Contei pelo menos uns minutos, depois que Merida saiu do quarto, para abrir a porta e sair também. Ou pelo menos tentar sair, pois a figura alta de um guarda bloqueou meu caminho. Ele se virou, erguendo uma sobrancelha.

— Precisa de algo, Srta. Evelina?

— Não, obrigada, — procurei rapidamente seu nome no crachá. — soldado Arren. — completei. Seus olhos castanhos me avaliavam, percebi que precisava falar mais. — Só pretendo andar um pouco, dar uma volta pelo palácio.

— Precisa de autorização para qualquer lugar que desejar, senhorita. Sua presença será exigida quando for preciso.

Eu engoli em seco, sentindo o peso daquela frase. A palavra "requisitada" parecia cuidadosamente escolhida, como se estivesse mascarando uma ordem militar com falsa cortesia. Era óbvio que meu movimento estava sendo controlado.

Requisitada, não convidada.

Mas desse jeito não vou conseguir concluir minhas investigações, fazer contatos, nada. Eu precisava dar um jeito nisso e bem rápido. As engrenagens da minha cabeça giravam sem parar tentando pensar em alguma desculpa, mas antes que eu precisasse concluir, uma voz familiar soou:

— Eu a acompanho.

Não era quem eu esperava, mas lá estava ele novamente — o guarda mascarado, novamente com apenas os olhos de fora. Agora em pé, há alguns metros de distância, e usando trajes de treino: uma camisa preta justa sem mangas e com uma calça moletom cinza. Simples, mas o suficiente para deixar a mostra um porte atlético muito, muito, atraente.

Ele e o guarda da porta trocaram olhares, e o segundo deu um leve aceno, quase reverente, antes de dar um passo para o lado e me deixar passar.

Andei em silêncio até ficar lado a lado com o guarda misterioso e assim ficamos por alguns metros, até que não resisti:

— Você também está habituado a vigiar prisioneiras ou faz parte da experiência ostelandense de hospitalidade?

Deveria ser um agradecimento, mas, por algum motivo, provocá-lo pareceria mais interessante. Um riso escapou dele, baixo e rouco.

— Apenas quem se recusa a seguir as instruções. — ele respondeu, e mesmo com a máscara, havia algo na forma como ele inclinou levemente a cabeça, como se me desafiasse a continuar.

— E quais seriam estas instruções? Devo precisar de uma cópia, já que não recebi antes de vir.

Ele parou por um momento, observando-me com olhos intensos.

— Elas estão em cada canto deste lugar. — ele gesticulou levemente, descendo os corredores ao nosso redor. — Apenas observe.

Os corredores do palácio estavam realmente impregnados de regras não ditas. As pinturas e esculturas me analisaram tanto quanto eu as observei, como se julgassem minha presença ali. A sensação de confinamento era quase sufocante.

— Palácio ou prisão? Ainda não decidi. — murmurei enquanto ele me guiava até uma varanda. O frio do lado de fora parecia menos opressor do que a atmosfera pesada lá dentro.

— Talvez ambos. — ele respondeu, quase casualmente, enquanto se encostava ao nível do mármore da varanda.

Por um instante, sua resposta me pegou desprevenida.

— Palavras ousadas para alguém que deveria ser leal ao seu rei.

Ele me lançou um olhar que parecia enviar mais do que as palavras poderiam dizer.

— A lealdade é uma coisa engraçada, senhorita Petrova. Ela não significa silêncio.

Essa frase ficou no ar, como uma trilha deixada para que eu seguisse.

— Então me diga, guarda mascarado, qual a sua definição de lealdade? — instiguei, cruzando os braços enquanto o encarava.

Ele pareceu ponderar minha pergunta, como se estivesse decidindo até onde poderia ir.

— Protege aquilo que é importante.

— E o que é importante para você? — perguntei antes que pudesse me conter.

— Isso, senhorita Petrova, depende de quem está perguntando.

Eu revirei os olhos. Ele era impossível.

— Está bem claro que gosta de me deixar no escuro. Talvez seja parte do seu charme.

Ele riu novamente, um som baixo e melodioso que parecia quente o ar frio ao nosso redor.

— Se por charme, não devo estar falhando miseravelmente. Você ainda está aqui.

— Talvez eu seja mais paciente do que pareço.

— Ou mais curiosa. — ele rebateu, inclinando-se progressivamente para a frente, e por um instante fiquei ciente de quão perto estávamos.

A varanda não permitia muito espaço, e os olhos dele, aquele azul quase hipnotizante, buscavam algo nos meus. Esfreguei os braços com o frio, mas sabia que não era só o vento que me fazia arrepiar.

Era desconcertante ser observada assim. Desconcertante e bom.

— Então, guarda mascarado, já que adora responder perguntas com enigmas, me diga: por que usar essa máscara aqui dentro? — questionei, inclinando a cabeça.

— Talvez seja para evitar perguntas demais.

— Ótima estratégia. Está funcionando perfeitamente.

Ele sorriu sob a máscara. Ou pelo menos era isso que o leve fechar de olhos indicava.

— Parece que nem tanto.

— Não ajuda muito que você seja tão evasivo. — cruzei os braços. — Mas, já que está me evitando contar sobre você, por que não me fala sobre o príncipe?

— O príncipe gosta de observar antes de decidir. É uma abordagem prática.

— Conveniente. — rebati, arqueando uma sobrancelha. — E o que ele faz quando decide?

— Depende de quem ou do quê ele está lidando.

Havia algo na forma como ele disse isso que me deixou inquieta, mas disfarcei.

— Parece que nada neste lugar é capaz de ter uma resposta direta. Deve ser uma política de Osteland.

Ele riu, baixinho, e, dessa vez, parecia se divertir genuinamente.

— Não é tão diferente em Geróvia, imagino.

—Talvez. — murmurei, mantendo o tom leve, mas calculando. — Mas se a hospitalidade aqui é o padrão, imagino que o príncipe esteja bem orgulhoso.

— O que acha que ele deveria fazer, senhorita Petrova? Oferecer um banquete para alguém de um reino rival?

Seu tom era casual, mas havia um peso escondido por trás das palavras.

— Melhor que uma escolta armada e olhos em cada movimento.

— Admito que a recepção pode ser um pouco... rígida. — ele respondeu, com um leve sorriso nos olhos.

— "Rígida"? Eu chamaria de algo mais próximo de paranoia.

— E você, senhorita? — ele rebateu, inclinando-se levemente. — Como chama hospitalidade em Geróvia?

— Algo que não envolve máscaras.

Por reflexo, ele tocou na balaclava, mas logo deixou de lado o gesto.

— Talvez eu apenas goste de manter algumas coisas para mim.

Eu ri, cruzando os braços novamente.

— Parece que isso é algo que Osteland faz bem. Ao menos pode me dizer seu nome? Você não usa crachá.

O silêncio que se instaurou foi breve, mas carregado. Ele se endireitou, agora mais próximo, e inclinou a cabeça como se quisesse que eu observasse melhor.

— Cautela demais geralmente esconde algo. — soltei, quase sem perceber.

— E curiosidade demais geralmente descobre.

A resposta foi rápida, mas não ameaçadora. Era mais como um aviso velado.

Antes que eu pudesse responder, ele deu um leve aceno de cabeça, virando-se em direção aos corredores do palácio.

— E quanto ao passeio? — chamei, arqueando uma sobrancelha.

Ele olhou por cima do ombro, os olhos brilhando com algo que não consegui decifrar.

— Continue explorando, senhorita Petrova. Mas cuidado com o que procura.

Com isso, ele desapareceu pelos corredores, deixando-me sozinha na varanda. A brisa fria parecia mais cortante agora, mas não tinha certeza se era por causa do vento ou pela presença que ele havia deixado para trás.

Meu estômago roncou, quebrando o fluxo de pensamentos que o guarda havia deixado na minha mente, e decidi que voltar para o quarto era a melhor escolha. Os corredores agora estavam mais longos, cada sombra mais pesada. Era como se o ar frio lá fora tivesse me seguido até ali.

Quando entrei no quarto, Merida estava andando de um lado para o outro, a expressão tensa, mas assim que me viu, arregalou os olhos como se eu tivesse cometido um crime.

— Onde a senhorita estava? Não tinha permissão para sair.

— É, bem, você não me avisou sobre isso. — ralhei, fingindo um tom leve, mas ainda sentindo o peso daquela conversa na varanda.

Ela se encolheu um pouco, parecendo genuinamente culpada.

— Não achei que a senhorita iria querer sair assim que chegou. Pensei em avisar após o jantar.

A palavra "jantar" chamou minha atenção como um problema inesperado. Uma enorme porção de sopa de cenoura e cordeiro fumegava na mesa, acompanhada de pães dourados e uma bela fatia de bolo de frutas vermelhas. Por um momento, o cheiro aconchegante levou o frio que ainda se agarrava aos meus braços.

Forcei-me a tomar um banho rápido antes de me sentar à mesa. Cada colherada da sopa parecia descongelar uma parte de mim, mas minha mente ainda voltava, insistentemente, à conversa com o guarda mascarado.

Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos.

Merida, que havia começado a arrumar a cama, foi atender. Quando voltou, tinha os olhos arregalados, segurando um envelope branco com meu nome escrito em letras prateadas.

— É da rainha! — ela sussurrou, como se dizer isso em voz alta fosse proibido.

Senti um frio passar pela minha barriga, muito diferente daquele da varanda. Minha mão hesitou em pegar o envelope. Era apenas um pedaço de papel, mas parecia pesar como um bloco de gelo.

Abri-o com cuidado, tentando manter o rosto neutro enquanto meus dedos me traíam, mostrando meu nervosismo. A caligrafia era impecável, quase intimidadora:

"Solicito a presença de Evelina Petrova de Burgie para o chá da tarde às 16:00. Compareça à sala de recepção pessoal da rainha."

Por um instante, o mundo ao meu redor pareceu se aquecer. Eu já sabia que este momento chegaria, mas nada havia me preparado para o peso que aquelas palavras carregavam.

— O chá da tarde com a rainha… — Merida murmurou, ainda segurando a borda do avental, perplexa. — E você chegou hoje. Isso é uma grande honra!

Engoli em seco, tentando dissipar a ansiedade que subia em ondas pelo meu peito.

— Ou um grande teste. — murmurei, mais para mim do que para ela.

Notas finais
Corrigi alguns erros de escrita, mas se tiver mais, me avisem por favor