A Última Aurora
4 O Que Ela Não Consegue Dizer
A chuva negra começou a cair quando atravessavam as Planícies. Não molhava como água comum; deixava um frio persistente na pele, como se cada gota transportasse memórias esquecidas. O Guardian caminhava à frente, atento ao terreno instável. A Recluse seguia-o de perto, demasiado próxima para ser apenas cautela.
— Pára um momento — disse ela, tocando-lhe no braço.
Ele virou-se imediatamente.
— Estás cansada?
Ela abanou a cabeça, mas não retirou a mão. Os dedos apertaram-lhe o antebraço com mais força do que o necessário.
— Há noites — começou — em que a Noite me chama pelo nome que eu tinha antes.
— Hum…. E isso assusta-te?
— Assusta-me lembrar-me de quem fui quando ainda acreditava que podia escolher sem condenar ninguém.
O Guardian aproximou-se, pousando-lhe as mãos nos ombros. Sentiu-a estremecer sob o toque.
— Não és responsável por tudo o que este mundo se tornou.
A Recluse quase recuou.
— Não digas isso.
— Porquê?
Ela desviou o olhar.
— Porque, se acreditares, vai doer mais quando deixares de acreditar.
O ataque surpresa veio logo depois. Criaturas rápidas, quase invisíveis, rasgaram o véu da chuva. Lutaram juntos, mas desta vez a Recluse hesitou. Um feitiço falhou, dissipando-se antes de atingir o alvo. O Guardian compensou, protegendo-a, mas percebeu.
Após a batalha, ela caiu sentada, exausta.
— Estás a enfraquecer — disse ele, ajoelhando-se à sua frente.
— Estou a lembrar-me. — respondeu ela. — E isso custa mais do que esquecer.
Ele puxou-a para si, num abraço firme. A Recluse deixou-se ficar, enterrando o rosto no peito dele. Chorou em silêncio, agarrada à sua armadura como se fosse a única coisa sólida no mundo.
— Se soubesses tudo… — murmurou.
— Saber não me faria deixar-te — respondeu ele, beijando-lhe o topo da cabeça.
Ela fechou os olhos. Não respondeu.
Nessa noite, deitaram-se juntos, mas a Recluse manteve-se acordada durante horas, observando o Guardian dormir. Passou os dedos pelo rosto dele com cuidado, como quem memoriza algo que pode perder.
— Perdoa-me — sussurrou, sabendo que ele não a ouvia.
A Noite escutou.
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