A Alma De David

5 Ao Longo do Rio dos Temores


Quando percebeu que não ajudava nada ficando no barco, David foi vagarosamente empurrado para uma margem por Zao. O homem ainda nadava em forma de macaco, enquanto o garoto ficava sentado na areia pensando. Algum tempo depois Zao retornou mais uma vez como um humano, trazendo consigo peixes.

David jamais vira peixes tão bonitos, e mesmo quando já estavam mortos, devidamente assados numa pequena fogueira produzida por Zao, não conseguiu deixar de sentir dó ao comê-los. Estava faminto e o gosto era melhor do que qualquer comida que já comera em vida. Após devorar três deles, caminharam em silêncio para uma das colinas.

A subida foi desgastante, o mato passara a ser bem mais alto e cobria metade do corpo dos dois. Enquanto subiam, não disseram nada. Mas então ao perceber que as colinas na verdade eram mais numerosas do que ele imaginava, David suspirou, chamando a atenção do homem macaco.

— Está desistindo? Podemos ficar no lago pela eternidade — ele informou, parecendo inclinado a preferir esta ideia.

— Não — disse David, firme. Só então percebeu algo. — Achei que fosse para aquele lado — ele apontou uma colina bem à direita — que ficava o caminho certo.

— E não está errado. Contudo, o Rio é o lugar mais seguro desta terra, não seria sensato desperdiçar a sua proteção — Zao ia dizendo e apontando um matagal muito mais a frente, onde as plantas cresciam mais de dois metros de altura.

O garoto não discordou. Não conhecia nada do lugar sem nome, e também não estava disposto a não confiar em Zao. De uma forma extremamente complicada de explicar, David sentia-se seguro ao lado daquele ancião.

Continuaram andando até que as colinas nivelaram, depois de subirem e descerem as irregularidades por várias vezes. Porém quando começaram a caminhar em meio às plantas altas, o clima tornou-se insuportavelmente quente. David não conseguia deixar de achar que a túnica era ridícula e pesada, dificultando até mesmo andar.

— Não se preocupe, ela não durará muito tempo — tranquilizou Zao quando David reclamara da vestimenta. — Não podemos infligir algo puro ao nosso caminho, ninguém é tão perfeito.

Ele estava certo. Assim que venceram o matagal David constatou uma mudança: vestia o mesmo jeans desbotado com a camisa de botões que usava quando se afogara. Era um alívio, claro.

O rio estava logo à frente, extenso e largo, o ruído das águas enchendo os ouvidos como uma música rude. David sentiu-se clamo ao lado dele, ou algo em torno de confortável. Devia ser verdade o que Zao disse sobre a segurança daquele local. Não demorou muito para começar a duvidar disso.

Aqui e ali despontaram imagens pela superfície da água, elevando-se como se fossem leves, tudo se tornando cada vez mais sombrio à medida que avançavam. A princípio David não conseguiu reconhecer nenhuma das imagens; mas quando Zao tocou em seu braço, ele desprendeu-se do que via.

— Não olhe — alertou o homem. — Fixe os olhos ali, onde o rio faz curva, é para lá que estamos indo.

Ainda estava muito longe e David não entendia a razão para não admirar aquelas cenas. Eram belas, ilustrando momentos perfeitos, com animais, pessoas e até mesmo sons. David passou a caminhar mais de perto, jurou ter visto a si mesmo refletido na água, rodopiando com uma mulher bela em um salão de festa.

— Não pise na água! — ralhou Zao.

Não estava pisando, estava? David não conseguia mais saber. Ainda admirava o rio, mas sentiu que Zao estava certo. Tinha algo naquele rio que o atraía, muito mais que a beleza das imagens na água, era uma forma muito maior que a visão. Passou a olhar para frente enquanto caminhava. E então ouviu...

— Socorro! — alguém berrou; aquela voz era familiar para David. — Socorro! Socorro! Você não vai me ajudar?!

Ele não conseguiu não olhar, seus olhos eram fracos, e a pessoa poderia estar precisando de ajuda. Constatou em choque que era ele mesmo no rio, se afogando, mas não era para essa margem que ele olhava e suplicava ajuda. Era para a outra, onde seu pai e sua namorada, a mesma de cabelos loiros, olhavam para a mesma cena que ele. Talvez o rio mostrasse a verdade, talvez aquilo acontecera, ele desistiu e implorou para que o pai o salvasse, o que não aconteceu.

— Então foi assim... — David murmurou.

— Já disse para não olhar — lembrou-lhe Zao. — Você pode se confundir.

Mas não havia confusão, o pai tinha abandonado David quando ele mais precisou. O garoto parou, pensando que era melhor salvar a si mesmo daquele rio; não podia se ver morrer daquela forma.

— Nem pense nisso! — Zao segurou o braço de David quando ele fez que ia pular no rio. — Isso não é verdade, é uma ilusão! Você não deve dar atenção às imagens...

Os três que eram refletidos no rio passaram a olhar para David, o seu eu afogando recuperara instantaneamente da confusão. Agora boiava tranquilo, os olhos agarrados no garoto ainda andando a margem. David estava disposto a não olhar novamente, quase entrara no rio para salvar uma ilusão, e dadas as circunstancias daquele lugar, nem conseguia imaginar o que poderia ter acontecido se Zao não o impedisse.

Contudo os sons eram igualmente atraentes. Ele escutou sua voz familiar falar, mas desta vez era com ele.

­­— Sua mãe morreu... você ganhou pinos na perna para toda a vida... e seu pai? Ah, o seu pai, não saiu com nenhum arranhão daquele acidente!

— Não dê ouvidos — disse Zao.

Mas era difícil. David pensava exatamente daquela forma, apesar de nunca ter dito em voz alta, apesar de nunca ter deixado que dominasse seus sentidos daquela forma.

— Você sentiu medo, pavor, pânico... E o que ele fez? Nada... ele nunca fez nada para você...

David olhou, mas desejou nunca ter feito: ele viu refletido no rio o pior de seus pensamentos, aquele que tentava esquecer sempre que lembrava. Ele estava deitado em uma maca, o pai em pé ao lado dos destroços de um carro, mas não havia sinal de sua mãe. E no meio das ferragens ele viu um brilho, e a voz dela chamando... David?

— Chegamos — Zao chamou a atenção de David novamente.

Ele percebeu que estavam numa espécie de curva acentuada no rio, e bem ao lado havia uma floresta incrivelmente assustadora.

— Você disse que o rio é a parte mais segura dessa terra — lamentou David, sentindo um estranho pesar ao se imaginar longe daquelas imagens, longe daquelas verdades.

— E é — concordou Zao. — Mas não é por causa dele que você está aqui. Não é por causa do rio que você prometeu algo a mim.

— Mas não quero entrar nessa floresta. Eu sinto... perigo — disse David, abaixando a cabeça.

— Eu compreendo que queira ficar. Mas se quiser chegar à Praça das Almas, meu garoto, você deve deixar seus temores para trás.

O garoto olhou para o rio por cima do ombro, várias pessoas de rostos conhecidos olhavam-no de volta. Sua imagem estava exatamente no meio daquilo tudo, com o olhar mais nebuloso de todos. Porém nenhum deles parecia real, e de fato não eram. Eram reflexos, David sabia disso.

Com um esforço extremamente forte ele abandonou a margem, deixando Zao lhe envolver com um braço e puxá-lo para longe do rio. Sentiu-se leve de súbito, algo próximo de feliz, quando o conforto das águas foi deixado para trás.

Entrando no limiar da floresta, David olhou para trás novamente. Agora parecia ser um rio completamente normal. Não havia nem sombra de seus medos.