A Alegria de Suzumiya Haruhi
4 Capítulo 3
No dia seguinte, levantei disposto a resolver o problema que eu achava que Haruhi deveria resolver...
Era mais um dia terrivelmente quente de maio e por conta disso, a subida, com a qual eu já devia ter me acostumado, parecia estar mais difícil...No fim das contas, eu percebi que não era o aclive. O meu problema era com o que eu tinha que fazer hoje...
“Yo Kyon, você parece estar acabado! Eu percebi que você e Suzumiya não andam se falando. Briga de casal hein?” – Ás vezes eu acho que Taniguchi fala esse tipo de coisa de propósito, mas no fim sempre me convenço que é por pura inocência...
“Não é nada disso. Mas ela está chateada comigo...”
“Resolva então Kyon...Sei que você gosta de fingir que não se importa tanto, mas já te conheço o suficiente pra saber que você está mal...” – Falou Taniguchi enquanto ostentava um sorriso dúbio. Deus, até Taniguchi está me analisando. O pior é que ele está certo. O mundo deve está próximo do fim...
“Vou ver o que posso fazer...” – Respondi tentando parecer agradecido pelo conselho...
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Quando coloquei meus sapatos no armário não pude deixar de suspirar profundamente...Dentro dele havia mais uma daquelas cartas de Asahina-san (Grande). Já não basta o que passei com Koizumi?
Abri a carta esperando pelo pior e eu não podia estar mais certo...
“Olá Kyon-kun, como vão as coisas?
Estou te contatando, pois temos um problema novo para resolver.
A princípio, só posso te avisar que você não vai poder ir para aula hoje.
Para isso, tem um atestado médico que anexei atrás do envelope que você encontrou no seu armário.
O restante das pistas está na caixa de correios da sua casa, portanto recomendo que você volte agora mesmo.
Ps: Não se preocupe, sua mãe não vai ficar sabendo que você matou aula hoje!”
Eu deveria achar que todo mundo vai ficar satisfeito com uma explicação dessas? Esses viajantes do tempo realmente não tem muita ideia do mundo presente...Era lógico que alguém ia ligar para minha mãe. Além disso, Haruhi iria me procurar, não é? Pelo menos eu desejava isso...
Eu não tinha muita escolha, por isso rumei em direção a minha casa. Fui até a caixa de correios com cuidado, para ninguém notar minha presença. Lá dentro havia alguns papéis de propaganda e o bilhete que eu tinha que encontrar...
“Kyon-kun,
Se você chegou até aqui, já posso te explicar o que precisamos fazer.
Existem quatro esferas que Suzumiya-san criou, inconscientemente, enquanto fizemos aquele nosso filme.
Elas possuem um papel fundamental num evento que irá ocorrer em um momento próximo.
Elas são brilhantes e dividem-se em cores.
A primeira é rosa e se encontra no lago onde filmamos uma das cenas do filme.
Após encontra-la volte na sua caixa de correios, pois a próxima pista estará lá!
Ps: Existe um limite de tempo para você pegar as três primeiras esferas. Você tem até as 5 horas da tarde, por isso se apresse por favor.”
Muito indefinido! Aquele lago...pode estar dentro, fora, longe, próximo? Isso é uma peça? Você poderia pelo menos ter mandado Asahina-san (Pequena) pra me fazer companhia...
Pelo jeito, meu dia vai ser cheio e eu não consegui falar com Haruhi...O que ela faria nessa situação? “Use sua intuição, pare de reclamar e não fique fraquejando idiota!” Acho que seria algo assim...Nesse momento eu comecei a sorrir sozinho...
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Assim que me recompus, peguei minha bicicleta e corri para o local indicado por Asahina-san (Grande). Chegando lá, comecei a revirar o local buscando por pistas. A única coisa que eu lembrava era de Asahina-san (pequena) caindo nesse lago. Por algum motivo idiota, decidi seguir o que Haruhi chamava de intuição. Fui até o local da queda da atriz no lago e, para minha surpresa, eu notei um brilho que emanava de dentro da água...
Infelizmente, eu tinha que entrar no lago, portanto tirei minha jaqueta e pulei naquela água suja e barrenta para alcançar a esfera.
O objeto parecia com um daqueles souvernirs de cristal baratos que damos de presente para quem não consideramos tanto assim. De certa forma, eu senti uma sensação estranha ao segurar aquele objeto.
Ignorando a minha sujeira e os olhares que recebi na rua, voltei a minha casa para buscar a segunda pista...
“A próxima esfera é vermelha e está no cais de onde partimos para ilha que Itsuki-kun preparou para nossa viagem.”
Ainda mais indefinido! Independentemente da minha vontade de lançar mão daquela tarefa idiota e despropositada, acabei indo até o cais. O lugar era bem distante, portanto eu calculei que perderia umas duas horas só com a locomoção de ida e volta. Para o meu desagrado, quando cheguei, a entrada que dava para os navios estava fechada, pois não haveria mais partidas naquele momento.
Eu avistei um guarda a distância e pensei em pedir ajuda a ele. Infelizmente, quando olhei para a situação de minhas roupas, eu percebi que ele, provavelmente, iria desconfiar de minhas reais intenções.
Onde eu iria encontrar esse objeto? Havia apenas um navio atracado. Comecei a andar paralelamente as grades que me separavam do porto procurando por alguma pista...
Após 1 hora vagando sem localizar nada, eu reparei em um brilho estranho próximo a bueiro que ficava próximo ao navio.
Minha única possibilidade seria pular a grade que separava o pátio, correr desesperadamente até o local enquanto rezava para o guarda não me notar. O que diabos eu estava pensando? Isso é loucura! Assim que eu entrar nesse lugar, minha ficha criminal irá começar a ser redigida... Talvez tudo acontecesse como no roubo de 300 milhões de ienes de Fuchu...
Eu tinha que arranjar um bom argumento pra fazer aquilo. Bem...Nunca tive muitas ideias brilhantes, por isso a única desculpa que veio na minha cabeça foi sobre o mundo acabar caso eu não o fizesse. Por mais que isso não fosse verdade nesse momento, eu já tinha passado por perigo de vida algumas vezes graças aos meus “amigos” da Brigada. Então não é como se eu estivesse fazendo algo novo...
Após acalmar meus ânimos, eu subi vagarosamente a cerca de metal e consegui saltar para o lado oposto. Tudo bem até agora...Andei sorrateiramente até o local onde vi a luz brilhante. O guarda parecia estar bastante entediado até aquele momento. Enquanto eu me aproximava do local que precisava chegar, fiquei pensando no que existia de tão valioso naquele local para estar protegido...
Era ela! Encontrei a esfera vermelha que Asahina-san (Grande) havia mencionado. Enquanto eu me afundava na minha felicidade, não notei o ser que se aproximava de mim...
A apenas alguns metros eu ouvi um som que fez com que eu me colocasse de pé rapidamente...
Era um cachorro, e não daqueles dóceis e fofos que vez ou outra você encontra por aí. Ele estava mais para um daqueles assassinos treinados. Minha reação foi correr imediatamente sem direção nenhuma...
Enquanto eu fugia do meu caçador, a movimentação chamou a atenção do guarda que estava na guarita do porto. Minha única opção era...bem...pular no mar e torcer para que o cachorro, que me perseguia, tivesse horror a água.
Foi meu segundo banho forçado do dia. Após saltar no mar, encostei-me na parede de cimento que formava o piso do porto, torcendo silenciosamente para ninguém me ver. Meu amigo canino apenas latia na direção em que fui...
Após algumas voltas, o guarda do cais deu de ombros e voltou ao seu posto. Como eu não podia voltar pelo lugar de onde vim, me arrastei até um local mais distante e voltei a pular a cerca que impedia minha liberdade.
Voltei para casa me sentindo um traste. Malditas informações confidenciais!
Eu só tinha duas horas sobrando para o prazo que Asahina-san (Grande) havia me dado. Desanimadamente, forcei-me a ir até a caixa de correios. Eu estava esperando pelo pior...
“A última das esferas é roxa e está na biblioteca que você costuma visitar com Nagato-san”
Que alívio saber que está na biblioteca. Acredito que nada vai dar errado lá...
Coloquei minha jaqueta para parecer menos suspeito e saí para biblioteca.
Chegando lá, percebi que havia um problema: aquele lugar era enorme!
Novamente eu não tinha recebido pista nenhuma e só tinha 1h:30min sobrando.
Fiquei zanzando pelas prateleiras sem destino algum. Vamos lá! Eu preciso de ajuda aqui. A única coisa que eu lembrava era que Nagato gostava de livros estrangeiros...
Dei uma olhada na seção de livros estrangeiros, mas não havia nada que chamasse a atenção.
Nagato gosta de ficção científica também, pensei enquanto procurava nesta parte da biblioteca.
Tch! Meu tempo estava quase acabando e não conseguia pensar em mais nada...
Resolvi sentar por alguns minutos apenas para organizar minhas ideias. Algumas pessoas passavam e me davam um olhar desconfiado. Eu sei que estou sujo, mas precisa ficar me encarando desse jeito?
Quando eu aprofundei meu relaxamento no sofá confortável, do qual eu já era cliente, eu senti um incomodo estranho. Era como se tivesse algo embaixo do assento do sofá...Decidi olhar e para meu deleite encontrei a última esfera...
Como ninguém encontrou isto antes? Bem...acho que eu devo ser um dos poucos que vem na biblioteca para dormir nos sofás, então não é tão surpreendente que não tenham achado isso antes de mim...
Consegui cumprir o prazo maluco que me passaram, mas ainda restava uma preocupação: qual a localização da próxima esfera?
Retornei para casa e fui direto até aos correios pegar o que esperava ser um dos últimos daqueles bilhetes insanos...
“Muito bem Kyon-kun!
Já que as aulas acabaram, você pode entrar na sua casa.
Tome um banho e vista uma roupa casual, porém uma bonita.
Tem mais um bilhete embaixo da sua cama, mas, por favor, só o leia após realizar as tarefas acima.”
Apenas suspirei e corri para o banheiro de casa enquanto saudava minha mãe e minha irmã...
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Sai do banho como um novo homem. Guardei as esferas em uma das gavetas do meu armário. Arrumei-me do jeito que Asahina-san (Grande) recomendou, porém fiquei refletindo sobre as intenções por trás daquilo. Eu iria encontra ela ou alguma garota bonita?
Meus devaneios logo teriam fim...Eu abri o bilhete que estava embaixo da minha cama...
“Como se sente Kyon-kun?
Espero que esteja melhor...
De qualquer forma, vou te contar a localização da última esfera...
Ela é amarela e se encontra na casa de Suzumiya-san.
O prazo que te dei foi para que você pudesse ir até a casa dela sem estar muito tarde.
Esta última esfera está na sala da casa de Suzumiya-san. Ela está sendo utilizada como um ornamento, portanto você vai ter que pegá-la sem que ela perceba.
Outro fato interessante é que ninguém vai dar falta dela, pois esta longe de ser uma das decorações favoritas da família...
Além disso, tenho outra tarefa para você...
O garoto, que vai possibilitar a viagem do tempo, tem aula marcada com Suzumiya-san hoje às 20:00. Devido ao estado em que Suzumiya-san se encontra, ela não vai querer atender a esse compromisso. Entretanto, a aula de hoje é fundamental para as bases da viagem do tempo. Dessa forma, conto com você para fazê-la mudar de ideia.
Lembre-se que o garoto não pode te ver. Ele pode acabar revelando coisas que ela não deveria saber. Então, assim que ele chegar, dê uma desculpa e vá embora. Haverão novas instruções na sua caixa de correio assim que você voltar!
É muito importante que você faça isso, as consequências podem ser irreversíveis para todos nós!
PS: Não se preocupe os pais delas só devem chegar em casa às 22:00 hoje.”
Eu estava...contrariado...Por que na casa da Haruhi?...Vai parecer que eu estou desesperado pra falar com ela...Além disso, eu vou visitar uma garota que está sozinha em casa? Em que tipo de situação você está tentando me colocar? Situação irreversível né? Por que eu nunca tenho escolha?
Ok... não adianta eu ficar me fazendo essa série de questões inúteis. Com isso em mente e, após dar uma desculpa qualquer para minha mãe, peguei minha bicicleta e comecei a pedalar até a casa de Haruhi.
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O que eu iria falar quando chegasse lá? Eu não tenho ideia...
A brisa fresca que eu senti no caminho me animou um pouco e comecei a pensar sobre algumas possibilidades...
Eu chego e peço desculpas pra Haruhi por...pelo que? Eu não fiz nada de errado. Isso pode até dar certo, mas eu não ficaria satisfeito...
Eu digo que estava curioso pra conhecer a casa dela, por isso resolvi passar lá...Não faz o menor sentido, ela iria ver facilmente através dessa mentira.
Assim que ela abrir a porta eu beijo ela de surpresa...Opa! Da onde veio essa sugestão perigosa?
Continuei pensando em bobagens e não me espantei quando percebi que nada de útil vinha saindo do meu turbilhão de pensamentos.
Eu ia ter que improvisar...Comecei passando numa loja de conveniência que vi próxima da casa de Haruhi. Lá comprei alguns croquetes...Não sei da onde tirei semelhante aberração em forma de ideia mas...
Finalmente cheguei à porta de Haruhi. Eu estava nervoso por razões óbvias...
Juntei um pouco de coragem e apertei a campainha...
Haruhi abriu a porta e exclamou...
“Kyon?” – Ela estava com os olhos bem abertos e a boca semiaberta. Isso se chama surpresa eu acho...
“O que você veio fazer aqui?” – Ela colocou uma carranca assim que lembrou que estava sem falar comigo...
Um pouco inconcluso sobre o que eu ia falar, resolvi deixar minhas palavras fluírem...
“Bem...Eu estava passando aqui por perto e comprei um lanche...só que eu exagerei na quantidade e pensei que talvez você quisesse dividir comigo...” – Nesse momento, ela olhou para a sacola em minhas mãos um pouco desconfiada...
Por vontade própria ou não, ela acreditou naquela bobagem furada que eu tinha acabado de inventar...
“Tudo bem, se é isso, não tem problema...” – Ela pegou a sacola da minha mão e verificou o conteúdo – “Croquetes?” – Ela começou a sorrir de forma divertida. Eu fiquei um pouco irritado pra falar a verdade... – “E pensar que você viria até minha casa me comprar com croquetes...vou te dar 10 pontos por me fazer rir e mais uns 5 pela criatividade...” – Ela continuou, agora começando a gargalhar. Sinceramente, acho que você está exagerando na reação. Ah e posso saber pra que servem esses pontos? Koizumi deve ter uns milhares deles, mas nunca vi ele conseguir troca-los por nada...
“Idiota! Os pontos são meus e eu distribuo e os valoro como eu quiser...”
Pra falar a verdade, eu mudei de humor. Eu estava leve naquele momento. Posso até arriscar dizer que fiquei feliz com o jeito como ela encarou aquela visita estranha...
“Kyon, antes de comermos, eu tenho que fazer umas compras que minha mãe pediu. Você vem comigo?” – Questionou Haruhi após deixar os croquetes na cozinha da casa.
“Claro”
“Ah, podemos comprar bebidas pra tomar com os croquetes.”
Eu apenas assenti e saímos para o mercado.
Nada de muito estranho aconteceu durante as compras. Algumas pessoas nos olhavam provavelmente mal interpretando minha relação com Haruhi, mas ignorei, pois não queria perder meu bom humor.
Durante a volta, Haruhi me perguntou...
“Por que você não foi à escola hoje?” – Droga, eu tinha me esquecido disso. Pense Kyon...
“Ah isso...Eu tinha alguns exames médicos de rotina hoje, porém meu médico atrasou e acabei passando o dia na clínica. Dessa forma ele me deu um atestado para o dia inteiro.” – Bem convincente hein?
“Foi isso mesmo? Não sei por que, mas tenho a impressão que você está mentindo para mim...” — Eu minto tão mal assim?
“Foi exatamente o que aconteceu, mas está tudo bem. O médico disse que eu apenas preciso fazer mais uns exercícios físicos...” – Insisti. Não sei se Haruhi se convenceu, mas ela apenas engoliu minhas desculpa e logo chegamos a casa dela novamente.
Eu ainda não havia entrado, portanto só agora eu percebi a real dimensão da situação. Eu estava um pouco intimidado. Essa é mais uma daquelas ocasiões que teimam em acontecer naqueles dramas sobre vida escolar. Dois jovens cheio de hormônios, sozinhos em uma casa, sem o menor sinal de supervisão...Qual é? Estou falando de Suzumiya Haruhi...pelo jeito que ela está tratando minha visita ela nem cogitou esse tipo de coisa...
Decidi mudar o foco dos meus pensamentos e analisando por cima, posso dizer que Haruhi tem uma vida financeira bastante razoável. Na verdade eu esperava por isso, já que ela parece ter uma personalidade mimada em alguns aspectos. Eu dei uma olhada na sala e rapidamente localizei o fruto da minha visita...Mesmo sabendo a resposta e, apenas pra quebrar a atmosfera esquisita que se levantava no local, eu perguntei para Haruhi...
“Onde estão seus pais?”
“Eles saíram juntos hoje e devem voltar lá pelas 10”
Eu estava sendo treinado para ser um criminoso? Falo isso, porque naquele exato momento, eu estava maquinando um plano para afanar a esfera amarela de cima do móvel em que ela se encontrava.
Devo dizer que foi mais fácil do eu pensava...
“Kyon, eu vou à cozinha arrumar os croquetes e pegar molhos pra gente comer, pode sentar no sofá, mas nada de gracinhas hein?” – Essa intuição monstruosa...
Assim que Haruhi desapareceu para cozinha, aproveitei a oportunidade e bingo! Primeiro objetivo cumprido. Se minha vida nesse momento fosse um daqueles jogos de RPG, provavelmente eu teria ganhado muito pouca experiência com o cumprimento dessa missão...
Ela retornou da cozinha trazendo uma bandeja com os croquetes. Junto vieram uns três tipos de molho. As bebidas que compramos já estavam na sala.
Ela ligou a TV e ficamos assistindo alguns programas. Na verdade, Haruhi na parava de mudar de canal. Não que eu estivesse interessado em ficar vendo algum show...
Após algum tempo eu reparei algo assustador. Nós estávamos conversando sobre o que passava na TV e comendo ao mesmo tempo. Mas o que me incomodou, foi como nós apenas ficamos reclamando das falhas dos programas e por vezes citávamos o mesmo problema. Algumas vezes Haruhi falava exatamente o que eu estava pensando em pronunciar...Esse tipo de coisa é possível? Será que o subconsciente e os poderes dela estavam se aproveitando da minha frágil mente?
O tempo foi passando e eu me peguei sorrindo de qualquer besteira que era assunto de nossas conversas. Que feitiço era esse? Alguma coisa estava crescendo dentro de mim e eu estava ficando inseguro...mas de que?
Em determinado momento ela perguntou...
“Kyon, você quer jogar alguma coisa, apenas pra passar o tempo?” – Eu balancei a cabeça em afirmação.
“Vem comigo, pra ver o que vamos jogar...” – Ela falou apontando para o segundo andar da casa...Eu fiquei um pouco nervoso e segui ela enquanto subíamos as escadas.
Eu estava novamente no quarto de Haruhi. Era minha segunda vez aqui. Dessa vez, não estava tudo escuro, então eu pude notar que o quarto de Haruhi era bem normal. Na verdade, não era muito diferente do quarto da minha irmã. Ele tinha um perfume tão doce...
Eu fiquei em pé, um pouco paralisado, enquanto Haruhi olhava as prateleiras de jogos eletrônicos. Pelo jeito, ela não tinha nenhum pouco da malícia que estava começando a me invadir...
“Que tal esse Kyon?” – Ela me mostrava um jogo de luta no formato 1x1. Bem...eu tinha esse jogo e já havia treinado bastante nele.
“Tudo bem” – Falei após balançar minha cabeça na tentativa de afastar meus pensamentos ruins...
Voltamos à sala e começamos a jogar...
Não preciso dizer que Haruhi estava chutando meu traseiro.
“Qual é Kyon? Pelo menos reaja! Qual a graça de enfrentar um adversário que nem se move...”
– Ei! Eu estou me movendo, mas apesar dos meus ataques serem técnicos e preparados, a sua esmagação de botões está me destruindo...
Eu quis ficar frustrado com as provocações de Haruhi, mas fiquei absorto na diversão daquele momento. Nós sorríamos idiotamente do que acontecia na TV...pelo menos eu queria achar que era esse o motivo...
Após 9 lutas, eu não tinha ganho uma sequer. Na décima batalha, eu decidi elevar meu nível de concentração ao máximo. Assim, eu não passaria em branco sem vencer pelo menos uma...
“Ah Kyon, o que você está fazendo?” – Essa era Haruhi frustrada por perder um round...
“Eu só estou jogando sério agora” – Falei com um senso de orgulho distorcido...
No segundo round, Haruhi me devolveu a derrota.
No último round, eu consegui encurralar ela e faltava apenas um golpe para selar minha vitória...
“Sinto muito Kyon, mas não posso permitir isso...”
“Do que você está falando? Você vai entrar no jogo e me impedir de vencer?” – Falei sarcasticamente, enquanto me preparava para apertar o último botão...Mas minha vitória nunca aconteceu...
Haruhi se levantou e antes que eu pudesse reagir ela me deu uma pancada com um dos travesseiros do sofá...Com a força que utilizou para me acertar e enrolando o pé em uma dobra do tapete que estava em baixo dos nosso pés, Haruhi tropeçou e caiu em cima de mim...
Ela pareceu um pouco insatisfeita com aquele resultado, mas eu não pude deixar de sorrir. Ela resolveu deixar a sua irritação de lado e começou a sorrir também.
Foi então que me dei conta do que estava acontecendo. Não era a primeira vez que Haruhi ficava em cima de mim desse jeito. Vocês lembram daquele incidente do romance idiota que ela queria que eu escrevesse, não é? O problema é que dessa vez não tinha ninguém por perto pra eu ficar considerando. Eu só tinha que refletir sobre o que eu queria...
Eu olhei para o rosto dela que sorria abertamente e comecei a sentir algo estranho...Não sei definir o que era aquilo, mas minhas emoções estavam entrando em conflito com minha racionalidade.
Meu cérebro dava ordens diretas para eu fugir daquela situação: “Essa é a Haruhi”; “Ela é estranha”; “Essa garota não é pra você”; “Não se envolva, você só vai ganhar mais problemas”... De outro lado, uma voz diferente me falava: “Ela é tão linda e atraente”; “O comportamento dela está ótimo”; “Hoje, você não viu como ela é normal?”. Ok...quanto tempo eu tenho pra pensar?
Não tinha nenhum na verdade. Acho que eu segui a segunda voz...
Haruhi, que estava sorrindo, me percebeu...Eu não sorria mais, eu apenas analisava a face dela profundamente. Naquele momento, coloquei uma das minhas mãos no lado daquele rosto bonito dela. Em resposta a isso, ela se retraiu um pouco. Minha confiança sofreu um leve deslize nessa hora...Mas em seguida, eu notei que ela não se afastou mais. Haruhi queria isso também? Será que não estou sofrendo da influência das minhas ilusões mais uma vez?
Não havia resposta. Eu então levantei meu outro braço e coloquei ao redor do pescoço dela. Meu coração estava completamente acelerado. Eu ia cometer mais um crime...Por que um crime? Vejam bem, fazer algo sem o consentimento de outrem é algo que considero criminoso de alguma forma...
Novamente, infelizmente ou felizmente, não sei definir, não pude fazer o que meu corpo estava pedindo...A polícia, ou melhor o aluno de Haruhi havia tocado a campainha da porta. Rapidamente saímos do transe...Haruhi começou a explicar...
“Deve ser o garoto pra quem eu dou aulas, eu te falei dele, lembra?” – Balancei a cabeça em afirmação. — “Pra falar a verdade, eu não estava muito a fim de dar aulas pra ele hoje...Você quer que eu o dispense? – Ah essa pergunta...Vou ser bem sincero...Comecei a considerar a ideia da viagem no tempo um completo embuste. Contudo, esfriei minha cabeça e fiz o que era certo...
“Não...acho que você deve dar as aulas a ele. Eu sinto que ele deve considerar sua tutoria muito importante...” – Eu falei enquanto Haruhi me analisava de maneira estranha.
“Tudo bem então.” – Ela tinha ficado um pouco brava?
“Olha, eu acho que não é bom que ele me veja aqui...O que ele diria pra seus pais se me visse aqui sozinho com você?” – Comentei, lembrando do conselho de Asahina-san (Grande).
“Hum...você acha que ele iria pensar nesse tipo de coisa?”
“Eu já fui um garoto da idade dele e sei o que se passa naquela cabeça”
“Kyon, você é tão pervertido!” – Haruhi falou tentando transparecer seriedade, mas com um sorriso escondido... – “Fique aqui no banheiro. Eu vou abrir a porta para ele e assim que formos para cozinha, você sai de fininho...”
No fim deu tudo certo, mas quero frisar que, por alguma razão, eu fiquei um pouco decepcionado com aquele desfecho...
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Eu queria pensar um pouco sobre o que aconteceu na casa de Haruhi, mas eu tinha outras prioridades no momento.
Chequei minha caixa de correios novamente e verifiquei o próximo bilhete...
“Olá Kyon-kun
Como foi seu passeio?
Sinto muito, mas você ainda não poderá descansar...
Existe mais uma tarefa que você deve realizar.
Anexo a este bilhete existem quatro endereços...
Por favor, consiga uma pá ou algo do gênero.
Você irá precisar pegar todas as esferas e levar aos endereços indicados.
Em cada um deles você deve enterrar a respectiva esfera em algum lugar que você lembre.
Reforço que é de extrema importância à realização disto, ainda hoje...”
O que eu fiz para merecer esse castigo? Após essa frase ridícula, olhei a lista de endereços apenas para verificar que alguns deles eram bem distantes. Ótimo, mais uma madrugada perdida...
Entrei em casa e peguei as esferas restantes. Fiquei aguardando os outros membros da minha família dormirem para eu poder sair...
Eu já mencionei como fico de mau humor quando meu sono é perturbado? Felizmente a madrugada não estava tão fria assim, por isso pude acelerar meu passo. No primeiro endereço em que cheguei, havia apenas um terreno baldio. Tratei de ser rápido. Cavei na borda da calçada e enterrei a esfera vermelha.
Ao chegar no segundo local, me deparei com uma casa vermelha, bastante simples. Na verdade, acho que não havia ninguém morando naquele lugar. O preocupante era a inexistência de lugar para escavar e fazer o que eu devo. Após analisar durante um tempo, descobri um único objeto que continha terra. Este era um vaso com algumas flores. Ele estava em uma das janelas. Após me certificar de que ninguém estaria me vendo, peguei o pequeno vaso e coloquei a esfera rosa nele.
O terceiro destino era um prédio de apartamentos que estava aparentemente abandonado. Na frente dele existiam algumas valetas com terra. Provavelmente era o lugar onde ficaria um jardim. Não me importando muito, cavei e plantei a esfera roxa.
O último lugar era uma casa de dois andares. Sendo sincero, eu tinha a estranha impressão de já ter estado nela. Havia um gramado na frente. Novamente parecia não haver ninguém na casa. Aproximei-me com cuidado e cavei a grama rapidamente enterrando a esfera amarela em seguida.
Missão cumprida! Com algum alívio mental agora eu estava livre para ir pra casa. Todavia, enquanto eu fazia meu caminho de volta, eu comecei a sentir uma sensação esquisita. Era impressão minha, ou eu não conseguia sair da rua em que estava. A noite parecia estar se aprofundando cada vez mais. A escuridão apenas crescia. O que era aquilo?
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