Notas iniciais
Um capítulo um pouco mais longo, mas espero que vocês gostem :)

O sol mal havia nascido, mas eu já estava acordada, com o coração batendo mais rápido do que o normal. A sala estava silenciosa, os raios de luz espreitavam pela janela… e a carta da rainha, em cima da mesa, parecia me observar como um lembrete constante do que estava por vir.

Respirei fundo, tentando ignorar a sensação incômoda de ansiedade, e me forcei a focar no trabalho. Mesmo há mais de mil quilômetros de Geróvia, eu ainda era responsável pela princesa Katerina, e, a essa altura, ela já deveria estar na sua terceira mensagem do dia.

Antes que eu pudesse terminar de redigir uma atualização para Irina, a assessora do meu rei, o som do meu celular tocando interrompeu o silêncio. Não precisei olhar para saber quem era.

— Finalmente decidiu atender, Eve? — A voz da princesa soava tão afiada quanto um estilete.

— Bom dia para você também, princesa. — respondi, ajustando o tom para soar neutra.

— Ah, me poupe das formalidades. Você sabe por que estou ligando.

Inclinei-me para trás na cadeira, massageando a têmpora com a mão livre.

—Imagino que seja por causa dos tablóides.

— Exatamente! — O tom dela elevou-se levemente. — Você viu? Estão dizendo que minha "união iminente" com o príncipe Nikolaus é decisiva. Como se eu fosse algum prêmio a ser entregue!

— Não é exatamente uma surpresa, Katerina. — murmurei, mantendo a voz calma. — Desde o anúncio da aliança, era óbvio que eles começariam a especular.

— Isso não torna menos irritante. — ela suspirou, o som tão carregado de frustração que quase pude visualizá-la revirando os olhos. — E você? Como estão as coisas aí?

Hesitei por um instante, escolhendo cuidadosamente as palavras.

— Tudo tranquilo. Segurança impecável, recepção organizada. Estou trabalhando nos detalhes para sua chegada.

— Tranquilo? — ela riu, sem humor. — Eve, você nunca foi boa em esconder as coisas de mim.

Engoli em seco, sentindo o peso da conversa virar.

— Estou bem, Kate. Apenas me adaptando ao frio.

— E à rainha?

— Vou encontrá-la hoje à tarde.

Houve um silêncio do outro lado, e quando Katerina voltou a falar, seu tom estava mais contido.

— Bem, só tome cuidado. A última coisa que precisamos é de você cometendo algum erro.

Senti meu maxilar se apertar, mas controlei minha resposta.

— Pode deixar. Mantenho você atualizada.

— Espero mesmo. — disse ela, antes de desligar sem se despedir.

Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, sentindo uma mistura de cansaço e irritação. Trabalhar para Katerina não era tarefa fácil, especialmente quando ela alternava entre ser minha amiga e minha maior crítica.

Depois da ligação, me forcei a concluir a mensagem para Irina. Fui o mais diplomática possível: segurança, proteção impecável, uma recepção sem contratempos. Resolvi também organizar uma lista de opções de roupas adequadas ao inverno rigoroso de Osteland, para garantir que Katerina estivesse preparada quando fosse trazida.

Assim que terminei as tarefas, fiz minhas refeições no quarto e, com a ajuda de Merida, comecei a me arrumar para o chá. Escolhi um vestido roxo de tom profundo, elegante e discreto, com um toque de autoridade. Soltei os cabelos, ajeitei a maquiagem de maneira natural e finalizei com um leve perfume floral.

Quando o guarda apareceu para me acompanhar, respirei fundo uma última vez antes de segui-lo, tentando deixar de lado a voz crítica de Katerina ecoando em minha mente.

A sala de chá era aconchegante e me envolvia com o cheiro delicioso de biscoitos recém-saídos do forno. As paredes em tons de rosa pálido, adornadas com detalhes florais delicados, contrastavam com os móveis em verde menta e espessos, criando um espaço acolhedor e surpreendentemente caloroso. Eu não duvidava que fosse o cômodo mais colorido de todo o palácio.

Ao final da sala, vi uma elegante mesa de centro cercada por sofás e uma poltrona principal onde estava a rainha Amara. Ela vestia um conjunto azul-marinho impecável, com detalhes sutis em dourado que delineavam o colarinho e os punhos. Seus cabelos pretos estavam presos com perfeição, e seus olhos de um azul profundo me estudavam com uma serenidade impenetrável. Fiz uma reverência acentuada, exibindo respeito, mas mantendo minha postura firme.

Uma senhora, com certeza sua dama de companhia, que eu não conhecia, levantou e gesticulou gentilmente para que eu me acomodasse no sofá à frente da rainha. Ela mesma se sentou ao lado da soberana, silenciosa, mas atenta como uma sombra.

— Senhorita Petrova, — a rainha disse com um sorriso que era ao mesmo tempo acolhedor e calculado. — É um prazer recebê-la no meu palácio.

— A honra é toda minha, majestade. Agradeço por sua hospitalidade.

— Espero que você esteja se sentindo confortável em Osteland. Imagino que o frio seja uma novidade, mesmo para alguém de Geróvia.

— De fato, majestade. — admiti com um sorriso leve. — Nosso inverno é gentil comparado ao seu.

A rainha riu discretamente, e o brilho nos olhos dela sugeria algo mais do que mera cortesia.

— Osteland pode ser frio, mas acredito que sempre oferecemos um calor especial aos nossos convidados.

Houve algo no tom dela, um toque quase imperceptível de ironia, que fez meu estômago se apertar. Permaneci atenta, tentando decifrar cada palavra como se fossem peças de um quebra-cabeça.

Ela pousou sua xícara de chá com cuidado, como se estivesse calculando o momento perfeito para continuar. Beberiquei suavemente a xícara que dispuseram na minha frente e ela pareceu satisfeita com isso, pois prosseguiu:

— Ouvi dizer que houve uma pequena confusão envolvendo os guardas na sua porta. Fico contente que isso tenha sido resolvido de forma tão eficiente.

Meu coração acelerou, mas mantive meu sorriso intacto.

— Sim, majestade. Foi um incidente inesperado, mas agradeço pela atenção ao resolvê-lo.

A rainha inclinou levemente para a cabeça, e por um instante, algo em seu olhar ficou mais penetrante e muito familiar.

— Parece que impressionou alguém. Meu filho veio pessoalmente pedir para que garantíssemos sua privacidade. Ele é… atento aos detalhes.

A informação era um golpe disfarçada de gentileza. Nikolaus havia intercedido? Forcei-me a permanecer neutra, mesmo que minhas mãos ficassem inquietas no colo.

— Estou grata pela consideração do príncipe. Espero poder explorar o palácio com mais liberdade.

A rainha me estudou por um momento, como se estivesse pesando minhas palavras. Havia algo nela que não se limitava à realidade: era uma estrategista, alguém que não deixava nada passar despercebido.

— Espero que aproveite bem essa liberdade, senhorita Petrova. É raro termos visitantes tão significativos por aqui, que chamem nossa atenção.

Chamar atenção era definitvamente a última coisa que eu queria e precisava.

Antes que eu pudesse responder, um barulho fora da sala nos interrompeu. Meu olhar se desviou para a porta quando ela se abriu, revelando um jovem entrando com passos largos.

A princípio, notei apenas a camisa social branca impecável e os ombros largos, que carregavam uma presença natural. O homem inclinou-se em direção à rainha, sem olhar para mim, abaixando-se para beijar sua bochecha.

— Está atrasado, Nikolaus. — a rainha comentou, seu tom misturando reprovação e familiaridade.

Minha mente congelou ao ouvir o nome. Ele se desculpou, a voz grave e extremamente familiar ecoando pela sala.

— Perdão, mãe. A reunião com o pai demorou mais do que o esperado.

Eu senti como se o ar tivesse sido sugado da sala. O nome, a voz, o porte... não poderia ser. Antes que eu pudesse formular meu pensamento consistente, ele se levantou e virou-se em minha direção.

O impacto foi imediato.

Mesmo sem máscara, os olhos eram inconfundíveis: aquele azul gélido, quase elétrico, que me havia avaliado tantas vezes no dia anterior. Agora, sem uma balaclava, seus cabelos escuros caíam em ondas suaves, e o rosto era ainda mais impressionante do que eu apostei: linhas marcantes, maçãs do rosto proeminentes e um maxilar perfeitamente esculpido.

O guarda mascarado era terrivelmente lindo.

E ele era o príncipe de Osteland.

— Fico honrado em conhecê-la, senhorita Petrova. — ele disse, inclinando-se em uma reverência formal, mas o brilho nos olhos dele parecia zombar da situação.

Levei dois segundos para recuperar minha compostura e levantei para fazer uma reverência.

— Agradeço à recepção, vossa Alteza. É gentil de sua parte.

Minha voz saiu calma, mas por dentro eu lutava para reorganizar as peças desse novo quebra-cabeça. Nikolaus, no entanto, parecia aproveitar o momento, com o olhar fixo em mim como se esperasse algo.

A rainha, indiferente ao clima estranho que preenchia a sala, continuou com a mesma serenidade calculada:

— Senhorita Petrova, imagino que compreenda a importância de respeitar as regras do nosso palácio. É uma medida que tomamos com todos os que residem aqui.

Eu assenti, mantendo minha postura firme.

— Para garantir a sua liberdade de entrega, decidimos providenciar uma guarda pessoal para acompanhá-la durante a sua estadia. Isso evitará qualquer inconveniente.

Nikolaus franziu o cenho, a contrariedade claramente visível.

— Com todo respeito, mãe, acredito que isso não é necessário. Evelina pode se orientar perfeitamente pelo palácio.

A rainha arqueou uma sobrancelha, sua autoridade cortando qualquer argumento.

— Já tomei minha decisão. Não permitirei que estrangeiros vagueiem livremente pela nossa casa. Mesmo que seu pai tenha decidido que somos amigos. — A ironia em sua voz era clara. — Se você está tão preocupado, talvez prefira escolher pessoalmente quem será nomeado.

Nikolaus suspirou, mas concordou.

— Claro, mãe. Escolherei alguém de minha confiança.

A rainha voltou-se para mim, com um sorriso que era tudo menos reconfortante.

— Espero que entenda, senhorita Petrova, que esta é uma medida de segurança mútua.

— Concordo, majestade. Estou grata pela oportunidade de explorar o palácio.

A rainha deu um leve aceno e um sorriso de aprovação. Ela apoiou a xícara de volta na mesa e se levantou, com a dama de companhia imitando o movimento.

— Perfeito. Então, apenas mantenha-se atenta e esteja disponível sempre que for requisitada. — ela declarou, ajustando a postura. — Agora, preciso me retirar.

A rainha saiu pela porta com sua dama de companhia logo atrás, e o som de seus passos desaparecendo deixou um silêncio pesado na sala. Nikolaus continuou parado, me observando com um olhar tão intenso que eu poderia jurar que ele estava tentando decifrar cada detalhe meu. A tensão entre nós era palpável.

Após alguns segundos de silêncio que se arrastaram mais do que eu gostaria, decidi romper a quietude. Levantei-me do sofá, sentindo a pressão nos ombros, e caminhei em direção à porta, tentando manter a calma.

— Vai sair sem dizer uma palavra? — ouvi a voz dele atrás de mim, baixo, mas com um tom de intriga que me fez parar.

Senti sua mão tocar levemente meu cotovelo, apenas o suficiente para me impedir de continuar. Ele se posicionou à minha frente, e seus olhos se fixaram em mim com uma intensidade desconcertante.

— Por que toda essa pressa? — perguntou, seu olhar nunca se desviando do meu.

Eu sentia uma provocação em cada palavra, mas também havia algo mais, algo difícil de decifrar. Uma expectativa contida, talvez, como se ele esperasse algo que eu ainda não compreendia. Mantive minha expressão serena.

— Você é o príncipe. — minha resposta foi direta, sem hesitação.

— Eu sei. — a resposta dele foi dada com a mesma calma, mas com uma ponta de humor e ironia que parecia só aumentar a tensão.

Recusei-me a reagir à provocação, mantendo o rosto impassível, tentando não dar satisfação ao que ele talvez quisesse ver.

— Conseguiu o que queria, não? Liberdade para circular. — ele continuou, dessa vez parecendo genuinamente confuso.

Não sabia o que ele realmente queria, mas sabia que não seria inteligente cair no jogo dele.

— Posso me retirar, sua Alteza? — questionei, minha voz controlada, enquanto puxava suavemente o braço.

Ele o soltou sem resistência, mas algo em seu olhar me fez sentir que ainda não havia acabado. Eu não havia tido a reação que ele esperava.

Por um segundo, pensei ter visto uma expressão indecifrável cruzando seu rosto, mas antes que eu pudesse analisar, ele rapidamente recuperou a compostura.

— É livre para andar pelas dependências do palácio, senhorita Petrova. Logo mais, enviarei um guarda pessoal ao seu quarto.

Assenti brevemente, mais pela formalidade do que por realmente sentir que a situação estava resolvida, e me virei para sair da sala, sem olhar para ele novamente.

Mas a sensação de seus olhos em minhas costas não havia parado. Ele ainda estava ali, me estudando, mesmo que eu tivesse cruzado a porta.

Notas finais
Corrigi alguns erros ortográficos, mas se ainda tiver algum, me aviseeem