A Órfã Doce
29 Tristeza
Notas iniciais

– A policia levou ele? – perguntei rapidamente.
– Não. – Kim respondeu. – Uma vizinha chamou a policia falando que viu uma atividade suspeita no apartamento desse menino. – ela pôs um cigarro na boca e o acendeu com o isqueiro.
– O que houve com ele? – perguntei novamente.
– Tentativa de suicídio. – ela respondeu tragando o cigarro e expelindo a fumaça. – Essa semana, essa vizinha registrou atividades suspeitas dele. Segundo ela, ela é tia dele.
– Que tipo de atividades? – perguntei.
– Primeiro foi na livraria. Ele comprou o livro japonês “Manual completo de suicídio”, não sei como raios esse moleque conseguiu esse livro, ele está com a venda suspensa. – Kim tragou o cigarro novamente. – Depois viram comprando altas quantias em remédios, cordas e ácido clorídrico.
– Levaram ele para o hospital, não é? – perguntei meio desesperada.
– A ambulância veio antes da policia, a vizinha acabou de prestar depoimento. – Kim olhou para a sua viatura. – Ele foi internado com cortes profundos nos pulsos e com um caso de hemorragia, assim que os paramédicos o viram, já disseram que ele estava com anemia em estado grave.
– Você acha que ele... – pausei olhando para o chão deixando a frase encerrada por ali, mesmo que tivesse algum complemento eu não conseguia pensar nessa possibilidade.
– Ele escapa. – ela falou sem se importar muito. – Nada que uma transfusão de sangue não dê jeito. Agora... O que me preocupa é que não é a primeira vez que acontece. Os médicos já disseram que seria melhor mandar ele para um hospital psiquiátrico, mas a mãe dele não quis. Se puder falar com ele sobre isso, eu agradeceria.
TRÊS DIAS DEPOIS.
Nathaniel havia voltado do hospital pela manhã, se ele não tivesse refletido sobre o que tinha feito, acabaria repetindo o que fez... Talvez fosse pior... Talvez ele conseguisse o que queria.
Bati a porta pela primeira vez, aguardei uns segundos e sem resposta. Bati pela segunda vez, ainda sem resposta.
– Nathaniel? – o chamei. – Você está aí?
Ao bater pela terceira vez, levei a mão na maçaneta e a girei. O apartamento estava quase sem luzes, sombrio. Dei alguns passos a frente entrando no apartamento e fechando a porta. Liguei a lanterna do celular e encontrei Nathaniel sentado no chão abraçando os joelhos com a cabeça abaixada.
– Nathaniel? – o chamei novamente dando alguns passos. – Você está bem?
Encarei os braços, havia esparadrapos nos pulsos dele devido aos cortes daquele dia. Olhei para o lado, havia cartelas de comprimidos abertas.
– Você...
– Eu tomei, mas depois vomitei no banheiro. – ele explicou com a voz fraca. – Estou cansado de mim, você não entenderia.
– Então conta, faça-me entender. – suspirei.
Afastei com o pé as cartelas de comprimidos e me sentei ao lado de Nathaniel, o encarando constantemente.
– Por que veio? – ele perguntou me olhando.
O rosto dele dava medo, estava com olheiras profundas e a pele totalmente pálida, parecia que alguém tinha maquiado ele para algum filme de terror.
– Você me deu apoio, vim dar apoio a você. – dei um sorrisinho. – Queria saber por que fez isso. – gesticulei para os braços dele, que estavam com vários esparadrapos.
– Vários motivos. – tentou explicar e logo em seguida soltou um suspiro. – Mãe, irmã, família em geral, trabalho, responsabilidades... Melody...
“Eu devia ter contado antes”. – pensei enquanto encarava o chão. – “Devia ter falado sobre a Melody antes que ela magoasse ele...”.
– Não sabia nem que você morava sozinho. – falei. – Certo que a maioria das pessoas daqui moram sozinhas, mas você... Eu nunca imaginei.
– O resto da minha família mora numa casa bem grande, perto de um condomínio de gente rica. – fico cabisbaixo.
– Então por que você...
– Minha mãe me odeia. – ele confessou. – Quando eu era pequeno eu era uma pessoa muito... Enérgica... – Nathaniel deu pausas puxando o ar.
O vento sobrou afastando as cortinas, a luz que saía da janela me mostrou novos cortes no braço de Nathaniel.
– Eu batia na Ambre, era irresponsável. – explicou. – Mas quando eu mudei, ela achou que eu era da mesma forma, eu mudei para melhor e Ambre para pior, até hoje acreditam que ela é boazinha. Um dia quando Ambre roubou as provas e fez-me assumir a culpa, eu bati nela e de verdade, pra valer. – ele levantou o rosto e me olhou. – Minha mãe me expulsou de casa e fez com que eu morasse aqui.
– Por que logo aqui? – perguntei. – Esse lugar fica longe de qualquer condomínio que você citou.
– Tinha uma história de um cara que ficou louco e se matou nesse apartamento. Aliás, já aconteceu vários quartos, inclusive no seu. – ele olhou nos meus olhos. – Eu estou aqui há muito tempo, no meu apartamento eu escuto rangidos e barulhos à noite, às vezes nem durmo.
– Nathaniel... – o fitei sem sequer piscar os olhos. – A policial me contou que você deveria ter sido internado em algum hospital psiquiátrico.
– Minha mãe não quis, por isso ela me mandou para cá. Ela disse que aqui era lugar de loucos. – ele deu um meio sorriso. – Ela me mandou para que eu morresse aqui... Bem... Ela estava certa... – ao ouvir isso não tive resposta. – Sabe... A mulher que se matou no seu apartamento era uma universitária, ela perdeu os pais num acidente de carro e se enforcou no apartamento...
“Acidente de carro”. – lembrei da minha mãe, senti um aperto no coração.
– Isso não te incomoda? Saber que uma pessoa tirou a própria vida no lugar onde você deita e dorme?
– Nathaniel, por favor. – pedi.
– Desculpe. – ele desviou o olhar.
– Quando você virou voluntário do abrigo de animais? – mudei de assunto, o anterior tinha me causado calafrios.
“A Kim pediu para que eu falasse com ele... Mas não sei se essa conversa está ajudando”. – pensei.
– Foi quando eu saí de casa. – ele respondeu esticando as pernas, apoiando a cabeça na parede e olhando para cima. – Sabe... Eu já abandonei um animal na chuva por causa da Ambre.
– Você... Por quê?
– Ela fingiu ter alergia a gatos só para que eu o tirasse de casa. – Nathaniel fez uma careta.
– Sua irmã já fez coisas tão ruins... – pausei. – Por que ainda fala com ela?
– Meu pai. – ele me olhou. – Eu trabalho em meio período na livraria, mas o que eu ganho não dá pra me manter. Ele manda dinheiro para mim.
– Na livraria... Foi lá onde você encontrou o livro? – perguntei olhando para os cortes novos nos braços dele.
– Sim. Para falar a verdade, eu estava arrumando umas prateleiras no deposito onde tinham os livros que iam ser tirados da livraria. – ele suspirou. – Eu já estava pensando nisso há muito tempo... Desde aquele dia que eu conheci você, deve se lembrar. – a cena de Nathaniel tentando se suicidar na escola passou pela minha cabeça.
– Entendo por que esse livro teve a venda suspensa. – arqueei a sobrancelha. – Não se pode deixar um livro assim para incentivar as pessoas a se matarem.
– Muito pelo contrario. – ele discordou. – Eu li esse livro, são quase 200 páginas falando de métodos de suicídio. Eu estava tão desesperado que optei pelo método de cortes, eu fui burro, tinham métodos melhores. Enfim, esse livro só conta os métodos, ele não incentiva, na verdade ele vai totalmente contra ao suicídio.
– Entendo... Mas... – pausei um pouco buscando as palavras certas e a coragem para perguntar. – Por que não se matou?
– Com os remédios pra morrer de overdose? – fiz que sim com a cabeça. – Ontem eu precisei de uma transfusão de sangue. Como você sabe, a cidade é pequena e não há muitos doadores locais... Ontem o hospital fez uma ligação para um doador de O+, meu sangue é A+. Ele era o único doador de emergência e ele veio me ajudar. Quando estava tentando o suicídio novamente, pensei nessa pessoa, no quão ele me ajudou e eu me senti um ingrato de acabar com a minha vida sendo que ele me deu mais uma chance pra recomeçar.
– Quem era o doador? – perguntei, até era uma pergunta idiota, estava meio que me metendo demais na vida dele.
– Eu não faço a mínima ideia. – ele falou pensativo, com um tom de desapontamento na voz. – Eu me sinto um fraco por querer acabar com a minha vida... Mas há quedas de que as pessoas não conseguem se erguer, estou assim nesse momento.
– Não se sinta. – coloquei minha mão sobre a dele e sorri. – Eu vou ajudar você.
Levantei-me e abri as cortinas, Nathaniel tapou os olhos. Devia ter passado muito tempo no escuro.
– Quer que eu pegue o kit de primeiros socorros em casa? – perguntei olhando os cortes novos nos braços.
– Não. – ele se levantou e saiu andando. – Eu faço isso.
O apartamento estava arrumado, andei até a cozinha e me deparei com uma poça de sangue no chão.
– Ah... Isso... Não tive tempo para limpar, desculpe. – Nathaniel encarou a poça de sangue.
Fiquei de costas para aquela cena. Lembrava-me coisas ruins.
– A gente vai fazer uma disputa com outra turma da escola militar. – A diretora nos olhou.
– Sim Senhora! – falamos em conjunto.
Fomos para o campo que ficava perto da floresta. Soltaram-nos 500 metros de distancia da outra turma.
– Peguem suas armas. – o representante da turma falou. – Ta aqui seu rifle. – ele me entregou. – Vê se tenta fazer algo útil, pra variar. – ele me olhou com desprezo e saiu.
Subi em uma árvore, estava com a roupa camuflada e com os cabelos presos, ninguém me veria. A turma começou a avançar devagar. Um menino vinha na frente conferindo se estava limpo para que seguissem.
– Tudo limpo. – ele falou virando-se de costas.
– Se ferrou, mané. – resmunguei e atirei nas costas dele.
Ouvi um estrondo fora do normal, o menino caiu no chão todo ensanguentado.
– O que aconteceu? – um dos outros gritou checando as costas do menino em quem eu tinha atirado. – Quem usou munição de verdade?
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