Notas iniciais
Obrigada pelos comentários! Agradeço o carinho de quem está acompanhando a história da Eve, vou tentar atualizar a história com frequência (se a faculdade permitir)

Eu encarava, estática, o e-mail da assessoria do palácio. Meu último relatório, informando as preocupações das esposas dos membros da corte a respeito da capacidade de Katerina, preocupou nossos conselheiros que resolveram não só prolongar minha estadia — eu não voltaria para casa em dois dias, como esperava — mas também antecipar a visita da princesa. E agora, eu encarava a declaração oficial de que Kate chegaria à Osteland em sete dias.

Em apenas sete dias, um romance da princesa de Geróvia, com o futuro rei de Osteland, seria oficializado marcando o fim de uma guerra fria de anos, entre duas nações, que perdurava desde o golpe dos antigos reis gerovianos — o bisavô de Kate.

E para isso, me deram seis dias para descobrir quem mais é uma potencial ameaça, quem seriam nossos aliados e organizar estratégias para aproximá-la deles.

Como eu faria isso? Eu não fazia a mínima ideia.

Mas não havia dúvidas alguma de que há uma única pessoa que poderia botar tudo a perder se não concordar: Nikolaus.

Eu fechei o notebook com um estalo suave e olhei pela janela do quarto, onde os flocos de neve começavam a cair lentamente. Sete dias. Apenas sete dias para transformar uma aliança frágil em algo que pudesse durar. Não havia espaço para erros.

— Merida? — chamei ela, que estava cantarolando baixinho enquanto mexia no celular.

— Sim?

— Quero ir almoçar no refeitório dos funcionários. — anunciei, levantando-me da cadeira enquanto pegava um cachecol.

Ela paralisou, boquiaberta, e me olhou como se eu tivesse acabado de sugerir que pulássemos da torre mais alta do país.

— Senhorita Petrova... — começou, hesitante. — Acho que não seria adequado.

— Por quê? — questionei, franzindo o cenho.

— Bem, convidados reais não costumam frequentar o refeitório. Isso seria quebrar protocolos. — explicou, escolhendo as palavras com cuidado.

Cruzei os braços e encarei-a, irredutível.

— Merida, sou uma funcionária, não uma convidada. Estou aqui para trabalhar, e isso significa que tenho o direito de usar as instalações dos funcionários, certo?

Ela hesitou, claramente desconfortável, antes de abrir a boca para protestar novamente. Mas eu já estava abrindo a porta do quarto e saindo, sem dar chances para ela arranjar um bom argumento.

Gadreel, o guarda pessoal designado para me acompanhar, estava na porta de prontidão. Ele era alto, com ombros largos e cabelos escuros cortados curtos, e tinha aquele ar de profissionalismo impecável que parecia ser um requisito para o trabalho.

— Senhorita Petrova, posso saber onde iremos?

— Ao refeitório dos funcionários. Podem ir na frente, me indiquem o caminho.

Gadreel franziu o cenho e olhou para Merida em busca de respostas, ela apenas balançou os ombros como se dissesse que já perdeu essa briga.

— Com todo respeito, acho que isso não é uma boa ideia. — ele falou, cruzando os braços, seu tom em reprovação. — Não é um lugar seguro para alguém em sua posição.

— Minha posição? — arqueei uma sobrancelha. — Gadreel, com todo o respeito, eu sou uma funcionária do palácio, assim como qualquer outra pessoa que esteja naquele refeitório.

— Não desse palácio. — ele rebateu, mantendo a calma. — Sua presença lá poderia causar desconforto ou ser interpretada de forma errada pelos outros.

Olhei de Gadreel para Merida e de volta para Gadreel, sentindo que ambos estavam formando uma frente de resistência contra mim.

— Então estou proibida de comer onde os outros funcionários estão por ser frágil demais? — perguntei, com um sorriso cínico.

Merida suspirou, percebendo claramente que eu não cederia.

— Ninguém está proibindo nada, senhorita. — ela disse, olhando para Gadreel antes de continuar. — Só estamos afirmando que há outras opções. Há protocolos.

— Eles me proíbem? — perguntei, Merida hesitou, eu sabia que não proibia. — Que ótimo, então. Chegamos à uma decisão, iremos almoçar no refeitório. — finalizei, prosseguindo o caminho mesmo sem saber a direção, obrigando os dois a me seguirem.

Caminhamos pelos corredores do palácio, e quanto mais nos aproximávamos da ala sul — setor dos funcionários —, mais eu percebia o contraste entre a grandiosidade das áreas principais e a funcionalidade prática deste lado. As paredes eram menos ornamentadas, mas ainda assim bem cuidadas.

Quando finalmente chegamos ao refeitório, quase paralisei no lugar ao ver a dimensão do espaço. Era imenso, com teto alto e janelas amplas que deixavam a luz natural entrar, refletindo nos pisos de madeira polida. As mesas eram longas, com capacidade para oito pessoas cada, e estavam dispostas em inúmeras fileiras.

Uma fila enorme se formava diante de uma estação de serviço onde os funcionários escolhiam sua própria refeição. Diferentes opções estavam dispostas com perfeição: carnes, massas, vegetais, pães artesanais e até sobremesas tentadoras.

Me permiti um momento de admiração silenciosa. Os funcionários eram tratados infinitamente melhor em Osteland, em comparação com o que eu estava acostumada em Geróvia, onde uma refeição era entregue pronta e muitas vezes consumida em uma copa mais simples.

Merida pareceu perceber minha surpresa..

— É impressionante, não é? — disse ela, quase orgulhosa.

— Para dizer o mínimo. — murmurei, ainda absorvendo o ambiente.

Gadreel, que havia permanecido em silêncio durante todo o caminho, deu um passo à frente, claramente desconfortável com a minha presença ali.

— Com licença, senhorita Petrova. Se insistir em continuar aqui, sugiro que escolha uma mesa menos visível. — disse ele, o tom mais firme do que antes.

Eu apenas assenti, ignorando a sugestão.

— Vamos nos servir primeiro, depois decidimos onde sentar. — disse, enquanto começava a andar em direção à fila, sentindo os olhares curiosos dos funcionários ao meu redor.

Com minha bandeja equilibrada nas mãos, percorri os olhos pelo refeitório, avaliando onde sentar. A maioria das mesas já estava cheia, mas foi uma em específico, no canto, que chamou minha atenção.

Bingo. Meu alvo.

Cris estava sentado lá, rindo de algo que um dos dois guardas ao seu lado havia dito. Ele parecia muito mais relaxado do que na primeira vez que o vi, a postura ainda impecável, mas o sorriso fácil suavizou sua expressão normalmente séria.

— Vamos nos sentar lá. — indiquei para Merida, que parou abruptamente e me olhou como se eu tivesse perdido o juízo.

— Na mesa dos guardas? — sussurrou, o tom incrédulo. — Eve, isso é totalmente contra os protocolos.

— Protocolos? — questionei, já caminhando em direção à mesa. — Não é como se eles fossem me expulsar.

Gadreel resmungou algo que não entendi, mas continuou me seguindo de perto. Quando chegamos à mesa, os três homens pararam de conversar e olharam para mim com expressões variadas: surpresa, curiosidade e, no caso de Cris, algo que parecia uma mistura de diversão e cautela.

— Olá, senhores. Esta cadeira está livre? — questionei com um sorriso.

— Olha, eu realmente não acho que... — Merida começou, a voz nervosa, mas um interrompi antes que ela pudesse continuar.

— Merida, eu estou apenas sentando para almoçar. Não estou invadindo uma reunião militar secreta. — falei, colocando minha bandeja sobre a mesa antes de me sentar e indicando para que eles fizessem o mesmo.

Um dos guardas, um homem robusto com cabelo ruivo curto, soltou uma risada baixa, aparentemente achando graça da situação.

— Bem, acho que é a companhia mais ilustre que já tivemos para o almoço. — ele disse, inclinando-se preferencialmente para frente, o tom divertido.

— Na verdade, só estou aqui pelo suco. Ouvi dizer que é o melhor do palácio. — brinquei, pegando o copo na bandeja e fingindo examinar o conteúdo com um ar crítico.

Cris, que até então estava observando em silêncio, finalmente falou, o canto da boca se erguendo em um sorriso.

— Espero que não se decepcione. É feito com a mesma máquina que usamos há anos. — ele se inclinou como se fosse contar um segredo. — Dizem que nunca foi lavada.

— Então é confiável. — repliquei, levantando o copo em um brinde improvisado.

Merida suspirou audivelmente ao meu lado, claramente sem saber onde enfiar a cara.

— Senhorita Petrova, a senhora está ciente de que...

— Que é uma quebra de protocolo sentar com os guardas? Sim, Merida, eu já ouvi. — interrompi, olhando para ela com um sorriso travesso antes de me virar para os outros. — Mas acho que todos aqui merecem um pouco de descontração no almoço, não acham?

O guarda ruivo deu outra risada, enquanto o terceiro, um homem mais jovem com feições angulosas, balançou a cabeça em discrição, mas parecia menos hostil.

— E você? — questionei, olhando diretamente para Cris. — Acha que estou causando um alvoroço ao ficar aqui?

Ele deu de ombros, ainda sorrindo.

— Alvoroço, não. Mas definitivamente será o assunto do dia.

— Perfeito. Assim, ninguém vai se importar se eu começar pela sobremesa. — repliquei, pegando um pedaço de bolo da minha bandeja, o que arrancou uma risada geral.

A atmosfera relaxou visivelmente, e pela primeira vez desde que entrei no refeitório, senti que talvez quebrar as regras não tivesse sido uma ideia tão ruim assim.

Enquanto a conversa na mesa ganhava um tom mais descontraído, uma figura chamava minha atenção do outro lado do refeitório. Uma jovem de cabelos curtos, bagunçados de forma estilosa, com uma expressão curiosa e um brilho divertido nos olhos. Ela segurava uma bandeja e parecia decidir onde se sentar, mas sua atenção estava claramente voltada para a nossa mesa.

— E aí, é verdade que agora essa mesa virou área VIP? — ela perguntou em um tom brincalhão, se aproximando.

Cris ergueu os olhos para ela, arqueando uma sobrancelha.

— Phoebe, eu diria que você está interrompendo uma conversa séria.

— É mesmo? — ela respondeu, inclinando-se suavemente para frente com um sorriso travesso. — Não parece. Parece mais que vocês estão tramando o próximo grande escândalo do palácio.

O guarda ruivo soltou outra risada, enquanto eu observava a interação com curiosidade.

— É só almoço. — respondi, sorrindo. — Parece que está mais animado do que eu esperava.

— É aqui que está a diversão hoje. — Phoebe colocou sua bandeja na mesa e sentou-se ao lado de Cris antes que alguém pudesse protestar. — Prazer, senhorita Petrova. Sou Phoebe, estilista e organizadora oficial das melhores pós-festas do palácio.

— Estilista? — questionei, genuinamente interessada.

— Sim, mas atualmente mais observadora do que criadora. — ela deu de ombros, pegando um pedaço de pão. — E você? O que você está achando da nossa adorável Osteland?

— Impressionante. — respondi, pegando meu garfo. — Até agora, só descobertas interessantes.

Phoebe riu.

— Isso inclui almoçar com os guardas?

— Com certeza. — brinquei. — Já estou pensando em tornar isso um hábito.

Os olhares na mesa se cruzaram, e o guarda mais jovem deu uma risadinha, murmurando algo sobre "quebrar tradições".

— A propósito, não pude deixar de notar, — Phoebe começou, olhando para mim com um sorriso perspicaz. — Os boatos sobre uma união entre a princesa Katerina e o príncipe andam mais fortes do que nunca. E agora, com você aqui...

Cris interrompeu, o tom levemente sério.

— Phoebs.

— O que foi? — ela levantou as mãos em defesa. — Só estou dizendo o que todo mundo já está pensando.

O ruivo balançou a cabeça, parecendo mais interessado na conversa do que deveria.

— A verdade é que recebemos ordens claras de não falar sobre a presença da senhorita Petrova.

— Mas isso não impede ninguém de teorizar, certo? — Phoebe retrucou, com um sorriso que era metade inocente, metade travesso.

A atmosfera ao redor da mesa ficou um pouco desconfortável, mas antes que alguém pudesse dizer algo, decidi entrar no jogo.

— Vocês teorizam que os boatos são reais? — questionei, inclinando-me um pouco para frente, curioso.

Cris me observou atentamente, sem fazer menção de responder. Como melhor amigo do príncipe, era mais do que óbvio que ele sabia a verdade. O guarda ruivo, Gary, limpou a garganta antes de responder.

— Não somos pagos para teorizar. Mas, se eu tivesse que adivinhar... — ele deu de ombros. — Parece que onde há fumaça, há fogo.

Phoebe sorriu, satisfeita.

— Exatamente. E, sinceramente, se esses boatos são verdadeiros, espero que o vestido dela seja deslumbrante. Porque, sejamos honestos, se Osteland vai aceitar uma estrangeira, ela precisa impressionar.

Eu ri, sentindo que a tensão começava a se dissipar novamente.

— Bem, Phoebe, espero que você esteja à altura do desafio.

— Eu sempre estou. — respondeu, piscando para mim antes de voltar sua atenção para o prato.

A conversa continuou em um tom leve, mas as palavras ditas ficaram comigo. Não importa o quão descontraído aquele momento parecesse, a realidade era clara: eu não estava apenas sentada entre funcionários do palácio. Eu estava no meio de uma rede de curiosidades, teorias e expectativas que só aumentariam nos próximos dias.

Conforme a refeição terminou, as conversas na mesa foram diminuindo gradualmente. Um por um, os guardas começaram a se levantar, ajustando seus uniformes com a formalidade de sempre. Phoebe também se levantou, esticando os braços como se já estivesse entediada.

— Bem, foi um almoço interessante. — comentou ela, jogando um sorriso para Cris e depois para mim. — Espero que repitam o convite.

— Convite? — Cris respondeu, com uma sobrancelha arqueada. — Acho que você não precisou de um.

Ela deu de ombros, rindo, antes de se afastar. Os guardas também se dispersaram, deixando Cris e eu ainda sentados. Merida havia ido ao banheiro e Gadreel estava terminando o que parecia ser a sobremesa mais demorada do mundo, mastigando sem pressa enquanto mantinha um olho em mim, como sempre.

— Cris, pode me acompanhar até a área de devolução das bandejas? — pedi, me levantando e pegando a minha com um sorriso inocente.

Ele arqueou uma sobrancelha, claramente desconfiado, mas não retrucou.

— Claro.

Caminhamos lado a lado até o final do refeitório, onde uma pequena fila de funcionários devolvia suas bandejas em um sistema organizado. No caminho, sentimos os olhares curiosos de várias pessoas acompanhando cada passo nosso. Cris parecia imune, mantendo sua postura descontraída.

— Você está ousada, sabia? — ele comentou, o tom casual.

— Como assim?

— Vir aqui, sentar com os guardas, teorizar com Phoebe, tudo isso. — ele respondeu, lançando-me um olhar avaliado. —É ousado. Divertido, eu diria.

— Bom saber que não te entedio.

Ele riu baixo.

— Não, senhorita Petrova, isso você não faz.

— Então talvez você não sinta tanta dificuldade em me ajudar. — sugeri, inclinando-me levemente em sua direção enquanto fingia ajustar minha bandeja.

— Suspeito. — ele respondeu, com um leve sorriso. — Isso explica o "acompanha-me até a devolução das bandejas".

— Preciso que entregue um bilhete ao príncipe Nikolaus.

Cris parou abruptamente, me olhando como se eu tivesse planejado pedir para ele roubar a coroa real.

— Você está falando sério?

— Completamente.

Ele respirou fundo, balançando a cabeça, mas não parecia prestes a me dizer um não.

— Você tem noção de que isso pode parecer suspeito, certo?

— Sim, mas é necessário. — murmurei. — Tenho certeza de que você é a pessoa mais discreta para o trabalho.

Ele ponderou por alguns segundos antes de estender a mão.

— Cadê o bilhete?

Sorri, puxando um pequeno pedaço de papel dobrado do bolso interno do meu casaco e entregando-o a ele.

— Apenas entregue. Sem perguntas.

— Você está me colocando numa posição difícil, senhorita Petrova.

— Bem, eu sou especialista nisso.

Cris riu baixo, guardando o bilhete no bolso interno do uniforme. Quando terminamos de devolver as bandejas, ele balançou a cabeça para ninguém em específico.

— O príncipe gosta de testar limites, mas você parece adorar cruzá-los. — ele comentou, refletindo. — Não sei se essa é uma combinação segura.

Antes que eu pudesse responder, ele deu meia-volta e começou a se afastar, deixando a frase ecoar no ar. Eu fiquei ali por um momento, absorvendo suas palavras, antes de voltar para onde Gadreel me aguardava.

— Tudo bem? — ele perguntou, estreitando os olhos na direção de Cris.

– Melhor impossível. — respondi, ajeitando meu casaco enquanto saíamos do refeitório.

Enquanto caminhava de volta com Gadreel, não pude evitar uma pontada de ansiedade. Cris tinha razão: cruzar limites era perigoso, mas às vezes, necessário. Olhei para os corredores frios do palácio, sentindo o peso do bilhete que agora estava fora das minhas mãos. Tudo estava começando a se mover — para melhor ou para pior.

Notas finais
E me digam, o que acham que estava escrito no bilhete? E o que acharam dessa atitude ousada da Eve?