A Assistente da Princesa
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Eu estava me deliciando com as torradas, ovos e um delicioso banquete de frutas no meu café da manhã, enquanto eu encarava o rosto feminino e sardento, em volta de cabelos cor de cobre presos em um rabo de cavalo, com olhos profundos.
A expressão azeda no rosto de Katerina, na tela do meu notebook, estava definitivamente estragando o momento.
—... e me proibiram também de ir para a festa da piscina da Vic, porque acham que vai ter muitos paparazzis e não pegaria bem para uma futura rainha ser vista de biquini. Acredita?!
Kate reclamava há uns bons minutos sobre todas as novas proibições que seus pais ordenaram. Aparentemente, meus relatórios sobre a neutralidade de Osteland, fez com que os conselheiros de Geróvia se tornassem mais esperançosos com a aliança. Então, acharam que o projeto “noiva perfeita” deveria começar intensamente. Kate precisava ter a imagem perfeita em questão de meses.
— Sabe o que é mais frustrante? — ela contínua, sem dar tempo para uma resposta. — Eles nem se preocupam se isso me deixa feliz. É sempre sobre "manter a imagem", "conquistar o apoio da corte de Osteland", "não envergonhar Geróvia".
— Bom, você é uma princesa e logo será uma rainha. — argumentei, mas ela me lançou um olhar pela tela que poderia congelar o Sol.
— Isso é fácil de dizer quando você não é uma pessoa que precisa sacrificar tudo. — não sou? — Eu mal consigo fazer algo sem que alguém esteja julgando ou analisando como isso afeta o “futuro da monarquia”!
— Você não está errada. — concordo, pegando uma uva. — Mas talvez você possa usar isso a seu favor.
Ela franziu a testa, claramente confusa.
— Como assim?
— Se você se mostrar confiante e segura, pode moldar a narrativa ao seu redor. Mostrar que uma rainha pode ser forte, moderna e ainda assim respeitar as tradições.
Kate riu, mas não havia humor no som.
— Parece algo que uma conselheira diria.
— É. — admito. — Mas funciona.
Ela suspirou, cruzando os braços.
— Sabe o que mais me irrita? — ela falou, quase uma frase sussurrada. — Ninguém perguntou o que eu quero.
Houve um breve silêncio, e eu me permiti observá-la. Katerina parecia vulnerável deixando transparecer o quanto estava sobrecarregada. Esse momento de fragilidade era raro, mas eu sabia que não poderia fazer muito para mudar a situação dela.
— E o que você quer, Kate? — questionei gentilmente.
Ela abriu a boca para responder, mas fechou de novo, desviando o olhar.
— Não importa. Eles já decidiram por mim.
Senti um aperto no peito, mas antes que eu pudesse dizer algo, o som de passos no corredor chamou minha atenção:
— Preciso ir. Nos falamos mais tarde.
Kate murmurou algo parecido com “boa sorte” antes de desligar. Fechei o notebook, olhando para a tela preta por alguns segundos.
Havia algo na maneira como ela falou que ficou ecoando em minha mente. Por mais que Katerina fosse minha princesa, ela também era minha amiga. Ou costumava ser assim. E, no fundo, eu sabia que, por mais que quisesse ajudar, também fazia parte do sistema que a prendia.
Respirei fundo e olhei para o relógio. Meu próximo compromisso começaria em pouco mais de duas horas, e o pensamento simples já fazia meu estômago revirar.
Ao longo dos últimos dois dias, minha agenda foi preenchida com reuniões breves de boas-vindas. Guardas, conselheiros, administradores do palácio, todos desejavam me avaliar tanto quanto eu os avaliava. Era uma espécie de dança diplomática onde cada palavra e gesto carregava um peso maior do que aparentava.
Hoje, no entanto, algo diferente estava programado. Eu almoçaria com algumas das damas da companhia da rainha — esposas de membros importantes da corte de Osteland. A ideia era conhecer melhor o círculo íntimo da monarquia, mas eu sabia que, no fundo, seria mais uma oportunidade para me testar.
Merida entrou no quarto com um sorriso animado, carregando uma bandeja com uma xícara de chá e um prato com biscoitos.
— O chá da manhã, senhorita Petrova.
— Chá? — questionei, arqueando uma sobrancelha. — Depois daquele café da manhã incrível, você acha que eu consigo beber mais alguma coisa?
Ela riu, colocando uma bandeja sobre a mesa.
— É apenas para ajudar a acalmar os nervos. Eu ouvi dizer que a senhora Cassilda pode ser um pouco incisiva.
Também nos últimos dois dias, Merida tem se tornado uma informante valiosa me contando que sabe e descobre. Uma espécie de parceria surgiu naturalmente entre nós duas.
— Incisiva? — repeti, mordendo um dos biscoitos. — Isso é um jeito educado de dizer que ela é insuportável?
Merida tentou esconder o sorriso, mas falhou miseravelmente.
— Eu não diria isso.
— Claro que não. — murmurei, saboreando o chá. — Bem, que comece o espetáculo.
Merida começou a ajeitar o vestido que eu usaria, um modelo azul-petróleo de corte elegante, mas simples, que transmitia seriedade sem exagero.
— E quanto a você? — perguntei, observando-a enquanto ajustava as mangas. — Como foi sua manhã?
Ela sorriu, mas continuou concentrada na tarefa.
— Normal. Nada muito empolgante.
— E o Cris? Você o viu?
Ela parou por um momento e me lançou um olhar de advertência.
— Senhorita Petrova…
— O quê? Estou apenas interessada no bem-estar do chefe da guarda pessoal do príncipe.
— Claro que está. — respondeu, secamente, mas seu tom tinha uma leveza que mostrava que ela não estava realmente irritada.
Continuamos conversando enquanto o tempo passava, até que faltando apenas 15 minutos para sair, eu me olhava no espelho admirada com o resultado.
— Como estou?
— Perfeita. — respondeu Mérida, sincera. — O motorista já está lhe aguardando no carro, o guarda vai lhe acompanhar até lá.
O carro deslizou pela rua arborizada que levava até a casa de Cassilda. As ruas de Osteland eram amplas e bem cuidadas, com mansões de pedra e vidro espalhadas por áreas tranquilas e isoladas. O inverno rigoroso do país tornava as árvores quase desfolhadas, com o chão coberto por uma camada de neve que refletia a luz suave da manhã.
A casa de Cassilda era imensa, uma construção de pedra escura, com enormes janelas de vidro que se integram à paisagem de forma moderna. Quando saí do carro, o ar frio me envolveu imediatamente, cortante, mas revigorante. A brisa gelada de Osteland fazia com que a ponta do meu vestido se agitasse levemente e eu precisasse fechar ainda mais meu casaco grosso por cima. O toque da neve sobre o solo parecia amplificar ainda mais o silêncio ao redor.
Um mordomo de aparência séria, vestido em trajes escuros e formais, se adiantou em minha direção e fez um gesto sutil com a cabeça para que eu o seguisse.
— Senhorita Petrova, bem-vinda à casa da família Mourant. — ele falou com um tom cortês carregado de algum sotaque eu não reconhecia. — Permita-me acompanhar.
O frio de fora foi rapidamente substituído pela temperatura aconchegante dentro de casa. Caminhei atrás do mordomo por alguns corredores, cujas paredes de pedra escura refletiam o brilho suave das lâmpadas de cristal. Assim que entrei na sala reservada para o almoço, fui recebida por uma onda de perfume floral misturada ao aroma de pratos sofisticados. O ambiente era, sem surpresa, um reflexo da mais alta côrte Ostelense: as paredes eram cobertas por painéis de madeira escuros com detalhes em ouro, enquanto grandes janelas adornadas com cortinas de veludo deixavam a luz natural iluminar o ambiente. Uma enorme mesa oval ocupava o centro do cômodo, decorada com arranjos de flores em tons de branco e pêssego que exalavam delicadeza e elegância.
As damas de companhia já estavam reunidas em pequenos grupos espalhados pelo salão. Suas risadas e conversas em voz baixa pairavam no ar, mas logo o silêncio tomou conta da sala quando perceberam minha entrada. Todos os olhares se voltaram para mim, e senti como se cada movimento meu estivesse sendo avaliado.
Uma mulher mais velha, de postura impecável e olhos calculistas, se aproximou com um sorriso ensaiado. Seu vestido creme com bordados em prata brilhava suavemente sob a luz, e seus cabelos loiros estavam presos em um coque perfeito.
— Senhorita Petrova, seja bem-vinda. — sua voz era tão polida quanto sua aparência. — Sou Cassilda Mourant, e é um prazer recebê-la em nosso humilde almoço.
Cassilda, a dona do convite e a mulher que Merida me avisou sobre mais cedo — incisiva.
— A honra é minha, senhora Mourant. — respondi, mantendo o tom diplomático enquanto fazia uma leve reverência. — Obrigada por me receberem.
Ela gesticulou para que eu a seguisse até a mesa, onde as outras damas já estavam se acomodando. Enquanto caminhávamos lado a lado, aproveitei para observar discretamente as outras mulheres. A maioria usava vestidos caros, mas sem ostentação excessiva, e seus acessórios eram sutis, mas cuidadosamente escolhidos. Algumas estavam sentadas, cochichando entre si ou ajustando suas roupas, enquanto outras permaneciam de pé, observando-me como se tentassem decifrar quem eu era.
Quando me sentei, Cassilda se posicionou estrategicamente ao meu lado, assumindo claramente o papel de anfitriã. Antes que eu pudesse me sentir mais à vontade, outra dama se sentou no meu outro lado. Era mais jovem, com cabelos castanhos cacheados e um sorriso genuíno que destoava da atmosfera controlada.
— Senhorita Petrova, ouvi muito sobre você. — ela disse, inclinando-se levemente em minha direção. — Sou Helena von Arling, e espero que Osteland esteja sendo acolhedora.
— Senhorita von Arling, está sendo sim, obrigada. — respondi, sentindo-me levemente aliviada com seu tom mais amigável.
Cassilda lançou um olhar discreto para Helena, mas voltou sua atenção para mim.
— Diga-me, senhorita Petrova, o que achou do nosso país até agora? — ela disse, com um sorriso que era mais avaliador do que uma gentileza.
Uma tensão no ar imediatamente tomou conta da mesa. A pergunta me pegou de surpresa, e eu me vi rapidamente analisando o que diria. Um caminho diplomático é sempre a melhor opção.
— Eu diria que Osteland tem uma grandeza impressionante, com uma atenção aos detalhes que refletem o cuidado com os hóspedes. — até demais. — É encantador como tudo aqui é planejado com tamanha sofisticação e respeito. — respondi com um sorriso, mantendo uma postura de respeito que era esperada.
Cassilda parecia satisfeita com minha resposta, mas não parecia interessada em deixar a conversa morrer ali.
— Sim, nosso país tem uma tradição de cuidados com os detalhes. Uma imagem perfeita é importante, não é? — ela falou, sua voz baixa, mas com uma clara insinuação. — E quanto a você, senhorita Petrova, será que a imagem da princesa Katerina será igualmente bem trabalhada? A expectativa sobre ela é grande.
Minha nuca se eriçou. Cassilda estava me testando.
— A princesa Katerina está bastante empenhada em cumprir as expectativas da corte. — respondi, sem desviar o olhar dela. — Mas devo dizer que não será uma tarefa árdua, a princesa Katerina é reconhecida por sua graça.
Helena, que estava ouvindo atentamente, se pôs na conversa, com um sorriso encantador.
— Eu tenho certeza de que a princesa será uma grande rainha. Katerina tem algo que atrai todos ao seu redor. — ela disse, com um tom admirador, mas sem perder a compostura.
Sorri um pouco, tentando não revelar a complexidade da situação em que Kate se encontrava.
— Sem dúvida, ela tem um grande carisma. — concordei, mantendo um tom respeitoso, mas guardando para mim o quanto a realidade era diferente.
Cassilda, aparentemente satisfeita com a conversa, fez um gesto para as criadas servirem o prato principal, e o ambiente se acalmou por um momento. Mas, enquanto a comida estava disposta à nossa frente, senti os olhares das damas ao meu redor. Cada uma delas avaliava meu comportamento, esperando ver quais pontos meus refletiam sua futura rainha. E o que elas poderiam fazer para que esse casamento não aconteça.
Não deixou de passar, nem por um segundo, pela minha cabeça que essas mulheres estão vendo a melhor oportunidade de casamento para as suas filhas caindo no colo de uma estrangeira rival. Mesmo que a estrangeira não fosse eu.
Enquanto eu me preparava para dar uma mordida na comida, Helena continuou a conversar, sua voz suave, como se estivesse tentando quebrar qualquer tensão no ar.
— Sabe, apesar de nossos países compartilharem algumas semelhanças em termos de cultura, ainda assim posso perceber uma leveza e uma graça em Geróvia que é difícil de encontrar em outros lugares. É algo que atrai, de forma sutil, mas muito poderosa. — ela comentou, inclinando-se levemente na minha direção, como se compartilhasse uma confissão. — Osteland precisa disso.
— Concordo, sem dúvida. — respondi com um sorriso, escolhendo minhas palavras com cuidado. — Acho que muito disso se deve à Rainha Amara, que sempre prezou pelos bons costumes e por dar o exemplo. Ela é, sem dúvida, uma grande inspiração para todos ao seu redor.
— Parece-me que a princesa Katerina está seguindo esse mesmo caminho. Eu a observei durante algumas comitivas e, acredite, ela parecia muito feliz em seu posto. Eu acredito que a felicidade é essencial para ser uma boa rainha, não é? Uma rainha infeliz é um reino infeliz.
Se isso é verdade, então estamos em apuros. Eu não sabia nem mensurar o quanto Kate parecia infeliz pela manhã e a realidade do que ela teria que carregar como rainha me aterrorizava.
— A princesa Katerina nasceu para fazer o que faz. E tenho certeza de que encontrará uma maneira de lidar com todas as expectativas que o reino impõe sobre ela.
Helena pareceu satisfeita com minha resposta, e, como se para testar mais uma vez, Cassilda entrou na conversa:
— Vejo que você tem uma boa visão de como as coisas funcionam por aqui. Com o tempo, Osteland vai se revelar para você de uma forma mais interessante. É sempre bom ter alguém que entenda o papel de cada um. A corte pode ser um lugar traiçoeiro para quem não sabe onde pisar.
Isso era mais do que uma simples observação. Era uma advertência disfarçada de cortesia, e eu a ouvi com atenção. A corte de Osteland, assim como qualquer corte real, tinha seus próprios segredos, e eu começava a entender que ser a assistente de Katerina não era apenas sobre proteger a princesa — era também sobre aprender a jogar o mesmo jogo perigoso.
À medida que a conversa continuava, eu sentia os olhos das damas da corte sobre mim, avaliando cada palavra, cada gesto. Talvez fosse uma estratégia, talvez fosse apenas uma questão de sobrevivência. Mas duas coisas estavam claras: Katerina não encontrará um ambiente fácil e eu não estava mais apenas lá para observar.
E, talvez a pior parte das certezas, eu precisava garantir a confiança e ter como aliado a outra pessoa que mais importa nesse jogo: o noivo. Eu precisava me resolver com o príncipe.
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