A Alma De David
7 Sonho
Pelo longo caminho que seguiram, David e Zao conversaram alegremente. O garoto sentia-se um tanto animado após o encontro com o lagarto que roubava; e tornou-se ainda mais confiante quando o homem lhe prometeu que, recebendo o que era dele por direito, o monstro não voltaria a importunar os répteis habitantes das árvores.
Apesar de ainda não conseguir ver o final daquela vastidão de cedros, David não desanimou ao andar. Falavam sobre tudo o que David tinha vontade de perguntar, desde a incrível fauna do lugar — o que incluía híbridos fantásticos — até os poderes de macaco do homem. Ao que parecia, Zao poderia se transformar no animal que quisesse. David, curioso, perguntou por que um macaco.
— Não perco a inteligência — explicou Zao.
O dia transcorreu sem nenhum avanço, e David começou a suspeitar que a floresta era maior do que tinha imaginado. Contudo só percebeu que anoitecera e que era hora de fazerem uma pausa, quando não conseguiu mais enxergar um palmo a sua frente. Prontamente, Zao conjurou outra fogueira, as labaredas subindo e lambendo o chão sem nenhum combustível. Comeram frutas, raízes e flores que, segundo o homem, eram melhores que muitas carnes.
Não tardou a sentir uma incrível lentidão de raciocínio, seu corpo pedindo por descanso. Porém não adormeceu logo. Ficou observando Zao gritar com animais estranhos e disformes que tentavam entrar na pequena clareira em que estavam. Algum tempo depois, o homem pareceu mudar completamente o tom de voz.
— Ah, me desculpe Utucen, não tinha te visto esgueirando por aí! — ele se explicou, no mesmo instante em que um outro velho, curvado e aparentando estar doente, entrou na linha de visão do garoto. — Não sabia que estava guiando, quem é?
— Não chamo isso de guiar — ralhou o homem, a voz rabugenta fazendo jus a sua expressão. — Anda logo Jeremy, quero me retirar dessa floresta ante dos amanhecer, e estou cansado de te proteger.
Um garoto franzino também se aproximou, as mangas da camisa xadrez que usava puxadas para cima, revelando os braços.
— Um desperdício, cortou os pulsos — disse Utucen.
— Ah, uma pena — lamentou Zao, sincero. Depois apontou para David. — Afogamento, proposital. Sempre arrumam um meio diferente, não é?
Os dois riram e David teve a impressão de que o garoto que se chamava Jeremy não achou graça. Era de se espantar que falassem das mortes dos dois daquela forma, mas David não ligou. Achou curioso que houvessem mais como ele naquele lugar sem nome.
— Estamos rumando para o lago, esse aqui quer vegetar pela eternidade — Utucen disse, desgostoso.
— Ah, eu caí exatamente lá! — orgulhou-se Zao.
— Teve muita sorte, apesar de ter abandonado aquela calmaria. Bom, tenho que ir, não posso interferir no meu caminho. — Fez que ia continuar seu caminho, mas virou-se para acrescentar: — O garoto é problemático, quanto antes chegarmos lá, melhor vai ser...
Os dois atravessaram o pequeno círculo feito pela luz da fogueira, Utucen dando um sorrisinho para David ao passar. Entretanto Jeremy olhou-o furtivo, um olhar penetrante, maldoso. O garoto preferiu não relevar.
Não disseram nada enquanto os dois estranhos se distanciavam, fazendo o caminho contrário daquele que David e Zao fizeram. Passados assim alguns minutos, Zao correu para junto de David, dizendo:
— É melhor dormir. Agora.
O garoto não entendeu, mas preferiu obedecer. Recostou a cabeça numa raiz protuberante, fechando os olhos. Jurou escutar Zao murmurar algo como perigoso estar acordado com gente como essa rondando a floresta. David não via segurança no sono, uma vez que estaria mais desprotegido. Contudo, assim que perdeu a consciência, esqueceu por completo de onde estava. O que veio a seguir o pegou de surpresa.
Era um sonho como qualquer outro, inconstante, imprevisível, um pequeno detalhe mudando todo o tema principal, como uma imaginação infantil. Porém eram certos sentidos que despertaram a curiosidade do garoto. Como por exemplo o cheiro. Sentia cheiro de flores, como se elas estivessem muito próximas.
Também havia os sons. Primeiro eram apenas vozes murmuradas desconexas, mas depois foram se tornando mais altas, lamentando, chorando, todas estranhas para o garoto. De quem quer que fossem, David jamais ouvira-as antes. Tentou mexer os braços, mas era impossível, as paredes eram muito próximas.
Abriu os olhos e viu através de um vidro com desenhos foscos, como uma janelinha. As pernas também estavam presas, impossibilitadas de ganhar espaço, se deslocar. Só então percebeu que estava deitado, como quando acordara no pátio dos guias, mas a experiência era muito mais humana. Sentia calor, era como estar vivo de novo, ele sabia que estava vivo.
Sua mão bateu na parede a sua frente, e tudo tremeu. Ele não estava deitado somente, parecia estar dentro de uma caixa, lacrada, não servia para ele se movimentar. E então uma cara espiou pelo lado de fora da janelinha, os olhos arregalados.
— Ele está vivo! — gritou, afastando-se em seguida
David se deu conta que estava preso em um caixão.
Acordou suado no interior da floresta. Sentiu-se aliviado por ainda estar no lugar sem nome. Zao aproximou-se dele, os raios da manhã iluminando seus cabelos brancos. Sorriu de leve, e David suspirou agradecido.
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