Naruto estava partindo para o treino sennin, mas tinha um recado para a irmã que confiou a Shikamaru. Ele sabia que o rapaz seria imparcial e não se abalaria pela atitude da ruiva.

— Conto com você com aquele código, Shikamaru. E diga a Kumiko que todos herdam o jeito ninja de seu mestre, fale para ela que eu a ajudarei no dela. – Naruto disse para Shikamaru.

Ninguém entendeu nada, afinal, nem Naruto entendia direito. Ele só sabia que Keiko havia dito que o jeito ninja de Itachi era proteger Konoha acima de tudo.

Todos sabiam que se herdava o jeito ninja de seu mestre; Naruto com seu jeito determinado e de nunca voltar atrás com sua palavra; Shikamaru com seu jeito de proteger o rei de Konoha. Keiko deveria ter algo semelhante ao jeito que ela dizia ser de Itachi.

Ele a ajudaria a proteger Konoha e o legado que Itachi deixara para a ruiva.

— Ele disse isso? Quem diria que ele ligaria aquilo que eu disse ao meu jeito ninja. — Disse Keiko com o olhar indiferente.

Shikamaru suspirou.

— Que seria? — Ele perguntou.

Ela ficou séria e Shikamaru sentiu gelo debaixo da pele. O olhar daquela garota era perturbador.

— Eu não tenho. Membros da NE não têm jeito ninja, não têm sentimentos e nem identidades. Nós vivemos apenas sob as ordens de nosso líder. Não temos vida, somos a raiz que sustenta Konoha e somente isso. — Disse Keiko friamente.

Shikamaru arregalou os olhos e viu a ruiva lhe dar as costas. O cenho franzido, ele percebeu que tudo que ela dissera parecia tão... Padronizado?

Fazia muito tempo que Keiko não dizia aquelas palavras. Aquilo era coisa que iniciantes tinham que ficar repetindo, como para fixar a ideia na mente.

Talvez ela tivesse convivendo demais com Naruto. Keiko precisava lembrar quem ela era e os planos que tinha. Itachi se fora, então agora ela tinha que honrar sua memória.

As decisões que pessoas como ela e Itachi tinham que tomar nunca eram fáceis.

Ela desceu por um alçapão do Centro de Inteligência ANBU, já que o Centro da NE ficava no subterrâneo de Konhoha.

Keiko passou por uma das salas de treinamento, a ruiva já estava com seu uniforme e máscara, sua capa branca pendurada no braço dela e o cabelo solto. Cabelos vermelhos como os dela não eram comuns, mas ela não convivia o suficiente para que alguém a reconhecesse sem a máscara.

Na sala havia uma garota lançando kunais em uma estátua de treinamento. Keiko parou na porta da sala, um impulso antiga a forçando a ficar, e observou a técnica familiar da garota.

— Se lançá-las com tanta hesitação, nunca acertará. — Disse Keiko.

A menina se virou. Jovem, mais do que Keiko, com cabelos castanho escuros que batiam pouco acima dos ombros magros e olhos amarelos. O rosto dela era arredondado e havia uma vulnerabilidade na expressão que dizia a Keiko que aquela menina não fora quebrada pela Anbu ainda.

Ela abaixou os olhos perante a shinobi de máscara.

— Danzou-sama diz que eu tenho que ser mais impiedosa, mas eu não quero machucar ninguém. — Disse ela.

Keiko se aproximou dela estreitando os olhos. Falar aquilo para um Anbu maduro era arriscado, até burro, e isso só provava que aquela garota não tinha experiência e nem malícia nenhuma.

— Você tem quantos anos? — Perguntou Keiko.

A menina a olhou com medo. A pobre criança sabia como eram os ANBU NE formados. Tinha medo deles.

Ao menos aquilo.

— Tenho treze. Meus pais foram mortos por shinobis de Amegakure e Danzou-sama me salvou pra que eu treinasse. — Disse a menina parecendo insegura e ansiosa. Claramente ninguém falava com ela ali e ela deveria estar confinada até ser enviada para um dos campos de treino. — Quantos anos você tem?

Keiko a olhou friamente. Seus olhos era tudo que a pequena via e sabiamente os temeu, já arrependida da pergunta.

Essa menina não vai apenas quebrar Keiko percebeu Ela será massacrada.

— Eu tenho dezesseis anos. — Disse Keiko, pensando em algo profundamente. Aquilo poderia se encaixar em seus planos? — Qual seu nome?

— Akane. Takahashi Akane. — Disse a criança tremendo.

A mulher em sua frente era extremamente intimidadora.

Keiko deu um meio sorriso e tirou a máscara. Akane arregalou os olhos. Era verdade o que a Anbu dissera da idade. Akane não acreditara realmente. A outra tinha mesmo a idade semelhante a própria.

Era muito nova, seu rosto ainda era jovem demais para ser qualquer coisa menos o de uma adolescente.

— Eu sou a aprendiz favorita de Danzou-sama. Segundo ele, serei a próxima líder dessa organização. Apartir de agora, eu irei lhe treinar. — Disse Keiko a Akane, que voltou a arregalou os olhos.

Essa menina tem que parar de ser tão transparente Keiko pensou percebendo o gigantesco trabalho que teria pela frente. Bem, Itachi fizera algo mais difícil com ela. Ela poderia fazer funcionar com Akane.

— Por que quer ser minha mestra? — Perguntou para a adolescente de olhos frios.

Akane tinha vontade de correr apenas ao olhar para os olhos de Keiko. Keiko olhou para Akane e seu meio sorriso continuou em sua face.

Ela não era como as outras pessoas. O sorriso não iluminava ou suavizava seu rosto. Keiko era ridiculamente linda, mas seus olhos frios lhe davam um aspecto estranho quando ela sorria.

— Você me lembra a mim mesma quando criança. Eu também tinha medo de machucar as pessoas, mas eu transformei isso em força. — Disse Keiko com aquele mesmo tom frio. Deveria ser um padrão.

Akane não entendeu, mas ela tinha noção que não sabia muita coisa sobre ser uma Anbu formada. Ela não sabia quase nada.

— Venha, vamos informar Danzou-sama.

Akane olhou confusa para Keiko. Enquanto esta colocava novamente a máscara, Keiko a guiou pelo centro da NE. Akane nunca andara tanto pelo complexo, mas percebeu que as pessoas afastavam o olhar quando Keiko passava, seus cabelos vermelhos sendo um diferencial junto da máscara de kitsune.

Mesmo aqueles Anbu antigos e frios tinham respeito por ela. Ou medo, se fossem capazes disso. Akane se perguntou quem era a pessoa a frente dela e se ser treinada por ela seria uma melhora ou uma piora ao que já enfrentava.

Passaram por campos de treinos, salas de reuniões, biliotecas até chegarem ao local onde Danzou recebia as pessoas.

— Keiko... O que faz aqui? Pensei que estaria treinando a esse horário. E a criança? — Perguntou Danzou com certa frieza. Akane viu Keiko se abaixar em uma espécie de reverência. Ela se retesou, nem um pouco disposta a fazer o mesmo. — Levante-se. Já disse que você não deve fazer isso.

Keiko se levantou, mantendo a máscara.

— Não é questão de dever ou não, é questão de respeito e submissão, Danzou-sama. — Disse ela friamente, como se não houvesse nenhum sentimento real por trás de suas palavras. Akane odiava tal frieza e a crueldade dos membros da Ne.

Era muita maldade. Eles eram todos assassinos e monstros. Akane os odiava e agora começava a realizar que a ruiva bonita não era nem um pouco diferente.

Danzou não pareceu atingido por aquele excesso de bajulação nojenta.

— Então, o que faz aqui, Keiko? — Perguntou Danzou.

Akane se perguntou o porquê dele chamá-la pelo nome. Ele sempre a chamava de criança ou garota. Era insuportável, pois ela tinha certeza que ele sabia seu nome.

— Essa criança... — Akane odiou Keiko se referindo a ela dessa maneira. — Quero tê-la como minha discípula.

Akane notou pelo olhar de Danzou que aquilo não era feitio dela, que não era algo comum. Os olhos frios dele pairaram em Akane e a garota tremeu.

Ela questionou para si mesma o real motivo de Keiko querer treiná-la, já que duvidava muito que aquela Anbu lhe falaria a verdade sobre algo.

— Se quer, fique a vontade. Deixarei que faça o que quiser com ela, apenas tenha a consciência que estará treinando um futuro membro da Raiz de Konoha. — Disse Danzou. Frio se estabeleceu sob a pele de Akane com aquelas palavras.

Keiko assentiu.

Akane não tinha direito de dizer se queria ou não aquilo? Mas ela já sabia a resposta. Não. Não havia ninguém no mundo por ela depois da morte de seus pais. Danzou a assumira, apesar de Akane ter preferido tentar a sorte na rua, porém a garota sabia que ele tinha direitos legais sobre ela.

Ele deixará isso claro.

— Obrigada, Danzou-sama. — Disse Keiko.

Akane torceu a cara. Era muita bajulação! Odiava Danzou, já que ele era o ninja que comandava aquela corja de assassinos, e odiava Keiko também, pois ela fazia parte daquilo e lideraria aquilo algum dia.

E ela seria responsável por ela. Não passou pela mente de Akane em momento algum que a proteção de Keiko lhe daria algum status ali, mas a garota estava longe de entender tudo que ocorreria dali para a frente.

Keiko chamou Akane para sair. Uma vez longe dos ouvidos de Danzou, a mais velha virou-se para ela. O corredor aonde estavam tinha todas as portas fechadas e estava desértico.

— Sei do seu ódio, posso sentí-lo de tão intenso. Odeie-me o quanto quiser, apenas saiba que, treinando comigo, você sofrerá muito menos. — Disse Keiko em tom gélido — Mas não se engane. Não sou mais suave que os outros deles. Se você não colaborar, eu serei pior do que qualquer outro nesse complexo. Não fui escolhida por Danzou aleatoriamente, Akane, então não me subestime.

Ela colocou a capa branca e chamou Akane para um local onde deveria ser a saída. A garota fervilhava, mas uma camada de medo revestia seu estômago em mescla com o ódio, pois o que Keiko dissera era verdade. Danzou não a escolhera pelo rosto bonito ou as cores raras.

Ele a escolhera, certamente, por ela ser a pior entre os piores.

Keiko guiou Akane até uma casa gigantesca, muito longe de onde saíram do complexo Anbu. Os olhos citrino da garota observaram as construções, a vila deserta, a casa senhorial no centro...

— Que lugar é esse? — Akane perguntou. Era muito elegante e bem cuidado, tudo parecia caro e bem feito.

— É minha casa, e agora é sua também. Vai morar comigo. Venha, irei explicar sobre o treinamento de um Anbu NE.

Akane não gostava da atitude de Keiko e lhe irritava saber que aquela garota que seria sua mestra. O medo estava começando a esmaecer conforme gravitava ao redor da ruiva, o que logo se provaria um erro.

Keiko levou Akane até seu quarto. Akane ficou admirada com a beleza do local e observou enquanto Keiko trocava de roupa. Ela corou, mas a ruiva não parecia ter pudor algum com o corpo.

Notou que Keiko não tinha nenhuma cicatriz e isso era estranho, pelo menos em sua opinião.

Todos da NE que ela já conhecera tinham muitas várias.

— Você não tem nenhuma marca de luta pelo corpo. — Comentou Akane enquanto Keiko vestia a blusa e colocava uma blusa e shorts arrastão por debaixo da roupa, então blusa e saia bege por cima.

— Eu nunca fui acertada de uma maneira profunda que não pudesse curar. Dificilmente encontro algum oponente que dure mais de cinco minutos em uma luta comigo. E sei que ficou curiosa sobre minha roupa, uso coisas assim para esconder isso. — Ela levantou a manga da blusa e mostrou uma tatuagem em formato circular.

— O que é isso? — Perguntou Akane curiosa, mas imaginando que era algo relacionado a Anbu. Só poderia ser.

Keiko deu um meio sorriso frio arrepiante e sentou na cama de frente para Akane.

— Existem dois tipos diferentes de Anbu. A Anbu comum e a Anbu Ne. — relatou Keiko a Akane.

Akane arregalou os olhos.

— Como assim? — Perguntou ansiosa. Era curiosa desde sempre, muito além do saudável, e mesmo que não fosse algo a qual queria viver Akane sabia que não resistiria a perguntar.

— Simples. Não pense que são diferentes no objetivo. Qualquer Anbu é um assassino. Lembre-se que a Anbu mata aqueles que são perigo para a vila, mas se alguém entrar no caminho... — Akane não deixou Keiko terminar.

— É isso que eu odeio. Vocês matam porquê? Pela vila? É patético! Vocês vendem suas almas por um conjunto de tijolos! — Disse Akane furiosa, os sentimentos subindo numa espiral explosiva quase descontrolada.

Ela de repente sentiu seu corpo indo de encontro a parede e os dedos de Keiko em volta de seu pescoço. A menina tentou respirar, mas era complicado com os dedos da adolescente apertando seu pescoço.

Engasgou e vou sua visão escurecer. Como Keiko tinha aquela força com uma mão só?

— A vila não é um conjunto de tijolos. A vila são as pessoas que vivem nela, suas famílias e sua cultura. Alguns de nós decidem que a alma e a vida não valem por si só, então nós as damos por aqueles que nunca poderiam lutar como nós. Pelo lar deles e por eles. Pelas gerações que virão depois de nós. Matamos por isso. Por eles. Por vocês.

Akane já estava sufocando, o discurso com fúria fria da ruiva maior do que o esperado, e foi então que Keiko a soltou. A garota caiu no chão, buscando ar com todas suas forças, a garganta em chamas, tosse escapando entre os arfares e seu rosto entre o carmim e o púrpura.

Sua aflição não pareceu tirar uma única emoção de Keiko.

— Por que... Por que quer ser minha mestra? — Perguntou Akane novamente.

Keiko estava rígida, seus olhos pareciam lâminas frias e cortantes quando a pergunta escapou de Akane.

— Você terminaria o treinamento básico no núcleo, eles lhe mandariam para longe com outra criança e os dois iriam treinar juntos por anos. Desenvolveriam laços, companheirismo, sentimentos... E o teste final seria uma luta na qual um de vocês deveria matar o outro. Quem vencesse ingressaria na NE. Se vocês recusassem a luta, ambos seriam mortos.—Disse Keiko friamente.

Akane olhou para ela horrorizada. Aquela ruiva em sua frente passara por aquilo? Se ela estava ali, então ela matara alguém naquele arranjo. Sentimentos, convívio... Keiko o fizera.

A menina deixou de esperar misericórdia em qualquer coisa da mais velha então. Se Keiko fizera aquilo, então ela faria qualquer coisa a ela.

— Isso é horrível! — Akane exclamou.

Keiko assentiu. A concordância surpreendeu Akane.

— Eu quis me tornar sua mestra pois, assim como você, eu não gostava de machucar ninguém. Odiava ferir o outro, fosse quem fosse. Quis impedir que fosse mandada para o treinamento de Danzou... Eu passei por aquilo e sei como é horrível, apesar de entender que é funcional.— Disse ela, tensa, e a forma rígida dela fez Akane suspeitar que falava à verdade. Que não era fácil falar a verdade mesmo para ela. — Fiz isso para te salvar.