A Alma De David

4 Promessa a um Macaco



David nunca saltara de paraquedas, mas devia ser aquela a sensação. Continuava caindo e aproximando-se da terra sólida lá em baixo, porém não havia uma corda para puxar e retardar a queda. Se o rio não fizera seu by CouponDropDown\">trabalho, e se de alguma forma inexplicável ainda estivesse vivo, chegara seu fim.



Zao apareceu num segundo, a túnica balançando ao redor de seus tornozelos, os braços abertos como se voasse. De fato ele estava. Transcrevia círculos ao redor de David, e quando se passou uns vinte segundos, parou no ar. De súbito David também parou. Não estavam de todo parados, mas descendo numa velocidade bem inferior.



A sensação era ótima, a adrenalina ainda percorria o by CouponDropDown\">sistema de David como se estivesse vivo. Isso o fez lembrar de que não sabia ao certo o que era naquele momento. Quis perguntar, contudo pousaram no chão com um pequeno solavanco; a gravidade tornou-se normal novamente.



O local era singularmente belo: era um campo verdejante de grama curta, com colinas distantes transcrevendo um círculo perfeito ao redor dos dois. E exatamente no meio havia um pequeno lago de água calma circundado de areia clara. Um pequeno barco boiava na margem mais distante. Com o pouco conhecimento que tinha sobre geografia, David achou que o lago fora bem maior em outra época, cobrindo todo o vale em que pisavam.



— Você deve estar com fome — disse Zao. — E mesmo que não esteja, precisa se alimentar. Sua cara está horrível.



David tocou sua face. Queria se olhar em um espelho; ao invés disso tocou os cabelos. Continuavam lisos e um tanto compridos. Tinham a mesma tonalidade dos da mãe, e era uma das memórias mais nítidas que ele tinha dela. Zao virou-se e começou a caminhar em direção do lago, David seguindo-o.



— Espere, eu não estou entendendo — disse o garoto, quase tendo que correr. — Se não estou morto, isso aqui não pode ser o paraíso, pode?



— Paraíso? — Zao riu. — Não chega a tanto. Mas seria injusto não comparar.



— Então o que é aqui?



— Ah, — Zao se virou, um sorriso largo no rosto — ninguém que esteve aqui jamais conseguiu nomear este lugar.



— Dúvida... — David disse para si mesmo. — Esteve deveria ser o nome do lugar, Dúvida.



Zao tornou a rir.



— Talvez. Não vamos perder mais tempo, você precisa comer.



— Não faz sentido comer já que não estou mais vivo — argumentou David.



— Não pense assim. Onde quer que vá, você sempre terá necessidades. Não é algo inteiramente físico, não se esqueça. — Zao continuou caminhando e David não viu outra opção senão acompanhar.



O by CouponDropDown\">homem puxou o barco com um breve aceno do dedo indicador, David observando de perto. Não entendia como as leis funcionavam naquele lugar, que não podia ser nomeado, onde algo trivial como comer era essencial e mágicas eram comuns.



— O quê...?



— Primeiro me ajude a pescar, e então responderei suas perguntas — disse Zao, ríspido.



David não disse nada, subiu no barquinho junto do homem e instantaneamente começaram a rumar para o centro do lago, as águas turvas e negras não deixavam ver nada que estivesse lá dentro. A água não balançava-os na pequena embarcação e Zao mantinha seus olhos nela, hora de um lado, hora de outro.



— Não deve ter...



Zao gesticulou para que David se calar. Em seguida desferiu um golpe na água, tão rápido que o garoto quase não viu. Tornou a levantar sua mão, os dedos fechados, mas não havia nada no aperto. O que ele estava fazendo não parecia sensato, mas David não quis interromper de novo. Apenas observou. Mas quando tornou-se ridículo os gestos, ele teve de recomeçar a perguntar.



De todas as perguntas que tinha, uma era maior e mais forte.



— Todos que morrem vêm para cá?



— Não. Esse não é o lugar para mortos propriamente ditos — explicou Zao.



— Então para onde vão?



— A Praça das Almas, é claro, para onde mais? — Zao desferiu mais alguns golpes, respingando água nos dois.



— Todos que morrem de verdade vão para essa praça? — David queria parecer indiferente, mas a ansiedade transpareceu e Zao passou a olhá-lo.



— É o único lugar para onde podem ir — o homem disse por fim.



David sentiu uma súbita vontade de perguntar onde ficava, mas com certeza não seria naquela mesma realidade. Talvez em outro buraco no Pátio superior, um que não tivesse o nome dele.



— Não é longe daqui... — murmurou Zao.



— Dá para chegar a pé? — perguntou David, mexendo-se impaciente no banco do barquinho.



— Ah, é claro! — Zao virou-se para a direita apontando para além das colinas. — Fica nessa direção, algumas horas de caminha, ou um dia, talvez dois. Depende.



O garoto acompanhou o dedo dele, tentando memorizar a junção de relevos de terra para se guiar. Levantou-se de repente, um plano traçado em mente.



— Obrigado... Zao — David não sabia como chamar o homem, não tinha certeza se aquele era o seu nome. — Até mais.



Só não sabia como voltar à margem.



— Do que está falando? Você não pode ir até a Praça da Alma desse jeito — contradisse Zao.



— Mas você disse que não fica longe.



— Não se trata de um caminho longo, no entanto jamais disse que seria um caminho fácil. — Zao tinha olhos profundos, azuis, e foi a primeira vez em que David reparara neles.



— Eu tenho de tentar. Há alguém que... eu preciso ver.



— Não tenho dúvidas disso — concordou o homem, olhando para as margens. — Portanto sente-se. Eu mesmo te levarei até lá.



Sentando-se, David não viu motivo para discordar.



— Contanto que faça algo por mim.



— Qualquer coisa — disse David, depois de pensar por um tempo.



— Muito bem. Mas primeiro terá de comer. — Zao voltou a golpear a água, insistente em pegar algo.



— Temos um acordo?



— Temos uma promessa... Ah, isso não está funcionando! — berrou Zao para o nada, levantando-se de um salto do banquinho.



Em seguida pulou do barco, girando no ar em uma cambalhota, e tornando a cair na água — em forma de um macaco. David jurou que aquilo não era possível, mesmo assim não se surpreendeu tanto. Aquele lugar inteiro não era possível. Viu a água se movimentar enquanto Zao em forma de macaco nadava atrás de alguma coisa que o garoto não podia ver.



Entretanto sabia que podia encontrar algo no meio disso tudo, uma chance de ver alguém novamente. Para isso estava disposto a deixar de compreender pessoas que se tornavam macacos, que flutuavam no ar e que tinham nomes estranhos como Zao. Suspirou para céu se perguntando o que lhe aguardava dali para frente.