A Anbu

15 O inicio de uma amizade




— A cor do seu cabelo é estranha. — Disse Akane com os enormes olhos amendoados focados nos cabelos vermelhos.

Elas estavam novamente sentadas na cama. Keiko olhou para uma mecha de seu cabelo. Não devia, mas uma memória agridoce despontou em sua mente.

— Um antigo amigo meu dizia a mesma coisa. — Disse Keiko querendo afastar de si a memória de Satsuki.

— Por que Danzou te chama pelo nome? — Perguntou Akane.

Keiko revirou os olhos. A garota estava curiosa com muitas coisas, certamente, mas a forma como se empoleirava em sua cama e despejava perguntas a fazia parecer mais uma criança do que uma adolescente. Aquilo teria que mudar.

— Você não sabe nada sobre a ANBU mesmo, não é? — Akane acenou em concordância. — Eu não me chamou Keiko, é um nome falso. Enquanto usamos as máscaras nós não somos mais pessoas, somos instrumentos da vila. Nem mesmo nosso nome pode ser revelado.

Akane detestava quando Keiko falava assim, era mórbido, e isso ficou claro na forma como ela franziu o rosto observando a ruiva.

— Então qual seu nome verdadeiro? — Perguntou Akane. — Ei, de quem é aquilo?

Ela se referia a uma das jaquetas laranjas de Naruto jogada no canto do quarto. No meio da chegada de Akane, a ruiva não perceberá. Iria esganar o irmão por aquilo. Keiko balançou a cabeça.

— Idiota, ele é muito descuidado. Esqueceu isso no meu quarto. — Disse Keiko para ela mesma, balançando a cabeça. Depois encarou Akane confusa, pois a garota ficou muito vermelha repentinamente. — Que foi?

— Ah... Aquilo é de algum namorado seu? — Perguntou Akane tímida.

Keiko estreitou os olhos e abriu um sorriso malicioso pequeno. O constrangimento da garota lhe deu uma diversão maldosa. A verdade é que durante a infância, Keiko só tivera uma amiga e atualmente aquela amiga nem deveria se lembrar mais dela.

Hyuuga Hinata... Aquela história era antiga e Keiko tinha que parar de escava-las.

Era engraçado ver Akane daquela maneira. Constrangida e até oprimida.

— Então você tem vergonha de falar de garotos... — Falou Keiko com ar malicioso moldado. Keiko particularmente não pataca do tema, mas era bom tirar a outra do prumo. Akane ficou ainda mais vermelha — Não se importe, não sou boa com brincadeiras. Eu não tenho namorado, aquilo é do meu irmão.

Akane arregalou os olhos, surpresa. Keiko suspirou e se levantou.

— Quanto ao meu nome, se me perguntasse a duas semanas eu me recusaria a contar, mas muitas pessoas já sabem meu nome real e não acho que haja necessidade de escondê-lo. Porém, não me chame assim perto de Danzou-sama ou não terei pena ao castiga-la. Me chamo Uzumaki Kumiko. — Declarou de maneira indiferente, pegando a jaqueta de Naruto e a levando para o quarto dele.

Quando voltou, Akane ainda estava na mesma posição.

— Nome bonito. Ei, por que me querem na ANBU NE? — Akane perguntou.

Keiko parou e a encarou com expressão pensativa. A pergunta era pertinente. Danzou não adotava qualquer órfao para a NE. Ele reconhecia um talento, assim como levava sempre alguns espetes para morrerem. Se um destes sobrevivesse, significava que tinha evoluído o suficiente para ser útil.

Akane não parecia um estepe, mas ela saberia se tivesse alguma habilidade específica, não?

— Irei buscar seu histórico amanhã. É estranho. Eles não costumam pegar pessoas como você, que hesitam tanto em machucar os outros, muito menos na sua idade. — Disse Keiko andando até a cama novamente.

— Tem algum critério para as pessoas que entram? — Perguntou Akane.

Keiko assentiu.

— Em geral são crianças muito jovens. Por volta de seis ou sete anos, crianças que ainda não tem uma opinião formada e princípios próprios, que serão facilmente manipulados para os preceitos da ANBU NE. — Keiko comentou friamente.

Akane ainda se surpreendia com tal frieza. Ela fora uma daquelas crianças e falava naquela insensibilidade sobre o processo?

— E você fica fria desse jeito sabendo que foi uma criança que foi manipulada para pensar assim? — Disse Akane.

Keiko deu um sorriso cruel e seus olhos faiscaram.

— Oh, mas eu não fui assim. Eu tinha quase nove anos quando fui para o treinamento. Em geral, são crianças sem o mínimo de experiência shinobi. Mas não eu, já era uma Tokubetsu Jounin quando fui recrutada. Fui um gênio em todas as minhas classes e me formei Gennin aos quatro anos. Na época da academia eu já era nível chuunin. Eu e meu melhor amigo havíamos sido indicados por nosso sensei, que também foi meu mestre. Ele não era um ANBU NE, mas era um dos melhores ANBUs. Aos dez anos, eu me tornei uma NE. — Disse Keiko para a garota, que arregalava os olhos.

— Se você já era uma kunoichi desse nível, quer dizer que você já tinha opinião formada e seu jeito ninja definido. Por que fizeram isso? E seu amigo, quantos anos tinha? — Perguntou ela, assustada. Era quase pior do que se Keiko fosse uma criança moldada e manipulada.

— Ele tinha sua idade quando o matei, quando fomos ele tinha doze. — Disse Keiko calma e friamente, como se o fato dela ter matado o melhor amigo fosse normal.

Akane não fazia ideia de que Keiko tinha que suprimir aquelas memórias para que elas não a soterrassem.

— Ele era seu melhor amigo? Isso é cruel demais, seu mestre deveria saber desse teste! Por que os mandou sabendo que um não voltaria? — Akane perguntou horrorizada.

Keiko tentou não se lembrar dos dias que seguiram ao dia que ela beijou Itachi pela primeira vez. Que descobrirá o que aguardaria todos eles.

Ela fechou os olhos enquanto respirava fundo.

Ainda não se sentia bem falando de Itachi, pois era como se tudo que havia vivido por ele fosse em vão, como se a vida dela não fizesse mais sentido. As vezes aqueles pensamentos a acometiam e ela se forçava a lembrar a si mesma dos planos que fizera durante anos.

Fora isso ela evitava sentir qualquer coisa. Sabia que se permitisse a si mesma sofrer, mais do que já sofrera pela morte de Itachi, passaria dias ou semanas chorando no quarto e ele jamais desejaria isso. Jamais aprovaria que ela se reduzisse a isso.

— Ei, o que houve? O que eu disse? — Perguntou Akane.

Quando Keiko abriu os olhos, Akane viu um sentimento pela primeira vez e não gostou nada do luto que vira nos olhos dela. Aquilo era algo que ela reconhecia. Que vira nos próprios olhos por meses.

— Meu mestre morreu a alguns dias. — Disse Keiko olhando para o colchão. Imaginava o abismo que estava nos próprios olhos.

— O que houve com ele? Morreu em missão pela vila? — Perguntou Akane, já que era o usual.

Keiko balançou a cabeça negativamente.

— Não, eu só estou na NE porque ele me pediu. Eu só o vi uma vez desde quando eu tinha oito anos e foi pouco antes dele morrer. Ele era um nukenin. — Disse Keiko e, ao ver o choque no rosto de Akane, riu. — Já ouviu falar de Uchiha Itachi?

— Ele é o homem que matou quase todo o Clã Uchiha, estou correta? Ele foi seu mestre? — Questionou meio incrédula. Keiko assentiu. — Mas...! Ele é um assassino!

— Akane, existe mais por trás da história do massacre do Clã Uchiha do que você pensa. Sei disso, pois eu ajudei Itachi a organizar os preparativos para a morte de todo o Clã. Presenciei tudo. — Disse Keiko parecendo distante, imersa em memórias antigas. Um segredo guardado a vida toda, mas que agora Naruto e Akane guardavam fragmentos por serem parte da vida dela.

Não havia medo em Akane saber que havia mais por detrás. Todos com dois neurônios, principalmente na Anbu, sabiam que houvera mais naquilo. O que ocorrera, exatamente, era o que confundia os que ousavam teorizar sobre.

— Tem certeza que irá me ajudar com isso? Não quero lhe envolver. — Declarou Itachi calmamente no dia seguinte ao beijo deles. Kumiko ficava vermelha toda vez que ele a olhava por muito tempo. Ela sabia que aquilo já estava exasperando Itachi.

— Itachi-sensei... Eu disse que ajudaria, então o farei. — Disse Kumiko, determinada.

Itachi balançou a cabeça, sem opções. Eles se sentaram na mesma posição que no dia anterior e tal coisa fez Kumiko ficar vermelha novamente se lembrando do que ela fizera.

— Muito bem, o que sugere? — Disse, ele a encarando com um meio sorriso sereno. Confrontar Kumiko com o motivo de seu constrangimento não seria útil a eles.

Kumiko ficou levemente corada, mas se colocou a falar a ideia que ela tivera durante a noite.

— Eu estive pensando que no seu Clã tem muitos shinobis extremamente qualificados e isso será um grande problema... — Ela começou, mas ele a interrompeu.

— Eu já tenho alguém para me ajudar. — Disse Itachi.

Kumiko levantou os olhos para encará-lo.

— Quem, além de mim, iria lhe ajudar a matar todo o Clã Uchiha? — Perguntou Kumiko entre a confusão e a exasperação. Soava mais como ela mesma agora. Ele ouvirá aquele tom com frequência em planejamentos de missões.

Quem seria louco a esse ponto?

— Alguém que tem extremo ressentimento de todo Clã Uchiha. Uchiha Madara. — Itachi ficara meio sombrio naquele momento e Kumiko arregalou os olhos.

Ela não duvidava que Madara estivesse vivo, sendo ele a lenda Uchiha do mundo Shinobi e sabendo o que ela sabia, mas era muito perigoso se envolver com aquele homem. Itachi estava indo além do seguro, além do sensato, para levar aquilo adiante. A memória de Kumiko a levou para o primeiro dia com o time deles, o menino sonhador que disse que protegeria a vila acima de tudo e inspirou Kumiko a prosseguir. Que nunca desistiu dela, mesmo que ela errasse e estragasse tudo.

Uma outra memória a atingiu, muito mais opressiva.

Kumiko abraçou Itachi, surpreendendo-o. O ato foi tão repentino que o pegou de guarda baixa, mas ele não se importou, já acostumado com ela o tocando e abraçando, envolvendo a cintura dela com os braços.

— Eu sei que deveria ter contado antes, só que... Eu não tive coragem... Esse homem... Ele foi quem atacou Konoha à alguns anos... Eu desenvolvi um jutsu que me permite ver o que aconteceu em um local... E... E... — Ela de repente tremia e chorava muito. Itachi não sabia o que acontecera realmente no ataque de anos antes.

Sabia o básico que um ANBU deveria saber e apenas isso. Mas, pelo jeito que Kumiko tremia, tinha sido algo horrível. Não o surpreendia que Kumiko tivesse desenvolvido um jutsu ao qual não o contará sobre depois de uma memória ruim envolvendo. A garota estava o tempo inteiro criando e treinando coisas novas para deixá-lo orgulhoso, mas se o jutsu fora traumático então ela não o mencionaria.

— Meus pais... Meu irmão... A Kyuubi... O homem mascarado... Foi tudo tão horrível... — Ela chorava e soluçava. Itachi passou os dedos pelos cabelos dela. Ele esperava que ela nunca os cortasse. O Uchiha levantou a cabeça dela, fazendo-a o olhar nos olhos dele. Kumiko estava de olhos arregalados. O que estava acontecendo com eles?

— Fique calma, já passou. Madara não pode fazer nada conosco e, um dia, ele pagará por tudo que já fez. — Disse Itachi para tranquilizar Kumiko. Ele não achava que era o caso. Se Madara sobreviverá até então, era provável que sobreviveria mais do que ele. Kumiko não precisava ouvir isso, no entanto.

Ela parou de chorar aos poucos, mas ao notar o quão perto estava dele voltou a ficar vermelha.

— Por que será que sempre acabamos assim? Comigo chorando e você me consolando? — Perguntou meio melancólica.

Itachi sorriu minimamente, não gostava de vê-la triste.

— Bem, não foi o que aconteceu ontem. — Ele falou de maneira displicente.

Kumiko voltou a ficar extremamente vermelha e ele sorriu levemente. Ela ficava absurdamente fofa vermelha, apesar de não ser legal quando ela mal conseguia olhá-lo nos olhos.

— Me desculpe por aquilo. — Disse Kumiko.

Ela não se arrependia nem um pouco, mas não queria estragar seus últimos momentos com Itachi.

— Não há nada para se preocupar, muito menos se desculpar. — Disse Itachi calmamente.

Seus olhos gentis a encaravam. Foi ele quem a beijou naquele momento, da mesma maneira que o outro. Terno, puro, e inocente. Ambos eram apenas crianças, apesar de quererem tanto estar um com outro. Kumiko suspirou, quebrando o beijo.

— Queria que pudesse ficar aqui e que pudéssemos ter a chance de crescer juntos... — Disse Kumiko, apesar de saber o quão tola deveria estar soando. Eram os sonhos de uma menina. Uma que sabia que estava prestes a ser destruída em sangue.

Itachi sorriu. Às vezes Kumiko parecia uma criança inocente. Ela tinha certas esperanças que pareciam cada vez mais irreais.

— Um discípulo herda o jeito ninja de seu mestre e sei que você herdou o meu. Só espero que não tenha o mesmo destino que eu tive por ele. — Disse Itachi calmamente.

Ele parecia de fato querer isso.

— Itachi-sensei... Você tem a oportunidade de escolher. Deixe Madara fazer isso, ajude-o se quiser, só não leve a culpa por isso. Fique aqui, fique comigo. — Disse a menina com os olhos marejados. Ela estava implorando. Aquilo quebrou o coração dela e de Itachi simultaneamente.

Itachi acariciou o rosto dela, observando o modo que os olhos violetas estavam tristes.

— Quando eu era menor, eu vivenciei o horror da Terceira Grande Guerra Ninja, Kimi. Eu diria que tenho certo... Trauma... Da guerra. Eu não quero que isso se repita, não quero que você veja o que eu vi. Se eu puder evitar uma guerra civil, eu o farei. Protegerei a todos, a essa vila. — Disse Itachi no usual tom sereno, mas com aquela vontade de aço por baixo. Não terei crianças crescendo com a imagem que eu tive, com os pesadelos que tive.

Kumiko assentiu e beijou-o novamente ainda mais de leve.

— Eu tenho um plano. — Disse Kumiko.

Itachi sorriu contra os lábios dela.

— Minha pequena discípula estrategista... Me conte seu plano, Kimi.

Keiko olhou para Akane. Ela a encarava apavorada, como se a Uzumaki fosse a própria assassina do clã Uchiha.

— Akane, não me julgue. Itachi foi meu mestre e o único homem que eu amei. — Keiko nunca imaginou que contaria isso a alguém. Ela nunca verbalizara aquilo. Saiu por seus lábios com surpreendente facilidade apesar do segredo que fizera a vida inteira. Todavia, Akane seria sua discípula como ela fora de Itachi. — Tudo que eu lhe contar a partir de agora são segredos absolutos. Nada sobre minha vida deve ser revelado. Uma relação de discípulo e mestre é um laço que vai envolver ódio, mas devoção total. Eu vou te passar o máximo possível, assim como minha ideologia e ideais. Não é uma transferência de personalidade, é um ideal compartilhado.

Akane não entendeu direito, mas assentiu. Keiko perdera o homem que amara, não sabia muito sobre a garota, porém decidira confiar nela. Havia mais naquela Anbu ruiva. Keiko não deveria ter tentado tirá-la da Anbu por sua compassividade, deveria ter deixado Danzou quebra-lá, mas ali estavam elas.

— Não contarei... Mestra. — Disse Akane.

Keiko sorriu para a menina.

— Venha comigo, vamos descobrir que tipo de kunoichi você é. — Disse Keiko.

Akane assentiu. Não sabia nada sobre Keiko, não sabia se podia confiar nela. Mas a menina confiava, mesmo sem saber se deveria.