A Órfã Doce
58 Sombra da árvore
Notas iniciais

Passaram-se mais alguns dias. Fui à cafeteria depois da aula com Lysandre.
– Ela foi embora. – ele disse tomando um gole de café. – A Iris. – complementou. – Ela disse que não tinha mais nada para fazer aqui.
– Por causa do Castiel? – Lysandre fez que sim com a cabeça.
Na minha cabeça já se passavam coisas desde ontem. Iris havia me mandado umas mensagens, mas não falou nada sobre estar indo embora. Ela falou sobre Jade e que realmente ele era um garoto de programa e confessou algo, e era sobre aquele anuário. Havia uma foto dela de quando era criança, foi a foto que foi exposta na TV da cantina. Ela fez com que Jade contasse a história dela indiretamente. Ela disse que sabia que iria acabar sendo descoberta, até porque viu que não foram todos que viraram as costas para mim. Também disse que não aguentaria me contar aquilo, então mandou Jade, mesmo sem saber de nada dela, contar para mim.
Iris não era uma pessoa muito normal em mudar a aparência para conquistar o amor de uma pessoa. Mas dizem que pessoas cometem loucuras por amor... Talvez ela não soubesse da Angela, ela poderia querer tira-la do caminho, apesar de que Angela mal andava por aqui... Talvez Castiel não conhecesse a Angela no tempo em que Iris se apaixonou por ele. Na foto que eu achei no quarto de Kentin, Angela não estava lá... Talvez ela estivesse fora... Quem sabe, tinha várias possibilidades.
– Você gosta do Castiel? – ele perguntou meio corado.
– Não. – neguei, MALDITO RUBOR. Já era a segunda vez que ele fazia aquela maldita pergunta.
Lysandre desviou o olhar, fiquei mais corada, bebi o café para disfarçar.
– Desculpe. Acho que eu não deveria te fazer essas perguntas. – ele deu um sorriso meio constrangido. – Acho que não é legal para você responder esse tipo de pergunta.
– Não tem problema. – sorri tentando ser gentil.
Tinha problema SIM em responder aquelas coisas, além de envergonhada eu ficava confusa. Confusa por quê? Porque eu simplesmente não sabia qual era a de Lysandre, ele não dizia qual era a dele! Armin me beijou, Lysandre também, mas ao contrario de Lysandre, Armin deixou claro de que não gostava de mim. Beijar um menino sem ele gostar de mim era um problema? Não, era só um beijo. Mas sobre Lysandre, além dele ser uma pessoa altamente misteriosa, ele não falou nada sobre isso. Depois desse dia, ele nem tocou no assunto, e olha que depois desse dia eu o encontrei na cafeteria umas três vezes. Só pra constar, não rolou nada nesses dias.
Ele me beijou e não deu explicações, eu retribuí, e foi notável que eu retribuí. Será que... Ele estava gostando de mim...? Espero que não. Lysandre é muito fofo e muito gatinho, mas seria uma dor de cabeça a mais para mim. Se eu já estava com dor de cabeça por causa de Castiel, imagina se eu tivesse que escolher entre eles dois. Seria uma catástrofe mundial!
Eu saí com ele da cafeteria, ele novamente perguntou se eu queria que ele me acompanhasse até em casa, mas dessa vez eu aceitei. Que se dane se tinha um Pit Bull me esperando em casa. Assim que chegamos em casa, ele se sentou debaixo da arvore do jardim.
– Vai lá avisar ao Kentin que você chegou. – Lysandre falou sacando o bloco de notas.
– Não há necessidade. – balancei a cabeça. – Está escrevendo algo?
– Não. Esses dias eu não ando muito bem para escrever. – ele sorriu com a vista voltada para o bloco de notas enquanto o folheava, parecia estar a procura de algo. Logo me mostrou uma página. – Foi a ultima coisa que eu escrevi.
“Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre
na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
condição de poema.” – li mentalmente o que ele tinha escrito no bloco de notas.
– É uma nova música? – perguntei, apesar de que aquilo não parecia muito ser uma música. Sentei-me ao lado dele debaixo da sombra da árvore.
– Não. – ele respondeu. – Eu faço só pra passar o tempo... Mas como eu disse, esses dias eu não venho escrevendo muito bem. Esse ultimo poema eu fiz há três dias.
– Ora, não está bom? – fiz careta, ele riu.
– Eu escrevo todos os dias. – ele explicou. – Tenho medo de não conseguir mais...
– Você é criativo! – exclamei. – Ao contrario de mim.
– Você é engraçada, compensa. – ele deu uma risada repousando a mão no meu ombro.
Entreolhamos-nos, e ficamos no silencio. Lysandre encarou o relógio de pulso por uns segundos, levantou-se e estendeu a mão para mim.
– Já vai? – perguntei, segurei a mão dele e me ergui.
– Sim. Tenho uma coisa para fazer. – ele sorriu.
– Que pena... – fiz bico. – Nos vemos depois então.
Ele fez que sim com a cabeça, segurou levemente meu queixo com o indicador e o polegar.
“CARALHO, CARALHO, CARALHO”. – gritei internamente.
Ele me beijou, mas não foi um beijo longo, até porque Kentin poderia nos ver. Se ele visse... Tsc, tinha quase certeza de que a guerra estaria feita. Ele se afastou e sorriu, deu passos para trás e saiu acenando, acenei de volta e entrei em casa.
Estava me sentindo uma boba ingênua. Tranquei-me no quarto e fiquei pensando nele, oh céus... Eu não estava gostando dele... Estava? NÃO! AQUILO NÃO PODERIA ACONTECER!
Se eu começasse a gostar dele, a minha dor de cabeça iria da Terra até o espaço, meu Deus! Controle-se, Lynn! Não faça besteiras!
– CARALHO! – ouvi um grito no corredor.
– O que foi dessa vez? – perguntei sem me levantar da cama.
Ele não respondeu, ignorei. Ele deve ter batido o mindinho na quina de algum móvel da casa. Levantei-me da cama para ir a cozinha tomar água. Estava descalça, pisei em algo, olhei para o chão.
– SANGUE? – dei passos para trás já começando a tremer.
Saí gritando pela casa a procura de Kentin, não foi difícil de achar, o rastro de sangue levava até o quarto dele, girei a maçaneta meio receosa. Ele estava de costas, enquanto o sangue gotejava no chão.
– Ah, você tá aqui. – ele virou-se para mim revelando a mão com um sangramento intenso. – Me ajuda aqui.
Era tanto sangue, tanto sangue, e aquele bocó falava como se não fosse nada. Fiquei parada, em pânico, só olhando o sangue escorrer e gotejar no chão. Kentin pegou no meu braço, o sujando de sangue, meu coração acelerava mais.
– Hei, você ta me ouvindo? – ele perguntou.
Fiz que sim com a cabeça, me desliguei dos meus pensamentos e fui até a garagem. Peguei o carro, a bagaceira começou por aí. Ele tinha comprado uma moto nova, mas insistiu no carro, mesmo sabendo que eu não faço a mínima ideia de como se dirige. Alertei a ele que se eu batesse o carro, a culpa seria dele. Entretanto, até que eu me dei bem, nem sabia como eu consegui dirigir um carro se mal sabia fazer isso numa moto.
Aquela besta simplesmente levou quatro pontos na mão esquerda. Voltei para casa dirigindo, até porque não seria muito recomendável ele voltar dirigindo com pontos na mão. Pelo menos era a esquerda, ele era destro, então não tinha TANTO problema assim.
– O que estava fazendo para cortar a mão? – perguntei cruzando os braços, zangada, quase tinha atropelado um cachorro na rua.
– Estava fazendo a barba. – ele respondeu.
– Sua anta! – exclamei dando uma tapa na cabeça dele. – Nem barba você tem.
– Não tenho porque a faço. – ele retrucou.
– Mesmo assim! – persisti aumentando o tom de voz. – Você é muito anta mesmo! Você tem um aparelho elétrico.
– Quebrou. – ele justificou revirando os olhos. – Aliás, nunca viu sangue na vida? – encarei o chão. – Não faça esse olhar de peixe morto, tampinha. Estou falando com você!
Eu tinha medo de sangue, não do meu, claro. Até porque uma mulher ter medo do próprio sangue é meio complicado, se é que você entende o que eu quero dizer.
Fiquei com esse medo de sangue desde aquele dia do acidente no campo de treinamento. O sangue daquele menino jorrou e se espalhou pelo chão enquanto os alunos gritavam e se aglomeravam para ajudar, e eu simplesmente me escondia por medo do que poderia acontecer comigo depois. Representante nojento!
Eu me perguntava se eu era tão desprezível ao ponto das pessoas simplesmente quererem me ver fora do caminho, eu era uma pedra? Parecia que sim, as pessoas me viam como algo a chutar para fora do caminho. O que você chuta para fora do seu caminho são pedras, e eu me sentia como uma pedrinha do tamanho de uma conchinha de praia.
– Lynn, eu to falando com você. – Kentin segurou meu ombro.
– Não amola. – empurrei a mão dele do meu ombro e voltei para o quarto.
Lavei meu braço, que ainda estava sujo com o sangue dele. Ele não veio atrás de mim, até porque tinha problemas maiores. Naquela hora eu tinha que fazer o que Armin havia dito: esquecer daquilo.
Mas... Parecia que o universo estava brincando com a minha cara, e não me protegendo. Lana diz que o universo protege as pessoas, principalmente as bruxas, uma bruxa tem um poder maior que chega a alcançar o universo com as palavras, digamos. Acho que foi algo assim que ela falou, ela fala muitas coisas. Ela também falou que o pentagrama era uma proteção contra energias negativas, no qual deveria ser energizado para o universo saber a quem proteger. Nunca tirei aquele pentagrama desde que ela havia me dado.
Acordei num sábado de manhã. Fui regar as plantas na estufa do jardim, e lá estava ele de novo debaixo da árvore. Alegrei-me e fui em direção de Lysandre com um sorriso no rosto, ele nem tinha visto que eu estava presente. Minha alegria foi cortada quando Kentin puxou meu braço e aproximou a boca do meu ouvido.
– Eu sei o que aconteceu, eu vi vocês dois. – ele falou baixo para que Lysandre não escutasse, apesar de que estávamos meio longe dele. – O que tem na cabeça?
– V-você viu? – gaguejei o empurrando. – Estava me espionando?
– Eu devia bater em vocês dois. – ele insistiu e agarrou meu braço. – O que eu falei para você sobre o Castiel, aparentemente entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
– Eu tenho liberdade para beijar quem eu bem entender. – puxei meu braço. – A vida é minha.
– A vida pode ser sua, mas você vai acabar com a vida dele. – Kentin cruzou os braços. – Para de ser tão egoísta!
Aquilo estava me lembrando da briga de Nathaniel com Ambre lá no apartamento... Brigas de irmãos são assim?
– Fala o senhor “defensor dos oprimidos”. – fiz aspas com os dedos. – O que te deu para ficar defendendo ele toda hora? Ele me humilhou na escola, tentou espancar você, tentou me agarrar e agora você dá um de trouxa para defender ele?
Kentin ficou calado, mas a cara que ele fazia avisava que a qualquer momento ele ia arrancar minha cabeça e comer. Cruzei os braços e fiz cara feia também, um silencio se formou por cinco segundos. Kentin agarrou meu braço e me puxou para dentro de casa, eu fiz esforço para não ir, mas fala sério! Ele tinha o dobro de força que eu!
– PARA DE SER CRIANÇA!
Naquele momento eu fiquei irritada e ao mesmo tempo triste. Ele simplesmente deu uma tapa no meu rosto que me fez ir ao chão. Coloquei a mão no rosto e olhei para ele, ele arregalou os olhos ao ver o que tinha feito. Levantei-me e corri até o quarto, ele me seguiu, mas eu fui mais rápida. Kentin batia insistentemente na porta, e eu apenas chorava e mandava-o ir embora.
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