Notas iniciais
Boa Leitura. ♥ Obs: Capítulo com música

Uma onda de arrepio tomou meu corpo ao sentir as mãos do rei tocando em meu braço. Ele parecia relutar em fazer aquilo, porém suas mãos passaram devagar, acariciando-me enquanto seus lábios se moviam contra os meus e sua língua passou a brigar por espaço em minha boca. O beijo intensificou-se ainda mais, fazendo-me tremer um pouco com a sensação extraordinariamente quente que se apoderou dentro de mim.

Meus pés formigaram, e sorri em meio ao beijo. Senti Thranduil parar, ainda encostando os lábios nos meus tentando recuperar a consciência que perdeu em poucos segundos. Afastei-me dele, cabisbaixa, imaginando o que viria depois. Podia sentir a bronca se formar nos lábios do rei, uma súbita raiva e o extinto de elfo contra humanos apoderar-se de seu corpo, repudiando meus lábios e a minha iniciativa. Contudo, o que veio depois foi o baque da porta de madeira e o som das chaves fechando-me mais uma vez naquele quarto. Prisioneira era tudo o que eu ainda conseguia ser.

Precisava tomar alguma atitude para sair daquele local. Talvez Thranduil não fosse fácil de convencer apenas com palavras, apesar dele próprio confessar que sentia inveja por eu defender as minhas ideologias com unhas e dentes.

Mas as coisas estavam indo devagar e a sensação de sufocar-me dentro daquele quarto era maior a cada dia que se passava.

E depois? Pra onde eu iria? Essa era uma questão ao qual eu ainda não pensara. Sabia que provavelmente meu pai estaria a minha espera com um chicote na mão, enquanto Kirkel aguarda para dizer que nosso noivado está acabado. Talvez eu seja expulsa de casa e deserdada – o que não é nada demais, já que minha família não possui bens de grande valor.

Mas, eu sabia que não podia ficar ali. Estava começando a ficar louca, a ter pensamentos estúpidos e a agir de forma completamente inadequada. Precisava de um plano, mas o que faria?

A noite não demorou a cair. Acho que meus devaneios tomaram conta de certa forma que eu não vi o tempo passar. Meu corpo parecia paralisado, em choque, ainda absorvendo o gosto do beijo do rei. Será que sabe o quanto era arrebatador? Que poderia levar qualquer mulher a loucura se quisesse? Que seus lábios tem um gosto tão doce e suave que pode ser comparado a mais perfeita fruta?

Senti que comecei a enlouquecer com tais pensamentos. A última coisa que eu precisava naquele momento era me apaixonar por um elfo, ainda mais um tão arrogante quanto ele. Eu precisava mesmo era de um plano para sair dali, e focar nisso.

Tauriel apareceu depois do jantar. Quando ela entrou em meu quarto percebeu meu olhar longe e a falta de expressão nele. E demorei um pouco em perceber que se tratava dela, e não de Freeda.

— Está tudo bem? – sua voz despertou-me.

— Pensei que fosse Freeda. Estou. Mas quero ir embora e não vejo saída em como convencer o rei a me dar a liberdade.

— Não entendo porque ele ainda a mantém aqui. – Tauriel soava um pouco desconfiada.

— Eu também não. Ele vem todos os dias e conversamos, e nenhuma conclusão é tomada. Ele parece feliz em me manter presa aqui. Deve sentir prazer com o ato. – respondi.

— Talvez. Ele não me parece mais convencido de que é uma ameaça ao reino ou um inimigo. De repente, ele tem outros planos...

Encarei Tauriel interrogativa.

— Outros planos. Como o que? – perguntei. Afinal eu não era de nenhuma utilidade para ele.

— Distração, talvez. – Tauriel concluiu, sorrindo largamente.

— E eu tenho cara de bobo da corte? – respondi fingindo que não entendi.

Ela sorriu ainda mais.

— Bobos da corte não usam vestidos tão decotados e ricos em detalhes. Já reparou que seus vestidos são ainda mais belos do que qualquer outra pessoa aqui? Você não viu muitas de nós, mas, as elfas não costumam usar esses trajes tão... indecentes.

Olhei para meu vestido e percebi que Tauriel tinha razão. Seu decote revelava parte dos meus seios, ele era bem justo na cintura e cheio de pedras preciosas. Mas para mim não havia nada de errado naquilo, afinal eu era humana e elfos e humanos não se misturam.

— Por que acha que Thranduil tem prazer em ver meu corpo se elfos e humanos não se misturam? De acordo com ele, nem a realeza élfica deveria se misturar com a plebe. – respondi, e percebi Tauriel ficar um pouco vermelha.

A elfa suspirou.

— Não leve tudo o que meu Senhor diz a sério. – ela continuou. – Às vezes até mesmo eu acho que ele esconde sentimentos... bem, deixa pra lá.

— Eu entendo o que quer dizer. – respondi.

Tauriel levantou-se, e pediu que eu ficasse de pé também. Não entendi sua atitude, mas obedeci.

Ela girou-me por completo, devagar. Passou a me observar atentamente e a todos os detalhes do meu corpo. Senti-me desconfortável com aquela atitude.

— Gosto dos seus cabelos. – ela disse finalmente depois de algum tempo. – São muito bonitos, e com certeza muito diferente de qualquer elfa por aqui, o que faz você ganhar um ponto. A cor deles é viva e muito brilhante, mas não é como o loiro e o ruivo que predominam entre nós. Seus olhos são curiosamente grandes. Sua pele parece propositalmente dourada. E seu corpo tem curvas! Já olhou para nós? Parecemos palitos, grandes palitos. – Ela concluiu rindo de si mesma.

— Do que é que está falando? – perguntei sem entender.

— Que, talvez, Thranduil esteja encantado por você. Não há outra explicação! Ele lhe veste como uma princesa e lhe tranca em um bom quarto, te alimenta muito bem e vem te ver todos os dias. Você pode ser o momento de distração de Thranduil do dia, talvez o agrado aos olhos do rei que está cansado da mesmice da floresta.

Aquilo era ridículo. Eu era um brinquedo? Fiquei sem reação ao ouvir aquilo da elfa.

— Acha que ele me prende aqui por estar cansado de ver a beleza repetitiva das elfas?

Tauriel fechou a cara.

— Ah... me perdoe. – pedi.

— Eu não consigo pensar em mais nada. Apenas isso. – Ela concluiu.

Pensei em nosso beijo mais cedo. Não era possível que Thranduil estivesse encantado por mim dessa forma. Mesmo que ele tenha me visto nua, qual era o impacto que isso poderia causar dentro de si? Uma paixão repentina? Uma paixão por uma humana? Não poderia ser tão simples. Eu nem era a mais bela das humanas, e com certeza ele já havia visto muitas delas em toda a sua vida.

Afinal, quantos anos Thranduil tinha? E, em quantos deles ele já estava viúvo? Será que, no fundo, ele nutre um amor pelos humanos mas como não é bem visto entre os elfos de linhagem real antiga, ele finge ser como é?

— Tinha esperança de que pudesse me ajudar a sair daqui. – Disse, tentando mudar de assunto e me afastar daqueles pensamentos e conclusões.

— É muito arriscado. Mas sim, eu já estou pensando em um modo de te ajudar. Só precisa ter paciência e aguardar mais uns dias. E, claro, suportar a companhia do rei. – Tauriel respondeu irônica.

— Vai ser difícil. – disse.

— Enquanto eu vejo o que posso fazer, tente não transparecer ansiedade. Ninguém pode saber as suas intenções, nem mesmo Thranduil. Mesmo ele sabendo que sua vontade é fugir daqui, não pode desconfiar que eu estou no meio disso.

— Tudo bem. Apesar de ser difícil esconder minha ansiedade.

— Melrise, você precisará distrair Thranduil enquanto isso. Precisa ser discreta, e fingir ter paciência.

— Prometo que farei qualquer coisa para distrair o rei. – Respondi Tauriel sentindo-me um pouco nervosa por causa disso. Distrair o rei como? Beijando-o outra vez? Confrontando-o como sempre? Precisava mais do que aquilo.

Tauriel fez-me companhia até o sono bater. No geral, ela gostava de contar sobre como era ser chefe de guarda. Vez ou outra escapava certas aventuras ao lado do príncipe, que ela jurou ser quase uma cópia fiel de Thranduil de aparência, mas que tinha a alma e o coração completamente diferentes.

~***~

Thranduil não aparecera no dia seguinte. Nem no outro. Estava começando a perder a paciência por causa daquilo. Sabia que ele estava me ignorando por causa do beijo, e que provavelmente não tinha coragem de encarar-me e dizer que sentiu algo por ele. Eu sei que sim. Pois ninguém foge de algo que não existe, e se Thranduil fugia era porque algum sentimento contraditório apoderou-se dele depois de tudo e ele não iria admitir.

Era sufocante não poder contar isso para ninguém. Gostaria de poder desabafar, mas não confiava em Freeda e Tauriel já pareceu debochar de mim por achar que eu era uma distração para o rei.

Considerei, por diversas vezes, roubar as chaves de Freeda. Porém sabia que se o fizesse não passaria sequer da entrada do castelo e deixaria o rei em fúria.

Pelo menos eu chamaria sua atenção.

Mas sabia que existia outros modos de chamar atenção sem ter que fazer nada de errado. Eu só precisava abrir a janela e deixar que minha voz tomasse conta de parte do reino, despertando a curiosidade de milhares de elfos. Era arriscado, mas talvez Thranduil despertasse pela minha presença ali ainda.

Assim que Freeda levou o almoço, abri a janela e puxei as cortinas de lado. Um vento fresco tomou conta do local, e a luz do sol vinha fraca bater em meu rosto. Pude sentir o aroma das árvores, estas que eram completamente diferentes de qualquer outro lugar. Lembrava-me do aroma suave que o rei exalava em seu corpo.

Pensei um pouco: que música cantaria? Precisava sair alto e em bom som, de modo a despertar as pessoas pelo que ouviam.

Sentei-me na janela, uma escova nas mãos penteando os cabelos como se aquilo fosse uma donzela presa à espera de seu príncipe encantado, como se fosse minha real intenção. E cantei.

Quando eu era jovem

Eu vi meu pai chorar

E amaldiçoar o vento

Ele partiu seu próprio coração

E eu assisti

Enquanto ele tentava o recompor

E a minha mãe jurou que

Ela nunca mais se deixaria esquecer

E foi nesse dia que eu prometi

Que eu nunca cantaria sobre amor

Se ele não existisse

Mas querido

Você é a única exceção

Você é a única exceção

Você é a única exceção

Você é a única exceção

Fui cantando e aumentando ainda mais a minha voz. Sabia que haviam muitos guardas, criadas e outros elfos que eu poderia chamar a atenção por ali. Provavelmente alguém diria para o rei sobre o estranho acontecimento do local, já que apenas Freeda e Tauriel sabem da minha existência ali naquele quarto. Porém, tudo o que eu queria era que Thranduil realmente viesse ao meu encontro. Precisava conversar com o rei. Precisava de mais uns minutos a sós com ele para continuar exatamente onde paramos da última vez.

Admito que sonhei com todos os detalhes daquele beijo nas noites anteriores. E, pela primeira vez na vida, eu queria um pouco mais, mesmo que fosse contra todos os meus princípios, e que eu me sentisse como uma idiota distração para o rei.

Distração talvez não fosse a palavra certa. Mas uma pessoa ao qual ele sente prazer em conversar, rir e brigar não eram de todo ruim. Afinal, eu fazia o mesmo com ele, e mesmo descobrindo seus segredos ele ainda continuava a vir me ver.

Ouvi batidas na porta. Batidas. Se fosse Thranduil não bateria, abriria e entrava. O mesmo seria com Tauriel ou Freeda.

— Olá? – Alguém gritou do outro lado. – Tem alguém aí?

A pessoa forçou a fechadura na tentativa de abrir a porta. Fiquei em silêncio absoluto e não me atrevi sequer a respirar.

— Sei que há alguém aí. – insistiu. A voz parecia masculina. – Por favor, se está trancada posso te ajudar a sair.

Ponderei se deveria aceitar a ajuda, mas ainda não sabia de quem se tratava. Se deixasse abrir, talvez possa sofrer consequências com Thranduil. Afinal, ele era o rei.

— Olá? – o elfo insistiu mais um pouco. Fiquei calada e até mesmo imóvel feito estátua para não ser percebida.

Vi a sombra do elfo se movimentando. Após mais algumas tentativas, este saiu, e pude ouvi-lo bater na porta de outros quartos em busca da voz desconhecida até finalmente desistir.

Demorou algumas horas até Thranduil finalmente aparecer. O sol estava se pondo, e eu ainda estava na janela ponderando se deveria continuar com aquilo ou não. A torre era alta, e claro, algum elfo poderia enxergar-me mesmo que de longe se focasse em minha direção.

— Está maluca? – foi a primeira coisa que disse. E não pude deixar de sorrir para ele.

— Não. Obtive o resultado desejado. – Respondi, piscando para ele.

— Meu filho foi desperto por sua voz! Não faça isso mais. – ele disse, trancando-me outra vez.

Mas querido

Você é a única exceção

Você é a única exceção

Voltei a cantar alto, debochando-me de Thranduil. Ele abriu a porta mais uma vez, e encarou-me com raiva. Seus olhos faiscantes poderiam soltar fogo, e sua boca contorcia-se por causa da minha contrariedade.

— Vai ficar sem comer. – ele disse, tentando fazer-me parar.

Eu tenho uma forte noção de realidade

Mas eu não consigo

Deixar o que está na minha frente

Thranduil passou as mãos pelo rosto, ficando visivelmente sem paciência e muito mais enfurecido. Precipitou-se pera a janela, tirando-me de lá bruscamente, e pondo uma de suas mãos em minha boca.

— Ficará em silencio. Está me ouvindo? – Ele ordenou furioso, tirando sua mão de minha boca. – Ótimo.

Eu sei que você está partindo

Quando você acordar de manhã

Me deixe uma prova de que não é um sonho

O rei perdeu a paciência. Dentro de mim, eu ria com a sua reação. Ele não podia fazer-me calar, e nem podia pedir a alguém para cuidar de mim por ser quase um segredo no castelo. Tive esperanças de que ele me deixasse sair, caso o perturbasse um pouco mais.

Fechando a janela, o rei tomou-me pelos braços como fez da última vez.

— O que está fazendo? – protestei tentando me soltar.

— Fique calada. Se alguém te descobrir, mando te matar por invasão de propriedade. – ele disse com amargura na voz.

O rei desceu algumas escadas. Estas que pareciam ser escondidas, estavam sendo vigiadas por alguns guardas. Ele pôs-me de pé, puxando-me pela mão para andar do seu lado para uma imensa porta de madeira muito bem desenhada e talhada em algumas partes em ouro e prata.

— Corto a língua daquele que falar sobre o que viu. – ele disse para os guardas, que apenas fizeram um pequeno gesto de cabeça afirmando.

Thranduil abriu a porta. Parecia muito pesada, mas não fez barulho algum. Atrás dela um imenso jardim revelou-se, muito mais bonito do que aquele que via da janela. Não tinha ninguém por ali, porém. E desconfiei que a única entrada e saída fosse aquela da imensa porta.

— Agora pode cantar o quanto quiser. – O rei respondeu, trancando-me outra vez.

Notas finais
Música: The Only Exception, que dava nome à fic (em inglês, mudei recentemente). Ela é do Paramore, mas eu gosto mais de ouvir a versão da Rachel do Glee. Vestido de hoje, apesar de não ter descrito na história: http://mlb-s1-p.mlstatic.com/vestido-longo-festa-madrinha-formatura-azul-renda-branca-18293-MLB20152810643_082014-F.jpg Bjs e até mais ♥