A Alma De David
6 O Lagarto Ladrão
As raízes cresciam como dedos tortos saindo da terra marrom escura, sustentando árvores tão altas e grossas que dava a impressão, para qualquer um embaixo delas, que eram diminutos. As folhas, dezenas de metros acima do chão, desprendiam rítmicas dos galhos, fazendo uma chuva leve e descontraída. David andava firme ao lado de Zao.
Cerca de alguns minutos depois a orla da floreta não era vista mais, e à medida que embreavam nele percebiam que o espaçamento entre um cedro e outro ficava menor. David caminhava com dificuldade, saltando raízes, tomando cuidado para não escorregar no chão coberto de resíduos mortos. Contudo Zao andava tranquilo, firme, não mudava sua postura hora alguma.
Um barulho, como um farfalhar de muitas folhas, fez-se ouvir nos galhos de uma árvore próxima. David olhou-a curioso, percebendo que não fazia ideia do que poderia encontrar ali. Pensou em perguntar Zao, mas não o fez: o homem macaco foi mais rápido nos questionários.
— Se não soar rude, quem eram aquelas pessoas que apareceram por fim no rio? — Zao quis saber.
— Algumas pessoas que conheci — informou David.
— A maioria era tão jovem...
— Ah, aqueles eram colegas de escola, moram no meu bairro. — David suspirou.
— E por que eles te afligem? — Zao olhou-o de esguelha. Ele parecia saber tudo o que David pensava, contudo continuava perguntando.
— Nunca gostaram de mim — o garoto admitiu. — Na verdade, eles sempre me fizeram de babaca. Obrigavam-me a fazer algumas coisas, como que para ganhar respeito. Não sei por que apareceram no rio, não eram tão importantes.
Zao assentiu enquanto mais farfalhares se fizeram ouvir ao alto.
Não era como se tivesse alguma obrigação, mas nunca conversara com alguém daquela forma, então David sentiu-se pronto para continuar.
— Teve uma vez — começou, a voz arrastada, como que em dúvida se deveria falar — que eles queriam algo. Uma máquina fotográfica. Mas éramos crianças, ninguém tinha dinheiro para comprar uma. Então eu poderia entrar para o grupo se roubasse uma.
As folhas agora caíam mais rápidas, Zao esticava suas mãos e apanhava quantas conseguia segurar. Depois as jogava para o alto novamente, escutando David.
— Uma senhora tinha uma, e eles sabiam. Eu... eu roubei a câmera — disse David por fim, sentindo-se um tanto leve. — E entreguei ao líder deles. Não me aceitaram no grupinho mesmo assim. Isso foi... terrível. Eu nunca falei disso para ninguém.
— Eu entendo — Zao parecia mesmo entender.
— Mas éramos crianças, não é? — riu David. — Todas as crianças fazem besteira.
— Mas você não é mais. — Zao passou a olhar para David enquanto desciam uma depressão. — Atingiu certa consciência e sabe que agiu errado, devia ter ido concertar seus erros. Mas não foi.
Nesse momento uma coisa caiu à frente dos dois com um baque surdo, levantando folhas do chão. David assustou-se e parou, vendo dois lagartos se engalfinhando. Tinham o tamanho de cachorros e faziam barulhos roucos, graves, enquanto tentavam abocanhar um ao outro com as bocarras.
— O que são? — perguntou David, admirado.
— Lagartos de árvores. Vivem nas copas, geralmente... — Zao olhou para cima, apertando os olhos um pouco. — Não deveriam estar caindo, a não ser...
O homem tornou a olhar o chão, onde um dos lagartos fugiu e enfiou-se num buraco estreito, segurando com a boca um monte de palha.
— Como imaginei — lamentou Zao. — Ele continua imprestável.
— Ele quem? — David quis saber.
— O maior lagarto que essa floresta já viu. Tão gordo que não consegue subir nas árvores, e manda seus lacaios roubar os ninhos dos mais fracos, lá em cima.
O garoto olhou para o buraco em que o lagarto acabara de sumir. Não imaginou outro maior conseguindo entrar por ali. O lagarto perdedor grunhia em lástima, andando de um lado para o outro, com medo de entrar no buraco.
— Ele perdeu o ninho, o coitado. — Zao aproximou-se e pegou o lagarto, alisando seu cocuruto rajado de verde. Apesar de parecer pesado, o homem não pareceu fraquejar enquanto segurava o bicho.
— E o que ele vai fazer agora? — David sentiu pena do lagarto.
— Começar tudo de novo, é claro. É melhor colocarmos ele na árvore para escalar novamente, todos nós temos muito que fazer.
— Espere — pediu David. — Não podemos ajudar?
— É claro que sim.
Zao iluminou-se com a pergunta de David, largando o lagarto. Este desceu levemente até o chão, depois esperou por algum comando.
— O ninho dele é feito de quê? Podemos juntar essas folhas e esses gravetos e...
— Fazer outro ninho? Não, não! — Zao andou até o buraco. — Esse coitado já trabalhou para ter um ninho, e o outro roubou. O ninho que este lagarto merece está dentro dessa toca, e vamos lá pegá-lo.
— Mas como vamos...
Zao agachou de repente, batendo a mão no chão com violência. Com um barulho de deslizamento, o chão cedeu revelando um túnel bem maior, subterrâneo. O homem virou-se para David, convidando a entrar. O garoto hesitou por alguns instantes, mas enfim entrou. Zao transformou-se em um macaco.
Deveria estar louco, David tinha certeza. Andava curvado por um túnel cavado na terra atrás de um lagarto que vivia em árvores e um macaco de pelagem marrom clara. Não fazia completo sentido caso observado de um ponto crítico.
Percorreram várias passagens, adentrando mais e mais na terra, descendo mais do que David achava seguro. Em um momento as paredes e o chão se tornaram tão úmidos que o sapato dele enchera-se de lama. Quando os caminhos ganharam largura e tornaram-se uma única galeria, uma surpresa fez com que David quisesse voltar lá para a superfície da floresta: deitado de barriga para cima estava o maior lagarto que ele já vira na sua vida.
Tinha o tamanho de um jacaré, mas ainda tinha as feições do pequeno réptil a seu lado. David constatou que o monstro dormia em cima de vários ninhos de folhas e mato, certamente roubados. Ele não queria interromper, contudo o lagartinho correu até um dos que estava mais próximo, pegando-o com a boca. O peso do bicho não deixou que ele conseguisse retirar seu produto.
David aproximou-se depois de olhar para um macaco Zao bem confiante, e conseguiu retirar o ninho do lagarto. Mas percebeu que ainda havia muitos, talvez centenas, e aquilo não pararia. O garoto decidiu que deveria pegar quantos conseguisse. Mal botou a mão no segundo ninho e ouviu um grunhido maior, mais grave e de gelar os ossos. O monstro acordara, virando-se para apoiar-se nas batas, quase esmagando David.
Ele caiu sentado, enquanto Zao e o lagartinho corriam para longe. David desatou a correr também, desembestado, ouvindo os passos desnorteados do bicho gigante a seu encalço. Porém os túneis eram pequenos para o corpanzil do lagartão, e David passava com muito mais rapidez. Saiu com facilidade para a superfície, as mãos vazias, mas sentindo-se seguro. Zao já era um humano novamente, e o lagarto subia numa árvore com o ninho na boca.
— É melhor continuarmos — disse Zao, tranquilo, no mesmo instante em que o lagarto muito desenvolvido irrompeu pelo túnel de saída, remexendo toda a terra. David foi jogado para trás, e a boca do monstro estava a alguns centímetros de seu rosto. — Ah, mas o que temos aqui? — Zao riu divertido.
O bicho não atacou, contudo não deixava David sair daquela posição.
— Ele quer algo que lhe pertence, David, e não são os ninhos — informou David.
O garoto sentiu algo pontudo incomodando lhe as costelas, e retirou, boquiaberto, uma câmera fotográfica de dentro de suas vestes. Era um modelo exatamente idêntico àquele que roubara quando criança, não tinha dúvidas. O bicho arreganhou a boca, mostrando dentes pontiagudos extremamente afiados, e David entendeu na hora o que deveria fazer. Colocou a câmera lá dentro e o bicho em seguida a engoliu, tornando a entrar no túnel e a desaparecer de vista.
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