A Assistente da Princesa
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Toda a energia abandonou meu corpo assim que Gadreel me deixou sozinha no quarto novamente. Sentei-me na poltrona, observando a neve cair suavemente lá fora, mas minha mente estava longe da paisagem tranquila. O que eu havia feito parecia audacioso, e agora, o que me consumia era a ansiedade pela resposta de Nikolaus. Ele, que sempre foi uma incógnita para mim, agora tinha o poder de virar o jogo.
Eu sabia que a situação exigia ação, mas ao mesmo tempo, eu não poderia prever como ele reagiria. E se ele não responder? O pensamento me fez morder o lábio. Se ele ignorasse meu bilhete, eu teria que lidar com as consequências disso. A falta de resposta seria um golpe silencioso, uma confirmação de que meu movimento não tinha sido bem-vindo, uma falha. Se isso acontecesse, minha missão poderia desmoronar, e eu ficaria vulnerável à desconfiança.
Mas e se ele me respondesse? O que eu faria? A resposta dele seria a chave. Ele poderia achar a ousadia da minha carta uma boa tentativa, ou talvez, apenas uma afronta. Eu não sabia em que ponto ele estava, se disposto a dialogar ou se fosse mais inclinado a me afastar ainda mais. Eu esperava que fosse o primeiro, mas não sabia o que esperar dele.
Não sabia se ele veria minha atitude como um esforço para estabelecer uma conexão ou como um erro da minha parte. O que ele pensaria de alguém como eu, alguém que se arrisca, mas sem o respaldo necessário para agir com autoridade? O mais difícil era não saber em que terreno eu estava pisando. Meu papel sempre foi nos bastidores, uma espectadora, alguém que ajudava a garantir que tudo ocorresse sem falhas. Agora, eu tinha me colocado no centro do palco, e isso poderia ser minha ruína.
Um leve som de batidas na porta me fez levantar os olhos da janela. Antes que eu pudesse responder, Merida entrou sem cerimônias, equilibrando uma bandeja com uma chaleira e duas xícaras.
— Achei que você precisava disso. — anunciou, colocando a bandeja na pequena mesa ao lado da poltrona. — Não é chá o suficiente para resolver todos os seus problemas, mas pode ajudar.
— O que faz você pensar que eu tenho problemas? — retruquei, arqueando uma sobrancelha enquanto ela me entregava uma das xícaras e se servia também.
— Bem, para dizer o mínimo, — ela começou, sentando-se na beirada da cama. — você virou o assunto do dia no refeitório.
— É mesmo? — questionei, fingindo desinteresse.
— Ah, sim. Phoebe fez questão de transformar sua aparição em um espetáculo. Acho que metade dos funcionários agora acha que você está aqui para revolucionar o palácio.
Soltei uma risada curta.
— Bom saber que sou tão inspiradora.
— Ou intimidante. — Merida acrescentou, rindo. — Mas não se preocupe, o consenso geral é que você é fascinante.
Eu balancei a cabeça, sorrindo de canto. A verdade era que eu não podia me importar menos com o que os funcionários pensavam. Minha mente estava fixada em outra coisa.
— Logo eles arranjam outro assunto mais interessante. — murmurei, tomando um gole do chá. — E você, como foi o resto do seu dia?
Antes que ela pudesse responder, mais batidas na porta ecoaram pelo quarto. Eu franzi o cenho, colocando a xícara sobre a mesa.
— Quem será agora? — murmurei, levantando-me. — Você está esperando alguém?
— Eu? Não. — Merida respondeu, parecendo tão curiosa quanto eu.
Coloquei a xícara sobre a mesa e me levantei, cruzando o quarto até a porta. Quando a abri, me deparei com um guarda uniformizado, carregando um envelope com o selo real de Osteland — um alce em relevo sobre o brasão em azul e prata.
— Senhorita Petrova. — ele disse, estendendo o envelope com formalidade. — Um convite da família real.
Minha boca se abriu em surpresa, mas rapidamente me recompus, pegando o envelope com cuidado.
— Obrigada. — respondi, antes de fechar a porta.
Voltei para o quarto, ainda encarando o selo intacto.
— O que é isso? — Merida perguntou, levantando-se da cama para espiar.
— Parece que vou descobrir. — murmurei, rompendo o lacre com dedos cuidadosos.
O papel no interior era elegante, a caligrafia impecável. A mensagem no interior era breve, mas o suficiente para me fazer parar por um instante.
"Senhorita Evelina Petrova de Burgie,
Sua presença é requisitada no jantar desta noite, no salão principal.
Atenciosamente,
Nikolaus von Östergaard, Príncipe de Osteland."
Meu coração deu um salto ao ler o nome. Merida estava ao meu lado, claramente tentando conter a empolgação, mas sua expressão de choque foi suficiente para entender que ela havia visto o remetente.
— Ele te convidou para jantar? — ela perguntou, quase em um sussurro.
— Parece que sim. — respondi, tentando esconder o turbilhão de pensamentos que esse simples pedaço de papel havia causado.
Merida me olhou como se eu tivesse acabado de ganhar a loteria.
— Mas você não está acompanhada de ninguém da família real de Geróvia. Isso não é... altamente incomum?
Eu assenti lentamente, ainda sem conseguir tirar os olhos do papel. O silêncio pairou por um momento. Por mais que Merida estivesse obviamente curiosa, ela não insistiu.
— Vou buscar algo para você vestir. Se vai jantar com a família real, é melhor estar preparada. — disse, saindo do quarto antes que eu pudesse responder.
Assim que a porta se fechou, voltei a olhar para o convite, como se ele pudesse me dar alguma resposta. Mas não havia nenhuma ali, apenas mais perguntas. Um jantar com a família real... Isso era algo que eu nunca tinha considerado. A interação que esperava ter com Nikolaus deveria ser discreta, longe de olhares curiosos e formalidades sufocantes. Ele sabia disso. Então, por que fazer disso um evento público?
Minha mente se encheu de possibilidades. Talvez fosse uma mensagem para mim, para mostrar que ele não seria facilmente manipulado. Ou talvez fosse uma declaração para os próprios pais, algo que eu ainda não conseguia compreender. O que quer que fosse, eu não estava pronta para enfrentar o peso de um jantar oficial sem saber o que esperava por mim. Suspirei, desejando que ele tivesse escolhido qualquer outro momento, qualquer outra maneira, para responder ao meu bilhete.
Pouco depois, Merida voltou ao quarto carregando uma seleção de vestidos pendurados em um braço e uma caixa de sapatos no outro. Seus olhos brilharam enquanto ela examinava as opções que trouxera.
— Eu sabia que você precisava de algo especial. — disse, colocando os vestidos sobre a cama. — E, honestamente, não sei como você conseguiu isso.
— Consegui o quê? — perguntei, distraída enquanto corria os dedos pelos tecidos.
— A atenção do príncipe. — respondeu, inclinando-se com um sorriso conspiratório. — Como você fez isso?
Levantei uma sobrancelha, tentando parecer indiferente.
— Sou assistente da princesa Katerina. É natural comparecer a jantares assim.
Merida não parecia convencida, cruzando os braços e me lançando um olhar de quem sabia mais do que dizia.
— Mas sua princesa não está aqui, está?
Eu hesitei, mas mantive minha expressão neutra, voltando minha atenção para os vestidos. Entre os tons neutros e sóbrios que Merida trouxe, um vestido verde escuro chamou minha atenção. Simples, mas elegante, com um corte que delineava a silhueta sem ser extravagante demais. Toquei o tecido, sentindo sua maciez entre os dedos.
— Esse. — indiquei, erguendo o vestido para ela.
— Ótima escolha. — ela concordou, já me entregando os sapatos para combinar. — Discreto, mas com um toque de sofisticação. Perfeito para alguém que quer impressionar sem chamar atenção demais.
Enquanto ela me ajudava a me preparar, sua curiosidade parecia fervilhar. Mesmo assim, ela se conteve, apenas comentando casualmente sobre como as cores combinavam com meus olhos e a iluminação do salão principal.
Quando terminei, olhei meu reflexo no espelho. O verde escuro contrastava perfeitamente com minha pele, e o corte do vestido me fazia sentir confiante sem parecer ostentação. Estava pronta. Ou, pelo menos, o mais pronta que eu poderia estar para um jantar com a família real.
Abri a porta do quarto, pronta para solicitar que Gadreel me acompanhasse, mas para minha surpresa, Cris é quem estava parado na minha frente, me esperando. Ele usava seu típico uniforme de guarda com mais medalhas que o diferenciava na hierarquia. Cris fez uma reverência.
— Boa noite, senhorita Petrova. Permita-me acompanhá-la até à sala de jantar. — ele completou com uma singela piscadinha. Logo seus olhos focaram no que estava ao meu lado. — Boa noite, senhorita Senger. É um prazer revê-la.
A surpresa foi tanta que sequer lembrava de Merida ao meu lado. Virei para ela a tempo de vê-la corar como nunca.
— Boa noite, senhor Larson.
— Não me chame de senhor. — ele disse, sorrindo para ela, que corou mais ainda. — Cris está bom.
Merida apenas confirmou com a cabeça antes de voltar para o quarto com uma rapidez impressionante. Cris franziu as sobrancelhas, confuso, antes de balançar a cabeça e me oferecer o braço.
— Eu realmente não sei o que fiz a ela. — ele comentou. — Ela me evita a todo custo.
Precisei de muita força para não revirar os olhos. Começamos a andar pelos longos corredores.
— Homens são meio lerdos mesmo, não é? — retruquei, olhando de canto para ele. Ele pareceu ofendido.
— E o que você sabe sobre isso?
— Mais do que você, aparentemente. — bufei. Ele parecia exasperado, com as sobrancelhas franzidas. Revirei os olhos. — Chame-a para sair.
Ele levantou as sobrancelhas, genuinamente surpreso. Como ele não havia percebido? Eu estava no palácio há apenas alguns dias e já era óbvio as intenções de Merida. Homens.
— Ah! — ele exclamou, quase sussurrando. — Bem, isso torna mais complicado. Impossível, na verdade.
— Por que? Você não tem interesse nela?
— Eu tenho namorada.
Ah.
— É, isso definitivamente complica. — falei. Pobre Merida. — Como se sente sendo tão requisitado?
Cris soltou uma gargalhada.
— Acredite, nem eu sei como.
— Ora, não seja humilde. Sua namorada é sortuda, ela é daqui? — questionei.
— Não, na verdade, não. — Cris desviou o olhar, como se pesasse as palavras antes de continuar. — Mas ela tem se adaptado bem. É uma pessoa incrível.
— Espero que sim. E espero conhecer ela um dia.
Ele sorriu, genuinamente feliz. Chegamos no hall de entrada do palácio, onde a porta da sala de jantar principal já podia ser vista, guardada por três sentinelas imponentes, além de outros posicionados estrategicamente nos pilares principais. Cris segurou minha mão gentilmente enquanto descíamos a escadaria.
— Boa sorte lá dentro, senhorita Petrova. Vou estar por perto, caso seja preciso. — ele disse, com um pequeno sorriso de encorajamento, antes de se afastar para assumir sua posição junto aos outros guardas.
Assenti, tentando ignorar o leve aperto no peito, e entrei no salão de jantar.
O salão de jantar estava magnífico. Lustres de cristal pendiam do teto alto, lançando um brilho dourado sobre a mesa longa, impecavelmente decorado com toalhas de linho e arranjos florais em tons de branco e azul — as cores de Osteland. Os parlamentares e suas esposas estavam sentados estrategicamente ao redor da mesa, vestidos em trajes que exalavam opulência.
Minha presença não passou despercebida. Murmúrios discretos ecoavam entre os convidados, olhares curiosos analisavam cada detalhe meu. A surpresa em seus rostos deixou claro que minha presença era, no mínimo, incomum.
Na cabeceira da mesa, o rei Axel estava sentado, com um terno azul-marinho perfeitamente alinhado. Com exceção dos cabelos cor de canela e dos olhos mel, era impressionante como seu filho era semelhante a ele, quase como se Nikolaus fosse um reflexo mais jovem do monarca.
Ao lado esquerdo do rei, estava a rainha Amara, seus longos cabelos escuros caindo em ondas perfeitas até a cintura. O vestido vermelho-sangue emanava uma aura de autoridade e elegância.
Então, meus olhos encontraram os de Nikolaus. Ele estava do lado direito do pai, com um terno preto impecavelmente ajustado, aberto para revelar a camisa branca por baixo. Seu cabelo ondulado caía de maneira propositalmente desalinhada, e o olhar tempestuoso que ele lançava em minha direção me arrepiava por inteiro.
— Senhorita Petrova.
Um dos mordomos se aproximou, fazendo uma reverência antes de indicar uma cadeira desesperadamente próxima à cabeceira da mesa, ao lado de um dos parlamentares mais influentes de Osteland.
– Majestades. — cumprimentei, fazendo uma reverência ao rei e à rainha, que me estudaram com interesse calculado. —Alteza. — meus olhos se voltaram para Nikolaus, que continuava a me observar com aquela intensidade desconcertante. — Agradeço o convite para o jantar. É uma honra.
Nikolaus inclinou a cabeça, seu sorriso polido e perfeitamente formal.
— O prazer é nosso, senhorita Petrova. Tenho certeza de que sua perspectiva será enriquecedora durante a discussão desta noite.
Sentei-me no lugar indicado, sentindo os olhares ainda fixos em mim. Enquanto o jantar era servido, com inúmeros pratos deliciosos — cordeiro, frango ao molho, massas, etc. —, uma conversa girava em torno da iminente união entre Geróvia e Osteland, com elogios velados à aliança promissória.
O rei Axel trocou palavras formais com os parlamentares, mas logo o assunto mudou para algo mais pessoal.
— Sua Alteza, — começou um membro de cabelos grisalhos, dirigindo-se a Nikolaus. — Recebemos notícias de que os comerciantes e industriais têm grandes expectativas quanto ao futuro casamento. Muitos acreditam que começar uma família fortalecerá ainda mais a sua imagem e melhorará a estabilidade do reino.
Nikolaus manteve uma expressão neutra, mas inclinou levemente a cabeça, como se considerasse as palavras.
— Sempre fico grato pelo apoio dos nossos cidadãos. — respondeu ele, sua voz firme, mas cortês. — A estabilidade do reino é, de fato, uma prioridade.
Outro parlamentar, sentado mais ao fundo da mesa, pigarreou, parecendo hesitante. Seus olhos passaram por mim rapidamente antes de se voltarem para o rei.
— Majestade, há algo mais que acredito ser importante mencionar... — ele começou, mas parecia receoso de continuar.
O rei Axel, com um gesto tranquilizador, o incentivou.
— Pode falar, Lansen. Nossa convidada aqui é uma mulher de grande perspicácia.
Com isso, todos os olhares recaíram sobre mim. Mantive minha postura ereta, forçando um sorriso tranquilo, enquanto o parlamentar começou.
— Há preocupações entre alguns setores da corte e da nobreza quanto à substituição da futura rainha. — ele disse, cuidadosamente. — Ser estrangeiro, especialmente de um país com um complexo histórico, pode levantar dúvidas sobre sua liderança e compreensão das necessidades de Osteland.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável, e por um momento, todos os olhos se voltaram para mim, como se esperassem meu posicionamento.
Respirei fundo antes de responder, consciente de que cada palavra proferida seria analisada.
— Compreendo os receios, mas acredito que julgar a princesa Katerina pelo passado de sua nação seria um erro. — comecei, mantendo minha voz firme, mas calma. — Ela não apenas compartilha o desejo de fortalecer as relações entre nossos países, mas também tem se dedicado a causas que poderiam beneficiar enormemente Osteland.
Houve um leve murmúrio entre os presentes, mas continuei antes que alguém interrompesse.
— Por exemplo, ela tem iniciativas inovadoras para a educação infantil e a preservação do patrimônio histórico em Geróvia. Projetos como esses podem ser facilmente adaptados para atender às necessidades daqui, fortalecendo ainda mais a conexão entre nossas culturas.
O rei Axel concordou, parecendo satisfeito.
— É reconfortante ouvir isso, senhorita Petrova. Claramente Geróvia escolheu bem quem enviar para ser seu representante.
Eu fiz uma leve reverência, grata pelo elogio, mas consciente de que a rainha Amara ainda não havia tirado os olhos de mim. Seu olhar era frio e avaliado, quase clínico, lembrando-me, desconfortavelmente, como Nikolaus fazia o mesmo.
Foi ele quem cortou o silêncio, sua voz compartilhada de uma curiosidade contida.
— E qual é a sua visão estratégica sobre esse casamento, senhorita Petrova? — ele perguntou, seus olhos fixos em mim. — Você considera um movimento importante para ambas as nações?
Os olhares ao redor da mesa mais uma vez se voltaram para mim, mas dessa vez, a intensidade do questionamento veio diretamente do príncipe. Segurei uma taça de vinho com mais firmeza do que o necessário antes de responder.
— Sem dúvida, Alteza. — comecei, olhando diretamente para ele. — Este casamento representa uma oportunidade única de alinhamento de interesses políticos e sociais entre nossos países. Mais do que um acordo formal é uma chance de demonstrar ao mundo que alianças baseadas em respeito mútuo podem superar quaisquer divisões.
Nikolaus arqueou uma sobrancelha, como se considerasse minha resposta.
— Um ponto interessante. — ele disse, antes de tomar um gole de vinho.
O príncipe se virou para o pai, murmurando algo em voz baixa. Ambos começaram uma conversa entre si, permitindo que conversas paralelas na mesa começassem.
Eu pude apreciar a comida sem muitas interrupções, os convidados na mesa pareciam não saber em quais assuntos me incluir, então eventualmente apenas iniciavam um bate-papo sobre algo de Geróvia, curiosos com as incríveis semelhanças e diferenças culturais.
Nikolaus estava impecável, uma personificação da diplomacia. Ele parecia ouvir cada palavra com atenção, respondendo com comentários ponderados e corteses sempre que iniciavam um assunto com ele. Não havia sinal da acidez que eu conheci antes, apenas a fachada de um príncipe perfeito.
“Então, é isso que ele realmente é?” pensei, observando-o. Esse Nikolaus definitivamente parecia mais com o que eu esperava e estava acostumada. Esse jamais pareceria ser alguém que usaria uma máscara e se vestiria de guarda por aí.
Talvez ele tenha prática em esconder seus verdadeiros interesses, melhor do que eu imaginava. E isso complicava bem mais todos os planos.
Quando o jantar terminou, os convidados começaram a se dispersar. Alguns se aproximaram do rei e da rainha para conversas rápidas, outros simplesmente aproveitaram a oportunidade para se despedir com palavras formais. O príncipe havia saído minutos mais cedo, pedindo licença para resolver algo.
Eu permaneci no meu lugar por um momento, observando o movimento ao meu redor enquanto ponderava o próximo passo. Não sabia o que esperar agora, mas tinha certeza de que Nikolaus não havia me convidado ali sem um motivo.
Quando me levantei, decidida em encerrar a noite, Cris apareceu ao meu lado com a postura impecável de sempre.
— Senhorita Petrova, se puder me acompanhar. — ele disse, oferecendo o braço.
— Claro. — respondi, confusa, mas tentando não demonstrar.
Ele me guiou pelos corredores do palácio, agora mais silenciosos após o fim da noite. Não perguntei onde estávamos indo, mas cada passo parecia pesar mais à medida que nos aproximávamos. Cris parecia sentir minha ansiedade e não tentou começar nenhum diálogo, nem mesmo para perguntar como foi o jantar.
Finalmente, chegamos a uma sala com uma grande porta de madeira ornamentada. Cris abriu a porta para mim, revelando um espaço que era ao mesmo tempo luxuoso e acolhedor. Havia uma lareira acesa, lançando um brilho quente sobre os móveis de madeira escura e os estofados em tons profundos de vinho e dourado.
Enquanto eu caminhava até o centro da sala, com Cris fechando a porta atrás de mim sem entrar, meus olhos foram atraídos por uma estante repleta de livros antigos e bem preservados. Pousei minha mão em um dos volumes, admirando a encadernação trabalhada.
Foi então que ouvi a voz de Nikolaus às minhas costas, cortante como uma lâmina.
— “Exijo que nos encontremos, sem mais demora, para garantir que nossa colaboração seja sem falhas.” — ele recitou, com um tom irônico que me fez virar abruptamente.
Ele estava parado, segurando a maçaneta da porta, e com um sorriso enigmático no rosto.
— Não é sempre que eu recebo ordens assim, senhorita Petrova. — ele continuou, fechando a porta atrás de si e dando alguns passos em minha direção. — A última vez que alguém foi tão direto comigo foi minha professora de etiqueta.
— Alteza. — cumprimentei, mantendo minha postura firme.
— “Acreditava que nossa interação seria evitável, mas dadas as circunstâncias atuais...”. — um sorriso discreto passou pelo seu rosto. — Impressionante como alguém que prefere evitar interações pode fazer tanto barulho com um pedaço de papel.
— Espero que não tenha considerado um insulto. — respondi, minha voz controlada, embora meu coração batesse mais rápido do que eu gostaria de admitir.
— Um insulto? — ele repetiu, arqueando uma sobrancelha. — Não. Mas certamente não esperava que a assistente da princesa tomasse tal liberdade.
Cruzei os braços, encarando-o sem me intimidar.
— Às vezes, Alteza, a situação exige liberdade. Principalmente quando o tempo é curto e há muito em jogo.
Nikolaus se moveu alguns passos, seus olhos nunca deixando os meus.
— E o que exatamente está em jogo para você, Evelina Petrova?
O tom da sua voz era calmo, mas carregado de uma curiosidade que parecia cortar através de qualquer máscara que eu tentasse usar.
Respondi sem hesitar:
— O sucesso da missão que me foi confiada. E garantir que todas as partes envolvidas estejam alinhadas com seus deveres, sem máscaras ou disfarces.
Um silêncio tenso pairou no ar entre nós. Finalmente, ele respondeu, mas havia algo nos olhos dele que era difícil de ler.
— Muito bem, senhorita Petrova. — ele disse, sua voz mais suave. — Temos muito o que conversar.
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