A Assistente da Princesa
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Carta de Evelina para Nikolaus:
"Alteza,
Acreditava que nossa interação seria evitável, mas dadas as circunstâncias atuais, creio que seja prudente esclarecer alguns pontos. Com a iminente chegada da princesa Katerina e o futuro da aliança entre nossos países, não podemos mais nos dar ao luxo de permanecer com dúvidas ou mal-entendidos.
Considero fundamental que nos alinhemos quanto aos nossos deveres, e para isso, é necessário saber se Vossa Alteza está realmente alinhado com os deveres que nos aguardam, sem máscaras ou disfarces.
Portanto, exijo que nos encontremos, sem mais demora, em um momento que seja conveniente para Vossa Alteza, para que possamos discutir claramente o que está em jogo e garantir que nossa colaboração seja sem falhas.
Com respeito,
Evelina Petrova.”
O príncipe jogou seu paletó no sofá antes de se sentar, de maneira excessivamente confortável, como se aquele espaço fosse um palco e eu a audiência. Ele arqueou uma sobrancelha para mim, indicando a poltrona oposta, onde claramente esperava que eu me sentasse também.
Relutantemente, acomodei-me à sua frente, deixando apenas a mesinha de centro nos separando. O brilho das chamas da lareira dançava nas paredes forradas de madeira escura, iluminando discretamente as molduras de quadros antigos que decoravam a sala. A lareira aquecia bem todo o ambiente, mas não o suficiente para dissipar o frio que atravessava meu corpo enquanto tentava decifrar o príncipe.
Nikolaus parecia uma contradição viva: sua postura relaxada contrastava com os olhos que me estudavam com uma intensidade calculada, como se cada movimento meu fosse um enigma que ele estivesse decidido a resolver.
— Então, você me acusa de não estar alinhado com os planos, é isso? — ele começou, sua voz carregada com um tom ambíguo que eu não sabia se era irritação ou provocação.
— Não o acusei. Apenas acredito que devemos colocar as cartas na mesa. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, e considerei isso uma pequena vitória.
— E que cartas seriam essas, senhorita Petrova? — ele perguntou, inclinando-se ligeiramente para frente, seus olhos nunca deixando os meus.
— Não me chame de senhorita Petrova. — deixei escapar antes que pudesse pensar melhor.
A reação dele foi quase imperceptível — um levantar sutil de sobrancelhas, seguido por um leve inclinar de cabeça, como se eu fosse um quebra-cabeça que acabava de se tornar mais interessante.
— Esse não é o seu nome? — ele perguntou, seu tom carregado de falsa inocência.
— É, mas quando você me chama assim, parece sarcasmo. — cruzei os braços, ciente de que minha postura poderia ser interpretada como infantil, mas decidi sustentar o olhar dele.
Nikolaus sorriu, um canto da boca se erguendo como se estivesse se divertindo.
— Muito bem. Prefere que eu a chame de Evelina? Ou, quem sabe... Evie? Talvez Lina?
— Evelina está ótimo. — respondi rapidamente, rezando para que o calor subindo pelo meu rosto não fosse visível.
Ele se recostou na poltrona, satisfeito com minha reação, enquanto eu tentava controlar a queimação que sentia no rosto. Imagina só, o príncipe me chamando por apelidos como se fossemos íntimos. Nikolaus sorriu novamente, aquele sorriso enigmático que parecia prometer tanto quanto ameaçar.
— Pois bem, Evie , o que a fez pensar que estou em desacordo?
Eu inevitavelmente revirei os olhos, decidindo não morder a isca. Claro, voltamos ao provocador Nikolaus. Que outras facetas ele ainda esconderia?
— Você não agiu exatamente como o esperado quando eu cheguei aqui. — rebati, tentando manter meu tom firme. — Não sei se está levando isso a sério o suficiente. Não pode me julgar por querer alguma garantia.
—Garantia? — ele repetiu, inclinando-se levemente para frente, seus olhos se estreitando. — E quem lhe deu a impressão de que minhas ações precisam ser justificadas para você?
O tom dele era calmo, mas havia algo refinado nas palavras, como se estivesse testando até onde eu ousaria ir.
— Talvez ninguém tenha me dado essa impressão. — respondi, sustentando o olhar dele. — Mas quando o futuro de dois reinos depende do comportamento de algumas pessoas-chave, é sensato fazer perguntas.
Por um breve momento, algo mudou na expressão de Nikolaus. Não era elegante nem divertido — era algo mais próximo de respeito, embora ele não fosse admitir isso tão facilmente.
— Sensato, talvez. — ele disse finalmente, recostando-se novamente na poltrona. — Mas sensato também seria confiar no julgamento de quem está no comando.
— E o que me diz que o julgamento está alinhado com os interesses de todos? — questionei, inclinando-me para frente, recusando-me a recuar.
O crepitar da lareira preencheu o breve silêncio que se seguiu, uma melodia quase reconfortante em contraste com a tensão crescente entre nós. A luz oscilante lançava sombras nos contornos afiados do rosto de Nikolaus, enfatizando a seriedade em sua expressão.
Ele riu, um som baixo que reverberou na sala.
— Você acha muito, Evie. — ele disse, sua voz compartilha com uma estranha mistura de ironia e admiração. — Mas, talvez, seja por isso que você está aqui.
Nikolaus girou a cabeça progressivamente, como se estivesse ponderando algo antes de falar novamente.
— Eu queria saber quem você seria com os outros antes de ver quem seria comigo. — ele disse, quase casualmente. — As pessoas, geralmente, mostram sua melhor versão quando estão diante de uma coroa.
Fiquei em silêncio por um momento, avaliando a declaração. Ele queria saber quem eu era? Essa era a justificativa dele para aquele comportamento evasivo e provocador?
—E? Descobriu algo interessante? — perguntei, um toque de ironia escapando na minha voz.
Ele riu novamente, um som baixo e quase genuíno.
— Ainda estou formando uma opinião. Mas devo admitir que você tem um talento peculiar para manter as pessoas na defensiva.
Cruzei os braços, não permitindo que a provocação me abalasse.
— É curioso ouvir isso de alguém cuja profissão é manter um reino inteiro alerta.
Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto eu observava.
— Você sabe, damas de companhia costumam ser reflexos de suas senhoras.
— Se você está insinuando que eu sou como a princesa Katerina, temo que esteja enganado. — respondi, balançando a cabeça, uma risada escapando antes que eu pudesse evitar. — Nós não poderíamos ser mais diferentes.
Nikolaus arqueou uma sobrancelha, como se me convidasse a explicar.
— Kate é... — pausei, escolhendo bem minhas palavras e deixando um sorriso escapar. — Ela é doce. Encanta as pessoas ao redor de um jeito que torna impossível ficar brava com ela por muito tempo. Tem um coração inocente, talvez até demais.
Nikolaus inclinou a cabeça, avaliando minhas palavras, mas antes que ele pudesse comentar, continuei:
— Eu, por outro lado, sou prática. — minha voz ganhou um tom mais firme. — E, como você mesmo fez questão de destacar, tenho o péssimo hábito de levar as pessoas ao limite.
— E mesmo assim, é ela quem está prestes a se casar comigo. — ele disse, como se fosse uma observação casual para si mesmo, havia algo mais profundo em seu tom.
Endireitei-me na poltrona, sentindo a necessidade de deixar algo claro.
— Porque ela está se sacrificando muito por isso. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Katerina entende o peso do que está no jogo, e ela está disposta a abrir mão de muito para garantir que funcione. Você não pode simplesmente jogar isso fora.
Nikolaus estreitou os olhos levemente, como se estivesse medindo cada palavra que eu havia dito.
— Jogar fora? — ele repetiu, sua voz baixa e controlada. — Você acha que eu não estou levando isso a sério.
— Estou assumindo que você não vê o que está no jogo para ela. — respondi sem hesitar, sustentando o olhar dele.
O silêncio que se seguiu foi pesado, cortado apenas pelo crepitar da lareira.
Nikolaus se recostou novamente, cruzando os braços.
— Interessante. — ele disse, quase para si mesmo.
Eu não sabia se ele estava se referindo a mim, a Katerina, ou à situação como um todo.
— Eu não entendo. — falei, sem pensar. Ele levantou a sobrancelha, pedindo uma explicação. — Qual o motivo do jantar dessa noite?
Ele soltou ar pelo nariz, em um riso sem som e sem humor.
— É tão inteligente, imaginei que saberia. — ele falou, mas continuou quando não o interrompi. — Você me acusou de usar um disfarce, como se eu não fosse verdadeiro o suficiente. Você acha que não levo a sério porque não estou demonstrando como esperava.
— Talvez porque, às vezes, a neutralidade pareça indiferença. — rebati, cruzando os braços. — E, em um momento como este, é difícil distinguir uma coisa da outra.
— Talvez você esteja acostumada a um tipo diferente de príncipe. — ele disse, com um leve sorriso que não alcançava os olhos. — Deixe-me adivinhar... alguém que segue ordens sem questionar, que se curva às expectativas sem hesitar?
Havia algo no tom dele que chamou minha atenção, algo que ia além da ironia usual. Um amargor velado, como se o príncipe perfeito que ele descrevia fosse um peso que ele carregava há anos. Era estranho, quase perturbador, ver alguém que deveria ser tão inabalável deixar escapar um fragmento de vulnerabilidade.
Ele continuou:
— No jantar de hoje, você me observou, como era de se esperar. E agora estou curioso, o príncipe que você viu esta noite foi “suficientemente bom”?
— Sua postura foi... exemplar. — admiti, cuidadosamente. — Diplomático, encantador, seguro. Exatamente o que qualquer reino desejaria ver em um herdeiro. — pausei alguns segundos para pensar. — Sim, mais como o esperado.
Ele me encarava de um jeito profundo, quase decepcionado, por segundos que pareciam eternos.
— Então talvez não deva pedir algo que realmente não quer. — ele disse, por fim.
As palavras dele pairaram no ar, carregadas de algo que eu não sabia definir — cansaço, talvez, ou frustração. Era como se, por um breve momento, a fachada impecável de Nikolaus tivesse dado lugar a algo mais humano. Não o príncipe diplomático que encantava os nobres, nem o provocador que me desafiava a cada palavra, mas alguém que estava, de algum modo, tão perdido quanto eu.
Sua expressão mudou, os olhos adquiriram um brilho mais sério. Era desconcertante vê-lo assim, como se estivesse equilibrando diferentes versões de si mesmo para escolher qual delas mostrar a seguir.
— Deve saber que estou perfeitamente alinhado com os planos, sei o meu dever e o que está em jogo. Sei também que está aqui para investigar por Katerina. Se o que a preocupa são as dúvidas dos nobres, então posso lhe ajudar dizendo quais e como amenizar isso. — o príncipe começou a se levantar do sofá, sem olhar na minha direção. — Enviarei Cris para buscá-la quando eu estiver livre, peço que esteja em um bom alcance para que seja possível nossa reunião.
Eu não sabia o que responder. Eu não sabia como lidar com as mudanças de atitude e humor dele, quando fomos de provocação para uma reunião de negócios?
Ele não esperou uma resposta, apenas seguiu para a porta e não olhou sequer uma vez em minha direção antes de sair por ela.
O som da porta se fechando deixou um vazio na sala, mas minha mente estava longe de se concentrar nisso. Eu sabia que Nikolaus era mais do que deixava transparecer, mas a verdadeira questão era: ele queria que alguém enxergasse isso? Ou seria apenas mais um jogo, um dos muitos que ele parecia tão habilidoso em jogar?
O som do estalo da lareira preenchia a sala, enquanto eu permanecia sentada, encarando o fogo como se ele tivesse as respostas que eu tanto procurava. O vazio deixado pela saída de Nikolaus parecia maior do que eu queria admitir, e as palavras dele ainda ecoavam em minha mente.
"Talvez não deva pedir algo que realmente não quer."
O que ele queria dizer com isso? Ele era um enigma envolto em camadas, e quanto mais eu tentava decifrá-lo, mais confusa ficava.
— Pensativa, senhorita Petrova?
A voz de Cris me tirou abruptamente do transe. Pisquei algumas vezes antes de perceber que ele já estava dentro da sala, parado ao lado da porta com os braços cruzados, observando-me com aquele semblante ligeiramente divertido.
— Não ouvi você entrar. — admiti, ajustando a postura.
— Isso estava bem óbvio. — ele respondeu, aproximando-se com passos leves. — Algo na conversa com o príncipe lhe deu dor de cabeça?
Suspirei, desviando o olhar para as chamas.
— Ele é... frustrante. Nunca sei em que pé estou com ele.
Cris deu um pequeno sorriso, sentando-se em uma das poltronas próximas.
— Talvez porque você está tentando entendê-lo da maneira errada.
Franzi o cenho, virando-me para ele.
— O que quer dizer com isso?
— Nikolaus é mais complexo do que aparenta. Ele não é fácil de decifrar porque não quer ser decifrado. Mas, antes de julgar, talvez você devesse lembrar que não o conhece de verdade. — Cris inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Se você continuar insistindo em avaliá-lo apenas pelo que ele mostra superficialmente, só encontrará mar raso.
Hesitei, sentindo o peso das palavras dele.
— Não é como se ele deixasse ir além disso. Ele parece gostar de manter todos ao seu redor na defensiva.
— Talvez. — Cris deu de ombros. — Mas você já conheceu mais dele do que muitas pessoas conhecem em anos. Ele apostou uma ficha de confiança em você ao abrir essa porta, Evelina. Agora, cabe a você decidir se vai merecer isso ou não.
Mordi o lábio, cruzando os braços.
— Você também acha que mereço?
Cris soltou uma risada baixa.
— Estou do lado de quem faz as escolhas certas. Você está acostumada a mover as peças pela princesa, mas deve lembrar que agora há outra peça em jogo, tão importante quanto.
— O que está tentando dizer?
Ele me encarou, seu tom ficando mais sério.
— Se você continuar por esse caminho, focando apenas em como garantir a vitória da sua princesa, não mudará muito seu status de rival. Nikolaus não precisa de mais rivais, Evelina. Ele precisa de aliados.
As palavras dele caíram como pedras sobre mim, pesadas e difíceis de ignorar. O que isso significava para mim? Para minha missão? Para Nikolaus?
Antes que eu pudesse formular uma resposta, Cris levantou-se, ajeitando o uniforme e me oferecendo o braço.
— Vamos, a noite deve ter sido bem longa para você. Deixe-me acompanhá-la até seu quarto e você pode ir me contando no caminho o quão massacrada foi nesse jantar.
Soltei uma risada baixa antes de me levantar e aceitar o braço dele. Enquanto caminhávamos para fora da sala, meus pensamentos ainda giravam. Olhei mais uma vez para o cômodo, o brilho laranja da lareira iluminando os móveis elegantes, como se guardasse segredos. E a sensação formigante de que veria esse lugar de novo — e não demoraria muito.
Com um último olhar, pensei: talvez a próxima vez que pisar aqui, eu tenha respostas. Ou mais perguntas.
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