A Assistente da Princesa
14 Capítulo 14
Notas iniciais
— E quanto ao duque Haglund? A esposa dele estava no almoço outro dia, não parecia muito feliz com a possibilidade de casamento entre vocês. — perguntei a Nikolaus, que brincava com um enfeite da lareira.
Fazia quase uma hora que debatíamos estratégias para os próximos dias e agora tentávamos repassar pessoa por pessoa, de cada corte, que poderiam dificultar ou estar envolvidas no golpe. Ele inclinou levemente a cabeça, um sorriso sutil e sem alegria tocando os lábios.
— A duquesa Haglund nunca parece feliz com nada que não envolva aumentar a influência da família. O apoio deles será uma negociação complicada, mas inevitável.
Nikolaus girou o pequeno enfeite em suas mãos, sua expressão se tornando momentaneamente distante, antes de continuar:
— O duque acredita que sua posição na corte deveria ser inquestionável. Ele sempre terá algo a dizer sobre qualquer decisão que não o beneficia diretamente. — ele lançou um olhar breve para mim antes de colocar o enfeite de volta na prateleira da lareira. — Mas a duquesa é a que realmente devemos observar. Ela tem mais influência sobre ele do que muitos imaginam.
Deitada no chão, eu encarei o teto ornamentado.
— Parece que estou lidando com uma peça de teatro, onde cada ator tem um papel que é sempre mais complexo do que aparenta. — murmurei, tentando organizar os nomes e alianças em minha mente. — Já era um emaranhado louco em Geróvia e agora tem mais aqui.
Ele soltou um pequeno riso, mais para si mesmo do que para mim, cruzando os braços enquanto olhava para o fogo.
— Você sabe tão bem quanto eu que política é quase isso. — ele disse, e o tom era quase contemplativo. — Aliás, se estamos falando de papeis e estratégias, talvez eu deva estar mais preocupado com você do que com a duquesa Haglund.
Levantei a cabeça, encarando-o de lado.
— Eu? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.
O príncipe se virou, as mangas arregaçadas até os cotovelos e os cabelos bagunçados pela maneira que ele os passava pelos dedos de tempos em tempos.
— Quem mantém o público de Geróvia tão encantado? A mente por trás disso não é da princesa. Todos sabem disso, mesmo que finjam não perceber.
Virei os olhos para o teto novamente, não respondendo de imediato.
— Talvez eu deva considerar sua opinião um elogio.
— Talvez devesse.
O tom dele era mais leve agora, quase brincalhão, e eu não resisti a sorrir. Por um momento, o peso de toda a situação pareceu menor.
— Nem todos os nobres de Geróvia compartilham uma boa opinião. — retomei o assunto, cruzando as mãos sobre o peito enquanto observava o teto. — Lorde Marin, por exemplo, sempre foi contra qualquer aliança com Osteland. Ele acha que estamos sacrificando nossa identidade pela sobrevivência.
Nikolaus arqueou uma sobrancelha, inclinando levemente a cabeça.
— E ele tem seguidores?
— Poucos, mas desagradáveis o suficiente para serem notados. — resmunguei. — Felizmente, a maioria dos conselheiros entende que essa união é mais vantajosa do que manter o orgulho ferido.
Ele assentiu, pensativo.
— E quanto a possíveis candidatos de Katerina? Lembro que existiam alguns boatos de que ela se casaria aos vinte e três, apenas dois anos para isso. — ele questionou, como se as engrenagens da sua cabeça tentassem identificar os possíveis inimigos. —Talvez eles não estejam felizes em perder a possível noiva.
Inclinei a cabeça levemente, refletindo.
— Haviam rumores, sim. Lorde Kestrel foi um dos nomes mais citados. Seu pai é dono de uma das maiores empresas petrolíferas de Geróvia e ele estava empenhado em formar uma aliança mais sólida por meio de um casamento com a Kate. — falei, vendo um leve brilho de interesse cruzar os olhos de Nikolaus. — Mas, sinceramente, duvido que ele fosse mais do que uma especulação conveniente.
— Sim, conheço Kestrel. — ele franziu a testa, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto pensava. — Especulação ou não, é motivo suficiente para um descontentamento com o petróleo se tornando parte de Osteland também, enfraquecendo a área de poder da empresa do pai.
— Não havia pensado por esse lado. — murmurei, momentaneamente me sentindo burra, antes de uma lâmpada se acender na minha mente. — E quanto as suas candidatas?
Ele franziu as sobrancelhas, parecendo confuso, mas eu notei suas mãos passando nervosamente pelos cabelos já bagunçados.
— O que quer dizer?
Sorri, notando o desconforto sutil em sua expressão.
— Quero dizer que você deve ter recebido algumas sugestões de possíveis noivas antes dessa aliança com Geróvia ser considerada. Imagino que algumas dessas famílias podem não estar tão satisfeitas assim em perder essa oportunidade.
Nikolaus inclinou-se para trás, a luz suave da lareira destacando as linhas de cansaço em seu rosto.
— Algumas sugestões, sim. Mas nenhuma que eu tenha considerado seriamente. — ele fez uma pausa, seus olhos fixos no fogo. — Muitas famílias enxergam casamentos como transações. E, para ser honesto, poucas dessas ofertas tinham mais a ver comigo do que com o meu título.
— E isso não incomodava você? — perguntei, talvez com mais curiosidade do que deveria.
Ele ergueu uma sobrancelha, como se ponderasse sobre minha pergunta.
— No começo, sim. Mas com o tempo, você aprende a aceitar que faz parte de tudo isso. — ele desviou o olhar do fogo para mim, seu tom mais suave. — E você? Já teve que recusar alguém por causa das expectativas do seu cargo? Imagino que há muita pressão em ser assistente da princesa, em quem vai ter ao seu lado em eventos importantes.
Sua pergunta me pegou de surpresa, mas o tom cru no olhar dele me desarmou. Respondi, hesitante:
— Não sei se chamaria de recusar. Mas já deixei claro que certos envolvimentos não eram uma opção.
Nikolaus apenas assentiu, seu olhar não desviando do meu. Havia algo mais ali, algo não dito que pairava no ar entre nós e eu quase quis contar a ele o que não contei para mais ninguém. Talvez ele entendesse.
Fui a primeira a quebrar o contato visual.
— Acho que eu deveria marcar uma reunião com o conselho de Geróvia, mas eu não sei como aconselhar sem contar tudo o que está acontecendo.
— Marcar uma reunião com o conselho sem falar demais é arriscado, mas necessário. — ele começou, sua voz mais baixa. — Precisamos de um plano claro, algo que mantenha as aparências e não exponha o que sabemos.
Eu assenti, passando os dedos distraidamente pelo carpete.
— Vou contatá-los assim que possível. Podemos apresentar um foco em "alinhamento cultural", algo que soe como protocolo, mas abre espaço para discussões mais delicadas.
Ele arqueou uma sobrancelha, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.
— "Alinhamento cultural", gostei. Um termo diplomático o suficiente para esconder uma guerra fria. — ele apoiou os dedos no queixo, fingindo refletir. — Gosto da sua maneira de pensar, senhorita Petrova.
Revirei os olhos, mas um sorriso escapou mesmo assim. O calor da sala parecia menos sufocante agora, mais acolhedor. Talvez fosse o fato de que, apesar de tudo, estávamos chegando a um consenso. O momento estava confortável demais para ser interrompido, mas eu precisava começar logo as tarefas se queria estar pronta para a chegada de Kate em quatro dias.
Me levantei do carpete, ajeitando minha roupa que nada mais era do que um macacão justo para que não pesasse debaixo do uniforme de guarda que eu vesti há algumas horas.
Ele quebrou o breve silêncio.
— Precisamos de um contato mais direto e rápido. Cartas são convenientes, mas chamam atenção demais.
Inclinei a cabeça, tentando entender o que ele estava sugerindo. Ele continuou, agora mais descontraído:
— Tem um número que possa usar para falar diretamente com você?
Ri baixinho, sacudindo a cabeça.
— Achei que as cartas fossem o nosso "lance". — provoquei, sorrindo para ele.
Ele riu também, um som leve e genuíno.
— Podemos manter as cartas para ocasiões especiais. Mas, no dia a dia, prefiro algo mais eficiente.
Concordei, sentindo o peso das últimas horas começar a diminuir. Passei meu número para ele, tentando ignorar o frio na barriga que sentia sobre um príncipe ter pedido meu número e eu ter entregado. Mas era só profissional, para o trabalho.
— Bem, nos falamos em breve, então. — murmurei enquanto seguia para a porta. — Ah, e talvez você deva esperar um pouco antes de sair também. — falei sentindo minhas bochechas queimando. — Não seria bom alguém ver você e eu saindo do mesmo lugar sozinhos.
O príncipe ergueu as sobrancelhas e a sombra de um sorriso brincou em seus lábios.
— Ser vista com um príncipe é uma honra para muitas, sabe. — a presunção em sua voz me fez revirar os olhos novamente.
— E ser visto comigo é uma honra para poucos, Alteza. Não pense que sua posição lhe dá privilégio.
Sua risada reverberou pelo meu corpo, fazendo uma eletricidade desconhecida descer pela minha espinha antes que eu abrisse a porta e finalmente saísse por ela, tendo um último vislumbre dele me observando.
No corredor vazio, o ar era mais frio, e a luz difusa do final da manhã me lembrou que o dia ainda estava longe de terminar. O peso das responsabilidades me aguardava, mas, de alguma forma, eu me sentia mais preparada para enfrentá-las.
Eu já estava quase habituada com os corredores do palácio, sabendo exatamente quais curvas fazer para chegar até meu quarto. Felizmente, esbarrei com poucos funcionários no caminho, que só franziam brevemente a testa ao me verem com algo tão informal. Lembrete para a próxima missão: trazer roupas para trocar antes de voltar a sair em público.
Quando finalmente cheguei no meu corredor, avistei Gadreel parado em posição de guarda, na porta do meu quarto, o olhar atento como sempre.
— Senhorita Petrova. — ele inclinou levemente a cabeça em saudação, sem fazer menção de sair do lugar.
— Gadreel. — respondi com um aceno breve, tentando manter a neutralidade enquanto abria a porta.
O cheiro familiar de lavanda do difusor tomou conta assim que entrei. Merida estava junto à cama, dobrando cuidadosamente algumas roupas. Ao me notar, largou tudo e veio até mim, as sobrancelhas franzidas de preocupação.
— Eve! Onde você estava? Que roupa é essa?— perguntou. — Cris apareceu aqui e só disse para eu fingir que você estava comigo. Ele não me deu mais explicações.
Fechei a porta atrás de mim e suspirei, sabendo que precisaria desviar das perguntas diretas.
— Precisava resolver algumas coisas. Nada que deva preocupar você. — falei, indo até a penteadeira para pegar um elástico de cabelo e prender os fios soltos.
— Você não pode simplesmente sair assim sem avisar. — disse ela, cruzando os braços. — E se alguém perguntar o por que Gadreel não estava junto? E se alguém relatar você?
Suspirei, colocando a escova de volta com mais força do que pretendia.
— Eu sei. Mas não vou entrar em detalhes agora, está bem? Preciso comer algo e me arrumar para o restante do dia.
Merida cruzou os braços, claramente insatisfeita com minha resposta, mas não insistiu. Ela deu um passo em direção à porta, pronta para fazer o que fosse necessário para me ajudar.
— Posso pedir que tragam seu almoço aqui. Não seria mais fácil?
— Não. — respondi rápido demais. — Eu preciso ir ao refeitório. Faz parte das coisas que preciso resolver.
Ela me lançou um olhar desconfiado, mas assentiu antes de começar a me ajudar com a roupa.
O refeitório estava mais vazio que o habitual, provavelmente por estarmos quase atrasadas demais. Mas, para a minha satisfação, as pessoas ali presentes viravam seu olhar para mim pelo menos duas vezes.
Eu estava bonita, o vestido lilás florido que escolhi não foi por acaso, muito menos o cabelo preso em um rabo de cavalo com laço. Eu precisava mostrar a aparência mais inocente possível se queria começar minhas investigações sem ninguém desconfiar de nada. Também precisava formar contatos e alianças por aqui.
Nesse mundo político, a gente logo aprende que aparência é tudo e beleza abre portas. Se essa era uma arma, então eu jogaria com ela.
A luz que entrava pelas janelas do refeitório iluminava suavemente a mesa onde Phoebe estava sentada, junto de uma jovem que parecia igualmente ocupada com papéis e amostras de tecido. Atravessei o salão com passos calmos, mantendo minha postura confiante e o sorriso gentil, enquanto fazia gesto para que Merida me seguisse. Quando me aproximei, ambas levantaram os olhos e Phoebe abriu um sorriso acolhedor.
— Senhorita Petrova, que honra tê-la aqui. — disse Phoebe, gesticulando para que nos sentássemos.
— A honra é minha. Mas me chame de Evelina, não precisa de formalidade. — respondi sorrindo, aceitando o convite e lançando um olhar curioso à jovem ao lado dela.
— Esta é Elise, uma das nossas costureiras mais talentosas. — Phoebe apresentou, e Elise acenou para nós com um sorriso radiante.
— É um prazer conhecê-la. — disse Elise, parecendo ligeiramente ansiosa. — Sou uma grande admiradora do trabalho de Arina Dubois, dizem que as peças dela são obras de arte.
A menção ao nome familiar me arrancou um sorriso sincero. Arina era a estilista mais renomada de Geróvia.
— Ela é amiga da minha mãe. — revelei, tentando manter a voz casual.
Elas ficaram momentaneamente em silêncio, e Elise arregalou os olhos.
— Sua mãe? — perguntou ela, quase sem acreditar.
— Sim. — confirmei, cruzando as mãos sobre a mesa. — Arina foi estagiária no palácio e minha mãe é uma das estilistas da rainha Elena há anos, desde que ela era princesa. Viraram amigas. — expliquei. — Eu também cresci em meio aos desenhos e costuras dela.
Phoebe soltou uma risada de pura surpresa, parecendo genuinamente impressionada. Até Merida parecia boquiaberta, acho que eu nunca havia revelado nada sobre minha família, e acrescentou:
— Isso explica muita coisa. Você carrega um senso de estilo que não passa despercebido.
Senti meu rosto esquentar com o elogio, mas mantive o sorriso.
— Não posso levar todo o crédito por isso. Minha mãe sempre dizia que vestir bem é um sinal de respeito pelos outros.
Elise parecia ainda mais animada agora, como se estivesse diante de uma oportunidade única.
— Você deveria vir ao ateliê do palácio. Seria uma honra mostrar o que fazemos. Talvez até possamos criar algo especial para você.
Phoebe concordou com entusiasmo.
— Sim, você precisa ver o nosso trabalho. Quem sabe um dia sua mãe também possa conhecer.
Fingi hesitação por um instante antes de concordar.
— Seria um prazer.
Enquanto a conversa fluía, notei que meu plano estava se desenrolando melhor do que eu esperava. O entusiasmo delas era genuíno, e isso tornava meu objetivo ainda mais fácil de alcançar.
Às quatro da tarde eu chegava no ateliê, uma enorme sala na ala sul que só tínhamos acesso pela porta lateral do palácio. O que era muito inconveniente, pois me forçou a colocar um casaco grosso e botas de neve para conseguir pisar fora do ambiente quente que o lugar me proporcionava.
Por fora, o estúdio tinha a mesma aparência azul e fria, mas por dentro a coisa mudava. O cômodo possuía tons de laranja-creme, rosa claro e amarelo manteiga, como se fosse um ponto de primavera em meio ao inverno. Vários bustos femininos, com diversos tecidos pendurados, decoravam a sala inteira. Além de enormes araras com roupas e etiquetas indicando a época das coleções.
Minhas botas rangiam no piso de madeira polida, um som que ecoou pelo ambiente e chamou a atenção de várias mulheres espalhadas pela sala. Algumas estavam em frente aos espelhos altos, experimentando vestidos que as costureiras ajustavam com precisão. Outras ocupavam os sofás, observando com olhares avaliativos e conversas baixas. Não era difícil perceber a curiosidade e, em alguns casos, a desconfiança nos olhares que recaíam sobre mim.
Um movimento específico chamou minha atenção: uma cabeleira de cachos castanhos brilhosos. Antes que pudesse olhar diretamente para confirmar se era a pessoa certa, disfarcei meu interesse e virei para Elise, que vinha em minha direção com um sorriso caloroso.
— Senhorita Petrova! — ela exclamou, parando ao meu lado. — Fico tão feliz que tenha vindo!
Abri um sorriso, me aproximando mais dela enquanto desabotoava o casaco grosso.
— Obrigada pelo convite, Elise. — falei, olhando ao redor. — O lugar é encantador. Mas tenho que perguntar: por que o acesso é feito apenas por fora do palácio? É tão diferente.
Elise riu suavemente, pegando meu casaco para pendurá-lo em um cabide próximo.
— É por uma questão de segurança. Atendemos muitas mulheres da alta sociedade além da rainha. É mais prático que tenham acesso direto ao ateliê sem precisar de autorizações para entrar no palácio principal. Além disso, isso nos dá mais liberdade para criar sem interferências.
Assenti, apreciando a lógica. Enquanto isso, meus olhos analisavam as araras repletas de vestidos. Deslizei os dedos por um tecido azul delicado, reconhecendo o corte de uma moda passada.
— Esse aqui... — comentei, segurando a manga do vestido. — É inspirado nos designs de Renée Bellefort, certo? Da coleção de primavera de dez anos atrás.
Elise arregalou os olhos, um sorriso de admiração tomando seu rosto.
— Exatamente! Você conhece bem! — disse, visivelmente animada.
— Minha mãe adorava o trabalho dela. — continuei casualmente. — Sempre dizia que os cortes da Renée eram ousados, mas com uma elegância atemporal.
Antes que Elise pudesse responder, Phoebe se aproximou, carregando uma fita métrica em mãos.
— Evelina! Espero que esteja gostando da nossa caverna colorida. — ela disse com entusiasmo.
— Muito. — respondi com sinceridade. — É um ambiente tão criativo e acolhedor.
Phoebe sorriu ainda mais.
— Venha, vamos tirar suas medidas. — ela falou, enquanto caminhava em direção aos espelhos. — Tenho a intuição que iremos criar muitas coisas para esse seu corpinho aí.
Assenti, sorrindo.
— Claro, seria uma honra.
Elise guiou-me até um canto próximo às mulheres que experimentavam vestidos. Enquanto Phoebe e Elise organizavam o espaço, observei discretamente o pequeno grupo à minha frente. Duas mulheres sentadas nos sofás avaliavam os ajustes feitos em três outras, que observavam o próprio reflexo — todas na casa dos quarenta ou cinquenta anos. Costureiras dobravam barras e fixavam alfinetes com precisão, e a conversa fluía entre comentários e risadas.
Permaneci ereta em frente a um dos espelhos, mantendo um sorriso leve no rosto. Mesmo enquanto Phoebe media a circunferência dos meus braços e Elise anotava as medidas, meus olhos estavam atentos a cada expressão e interação ao meu redor.
Enquanto Phoebe ajustava a fita métrica em volta da minha cintura, meu olhar pousou sobre uma mulher em frente ao espelho à nossa esquerda. O vestido que ela experimentava era quase bonito, mas o tom pálido de verde parecia apagar sua presença e seu cabelo cor de areia. Inclinei levemente a cabeça, fingindo um pensamento distraído antes de comentar casualmente:
— Talvez um tom mais profundo, como um esmeralda ou verde-oliva, complementasse melhor sua pele. — sugeri, mantendo o tom amistoso.
A mulher virou-se ligeiramente, com uma expressão de curiosidade. Antes que pudesse responder, Phoebe bufou dramaticamente.
— Faz dias que digo a mesma coisa! — exclamou. — Finalmente alguém concorda comigo.
A mulher riu suavemente, como se refletisse sobre o comentário.
— E você é formada em moda? — ela perguntou, com uma sobrancelha levantada.
Sorri, fingindo modéstia.
— Não oficialmente, mas digamos que vestir a princesa nos últimos dez anos me deu bastante experiência. — respondi, atraindo a atenção de mais algumas pessoas ao redor.
Uma costureira próxima engasgou levemente e virou-se para mim.
— Então foi sua ideia aquele vestido de flores reais no baile de outono passado? — perguntou, com os olhos arregalados.
Assenti, lembrando do esforço que aquele projeto exigiu.
— Sim. Foram quase dois meses para que as flores ficassem perfeitas. Foi um trabalho em equipe, mas o resultado valeu a pena.
Outra mulher no grupo, uma das que estava sentada observando, entrou na conversa com um sorriso caloroso.
— Aquele vestido foi tão comentado. Pessoalmente, adorei o conjunto que ela usou na recepção. Minimalista e cheio de personalidade.
— Ah, esse foi um desafio diferente. — respondi, entrando no ritmo da conversa. — A intenção era projetar força e elegância sem parecer excessivamente rígida.
Enquanto a conversa fluía, a mulher de cachos castanhos aproximou-se, com um sorriso social impecável.
— Você parece entender bastante desse mundo. — disse, estendendo a mão, que aceitei. — Sou Camila Vidrik. Estas são Louise Hargrove... — apontou para a mulher que experimentava o vestido feio — E Angela, minha irmã. — uma mulher idêntica à Camila, com exceção dos cabelos que eram lisos.
A apresentação foi feita com gestos graciosos e olhares calculados.
— Evelina Petrova. É um prazer conhecê-las. — respondi, observando atentamente as reações do pequeno grupo. — E vocês, são? — perguntei, me direcionando para as duas que estavam sentadas.
— Damas de companhia da duquesa Haglund. — uma delas respondeu. — Sou Olga e essa é Samantha.
— A duquesa está ocupada com o evento de hoje, mas viemos garantir que seu vestido estivesse impecável. — a outra, Samantha, completou.
A conversa continuou fluindo naturalmente, e as mulheres pareceram cada vez mais receptivas. Eu mantinha meu sorriso leve e meu tom descontraído, enquanto as incentivava a falar mais sobre o evento daquela noite.
— Ouvi falar que este é um dos maiores eventos de moda do país. — comentei casualmente, tocando a manga de um vestido próximo. — Deve ser um espetáculo.
Camila sorriu, visivelmente satisfeita com a direção da conversa.
— É realmente o maior evento de moda de Osteland. Minha irmã e eu estamos muito envolvidas com ele, tanto como participantes quanto como investidoras. — ela afirmou, olhando de soslaio para Angela, que assentiu.
Angela, então, interveio com entusiasmo:
— Você deveria ir, Evelina. Será uma ótima oportunidade para conhecer algumas pessoas importantes, especialmente porque logo estará frequentando esses círculos com a princesa.
Fingi hesitação, ajustando uma das pulseiras em meu pulso.
— Eu adoraria, mas não sei se seria apropriado. Não quero parecer que estou invadindo um evento sem convite. — comentei, em um tom levemente incerto.
As damas de companhia, Olga e Samantha, trocaram olhares cúmplices antes de intervir.
— Linnea vai adorar tê-la lá. — afirmou Olga. Linnea era a duquesa Haglund. — Além disso, você já faz parte do círculo. Não será um problema.
Camila riu suavemente, estendendo uma mão como se quisesse resolver qualquer dúvida restante.
— E, como mencionamos, Angela e eu somos investidoras. Podemos levar quem quisermos como convidadas. Não será um problema.
Meu sorriso se abriu um pouco mais, agradecendo silenciosamente a eficácia de minha abordagem. Inclinei levemente a cabeça.
— Nesse caso, adoraria ir. Mas preciso correr para arranjar um vestido, já que é tão em cima da hora. — respondi, fingindo uma preocupação súbita.
Phoebe, que tinha permanecido em silêncio por um momento, interveio com determinação:
— Suas medidas já estão todas anotadas. Eu sei exatamente o vestido perfeito para ajustar. Confie em mim, você estará pronta em tempo.
Concordei com um aceno e um sorriso sincero.
— Então, está combinado. — disse, enquanto olhava para todas. — Estou ansiosa para esta noite.
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