A Assistente da Princesa
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Irina estava visível no canto esquerdo da chamada, a postura impecável como sempre, enquanto os outros dois conselheiros mantinham expressões que oscilavam entre a dúvida e o ceticismo.
— Com todo respeito, Petrova, expor-se dessa forma publicamente pode trazer mais problemas do que vantagens. — Lorde Valensky argumentou, a voz grave ecoando pelo microfone. — Qualquer escândalo que surja será diretamente associado à princesa.
Respirei fundo, mantendo a calma que era essencial nessas situações.
— Entendo sua preocupação, mas não podemos nos dar ao luxo de ignorar uma oportunidade como essa. — minha voz saiu firme, mas com a cordialidade que a situação exigia. — O evento desta noite é um dos maiores em termos de networking político e cultural em Osteland. Estar lá não será apenas sobre aparências, mas sobre estabelecer contatos que podem facilitar alianças futuras.
Irina interveio com um sorriso controlado, o tipo de expressão que ela usava para suavizar tensões.
— Evelina tem razão. E considerando que sua presença pode ser interpretada como um esforço diplomático para fortalecer os laços entre nossos países, não há razões para alarde.
O terceiro conselheiro, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos cuidadosamente penteados, estreitou os olhos.
— E se alguém questionar por que você está em Osteland? — ele rebateu, os dedos cruzados sobre a mesa. — Não podemos dar brechas para especulações.
Inclinei-me levemente para frente, encontrando seu olhar através da tela.
— Ninguém precisa saber que estou hospedada no palácio. Minha presença será atribuída exclusivamente ao evento. — afirmei. — O foco será no potencial diplomático e cultural, uma imagem que fortalece tanto Geróvia quanto Osteland. E se algo for perguntado, temos a narrativa pronta: vim como representante da princesa para prestigiar o evento e aprender mais sobre os costumes locais.
Eles trocaram olhares pela tela, claramente considerando o argumento. Irina interveio novamente.
— Precisamos confiar no julgamento de Evelina. Ela conhece bem o ambiente e sabe como lidar com as situações que possam surgir. — disse, sua voz calma como um mar em dia de sol.
Após um silêncio que pareceu se arrastar, Valensky suspirou pesadamente.
— Muito bem, mantenha-se discreta. A última coisa de que precisamos é de manchetes extras que estraguem tudo.
Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios. Ah, eles não fazem mesmo ideia de quantas manchetes extras estão sendo interceptadas. Mas mantive a seriedade ao assentir.
— Obrigada pela confiança. Prometo que os resultados valerão o esforço.
Desliguei a chamada logo após as despedidas formais, sentindo uma onda de alívio misturada com a tensão que sempre me acompanhava após essas reuniões.
Agora não tinha mais volta, hoje eu oficialmente me colocaria à vista de todos.
Eu precisava fazer valer a pena.
Ninguém poderia saber da minha proximidade com a família real, então, ao invés dos militares reais, guardas-costas contratados me acompanhavam e outros já me aguardavam no local. E também, ao invés dos típicos SUV’s, me permitiram escolher um carro para usar essa noite. Por isso, eu estava encantada dentro de um Audi A8 L Security altamente blindado. Não que eu entendesse muito de carros, mas William adorava falar deles e esse era um dos que ele admirava. Achei que não doeria muito aproveitar a oportunidade de pegar um veículo desse.
Afinal, a noite hoje pedia um pouco de glamour, não?
O carro desacelerou e eu já conseguia ver os flashes sendo disparados nos convidados que entravam. Passei a mão pelo corpete do vestido, como que para ajustá-lo, mas a verdade era que precisava de algo para ancorar meus pensamentos.
O tecido abraçava minhas curvas com elegância, o corpete tomara-que-caia era enfeitado com bordados delicados e lantejoulas cintilantes que pareciam capturar a luz de cada ângulo. A saia volumosa caía suavemente, coberta por um padrão de folhas e flores que brilhavam discretamente. O tom escuro, quase negro, contrastava perfeitamente com os detalhes prateados que percorriam o tecido, dando um ar de mistério e sofisticação.
O segurança ao meu lado falou no radiocomunicador, confirmando a chegada. Ajustei as luvas de cetim que cobriam minhas mãos até o meio do antebraço e respirei fundo. Era apenas uma noite.
A porta do carro se abriu, e um mar de luzes e vozes me atingiu de uma vez. Pude ouvir o reconhecimento deles.
“É Evelina…”
“Evelina Petrova, a dama da princesa…”
“...de Geróvia.”
Os flashes explodiram em todas as direções, os paparazzis chamando meu nome, gritando perguntas e tentando se aproximar enquanto os guarda-costas formavam um círculo ao meu redor.
— Senhorita Petrova! Está representando Geróvia?
— Onde está a princesa Katerina?
— Quem desenhou seu vestido?
— Veio acompanhada?
Os passos rápidos dos seguranças me guiaram até o tapete vermelho. Os paparazzis continuaram a disparar perguntas e mais flashes atrás da barreira, mas eu mantive o rosto erguido e a expressão serena. A cada passo, parecia que o mundo estava assistindo, e eu tinha que desempenhar meu papel.
Quando alcancei o início do tapete vermelho, virei suavemente para encarar os fotógrafos. Sorri levemente, um sorriso ensaiado, calculado, que parecia ao mesmo tempo acessível e intocável. Deixei que os flashes me envolvessem, como se fossem parte do espetáculo que eu era esperada a protagonizar.
Era o começo de uma longa noite, mas pelo menos agora eu estava no palco.
O Palácio de Vidro parecia uma joia gigantesca, refletindo as luzes da cidade e do céu noturno. Ele era uma réplica moderna do palácio principal, mas completamente feito de vidro espelhado. O prédio todo foi um presente de casamento do rei Alexander para a rainha Odessa — avô e avó de Nikolaus —, uma prova de amor.
Instintivamente, me peguei pensando se um dia o príncipe faria algo assim por Katerina. Uma pontada no meu peito me faz desejar que sim.
Ao atravessar as portas principais, entrei em um salão amplo que parecia um universo à parte. O teto alto revelava as estrelas lá fora, enquanto lustres de cristal flutuavam, suspensos por fios invisíveis, lançando um brilho etéreo pelo ambiente. Havia mesas circulares dispostas em torno de pequenos palcos elevados, onde modelos desfilavam com as tendências da próxima estação. Os tecidos brilhavam sob a iluminação, e o som suave de uma orquestra preenchia o ambiente, dando um toque de sofisticação ao ar já repleto de perfumes caros e conversas sussurradas.
Por um instante, senti o peso do que estava prestes a enfrentar. Era minha primeira vez em um evento desse calibre sem a companhia de Katerina. A ausência dela era quase um vazio palpável ao meu lado, mas eu sabia que precisava me manter firme. Respirei fundo, ajustei o sorriso no rosto e ergui o queixo.
Antes que eu pudesse me acostumar ao ambiente, Angela surgiu ao meu lado, um sorriso acolhedor no rosto.
— Evelina! Que bom que chegou. Eu estava procurando por você.
— Angela. — sorri de volta, aliviada por sua presença. — Este lugar é impressionante.
Ela assentiu, os olhos brilhando enquanto olhava ao redor.
— É, não é? Venha, quero apresentá-la a algumas pessoas. Tenho certeza de que será útil para ambas.
Deixei que ela me guiasse pelo salão, onde conheci um mar de figuras. Lordes e duques ostentavam insígnias de ouro e prata, enquanto condessas e marquesas brilhavam em vestidos dignos de contos de fadas. Uma artista mundialmente famosa, cuja música eu ouvia sem parar na minha playlist do Spotify, me cumprimentou com um sorriso deslumbrante. Ministros de países como Suécia e Inglaterra também estavam presentes, suas presenças indicando o peso diplomático do evento.
Enquanto Angela fazia as introduções, eu mantinha o sorriso, absorvendo cada detalhe, cada reação, cada nome. Até que uma figura muito familiar se aproximou de mim: uma jovem de cabelos castanhos claros e rosto de fada, conhecida por seu temperamento ácido. Sophie, a princesa da Bélgica.
Fiz uma reverência no meu lugar.
— Evelina Petrova, não é? — perguntou ela, com uma sobrancelha erguida. — E Katerina?
— Ocupada com seus deveres em Geróvia. — respondi, mantendo o tom cordial.
— E mandou você no lugar? — seu olhar me percorreu de cima a baixo, como se não visse algo que merecesse tanta atenção.
— Sim, Vossa Alteza.
Ela franziu a testa, murmurando algo sobre como esperava mais "decoro" antes de se afastar, sequer se despedindo, o nariz empinado como se quisesse tocar o teto. Sua dama de companhia, uma garota loira com rosto triste, que nunca falava — e que eu tinha muita pena por ter que aguentar a Sophie —, seguiu logo atrás.
Por um momento, pensei em como seria satisfatório derrubar aquele ar de superioridade com um soco, mas contive o impulso. Não era o momento de perder a postura. Ainda.
Respirei fundo, lembrando-me de que meu papel aqui era mais importante do que qualquer coisa. Com isso, voltei a me focar nas interações ao redor, pronta para aproveitar cada oportunidade que surgisse.
Uma outra figura feminina conhecida se aproximou, mas essa me arrancou um suspiro de alívio. Helena von Arling exibia sua juba de cachos em um penteado alto e volumoso, combinando com seu vestido completamente dourado.
— Querida, que surpresa! — ela exclamou, antes de me dar dois beijinhos na bochecha. Pude sentir um leve cheiro de álcool vindo do seu hálito. — Pensei que seria mais uma noite tendo que aguentar essa gente chata.
Helena não mediu a voz, seu comentário saindo em alto e bom tom, atraindo olhares atravessados de algumas pessoas ao redor, incluindo Angela, que torceu o nariz em direção a ela. Helena continuou, indiferente à situação:
— Você deveria frequentar mais almoços nossos, sabe? Você foi a diversão do século. Não imagina o quanto é chato sempre a mesma coisa e as mesmas pessoas.
Ela gesticulava intensamente, me fazendo segurar a sua taça de vinho para que não derrubasse no chão.
— Helena, talvez seja melhor tomarmos uma água e comermos algo, sim? — falei, segurando seu braço e tentando guiar ela em direção a uma das mesas. — Onde você está sentada?
Helena balançou a cabeça enquanto eu tentava guiá-la até um lugar mais afastado. Sua risada, baixa e um pouco arrastada, veio acompanhada de um comentário quase incompreensível:
— Lina… se você quer se juntar a eles, deveria tomar uma vacina anti podridão. — ela balbuciou enquanto dava uma piscadela.
Um homem de meia-idade, elegantemente vestido, surgiu do nosso lado. Ele usava um terno preto impecável e exibia uma postura rígida, claramente desconfortável com a situação.
— Milady, creio que já está na hora de se retirar. — ele disse em tom firme, mas respeitoso. Depois, se virou para mim. — Senhorita, obrigado por sua compreensão. Desculpe qualquer inconveniente.
Helena lançou um olhar meio confuso para o homem, mas permitiu que ele a guiasse para longe. Segui-os com o olhar enquanto desapareciam entre a multidão, sentindo uma mistura de pena e curiosidade. Talvez fosse melhor eu segui-la para garantir que fique bem.
Antes que eu pudesse dar um passo, Angela reapareceu ao meu lado, com uma expressão de leve reprovação.
— Você não deveria se associar a certos tipos de pessoas, Evelina. — disse, cruzando os braços. — Ter um título não significa ser decente, e Helena von Arling é a prova viva disso.
Levantei uma sobrancelha, genuinamente curiosa.
— Quem é ela exatamente?
Angela suspirou, como se estivesse prestes a me explicar algo óbvio.
— Helena é a neta mais velha do conde Von Arling. O título dele nos obriga a incluí-la em eventos como este, mas obviamente ela não se encaixa. Quase sempre acaba se descontrolando ou passando vergonha. — sua voz era carregada de desdém.
— Entendi... — murmurei, embora minha mente estivesse relembrando Helena no almoço com as damas. Naquele dia, ela parecia completamente diferente: culta, articulada, até gentil.
Angela continuou:
— O conde tenta há anos casá-la com algum lorde, na esperança de que isso a "ajuste". Mas, francamente, acho que ninguém quer lidar com ela.
Meus sentimentos se misturaram enquanto Angela falava. Parte de mim sentia pena de Helena, presa em um mundo que claramente não a aceitava, mas outra parte não conseguia ignorar o contraste entre a mulher de hoje e a de antes.
— Talvez ela só precise de mais espaço para ser quem é. — sugeri, mais para mim mesma do que para Angela.
Ela deu de ombros, pouco impressionada com a ideia, antes de mudar de assunto para me apresentar a outro grupo de convidados.
A música cessou gradualmente, como se o salão inteiro tivesse combinado de silenciar ao mesmo tempo. O som dos saltos ecoando suavemente contra o mármore denunciava a entrada dela antes mesmo que eu a visse. Pessoas ao meu redor começaram a se virar, murmurando baixinho enquanto formavam um corredor improvisado.
Minha respiração ficou presa no peito. A Rainha Amara estava ali.
Ela era uma visão de tirar o fôlego. Seu vestido branco prateado parecia feito de estrelas condensadas, com um brilho sutil que destacava cada movimento gracioso. Seus cabelos negros estavam presos em um penteado elegante, adornados por uma tiara delicada, quase uma réplica simplificada de sua coroa real. Guardas uniformizados flanqueavam sua entrada, enquanto duas damas de companhia, igualmente impecáveis, caminhavam logo atrás.
Ela seguia pelo corredor que se abriu, acenando discretamente para algumas figuras importantes que faziam reverências profundas. Sua postura era impecável, exalando autoridade e calma.
Minha mente correu com um único pensamento: por favor, não me veja.
Mas, como se tivesse sentido minha súplica, o olhar da rainha encontrou o meu.
Houve um instante de tensão — pelo menos para mim. A expressão dela permaneceu serena, mas um sorriso discreto surgiu no canto de seus lábios.
Ela parou em frente a mim, e senti todos os olhares ao meu redor se voltarem em nossa direção. Fiz uma reverência profunda, mantendo a cabeça baixa. Quando levantei o rosto, ela ainda me analisava, como se quisesse me desvendar por completo.
— É uma honra termos um representante geroviano aqui esta noite. — a voz dela era baixa, mas sua entonação carregava um peso que fez meu coração acelerar.
— A honra é minha, Vossa Majestade. — consegui dizer, mantendo minha postura impecável. — O evento está deslumbrante, uma celebração impressionante da moda e cultura do seu reino.
O sorriso da rainha se ampliou, um gesto calculado, mas que parecia genuíno.
— Venha. Caminhe comigo. — disse, virando-se lentamente antes de acrescentar, sem sequer olhar para mim: — Sente-se ao meu lado.
Um murmúrio de surpresa percorreu o salão. Era um convite raro e inesperado.
Meu coração acelerou, mas não havia como recusar. Endireitei-me e respondi, no tom mais controlado que consegui:
— Será um privilégio.
Segui a rainha, sentindo cada par de olhos no salão me acompanhar enquanto caminhávamos até a mesa de honra, posicionada no centro do espaço. A música retornou, mas agora parecia bem mais a minha marcha fúnebre.
A rainha se sentou e fez um gesto para que eu me sentasse na cadeira ao seu lado. Suas damas de companhia sentaram à sua esquerda.
— O dono está atrasado, não deve se importar se você ocupar o lugar. — declarou, com indiferença.
— Agradeço o convite, Majestade. — comecei, já pensando em como sairia dali. — Mas se eu estiver incomodando, não se preocupe, eu posso me sentar na mesa da… — a rainha me interrompeu.
— Eu a convidei, não? — ela tomou um gole do vinho que um dos guardas reais lhe serviu. — Mais um pouco e eu acharei que não quer minha companhia, senhorita Petrova.
A rainha tomou outro gole do vinho, observando-me com um olhar que parecia atravessar qualquer fachada. Engoli em seco e decidi permanecer em silêncio até que ela iniciasse a conversa.
— É curioso. — ela começou, girando suavemente a taça, sua voz baixa para que somente nós pudéssemos a ouvir. — Ver uma jovem como você tão empenhada em estar aqui. Deve haver um bom motivo para que você tenha rompido o sigilo da sua presença.
É claro que eu seria questionada. Osteland foi fortemente pressionada a esconder minha presença e agora eu, sem aviso, quebrei isso. Engoli em seco, antes de responder.
— Um evento como esse pode ser uma boa oportunidade de conhecer pessoas, descobrir intenções. — murmurei, ajeitando minha postura. Eu não posso me deixar ser intimidada. — Chegou até mim que algumas pessoas podem não estar felizes com nossos acordos, é do interesse de Geróvia investigar.
Ela inclinou a cabeça, os olhos avaliando cada palavra minha. A rainha pareceu ponderar alguns segundos, me analisando.
— E qual é sua visão sobre esses nossos acordos? — perguntou, agora sem rodeios.
Hesitei por um segundo, surpresa com a abordagem, e pensando cuidadosamente na resposta.
— Acredito que alianças como esta fortalecem os reinos. — comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas não posso ignorar que raramente se considera a felicidade individual de quem está diretamente envolvido.
A rainha arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso brincando em seus lábios.
— Sabia que as pessoas me consideram fria? Calculista, talvez. Mas, veja bem, Evelina… — ela me chamou pelo nome, o tom de voz firme. — Meu filho não está em negociação.
Aquelas palavras atingiram como um trovão. Meu olhar subiu instintivamente, mas sua expressão era impassível, calculada.
— Será uma benção divina se uma paz entre os países surgirem da felicidade dele, e para isso, estou disposta a conhecer Katerina pessoalmente. — continuou, um toque de sinceridade na voz que era impossível ignorar.
— Majestade… — comecei, sentindo que precisava responder, mas ela me interrompeu.
— Não participei e nem participarei de nenhuma reunião que use a vida do meu filho como moeda de troca. — ela bebericou o vinho como se estivéssemos tendo uma conversa casual. — Nik pode estar disposto a se sacrificar, infelizmente herdou o mesmo senso idiota de dever que o pai tem. “Pelo bem maior” e toda essa baboseira de múnus.
Fez um gesto com a mão, como se tudo fosse irrelevante.
— Mas o que me intriga é que Geróvia nos manda uma jovem, como você, sob o pretexto de verificar a integridade do meu filho. E quem verifica a da princesa? — seu olhar pousou em mim com intensidade. — Quem garante que ela não virá até nós interpretando um papel?
Engoli em seco, tentando manter a compostura.
— O intuito nunca foi investigar o príncipe, Majestade. — respondi, escolhendo as palavras com cuidado. Era sim, mas eu não iria admitir. — E sim assegurar que o ambiente não apresentasse riscos para a princesa.
A rainha ergueu uma sobrancelha, o sorriso voltando aos lábios.
— E quem garante que este casamento não é um risco para o meu filho? — ela rebateu, inclinando-se levemente para frente. — Nik tem sacrificado muito mais do que deveria por essa união.
Hesitei, antes de criar coragem para fazer a pergunta que talvez eu não devesse.
— A senhora concorda com a opinião de alguns nobres? De que outro meio seria mais eficaz do que esta união?
A rainha riu suavemente, mas o som era desprovido de humor.
— Você é corajosa, senhorita Petrova. — disse, analisando-me. — Poucos teriam coragem de perguntar isso a uma rainha. Mas vou lhe dizer: gosto dessas alternativas tanto quanto meu marido e meu filho. — ela fez uma pausa, seus olhos brilhando com algo que parecia ser orgulho contido. — Não o suficiente para destruir o que estamos tentando construir.
A rainha me estudou por um instante antes de prosseguir.
— Sabe o que acontece fora destes muros, Evelina? — sua voz era baixa, mas carregada de significado.
Hesitei, mas sob o olhar atento dela, optei pela verdade.
— Sei, Majestade. — murmurei, a honestidade saindo em um tom quase inaudível.
A rainha assentiu lentamente, parecendo surpresa por meio segundo.
— E imagina o que vai acontecer com a imagem de Nikolaus quando ele efetivar a desconfiança desses grupos? Ele será julgado, criticado. — sua voz tornou-se ainda mais fria. — Apenas quero que meu filho possa fazer uma escolha por conta própria. Pelo menos nisso, meu marido e eu tivemos direito.
Olhei para a mesa por um instante, ponderando suas palavras.
— Eu também espero isso para a princesa, Majestade. — respondi, erguendo o olhar novamente. — Este casamento não foi algo visado antes, mas há muita confiança sendo depositada nisso. Torço para o sucesso dessa união muito além da política. — o príncipe veio em meus pensamentos, e me vi sendo sincera. — Nikolaus parece alguém justo, respeitoso, e que será bom para ela. Eu lhe asseguro que a princesa pode ser também.
A rainha ergueu uma sobrancelha, e um pequeno sorriso curvou seus lábios.
— As pessoas não costumam o chamar pelo nome. — comentou, casualmente, mas o peso de suas palavras fez meu coração acelerar.
Minha respiração falhou por um segundo enquanto o significado daquela observação me atingia. Tentei disfarçar, mantendo a postura.
— Perdão, Majestade. Foi um lapso. — murmurei, meu tom tão controlado quanto conseguia, embora sentisse as bochechas queimarem levemente.
Ela não respondeu de imediato, apenas girou a taça de vinho em sua mão, parecendo saborear o momento antes de continuar.
— Você fala com uma convicção interessante, Evelina. — comentou, sua voz ligeiramente mais suave. — É bom ouvir essas palavras de alguém que claramente observa mais do que diz.
Antes que eu pudesse organizar melhor meus pensamentos para responder, a orquestra iniciou uma nova melodia. Os primeiros acordes suaves se espalharam pelo ar, e os modelos, como que guiados pela música, começaram a ocupar o centro do salão. Seus trajes fluidos pareciam dançar junto a eles, arrancando suspiros e aplausos dos convidados.
Era como se o ambiente todo tivesse mudado, a seriedade sendo substituída por uma leveza convidativa. Permiti que minha atenção seguisse o espetáculo, tentando recuperar minha compostura enquanto os convidados começavam a se juntar no centro, sendo atraídos pela bela valsa.
A rainha depositou a taça na mesa com um gesto calmo, mas sua voz cortou o momento como uma lâmina fina.
— Está na hora de aproveitar a noite. — declarou. — Você deveria dançar, senhorita Petrova.
— Eu não sei se seria apropriado. — comecei a protestar, mas ela já olhava em direção à mesa ao lado.
— Lorde Wendel. — chamou, atraindo a atenção de um homem alto, de cabelos escuros e expressão gentil. Ele se levantou prontamente e caminhou até nós. — Leve a senhorita Petrova para uma dança.
Ele sorriu para mim, estendendo a mão com elegância:
— Será uma grande honra.
Sem escolha, aceitei, tentando esconder meu nervosismo.
Enquanto ele me conduzia para a pista de dança, senti os olhos da rainha em minhas costas, como se enxergassem além dos meus ossos.
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