Notas iniciais
Espero que vocês se apaixonem por eles lendo, assim como eu escrevendo!

O vento frio no meu rosto foi a primeira coisa que senti, os dois cachecóis no meu pescoço aliviavam bem pouco o inverno de Osteland. Passei os dedos, cobertos pela grossa luva de lã, para ajeitar meu cabelo castanho que caía em ondas sobre as várias camadas de casacos. Agradeci internamente à minha mãe por me obrigar a colocar casacos mais grossos na mala ou eu não sobreviveria aqui muito tempo.

O céu estava cinza, e a neve cobria o solo ao meu redor, formando um contraste frio e majestoso com o jatinho que acabou de aterrissar.

— Gelado, hein? — meu tio, George Petrova, parou ao meu lado, na frente do jatinho que ele pilotava há poucos minutos, enquanto esfregava as mãos com a luva.

Ele é piloto da família real de Geróvia há uns bons 15 anos e estava curtindo a licença temporária por ter se tornado pai, mas se ofereceu para voltar assim que soube que eu viria. Provavelmente em partes para acalmar minha mãe e garantir que me entregaria sã e salva no solo.

Tio George tinha os mesmos cabelos escuros e olhos avelã como os da minha mãe, assim como os meus também, mas agora o grisalho da barba denunciava o início da meia idade.

— Bem que me avisaram que o inverno aqui castigava, ainda bem que volto hoje para casa. — ele completou.

— É, não tenho o mesmo privilégio.

Eu resmunguei talvez um pouco alto demais, já que um dos guardas do palácio, descarregando minhas malas, pareceu ter empertigado.

— Boa sorte com isso. — ele olhou para os guardas e apontou com o queixo. — Não vai ser fácil. Mas pelo menos mandaram você, com sorte, vai aliviar um pouco esse ambiente para nossa princesa. Você é boa.

— Não sei se boa o suficiente para aliviar uma briga de séculos. — falei um pouco mais baixo para só ele, que estava do meu lado, ouvir. — Devo fingir que não fui mandada só para testar se eles não vão explodir nenhum geroviano? — “uma assistente morta faz menos falta que uma princesa”, é o que não acrescento.

— Você sabe que não é só isso. — tio George respondeu, baixando a voz para um tom mais grave, o olhar passando pelos guardas como se avaliasse cada movimento deles. — Eles precisam de você para mais que um escudo. Você conhece Katerina melhor do que qualquer pessoa, sabe como lidar com ela, e, mais importante, sabe como mantê-la segura.

— "Mantê-la segura"? Parece que vocês esqueceram que a segurança dela depende de eu não morrer antes. — murmurei, cruzando os braços e observando as malas sendo colocadas no carro. — Não acho que vão me tratar com flores aqui.

Tio George soltou um suspiro pesado e se virou para mim, segurando levemente meu ombro.

— Você sempre foi mais forte do que pensa, Evie. Eu sei que está com medo, e tem todo o direito de estar. Esse casamento pode parecer apenas uma união política, mas tem muito mais em jogo. — ele fez uma pausa, como se ponderasse suas próximas palavras. — O que você vai fazer aqui, Evelina, pode mudar o futuro de dois reinos. E, para isso, você precisa manter a cabeça no lugar.

— Mudar o futuro... — repeti, deixando escapar uma risada seca. — Não acha que é muita responsabilidade para alguém que só foi treinado para carregar a bagagem emocional da princesa?

— Não se subestime, garota. — ele balançou meu ombro com um sorriso suave. — Você sempre foi boa em enxergar além do que as pessoas mostram. Use isso a seu favor. E, só um conselho... — ele hesitou, como se não quisesse continuar, mas decidiu falar mesmo assim. — Tome cuidado com o coração. Isso aqui não é só sobre política. É sobre poder, interesses... e pessoas. Não deixe ninguém tirar vantagem das suas emoções.

O peso das palavras dele me atingiu mais do que eu gostaria de admitir. Não era só uma missão; era um jogo, e eu tinha acabado de me tornar uma das peças mais vulneráveis ​​no tabuleiro.

— Eu vou ligar quando puder. — foi o máximo que consegui dizer antes de virar o rosto para esconder minha expressão, fingindo observar os guardas se afastando do jatinho.

— Faça isso, sua mãe vai querer novidades. E lembre-se: você dá conta. — Ele bagunçou meu cabelo de leve, como costumava fazer quando eu era criança, antes de caminhar de volta para o jatinho.

Enquanto ele subia as escadas, senti o peso do que estava para me atingir cheio. Osteland era um território estrangeiro, cheio de incertezas. E eu, Evelina Petrova, estava no centro disso tudo.

Achei que pareceria um pouco infantil demais ficar olhando enquanto ele fechava as portas e voava de volta para nosso lar, então só ajeitei os ombros e me virei em direção aos guardas.

Oito deles pararam em fileira perto de mim — todos com idênticos uniformes azuis com detalhes pratas, luvas e calças brancas —, cada um com uma mala minha na mão e parecendo nada feliz. O mais velho deles, com mais medalhas adornando o uniforme azul marinho, deu um passo em minha direção com uma sutil reverência.

— Srta. Petrova, suas malas estão prontas. Permita-me acompanhá-la até o carro que a levará para o palácio. — suas feições eram severas, mas menos infeliz que a dos outros. Eu assenti.

— Me mostre o carro... major Rumpert. — Li o seu crachá no peito. Então eles me enviaram um chefe da guarda? Pelo menos estão valorizando minha vida. Ou com medo de que eu cometa terrorismo.

— Claro, minha senhora. Me acompanhe.

Ele me levou até uma enorme SUV blindada com três guardas altos nos esperando do lado. Dois eram muito parecidos em aparência com pele clara, olhos verdes e cabelo raspado, mas um deles usava uma balaclava preta que deixava visível só um par de olhos azuis claros. E que olhos. Eu teria uma bela sorte se todos os homens de Osteland fossem bonitos assim, pelo menos teria algo para me divertir. “Tome cuidado com o coração”, eu não preciso envolver meu coração para me aproveitar um pouco, não é?

O major ordenou algo para o guarda de olhos bonitos que assentiu e abriu a porta traseira do carro para que eu entrasse, entrando também logo em seguida, deixando o major no banco do passageiro. Os outros dois seguiram para o carro na nossa frente.

O silêncio no carro não era desconfortável, mas as constantes olhadas de lado do guarda para mim, definitivamente eram. Eu checava meus e-mails no celular antes de responder algumas mensagens avisando que estava bem.

SUV’s idênticas às nossas nos acompanhavam bem de perto.

— Uma escolta de 4 carros para buscar uma única visitante... — comentei para meus colegas de carro enquanto observava pela janela. — Vocês realmente devem pensar que sou uma criminosa.

Um silêncio agora bem menos confortável pairou por alguns segundos antes do guarda ao meu lado tossir suavemente.

— Não acha que talvez seja para sua segurança... minha senhora?

A voz aveludada carregava um certo tom de deboche que eu não esperava e me fez virar na direção dele.

— Eu duvido um pouco. A princesa não está aqui e, pelo que eu me lembre, o protocolo de 4 carros é somente para a família real.

— Estudou nossos protocolos?

— É meu trabalho. E imagino que não seja o seu, já que, pelo protocolo do seu reino, um guarda não deveria se dirigir à um convidado sem a ordem de um membro da realeza. — respondi deitando minha cabeça um pouco para o lado.

Ouvi o banco se remexendo na parte da frente do carro, o major e o motorista estavam visivelmente desconfortáveis. Mas para minha surpresa, o major não corrigiu o subordinado.

— Impressionante, mas garanto que tenho a permissão do príncipe. — respondeu ele, a voz baixa, com uma pitada de deboche. Aquele era um encarregado direto do príncipe, então? — Mas, ainda assim, você não parece um pouco precipitada em considerar nossa segurança como “paranoia”? Osteland e Geróvia têm um histórico longo de desentendimentos.

"Histórico longo", essa é uma boa maneira de pôr, — murmurei, quase sem encará-lo. — Mas preciso de toda essa recepção como se eu fosse um agente infiltrado? É exagero.

Ele inclinou o corpo levemente para mais perto, e os olhos se fixaram nos meus, frios, quase avaliados. Eram de um tom impressionante, de perto não eram apenas azuis, eram tempestuosos, um azul cinzento como nunca vi antes.

— Aparentemente, você nunca viu Osteland de perto, então, não entende. — o tom arrogante na sua voz quase me forçava a revirar os olhos.

— Imagino que quem precisa de mais proteção é uma princesa, — rebati. — Então, na verdade, tudo isso parece muito para uma simples assistente.

— Assistentes podem ser perigosas, passam despercebidas, mas sabem muito, conhecem tudo e todos. Essa arma vale mais que muitas outras.

— Interessante teoria, — respondi, sentindo o frio cortar minhas bochechas ao desviar os olhos para a janela. Eu estou sendo muito observada então. — Mas acho que são vocês que gostam de um drama.

Ele não respondeu, mas o silêncio carregava um peso inesperado. Os olhos dele ainda me observavam.

O carro desacelerou levemente ao dobrar uma esquina, e vi uma silhueta imponente se formando à distância: o palácio. À medida que o carro se aproximava, o palácio de Osteland erguia-se diante de mim, como se tivesse sido esculpido do próprio gelo. As torres altas, com detalhes finos em azul marinho e prateado, refletindo o céu cinza e criando um contraste impressionante com a imensidão branca

— Bem-vinda à Osteland, srta. Evelina. — disse ele, a voz agora fria e formal.

Não agradeci.

Somente depois de descer do carro, parar boquiaberta no hall de entrada e ouvir os guardas trazendo minhas malas, é que notei que agora havia somente sete guardas comigo e nenhum estava com o rosto coberto.

Ao entrar no palácio, fui recebida por um silêncio quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo som ritmado das nossas botas. O chão de mármore azul acinzentado refletia o brilho frio dos lustres prateados que pendiam do teto como cascatas de gelo. Nas paredes, tapeçarias enormes retratavam cenas de batalhas e coroações, lembrando que Osteland não era apenas um reino, mas um legado imponente e inabalável. Eu ajeitei o cachecol e respirei fundo, deixando o olhar vagar por aquele espaço tão majestoso quanto intimidador.

"Então é aqui que começa o jogo", pensei, enquanto ajeitava o cachecol e tentava manter a postura. Não era só uma missão diplomática. Era uma guerra silenciosa, e eu acabara de entrar no território inimigo.

Notas finais
É meu primeiro livro, agradeço os feedbacks!