A Assistente da Princesa
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Eu não sei exatamente o que me chateou.
Talvez a sensação de ser enganada. Ou a raiva que me corroía quando eu lembrava como fui insolente com o futuro rei de Osteland. Ou talvez pelo pior de tudo: ter me sentido atraída por ele, o futuro noivo de Kate.
Tudo bem que foi por apenas um dia. E ainda bem que foi só isso, imagina ter dado em cima dele? Eu deveria ter entendido aquela máscara como um alerta vermelho ao invés de achar sexy.
É humilhante como me sinto burra por não ter reconhecido ele nas duas ocasiões em que nos encontramos. Eu já havia visto Nikolaus antes, várias vezes em eventos da realeza, mesmo que ele nunca ficasse no mesmo ambiente que nós. Eu também o via por foto — até mais do que eu gostaria nos últimos meses, pesquisando sua vida. Mas eu nunca esperaria que um príncipe se vestiria de guarda, usaria uma máscara e me recepcionaria aqui. Muito menos que iria até meus aposentos. Por que ele foi, não foi? Não havia outros quartos ocupados perto do meu, não havia outro motivo para ele estar ali.
Eu estava perdida nos meus próprios pensamentos quando, sem perceber, meus pés me levaram para longe do meu quarto. Não sabia exatamente onde estava indo, só sabia que eu precisava andar, precisando fugir da minha própria cabeça. O som dos meus passos no corredor parecia ecoar em uma solidão estranha, até que percebi que havia entrado em uma ala movimentação do palácio.
As paredes agora tinham um tom marrom suave, com alguns quadros artísticos, enormes cortinas abertas iluminavam as várias e várias portas lado a lado. Funcionários passavam apressados, alguns parando para me olhar com curiosidade, outros lançavam olhares mais frios, desconfiados.
Eles conversavam baixo, lançando-me olhares cautelosos. Um deles, uma mulher de meia-idade com expressão severa, estreitou os olhos ao me ver.
— Perdida, senhora? — a voz era cortante, cheia de desprezo.
Tentei manter calma, não queria demonstrar o quanto me afetava.
— Não estou perdida, obrigada.
Um murmúrio passou entre eles, e eu sabia que estavam comentando minha presença ali.
Mas o som cortante de botas se aproximando chamou minha atenção. Um guarda alto e de feições marcantes — cabelos escuros presos em um rabo de cavalo e olhos verdes intensos— apareceu no corredor perto de nós. Ele vestia o uniforme azul marinho com medalhas que o identificava como guarda.
— Posso ajudar, minha senhora? — ele disse, lançando um olhar a outros funcionários, que rapidamente desviaram e voltaram ao trabalho.
Não hesitei, sentindo o peso dos olhares desconfortáveis nas minhas costas. Respirei fundo e assenti, um pouco aliviada por não precisar lidar com o clima hostil sozinha.
— Se me acompanhar, posso levá-la de volta aos seus aposentos. — disse ele, com um tom firme, mas não impositivo.
— Obrigada, eu aceito.
Enquanto caminhávamos, um silêncio confortável pairava no ar. Ele não falava e não parecia esperar que eu falasse algo também, nem mesmo para explicar o que estava fazendo sozinha na ala oposta do meu quarto.
Depois de alguns momentos, decidi quebrar o silêncio. O clima entre nós parecia carregado de um respeito mútuo, mas eu queria saber mais.
— Posso saber seu nome? — perguntei, buscando um ponto de partida para uma conversa amistosa.
— Cristopher Larson, senhora. — respondeu, formalmente.
— Soldado Larson, obrigada por me ajudar, foi muito gentil. — comecei. — Não tenho certeza se aquelas outras pessoas seriam.
— Peço desculpas pelo comportamento dos meus colegas. — ele disse, a voz transmitida de um tom que quase soava como um pedido de desculpas por eles. — Nosso povo ainda está se adaptando à ideia de não vermos os gerovianos como inimigos.
Eu dei de ombros, tentando não deixar que a tensão anterior me afetasse tanto.
— Não posso culpá-los. Eu sou uma estrangeira no território deles. — falei, mas o desconforto ainda estava evidente no tom da minha voz.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, ponderando, antes que acrescentasse:
— Sou chefe da guarda pessoal do príncipe Nikolaus.
Um arrepio indefinido passou por mim. Nikolaus novamente. Claro, eu não poderia escapar dele tão facilmente. Afinal, minha missão estava diretamente ligada a ele.
Uma onda de desconforto passou por mim, e eu precisei de um momento para processar.
— Você não pareceu muito feliz com essa informação. — ele observou.
— Estou apenas me perguntando se você está falando a verdade ou se é um príncipe disfarçado de guarda. — comentei, tentando tirar um pouco do peso da situação com humor solicitado. — Seu príncipe faz muito isso, sabia?
Eu não sei se esperava que ele ficasse supreso, mas aparentemente não era uma novidade. Larson apenas balançou os ombros levemente:
— Você soube, então?
— Digamos que descobri da maneira menos convencional possível. — retruquei.
— O príncipe gosta de testar limites. — ele falou, a voz neutra. —Poucos conseguem identificar o verdadeiro Nikolaus quando ele decide se misturar.
— E você concorda com o método?
Cristopher riu, um som baixo que pareceu aliviar um pouco a tensão no ar, notando minha desaprovação na voz.
— É menos esquisito do que parece. Sua Alteza valoriza entender quem o cerca. Para ele, conhecer as pessoas não é apenas estratégia, é um hábito. — ele fez uma pausa antes de continuar, quase como se estivesse testando minha reação: — O que é raro em um príncipe.
Tentei disfarçar o desconforto que sentia quando essa nova personalidade sobre o príncipe aparecia. Ele era considerado ali, não apenas uma figura de poder, ele era realmente apreciado. Passei semanas planejando como lidar com um príncipe arrogante e mimado, agora desse príncipe eu não sei o que esperar. E isso me incomoda.
— Interessante. — murmurei, olhando para frente. — Suponho que ele seja bom nisso. Enganar pessoas.
Cristopher parou por um instante, como se ponderasse a resposta.
— Enganar não é exatamente o termo que eu usaria. — ele disse. — Diria que ele prefere observar antes de ser observado.
Aquilo me pegou de surpresa. A resposta dele parecia menos como uma defesa e mais como um fato, algo que ele parecia compreender profundamente.
— Então você o conhece bem. — comentei, casual.
Ele olhou para mim, e seu sorriso voltou, dessa vez mais contido, mas ainda presente.
— Melhor do que a maioria. — ele admitiu. — Klaus não confia facilmente. É uma qualidade e um fardo.
Klaus. O quão próximos eles eram?
O silêncio voltou a nos envolver por alguns momentos, mas, dessa vez, foi carregado de novas perguntas que se formaram em minha mente. Queria entender mais sobre Nikolaus, mas algo no Cristopher me disse que eu deveria medir minhas palavras com cuidado.
Finalmente, chegamos à porta dos meus aposentos. Larson parou e fez uma leve reverência.
— Espero que encontre seu caminho com mais facilidade daqui em diante, senhorita Petrova.
— Obrigada, Cristopher. — respondi, com sinceridade. — E foi bom conhecê-lo. Você parece ser alguém em quem Nikolaus pode confiar.
Ele levantou uma sobrancelha, mas não respondeu imediatamente. Então, com um último olhar que parecia avaliar algo em mim, disse:
— E espero que ele também possa confiar em você.
Antes que eu pudesse responder, ele se virou pelo corredor e desapareceu da minha vista, enquanto eu fiquei parada ali, com mais perguntas do que respostas.
Assim que entrei no quarto, encontrei Merida nervosa, andando de um lado para o outro. Ao me ver, ela arregalou os olhos e deu um salto.
— Senhorita Petrova! Eu estava prestes a chamar alguém para procurá-la! — exclamou, visivelmente agitada
— Está tudo bem, Merida. Só dei uma volta — respondi, tentando soar tranquila.
— Mas você não pode simplesmente sair assim! E se alguém… — ela interrompeu a frase, corando, antes de continuar, em um tom mais baixo: — E se o príncipe ficar sabendo?
Não pude evitar um sorriso irônico. Se ela soubesse.
—Se o príncipe ficar sabendo, ele provavelmente só vai adicionar isso à lista de motivos para cortar a cabeça de um geroviano. — falei, enquanto me jogava no sofá, cruzando as pernas e observando-a com um sorriso divertido
— Ah, que horror! Não diga isso. — ela respondeu horrorizada, mas com um leve sorriso no canto da boca. — Definitivamente seria a rainha que cortaria e não o príncipe.
Eu ri com gosto. Ela já devia imaginar que o chá com a rainha pode não ter sido fácil.
Uma luz de ideia acendeu na minha mente. E se Merida conhecer o Larson e puder me falar mais sobre ele e o príncipe? Talvez não seja arriscado confiar um pouco.
— Conheci um guarda novo, ele que me trouxe até aqui. — comentei casualmente. Ela respondeu apenas um “Hum?” antes que eu continuasse: — A coincidência é que ele era justamente o chefe da guarda pessoal do príncipe, acredita?
Merida, que até então já parecia calma, arregalou os olhos e pareceu engasgar-se com absolutamente nada. O efeito foi instantâneo. O rosto dela ficou vermelho em questão de segundos, e ela começou a mexer nas mãos, evitando meu olhar.
— Cris? — a voz dela saiu mais baixa que o normal, quase um sussurro.
— Você o conhece? — perguntei mais por praxe, era óbvio que conhecia.
— Não! Quer dizer, sim, mas... — ela suspirou, frustrada consigo mesma. Arqueei a sobrancelha, as engrenagens da minha cabeça funcionando à todo vapor.
— Ah, Merida, não me diga que você tem uma quedinha pelo chefe da guarda do príncipe! — provoquei, levantando para puxá-la pelo braço e trazê-la para o sofá ao meu lado. — “Cris”? Já são íntimos assim, ein?
Ela resistiu levemente, mas acabou cedendo, sentando-se ao meu lado com o rosto coberto pelas mãos.
— Talvez. — murmurou, sua voz abafada pelas palmas.
Eu ri, sentindo uma emoção sincera pela primeira vez em horas.
— Isso é maravilhoso, é muito fofo. Me conta, vocês tem algo?
Ela tirou as mãos do rosto, os olhos brilhando com uma mistura de embaraço e diversão.
— Não, ele nunca me notou. Quer dizer, eu entendo, sabe? Você viu como ele é, ele trabalha diretamente com o príncipe. E eu sou só...
— Uma jovem talentosa e bonita. — completei, interrompendo ela. — Você não está se dando o devido crédito.
Ela riu, um pouco mais relaxada, mas ainda cordada.
— Você acha mesmo?
— Absolutamente. — afirmei, segurando suas mãos. — E olha, se precisar de ajuda, eu posso ser seu cúmplice nessa história. Quem sabe eu não posso sondar o que ele pensa sobre você?
Os olhos dela se arregalaram novamente, mas dessa vez com uma mistura de pânico e esperança.
— Não! E se ele desconfiar? Eu morreria de vergonha toda vez que visse ele nos corredores.
— Deixa comigo, me chama de madrinha ou algo assim. — dei uma piscadela. — Me conta mais sobre ele.
Ela, com os olhos brilhando, começou a contar sobre como Cristopher foi o guarda mais jovem a se tornar chefe de um setor e a trabalhar com o príncipe. Aparentemente, Larson é mais próximo ainda do que eu imaginava. Os dois cresceram juntos, com Cristopher sendo filho do antigo mordomo do rei Axel, e viraram melhores amigos.
Essa informação talvez tenha me chocado mais que qualquer outra coisa. O príncipe ter um guarda como melhor amigo.
O mais próximo que o príncipe William, herdeiro de Geróvia e irmão de Katerina, ficava de um guarda, era na hora de ser protegido. Fora isso, somente os filhos de lordes e duques seriam chamados de amigos.
Mas William não é bom exemplo de nada. Vai por mim.
— Ele deve conhecer o príncipe muito bem, sendo melhor amigo dele. — falei, como quem não quer nada.
— Deve ser quem mais o conhece. — ela concordou e logo pareceu pensar, me olhando desconfiada. — Mas por que quer saber quem conhece sobre as coisas pessoais do príncipe? Não vai usar o Cris para descobrir algo, não é?
— Não é que eu queira saber as intimidades do príncipe. — comecei, sem querer me complicar. — Eu sou a assessora da princesa e é minha função conhecer antecipadamente todos ao redor dela. Ele logo será uma dessas pessoas.
Merida pareceu ponderar por alguns segundos, antes de responder:
— O príncipe é o melhor parceiro que ela poderia ter, isso eu lhe garanto. — ela afirmou com convicção. — Mas e sua princesa? Ela é boa também?
— Sem dúvidas.
Afirmei também, mas com um pouco menos de convicção.
Eu só precisava manter a distância adequada. Se Katerina não gostou quando soube que estive com William, imagina se soubesse que cheguei perto do seu futuro marido.
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