A Anbu
20 Escuridão da Raiz
Notas iniciais
Kumiko estava em frente ao prédio do Hokage, os olhos vagos e angustiados perante a iminente etapa que viria no plano de Itachi. Aquela parte do plano era dele, e dos lideres de Konoha, pois ela jamais teria cogitado pensar naquilo.
Ela sabia que Itachi estava lá. Ele havia lhe dito que, depois de falar com Sasuke, iria a Danzou e depois ao Hokage. Ela entrou no prédio, desacordando os guardas facilmente e sem ser notada. Não pensou, daquela vez, sobre aqueles adultos que deveriam ser mais cuidadosos de modo a não serem superados por uma garotinha. Kumiko caminhou até chegar ao corredor da sala do Hokage sem que ninguém a parasse.
Ela já havia limpado o sangue de sua pele, porém ainda havia um pouco em suas roupas e o cheiro era o que o delatava, por conta do tom arroxeado do quimono tão comum a si.
Kumiko chegou mais perto da sala apenas para encontrar Danzou e o Sandaime discutindo. A vozes eram baixas e comedidas, mas ela conhecia os dois o suficiente para entender que algo os pusera em discordância. Não demorou para que fosse notada por eles.
— O que faz aqui a essa hora, Kumiko? — Perguntou Sarutobi Hiruzen. Sandaime Hokage. A menina sempre admirou aquele homem, mas, atualmente, não havia muito espaço em sua alma para admiração ou tato.
Kumiko olhou de um para o outro. Eles estavam em frente a sala, a qual estava com a porta entreaberta e ela podia imaginar o que aquela sala guardava. Quem.
— Onde ele está? — Perguntou Kumiko, tentando manter a calma e não expor a dor que lhe rasgava por dentro a tanto tempo, mas que fora cravado com o mais profundo golpe naquele dia.
O Hokage a olhou por um momento. Um momento longo o suficiente para perceber a insensibilidade aquele rosto outrora tão gentil, o sofrimento por detrás das orbes violáceas...
— Sim, a garota sabe de tudo. — Declarou Danzou tranquilamente.
Hiruzen lançou um olhar indignado para o velho falcão de guerra como se questionasse o fato de ter ouvido corretamente.
— Danzou, você está passando cada vez mais dos limites. — Anunciou Hiruzen, previsivelmente irritado. – Uma criança, Danzou.
— Eu quis participar. — Murmurou Kumiko para não gritar com Hiruzen perguntando se ele desconsiderava Itachi como criança. — Apenas me diga. Cadê o Itachi-sensei?
— Lá dentro, Uzumaki Kumiko. — Disse Danzou friamente.
Kumiko não disse nada em resposta, apenas passou por eles e entrou na sala. Itachi estava sentado numa cadeira olhando para o nada, os cotovelos apoiados nas pernas e os cabelos caindo pelo rosto. Sua posição era de derrota, mesmo que ele tivesse obtido sucesso. A Uzumaki se perguntou no que ele estava pensando, mesmo sabendo que tudo em sua mente e coração estaria recheada de dor. O Uchiha participara muitas vezes de missões de assassinato, sempre acompanhando Kumiko nas quais haviam sido designadas para ela e jamais a deixando sujar as mãos, apesar dela já ter sido forçada a isso anteriormente.
Matar a família fora diferente, é claro.
Ela se aproximou dele. Itachi estava revivendo tudo o que fizera, se forçando a lembrar a dor de matar aqueles que eram sua família, seus pais.... Revivendo a dor de ter que mentir para a pessoa mais importante para ele, para que Sasuke tivesse a chance de se tornar forte e sobreviver naquele mundo shinobi amaldiçoado e abandonado por Kami quando se nascia com a maldição dos Uchiha.
Kumiko parou logo em frente a ele, passando os braços pelo pescoço do Uchiha, sentindo a tensão dele quando o abraçou e sentiu uma fagulha de luz dentre a dor e escuridão quando Itachi apoiou a cabeça no seu peito.
— Você sabe... que selamos nosso destino hoje, não é? — Perguntou Itachi baixinho, quase como se não quisesse que ela ouvisse, apesar deles saberem que os dois homens também os ouviam.
— Eu sei. Queria que pudesse ter sido diferente, mas não foi. — Disse Kumiko. Uma lágrima escorreu pelos olhos arroxeados e ela respirou fundo. Itachi a afastou de leve e secou a lágrima no rosto dela.
— Ambos trocamos nossas vidas pela segurança dessa vila. Eu quando decidi matar o clã e você quando fez aquela promessa. Irei embora, Kimi. Protegerei a vila de fora e vigiarei para que possa lhe avisar de algo grave. Você cuidará da parte interna. — Disse Itachi gravemente. Ele não podia falar demais, então só aquilo disse a garota que o Uchiha não confiava em Danzou ou em Hiruzen.
Sendo assim, ela também não o faria.
Kumiko assentiu com lágrimas rolando pelo rosto infantil que já havia visto muita coisa para seus oito anos de idade.
Ela se inclinou para dar-lhe um selinho longo. Era uma despedida e eles sabiam disso. Eles nunca seriam adultos juntos e jamais poderiam saber se aquele sentimento infantil se tornaria algo duradouro. Jamais poderiam ter mais. Ter um futuro.
Kumiko moveu a mão até sua bolsa de armas, retirando um colar com três aros que fizera como sua última obra de artesanato.
— Me prometa. Me prometa que nunca irá tirá-lo. — Pediu Kumiko, estendendo o objeto para ele. Uma parte dela sempre com Itachi...
Itachi deu um meio sorriso e pegou o colar, colocando-o no pescoço imediatamente
— Prometo.
Kumiko respirou fundo e deixou que mais lágrimas caíssem. Era sua última oportunidade de chorar livremente... Chorar com ele...
— O que aconteceu hoje... — Ela começou.
— Essa história deve ser segredo. Inteiramente, Kimi. — Declarou baixinho e a garota tinha noção que isso significava jamais repetí-la nem aos líderes. Eles não sabiam o que realmente ocorrerá.
A Uzumaki assentiu e Itachi se levantou, caminhando até o corredor para falar com as figuras de autoridade lá. Kumiko o ouviu fazer uma última ameaça a Danzou.
— Se acontecer algo a Sasuke ou a Kumiko, eu irei voltar e você sabe o que irá acontecer. — Declarou, rispidez no tom frio e uma presença tão poderosa que fez a garota dar um sorriso triste.
Kumiko sabia que ele contaria o que acontecerá, que tinha sido ordenado a matar seu clã. A vila massacrara os Uchiha, então o que impedia de fazer com outros? Isso, sem dúvida, seria uma vergonha para Konoha e para o Hi no Kuni, assim como um bom gatilho de insurreição.
O Hokage entrou na sala logo depois da partida de Itachi. Kumiko ainda estava de pé, o encarando diretamente com aquele mesmo vazio no rosto mesmo que seus olhos estivessem vermelhos e seu rosto ainda manchado de lágrimas.
— Sente-se, criança, quero conversar com você. — Anunciou serenamente.
Keiko não sabia porque se lembrara daquilo naquele momento. Talvez soubesse. A presença de Masaaki estava lhe trazendo lembranças que ela não queria mais. Coisas dolorosas que ela preferia não trazer a tona. Aquilo que pensara naquela noite, sobre a falta de futuro dela e de Itachi... Nunca fora tão real quanto naquele instante.
Itachi estava morto. Parte de Kumiko morrera com ele. Ela jamais seria completa sem ele. Jamais. Itachi não era apenas um amor, ele era parte de sua alma e aquilo era tão certo quanto o nascer e o pôr do sol.
— Eu entrei para a ANBU aos sete anos. Eu era sempre mandada em minhas missões junto a Itachi, creio que se lembre, Masaaki?
Ele assentiu com o olhar sério. Masaaki por muitos anos tentará argumentar com Itachi e Shisui sobre o tipo de desafio que empunham a ela, pois era jovem demais. Houvera uma inocência intensa demais nela naquela época. Uma inocência infantil que Masaaki tentara proteger sem notar que era algo impossível. Itachi a resguardara enquanto pudera, mas nunca negou enxergar o futuro fatalista que se estendia perante ambos.
— Mas você sempre foi muito gentil e acabava tendo pena de matar. — Ele revirou os olhos com um desdém forçado para não lembrar das brigas daquela época.
— Se meu inimigo me provocasse, ele certamente acabava morto. Foi isso que fez com que me levassem a ANBU. Itachi era mandado comigo para que eu não cometesse erros. O que ninguém sabia é que ele evitava que eu tivesse que matar com minhas próprias mãos. Itachi sabia o quanto aquilo acabava comigo. — Keiko contou com voz amena. Memórias de si mesma chorando, os braços de Itachi ao seu redor, a voz baixa lhe dizendo para desligar aquilo temporariamente... Ser forte para a batalha e deixar a dor para quando ela pudesse ter seu momento.
Ela se forçou a não se perder naquelas memórias, nem mesmo dando atenção as imagens que se formaram em sua mente.
— Mas depois que ele foi embora...? — Naruto começou, pensativo e temeroso ao ritmo que a história de Keiko tomava.
— Tive que lutar por mim mesma. Matar por mim mesma. Fiz um treinamento com o Líder da NE e fui recrutada. Foi aí que tudo de fato começou em minha carreira ninja. As missões eram sujas. Coisas que somente pessoas sem sentimentos poderiam fazer. Causei mortes cruéis, controlei golpes de Estado. — Disse Keiko como se dissesse que o céu é azul. Era para aquilo que fora moldada... A naturalidade daquela vida.
A unica coisa, a unica pessoa, que continua sua humanidade completa em mãos... A tinha levado consigo para o outro mundo. Então, Keiko estaria naquele e lutaria pelo que restara. Até que ela pudesse chegar a esse outro mundo também.
— Você fala isso como se fosse natural. — Naruto quase engasgou, chocado.
— A NE faz coisas que faria a Akatsuki parecer um bando de pacifistas idiotas. Não temos o direito de ter moral nem caráter. Nós mudamos nossos nomes, pois, a partir do momento no qual aceitamos isso, abandonamos nossa identidade. Não temos nome, personalidade, moral e absolutamente nada. Não somos mais humanos, apenas ferramentas que não devem falhar em proteger a vila, não importa como.
Akane balançou a cabeça. Descrença cobria sua expressão.Céus, ela quase fora parar em algo como aquilo. Teria morrido no processo, tinha certeza, mas Keiko lhe tirara daquilo. Tirara pois vira algo de si mesma em Akane, daquela antiga versão dela que temia matar... Mas algo daquilo ainda poderia ter realmente sobrevivido nela?
— Você vai mudar isso, não é? Transformará a NE em algo mais decente, certo? — Perguntou Akane sabendo que nos planos de Keiko ela planejava assumir a Ne. Os detalhes daquele plano Keiko jamais explicava.
Keiko a encarou e Akane não viu a garota que havia sido sua mestra e sua amiga nos últimos dias. Viu a mulher fria que lhe contara a história de sua mãe... Aquela que era uma assassina tão habilidosa que se tornara braço direito de Shimura Danzou.
— Mudarei poucas coisas, na verdade; Na época de Sarutobi Hiruzen deu certo, pois a NE e o Hokage cooperavam. Pretendo fazer isso com Danzou, caso ele realmente chegue lá, ou... com Naruto. — Disse Keiko olhando para Naruto que piscou rapido tentando assimilar o que ela queria dizer. — Você quer ser Hokage, não é, irmão? Então...
—O quê?! — Ele perguntou chocado.
Ela deu de ombros com displicência. Sabia que Naruto ainda não entendia o suficiente de politica para conceber o que ela insinuava, mas não era nada que ele não pudesse aprender com o tempo.
— Por isso quero que você realize seu sonho. Com a NE e o Hokage trabalhando juntos, Konoha voltará a ser o que era antes. — Disse Keiko olhando o céu. — Ou algo melhor do que isso.
— Então esse era seu plano. Ajudar Danzou a derrubar a Godaime para que você assumisse e cooperasse com o próximo Hokage para trazer Konoha a seu esplendor. — Disse Masaaki entre o assombro e a desconfiança— Ótimo plano.
Keiko assentiu tendo plena ciencia de que Masaaki suspeitara que ela não falara tudo. Nem falaria, obviamente. Keiko sabia que Danzou não era realmente de confiança e uma pequena parte venenosa de si ansiava pelo sangue dele assim como pelo daquele maldito mascarado. Com a oportunidade correta, Keiko iria tirar Danzou do tabuleiro de jogos também.
— Agradeço. Danzou irá para uma reunião com o Daimyo amanhã e ele será nomeado Rokudaime Hokage.
— Como sabe que será ele? Sabe que Hatake Kakashi também está na linha sucessória. — Disse Masaaki em duvida.
— Sim, eu sei disso. Porém, Danzou-sama tem seus meios de conseguir o que quer. Eu e você, Masaaki, devemos ser os únicos vivos que conhecem a totalidade do jutsu dele. E pensar... — Ela cerrou os punhos irritada brevemente sobre a origem do jutsu de Danzou capaz de conseguir fazer qualquer um fazer o que ele quisesse.
Um rapaz de voz calma, mas risada contagiante voltou em sua mente. Ele bagunçava seu cabelo e brincava com ela, enquanto olhava a face excessivamente calma de Itachi por sobre o ombro o provocando dizendo que iria tomar sua pequena pupila dele.
— O que houve, mestra? Ficou irritada de repente. — Akane questionou. Ela chamava Keiko de uma maneira diferente em cada ocasião. Se tratava como amigas era só pelo nome, se era uma professora era sensei, se fosse algo relacionado a NE era com o sufixo —sama. Se Keiko se comportasse daquele jeito frio que Akane abominava, ela a chamava de mestra para que nada se virasse contra ela.
A garota era realmente pontual em perceber seus humores.
— Apenas me lembrei de como Danzou-sama adquiriu sua técnica mais poderosa. — Disse Keiko olhando para o céu. Masaaki franziu o cenho, em duvida, sem saber a que ela se referia. — Vamos, Akane. Você irá me atacar com seu jutsu.
Keiko se levantou e Akane arregalou os olhos. Se manteve muito bem sentada e se recusou a erguer o corpo apesar do olhar levemente impaciente de Keiko.
— Espera! Você não disse que isso mumifica qualquer um que tocar? — Perguntou Akane assustada com a possibilidade de ferir Keiko, mas um leve sorriso irônico surgiu no rosto da outra.
— E eu já não lhe disse que derrotei a melhor usuária desse Kekkei Genkai que já existiu? — Perguntou Keiko naquele tom gélido
Akane assentiu, ainda insegura, e elas se afastaram de Masaaki e Naruto, que se mantinham sentados no mesmo local apenas observando com tensão aquele treino um pouco sério demais. Se Masaaki tivesse que apostar, Keiko falava muito pouco o que sentia e pensava realmente, então descontava naquelas coisas sem cabimento para se manter naquele controle gélido.
Akane fez o selo dragão e a bola branca e flamejante surgiu em sua mão. Ela se aproximou de Keiko tentando acertá-la, mas a Uzumaki desviou com tanta facilidade que a constrangeu. Quando Akane passou direto por ela, um jato de água saiu pela boca de Keiko e acertou a mais nova pelas costas jogando a garota longe. Akane ergueu o rosto do chão incrédula que tinha sido tão fácil assim.
— Mais rápido. Ou então tente lançar. Concentre seu chakra e faça com que ele empurre a esfera para longe de seu corpo. — Comandou a ruiva monotonamente. De fato ela não levara nem um único dano ou cansaço com aquela tentativa de ataque.
Akane se levantou e formou outra esfera flamejante. Um calor gostoso se expalhava pelo seu corpo e a fazia entender por que era tão fácil se concentrar primeiro na sensação. Dava um sentimento estranho de lar. Sua técnica a fazia se sentir em casa. Ela fez o que Keiko mandou, porém, a esfera se afastou somente um pouco dela.
— Acho que vou ter que treinar isso um pouco. — Disse Akane suspirando.
Keiko riu de leve e a menina observou como o rosto da mestre era bonito quando ela sorria. Ela era tão séria, tão fria e distante, mas seu rosto se iluminava tanto até com aqueles sorrisos fugazes. Houvera uma época aonde o rosto dela estivera sempre iluminado daquela forma? Poderia ocorrer novamente?
— Nada se aprende sem treino, Akane. — Disse Keiko.
Keiko voltou a se sentar ao lado de Masaaki e observou Akane continuar tentando lançar o Shakuton. Akane a encarava de canto as vezes e Keiko percebia na menina a mesma curiosidade absurda que crescera em si para Itachi e Shisui quando era criança. A mesma curiosidade que a levara a aprender, absorver e aplicar em sua vida tudo que ouvisse deles.
Talvez essa garota possa chegar longe,pensou Keiko olhando Akane.
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