lago extenso de águas cristalinas, tínhamos a ilusão de chegar ao fundo em um simples toque na água. O seu corpo adentrava a floresta, algo que não nos deixava à vontade.

Enquanto estávamos dentro do lago, Jofre, empunhando o seu arco fazia guarda, ele não tirava os olhos do trecho em que o lago entrava na floresta. Após sairmos Jofre nos obrigou a fazer guarda para ele tomar banho. No grupo todos tínhamos a mesma idade. Jofre, por suas atitudes, parecia estar dez anos à nossa frente, cauteloso não era de muita brincadeira, desde pequeno sempre estava atento com tudo que acontecia ao seu redor.

A caminho do acampamento o vento trazia o cheiro de carne assada, cheiro esse que nos fazia andar cada vez mais rápido, a fome era quem nos atacava naquele momento.

Depois de comer e nos divertir ouvindo Tomas tocando a sua flauta, atravessar a floresta no dia seguinte não era mais problema.

O falcão não cansava de sobrevoar o acampamento, Jofre quis abatê-lo por duas vezes, Modrik e Tomas não deixaram. A noite chegava sorrateiramente com o vento frio vindo da floresta. Arquimedes sugeriu que as ordens dos quintetos permanecessem os mesmos. Formavam a guarda eu, Jofre, Tomas, Andrew e Arquimedes. O céu estava carregado de nuvens negras, mal a Lua clareava ao redor do acampamento. Noite ruim para fazer guarda. disse Arquimedes referindo-se à pouca claridade. Posicionamo-nos em pontos estratégicos onde podíamos proteger todos. Olhar para floresta causava arrepios, não se via nada na escuridão, somente ouvíamos o piar do falcão sobre nós.

O silêncio e a calmaria traziam o sono, que aos poucos ludibriava os nossos olhos, ainda bem que os outros cincos nos renderam. O cansaço e o sono eram tão fortes que dormimos como crianças.

No meio da madrugada fomos brutalmente atacados. Atordoados de sono, tentamos alcançar nossas espadas, mas não nos deram tempo. Fomos golpeados sem ver o oponente. Eu tive a sorte de consegui tirar o peito do golpe, mas a lâmina cortou o meu rosto.

Modrik, que estava do meu lado, foi decapitado. A sua cabeça caiu sobre os meus pés, o sangue jorrava como uma nascente. Banhado com sangue dos meus amigos, não tive reação, fiquei paralisado mal respirava. Eles pensaram que todos estavam mortos.

Durante toda a madrugada ouvi passos em volta da tenda. Temia que pegassem os corpos para queimar. Assim que o dia amanheceu procurei se havia alguém com vida, bravo em ver os meus amigos assassinados. Não tiveram ao menos a chance de se defender. Cheio de sangue e com o rosto cortado até a orelha saí daquele lugar maldito. Caminhei por um bom tempo ate encontrar os cavalos, que fugiram na madrugada assustados com o massacre. Sem parar voltei a Artics, minhas roupas ensanguentadas, o meu rosto não doía mais que a perda de quatorze amigos. Com todos esses anos de treinamento não conseguimos proteger as nossas vidas naquela noite. Sem ter completado a missão hoje eu sou um agricultor.

― Por isso, filho, faço qualquer coisa para você não ir, essa bobagem de iniciação não poderia existir, não temos que provar para ninguém o potencial que temos.

A chance de Gunter ser um guerreiro era enorme, segundo o velho Rendor. Ele dizia que em toda a sua vida não tinha visto um garoto lutar com grande habilidade, ataques imprevisíveis e mortais. Espadachim com uma sutileza que hipnotizava os seus oponentes, aos doze anos ele era considerado o melhor arqueiro de Artics, conseguindo abater uma presa há quase duzentos metros.

Gunter pensou por várias noites em fugir de Artics, o ato era punido com a morte e sua família banida, condenada a viver nas terras dos amaldiçoados.

O dia de partir se aproximava, ele buscava o alívio para os seus pensamentos contemplando a Lua e as estrelas. Naquele momento nada na face da Terra poderia fazê-lo esquecer do pesadelo que seu pai viveu quando jovem na missão de iniciação. No dia seguinte, após os treinos, Gunter foi caçar, preocupado em deixar uma boa carne em casa para seus pais e os dois irmãos, Mark e Ode Baran. Sabendo que nos arredores de Artics não se encontrava mais uma caça digna de um caçador, resolveu subir até o Lago Wind, onde tinha a certeza que encontraria animais à procura de água.

A caminho do lago uma chuva fina começou a cair, mas não poderia voltar, pois no dia seguinte partiria com os outros garotos para a missão, missão essa que os anciões do conselho de Artics faziam segredo do destino.