A Assistente da Princesa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O salão de entrada do palácio era duas vezes maior que o nosso em Geróvia. Arcos ornamentados separavam o hall de corredores que seguiam para a direita e esquerda. E, bem no fundo da sala, uma enorme escada levava até o próximo andar. Parada no último degrau, me observando, estava uma figura feminina.
Era uma mulher de porte imponente, usando um tailleur cinza escuro impecavelmente alinhado, que contrastava com o branco das paredes ao redor. O cabelo ruivo, preso em um coque severo, deixava visível cada linha de seu rosto, expressando uma austeridade que eu reconheci na mesma hora, igual a minha mãe quando eu aprontava algo.
— Senhorita Petrova. — sua voz era quase como uma reprovação ao pronunciar meu título. — Sou Ágatha, governanta do palácio. Sou responsável por manter a ordem e garantir que todos os membros da equipe cumpram com suas obrigações.
— Encantada, Ágatha. — respondi, mantendo o tom, observando-a com um leve arqueamento de sobrancelha.
— Designarei um serviço pessoal para atender às suas necessidades e orientá-la sobre a organização e os protocolos do palácio. Acredito que ajudará a manter a harmonia, considerando sua estadia prolongada.
Que escolha interessante de palavra. Harmonia. Foi a mesma palavra usada pelos nossos reis quando tomaram a decisão de unir nossos reinos rivais. Aparentemente os Ostelandeses também não estavam muito felizes com isso. Mantive o olhar fixo nela.
— Ah, um serviço pessoal? Que honra.
Minha voz carregava uma doçura tão falsa quanto o sorriso que ofereci. Internamente, eu já começava a calcular o quanto essa 'gentileza' implicaria em olhos extras sobre cada passo meu.
— Espero que você entenda, minha senhora, que minha função aqui é garantir que nada perturbe o funcionamento impecável do palácio. Conto com sua colaboração. — ela me olhava como se eu já precisasse de alguma correção. Sorri, cruzando os braços suavemente.
— Pode contar, Ágatha. Garanto que minha presença será tão discreta quanto o esperado.
Ela me lançou um último olhar avaliado antes de fazer um leve aceno com a cabeça.
— Um serviço estará em sua porta em breve. Boa estadia.
Com um giro perfeitamente calculado, desviou para o corredor à esquerda, deixando-me novamente com os guardas e somente com um bilhete de boas-vindas e a certeza de que, dali em diante, cada palavra e gesto ser julgado sob os olhos atentos do palácio.
Meu quarto era lindo, talvez um pouco menor do que o que eu possuía em Geróvia, mas a cama era uma loucura de tão grande, caberia talvez quatro ou cinco adultos. De resto, era “simples” com cores neutras, uma mesa com quatro cadeiras para refeições no quarto, um sofá em frente à uma grande TV e, o mais diferente, um piano no canto do quarto. Além disso, o que mais chamava atenção era um grande closet na parede.
A escolha das roupas no armário, todas no meu tamanho, não foi coincidência. Estavam me observando muito antes de eu sequer pisar aqui. Essa atenção ao detalhe era tão impressionante quanto inquietante.
Uma batida na porta interrompeu minha inspeção no quarto.
— Entre.
Ordenei e uma jovem loira entrou timidamente. Ela não parecia ser mais velha do que eu, talvez tenha entrado na casa dos vinte anos bem recente. Ela usava um vestido de saia reta azul marinho, com gola alta, por baixo de um avental branco envolto na cintura.
— Seja bem-vinda, Srta. Petrova. Me chamo Merida Senger, sou a camareira responsável por auxiliar na sua estadia. — ela gaguejou um pouco antes de se curvar.
— Por que a escolheram? Fez algo para irritar sua chefe? — minha voz a fez saltar um pouco. Ótimo, me mandaram uma garota assustada.
— A família da minha mãe é de Geróvia, fui criada em seu país até os quatro anos. — seu país, uma indicativa bem clara de que ela não se considerava geroviana.
— Foi por isso que te designaram para mim?
— Sim, bem, eles acharam que seria bom alguém que entendesse seus costumes.
Como se uma menina de quatro anos tivesse absorvido o suficiente de costumes para que tenhamos identificação. Meio patético, mas fico comovida pela tentativa. Além de que, Geróvia nasceu de Osteland quando, na neocolonização — há 134 anos—, os reis de Osteland ordenaram a ocupação de Geróvia. Então não temos tantas diferenças culturais, o país nem existe a tempo suficiente para isso.
Mas se ela quer criar uma ligação, eu posso me aproveitar disso.
— Ótimo. Comece me explicando tudo o que não posso saber somente pesquisando. — falei enquanto me sentava na cama para ficar de frente a ela, que franziu a testa.
— Como assim?
— Quero saber o que só quem vive aqui conhece, o que não está nos documentos de protocolo. Alguma coisa que você deve saber, certo?
Dei um meio sorriso, cruzando os braços enquanto ela mordeu os lábios, hesitante, pensando no que eu estava pedindo.
— Bem… uma coisa que talvez seja importante para saber é que uma família real valoriza bastante as refeições em conjunto. Eles costumam fazer todas as refeições principais juntos, mesmo quando têm compromissos. Dizem que é algo essencial para o laço familiar e a rainha, em especial, gosta muito de organizar chás da tarde. Ela costuma convidar senhoras e nobres de Osteland e aprecia que as visitas saibam se comportar com refinamento.
— Minha princesa está acostumada com esses eventos, mas talvez seja útil verificar se nossas etiquetas são as mesmas.
Não que eu já não tenha passado meses pesquisando cada detalhe sobre esse país até o ponto de não aguentar mais. Merida concordou.
— Sim, seria bom. Esses chás são formais, mas também muito intimistas. A rainha gosta de conhecer as pessoas de verdade, então, às vezes, ela faz perguntas inesperadas.
— E quanto ao seu príncipe? — a curiosidade que eu realmente tinha. Ela franziu a testa. — Não há muito sobre ele nos tabloides além dele em conferências, reuniões ou eventos da família Real.
Ela hesitou, seus dedos brincando nervosamente com a barra do uniforme. Seus olhos desviaram para a janela, como se buscasse as palavras certas.
— O príncipe… ele não é muito de se abrir com todos, sabe? — disse, num tom quase afetuoso. — Ele é reservado, sim, mas ele tem um jeito muito gentil. Sempre pergunta pelo nome dos funcionários, se está bem, e está sempre perto dos guardas, e do Sr. Hans, seu mordomo. — seus olhos brilhavam um pouco mais ao falar, era um respeito genuíno. — Acho que isso faz ele ser... diferente.
— Diferente, como? — questionei, inclinando a cabeça com interesse. Merida deu um sorriso tímido, como se estivesse falando um segredo.
— É que não parece que ele faz por obrigação. — ela murmurou, o sorriso ampliando, quase sonhador. — Uma vez, quando eu ainda estava me adaptando aqui, correndo para lá e para cá com balde e produtos, me perdi tentando encontrar um dos quartos para limpar. Acabei tropeçando em uns degraus e, bom, não foi nada bonito. Ralei os joelhos e os braços e fiquei morrendo de vergonha, achando que iam me mandar embora. Mas o príncipe viu a cena. Ele me levou até a enfermaria e ficou lá até ter certeza de que eu estava bem, até mesmo providenciou que eu fosse levada ao meu quarto para descansar. Mais tarde, descobri que ele próprio me deu alguns dias de folga para me recuperar. Eu era apenas uma funcionária novata, poderia ter sido demitida sem causar muitos danos, mas ele se importava.
Fiquei em silêncio enquanto Merida terminava a história com aquele brilho sincero; tentei não deixar transparecer minha surpresa. Desde que me lembro, Nikolaus era um príncipe arrogante e mimado, que até se negava a ficar na mesma sala que a corte geroviana. No aniversário da princesa da Irlanda, Ciara, ele flertou com ela e a convenceu de deixar Katerina de fora. Kate chorou por horas depois de ser a única que não estava no pós-aniversário.
A história de Merida parecia de um personagem completamente diferente, um príncipe de conto de fadas talvez. O Nikolaus que Katerina desprezava não era gentil, muito menos prestativo. Então quem era esse príncipe que socorria camareiras e lembrava nomes de funcionários?
Uma outra curiosidade cruzou minha mente.
— E quanto ao guarda mascarado? Ele é da guarda pessoal do Príncipe?
—Mascarado? — perguntou, claramente confusa.
— Sim, olhos azuis, alto, estava comigo no carro quando cheguei. — expliquei, inclinando a cabeça enquanto tentava captar qualquer faísca de reconhecimento no rosto dela.
— Hm... olhos azuis? — Merida repetiu, pensativa, antes de balançar a cabeça. — Não me lembro de nenhum guarda pessoal do príncipe com essas características. Eles normalmente são bem discretos, nada tão marcante assim.
— Não parecia tão discreto. — murmurei, cruzando os braços. — Ele foi bastante direto, quase debochado.
Merida arregalou os olhos levemente, surpresa.
— Conversou com você?
— Algumas poucas palavras. — respondi, tentando não parecer tão impactada quanto realmente estava pela interação. — Pelo que entendi, ele parecia bem confortável em falar sem se preocupar com regras ou protocolos.
— Isso é estranho. — Merida disse, apertando os lábios em uma linha fina. — A maioria dos guardas aqui são rígidos. Não conversam com ninguém além do necessário, especialmente quando é um convidado. Se ele fez isso, — ela hesitou, como se avaliasse o que diria a seguir. — só poderia ser alguém muito próximo ao príncipe. Talvez um dos guardas pessoais.
— Mas você não sabe quem pode ser? — pressionei, mantendo o tom leve.
— Não consigo lembrar de ninguém assim. — Merida balançou a cabeça novamente, genuinamente perplexa. — Todos os guardas pessoais do príncipe têm características bem conhecidas, mas nenhum deles anda mascarado. Pelo menos não que eu tenha visto.
Minha mente começou a trabalhar, tentando montar peças de um quebra-cabeça que pareciam cada vez mais intrigantes.
— Talvez seja alguém novo? — arrisquei, sem deixar transparecer a verdadeira curiosidade.
—Talvez. — Merida deu de ombros, mas o tom de dúvida ainda pairava em sua voz. — Mas se ele estava com você e foi assim tão solto, deve ser alguém confiável. O príncipe não permitiria qualquer pessoa assim em sua guarda.
Confiante? Sim, isso ele parecia ser, até mesmo arrogante. Mas quem era ele de verdade?
Merida terminou de organizar algumas coisas no quarto e me lançou um sorriso antes de sair.
— Se descubrir mais sobre ele, me conte. Parece uma história interessante.
Quando a porta se fechou, o silêncio do quarto trouxe de volta a pergunta que não queria calar: quem era realmente aquele homem mascarado? E, se ele estava ligado ao príncipe, isso faz com que meus movimentos por aqui acabassem de ganhar um peso ainda mais interessante.
Eu só esperava que, nesse jogo, restasse espaço para um pouco de diversão. E que isso envolvesse um certo par de olhos azuis.
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