A Alma De David

3 O Pátio dos Guias



Tudo estava calmo e estranhamente escuro.



David respirava automático, sentindo o ar entrando e saindo de seus pulmões, onde deveria estar repleto de água. Alguém deve ter me reanimado, pensou desgostoso. Era em parte um alívio, não podia negar; contudo era frustrante saber que não prestara nem mesmo para escolher a sua própria morte. Afogamento, deveria ser menos eficaz do que imaginara.



Ele abriu os olhos, contudo continuou sem enxergar. Na verdade, não conseguia dizer se abrira de fato os olhos, não fazia diferença, não havia luz. Não se mexia tampouco, e não sentia dor. O que significava aquilo? Talvez acertara, talvez morrera.



Então um barulho extremamente by CouponDropDown\">baixo se fez ouvir à esquerda. Tão baixo que talvez passasse despercebido, não fosse o silêncio modorrento que pairava antes. Era como asas de algum inseto, que iam tornando-se cada vez mais altas. Em segundo se tornou tão audível que David supôs serem vozes, ou talvez uma música tocando ao longe. E continuou aumentando, aumentando, até que enfim o garoto conseguiu distinguir que havia muitos, e o que estavam dizendo.



— Não toque nele! — alertou alguém.



— Mas é claro que sim! Ele me pertence! — outro alguém berrou, irritado.



— Jamais diga isso! Ele está na minha parte do pátio.



— Então toque-o. Se está tão decida, não explodirá em chamas!



David tossiu, sentindo a garganta seca. E o movimento involuntário foi demasiado para ele: dores despontaram por todo o corpo, fazendo-o sentir cada músculo, cada parte do corpo sobre um chão liso e duro.



— Talvez não seja a hora...



— Talvez não seja a hora — repetiu o by CouponDropDown\">homem, forçando um falsete que imitava idêntico o tom da primeira pessoa. — Bobagem, é isso que acho! Vou leva-lo embora, e espero que nenhum de vocês tente me impedir!



Passos, muitos deles, foram escutados por David. Parecia que uma multidão estava se afastando, como se receassem por algo. Por que ainda não conseguia enxergar?



E então David o viu.



— Arre! — berrou o homem que estava centímetros do rosto de David. — Ele abriu os olhos.



— Não devia sentir medo, não é, já que ele te pertence... — caçoou alguém.



David virou o rosto para as pessoas próximas. Parecia que faziam um círculo a redor dele deitado, todos trajando roupas incrivelmente longas de uma peça só, que cobria desde o ombro até os tornozelos, como uma túnica. O garoto os admirou por um tempo, percebendo o quanto eram estranhas àquela luz. Um sol brilhava intenso e parecia estar bastante próximo, mas David não soube explicar como sabia disso.



— E não sinto! — o homem bravejou, visivelmente afetado.



Levantando um pouco a cabeça, David constatou que se tratava de um homem extremamente velho, a cara amarrada, parecendo aborrecido. Ele avançou novamente para David, um dedo ossudo e longo apontado para tocar-lhe em seguida.



— Não tocaria nele se fosse você — outro alguém se aproximou. Tinha o rosto bem mais moço que o primeiro, contudo ainda era um ancião.



— Do que está falando, Zao?



— Ele é meu — havia alguma coisa naquelas palavras que soavam fortes. Agachou-se ao lado de David, acrescentando: — E eu sou seu guia.



O que se chamava Zao colocou suas mãos no ombro de David, erguendo-o com a mínima dificuldade. O garoto não sabia como conseguira ficar de pé, sentia-se fraco. E então estava de frente para aquele tanto de pessoas, cada uma mais aterrorizada que a outra, observando o contato da mão com a pele nua do garoto. Só então David percebeu que estava inteiramente nu.



Tentou se tampar, mas ao olhar-se de novo, percebeu que usava uma túnica idêntica aos dos demais, de uma cor azul clara. Zao sorriu para ele, devia estar divertido com a confusão do garoto. Havia tantas perguntas — algumas que se demorasse tanto para fazê-las, com certeza as esqueceria. Entretanto quando abriu a boca, Zao o interrompeu:



— Não gaste sua fala ainda, vamos dar distancia.



Eles abriram passagem por entre os outros, a multidão se desfazendo enquanto gritavam: "Caiu outro, logo ali adiante!". Se distanciaram a passos largos, Zao empurrando David com força.



— Ah, David, estava a sua espera... — ia dizendo o homem. — Não tardaria a acontecer, tenho preparado o esquema há anos, desde... bom, tenho preparado.



Ele riu de leve, David percebendo que o pátio não tinha fim. Era uma enorme planície pavimentada, da qual no horizonte reto não se via construções, montanhas, ou qualquer outra coisa além do pátio. O céu muito azul começava assim que terminava as pedras do lugar.



— Você deve estar curioso sobre o que é isso tudo, creio eu — Zao continuou. — Mas não há nada que deva se preocupar. Pelo menos não agora. Pronto, chegamos.



— Onde estamos? — a voz de David saiu fraca, rouca, como se tivesse passado tempos sem falar. Não havia sinal do bosque atrás do bairro onde morava.



— Não sei ainda — admitiu Zao. — Mas vamos descobrir.



O homem apontou uma tampa prateada de esgoto no chão. Tinha uma alça dourada e o nome completo de David havia sido gravado a fogo no metal. Zao abriu-a e avistou algo lá em baixo.



— Estou morto? — David indagou outra vez.



— Eu realmente espero que não — Zao sorriu. — Você ainda não está forte o bastante, então é melhor manter-se a meu lado durante toda a queda.



Queda? Zao desceu pelo buraco, ainda sorrindo.



— Tudo bem, pode descer — David ouviu a voz dele lá de baixo.



Criando um tanto de coragem, sem saber o que deveria fazer ao certo, David entrou. Mas não havia um chão liso como imaginou, onde Zao o esperaria. Ele caía, e quanto mais caía, percebia que estava prestes a se arrebentar no chão lá em baixo.