A Órfã Doce
62 Ressaca moral
Notas iniciais

Se a nova Lynn começou com o pé direito? Em casa sim, na escola não. Beijar o Castiel foi uma forma de mostrar que eu pensei nele, e não somente o ignorei... Mas ainda tinha Lysandre. O que eu faria em questão a ele? Talvez eu não precisasse falar nada, com o tempo ele saberia sobre Castiel... Mas seria ruim vê-lo ouvir isso da boca dos outros, e também acho que ele não ficaria nada satisfeito.
“Desencana Lynn!” – pensei. – “Se isso acontecer, a culpa não é sua! Ele não disse que gostava de você, mas o Castiel sim!”.
O Lys era tão fofo, não queria magoa-lo, mas talvez a “nova Lynn” estivesse se estressando demais por causa disso. Eu tinha que ser melhor para todos e para mim mesma. Então eu percebi porque Kentin me detestava, era porque eu era muito complicada e cheia de frescuras. Ele diz que eu me comporto como um “menino”, se eu me comportando como um “menino” já tenho todas essas frescuras, imagina como seria eu me comportando como menina?
Aliás, outro problema surgiu. Kentin! Ele havia voltado a ficar bravo com o Castiel, motivo? Não faço a mínima ideia. Foi como a tia disse, ele queria saber tudo de mim, mas não queria contar nada dele. E se eu acabasse me apaixonando pelo Castiel e namorando ele? Na hora que eu o beijei, não pensei nisso. Na verdade, a nova Lynn tinha o mesmo defeito da antiga Lynn, fazer as coisas sem pensar. Mas... Eu não podia mais evitar falar com o Castiel, ele estava magoado comigo. Pergunto-me se eu consertei as coisas com ele. De qualquer forma, eu tinha certeza que eu ia consertar em um lado e quebrar em outro, SEMPRE era assim.
Era Domingo, uma hora da manhã. Havia ficado até tarde fazendo um trabalho gigantesco que havia começado na madrugada de sábado, mas pelo menos havia terminado na madrugada de domingo. Desci para checar se o alarme estava ativado, eu quem ativava, as vezes Kentin esquecia.
– Ah meu Deus... – falei soltando um suspiro. – Disse que não ia beber!
– Eu digo muitas coisas. – ele deu uma risada, não parecia estar bêbado. – Senta aí. Não parece que está com sono. – boa ideia! Era bom espera-lo ficar bêbado, assim ele me falaria algumas curiosidades. – Eu já saquei qual é a sua. – ele riu. – Vai beber também. – ele falou me entregando um copo cheio. – Acha que eu vou ficar falando as coisas para você? – merda, ele descobriu. Apesar de que eu meio que deixei isso escapar na nossa briga de sexta-feira.
– Não bebo. – fiz careta recusando.
– Bem... – ele olhou para a parede. – O aquecedor quebrou. É bom beber, ou você não consegue dormir com esse frio, a não ser que pegue dez cobertores. E eu não quero dormir com você, você ronca.
– Eu não ronco! – cruzei os braços.
– É bom beber, pra conseguir dormir e parar de encher o saco. – ele aconselhou enquanto tomava uns goles.
– Isso não é dormir, é desmaiar. – revirei os olhos.
– Que diferença faz? – ele perguntou. – Fica inconsciente do mesmo jeito!
– A diferença é que se um cachorro vier comer seu cu, você lembra. Já bêbado... – justifiquei, era meio absurdo, mas eu não ia gastar minha saliva falando coerências para um bêbado largado.
– E como você sabe disso? — logo ele me deu um sorriso pervertido.
Tinha ficado com trauma depois dos drinks da festa. Beber, com Kentin bêbado ainda por cima, não seria uma boa ideia. Mas ele ficou empurrando tanto aquele maldito copo pra mim, que eu acabei aceitando. Que gosto mais horrível! A bebida desceu rasgando minha garganta, tossi um pouco. Se bebida gelada já era ruim, bebida morna era pior.
– Você bebe feito uma menina. – ele riu.
– E eu sou o que por acaso? – arqueei a sobrancelha.
– Sei lá, nunca vi seu segredinho. – ele fez careta. – Bebe como macho.
Conversando besteira, putaria, logo chegou a hora de falar dos outros. Mas tomar bebida morna não me deixou muito bem, estava tonta, muito tonta.
– HEI! – exclamei batendo no ombro de Kentin. – Por que a piranha da Lety entregou o número dela a você?
– Eu pedi. – ele respondeu. – Ela deu?
– Deu sim, ela dá para muita gente! – tossi um pouco e enchi o copo mais uma vez.
– Eu estou falando do telefone. – ele explicou.
– Ah! Isso... – pausei um pouco fazendo bico. – Eu joguei fora. – Kentin parecia zangado depois que eu disse isso. – Você não vai comer ela, nem pense nisso!
– Você é má! – ele bradou. – Eu quero ter uma conversa com você, vai lá pra cima!
– Eu não quero, vai você! – fiz corpo mole me deitando no sofá.
Ele me derrubou do sofá, fez com que eu me levantasse e fosse subindo as escadas com ele, caímos sentados no chão e ficamos um apoiado no outro. O que aconteceu depois eu não lembro. O desespero bateu na hora que eu acordei desmaiada na escada. Sem blusa, sem sutiã, coberta de whisky. Isso não era um bom sinal! Não mesmo! Tratei de pegar a blusa que estava ao meu lado. Kentin não estava perto de mim, isso era um bom sinal. A garrafa de whisky estava no degrau acima. Deduzi que fui eu mesma quem fiz aquilo, Kentin estava mais bêbado que eu, duvido que tenha feito algo. Apenas esperava para que eu estivesse certa.
Talvez estivesse errada. Ele estava no banheiro que ficava no corredor dos quartos, ele conseguiu até subir as escadas, será que ele fez algo antes de ir para lá? DROGA! Banheiro, desmaiado no chão, NU. Ele estava deitado de bruços, mas isso não eliminava o fato de ele estava NU. Tapei os olhos com as mãos, fechei a porta do banheiro fui até meu quarto.
– Eu não vi nada! Eu não vi nada! Eu não vi nada! – repetia para mim mesma várias vezes tentando apagar a imagem da minha mente, eu não conseguia! Oh céus! Iria ter pesadelos com isso agora!
Tirei a roupa e tomei um banho, tratei de sair BEM RÁPIDO de casa, como se o lobo mau fosse me comer. Saída? Cafeteria. Quem eu encontrei? Não, não foi o Lysandre. Na verdade, não foi SÓ o Lysandre. O cabeça de fósforo estava lá. Nervosismo? Imagina!
Vamos resumir o perfil do Lysandre: gatinho, romântico, criativo, vai à cafeteria direto, se apaixonou por uma vadia no passado, me beija sempre que pode e não diz se gosta de mim ou não.
Agora vamos analisar Castiel. Não tem o que analisar. Eles eram bons amigos, mas eu sabia que ia rolar briga se Castiel descobrisse sobre eu e Lysandre. Aliás, Lysandre já deveria saber sobre Castiel. Quando eu sentei na mesma mesa que eles, Lysandre estava com uma expressão diferente. Era raiva misturada com pavor. Raiva porque eu não falei nada a ele, pavor por pensar no tamanho da confusão que seria se Castiel descobrisse.
– Que cheiro é esse? – Castiel olhou para os lados.
– Acho que é whisky. – Lysandre comentou.
Arregalei os olhos, tinha tomado banho e um banho BEM demorado. Como é que eu estava com cheiro de bebida? Não me diga que o cheiro impregna assim?!
– Whisky? Eu não bebi, você bebeu? – ele perguntou para Lysandre, que fez não com a cabeça. – Você bebeu, Lynn?
“SIM” – gritei mentalmente.
– Não. – respondi sorrindo, uma desculpa. UMA DESCULPA, RÁPIDO! – É que o Kentin achou as garrafas e começou a beber. Ele desmaiou e eu tive que levar ele pro quarto, entende?
– Já aconteceu comigo! – Castiel riu. – Kentin é muito chato nesse quesito. Não é de agora que ele bebe. Uma vez ele ficou chapado para “impressionar” a Angela. – ele pausou um pouco e arqueou a sobrancelha. – Tínhamos 13 anos. Mas confesso que ele é mais legal quando bebe.
FLASH BACK ON
Ele foi me puxando até as escadas, eu estava tão chapada que mal aguentava ficar de pé.
– QUE CALOR! – gritei tirando a blusa. – Hei, Kentin. Sabe aquelas pessoas que jogam bebidas nas outras e depois lambem?
FLASH BACK OF
“Isso foi... Ontem?” – pensei arregalando os olhos. Essa lembrança me veio, havia uma parte da noite faltando na minha memória, seria aquela?
Comecei a associar as coisas e concluí algo NADA BOM. Sem blusa, sem sutiã, bebida espalhada pelos seios. NÃO, ISSO NÃO ACONTECEU!
– Lynn, você está bem? – Lysandre perguntou.
“NÃO”. – gritei mentalmente.
– Eu? Tô ótima! – dei uma risadinha e um sorriso mais falso que os peitos da Ambre. – O que vocês fizeram ontem?
– Você está meio estranha. – desconfiou Castiel. – Tem certeza que está bem? – confirmei com a cabeça.
Lysandre estava calado, MUITO CALADO. Deveria estar pensando nas maneiras existentes para me matar, droga! Era sempre assim! Eu consertava de um lado e destruía outro! Quando saímos da cafeteria, ele permaneceu em silencio.
– Quer que eu te leve para casa? – Castiel perguntou, ele parecia estar de bom humor.
– Não, obrigado. – recusei gentilmente.
– Com licença, Castiel. – Lysandre sorriu me puxando pelo braço. – Tenho que dar uma palavrinha com a Lynn, em particular. – Castiel não pareceu feliz com isso. Lysandre me puxou alguns metros para o lado, para que Castiel não ouvisse nossa conversa. – Você bebeu, não é? – arregalei os olhos, como ele sabia? – Eu sabia! O que aconteceu na festa não te ensinou nada? – ele bronqueou. – O Kentin fez algo com você?
– Não. – balancei a cabeça. – Lysandre... – corei. – Sobre o Castiel, eu...
– Não me deve explicações, a vida é sua. – ele suspirou. – Era só isso que eu queria saber.
Ele deu alguns passos até Castiel, me deixou sozinha. Castiel acenou com um sorriso, ele agora estava gentil, talvez por causa do que aconteceu no telhado... Fui andando com uma sacola na mão. Um café preto para Kentin, mesmo que ele não gostasse de café, ele teria que tomar para diminuir a ressaca.
Cheguei em casa, ele estava se exercitando. Parecia que ele havia limpado as escadas, será que ele lembrava-se de algo? Acho que mesmo que ele lembrasse, ele não contaria. Como eu sabia? Kentin as vezes é bem previsível, acho que essa seria a atitude dele. De qualquer forma, eu tinha que pelo menos fingir que estava tudo bem.
– Trouxe café. – falei chamando atenção dele.
– Foi para a cafeteria atrás do seu namoradinho? – ele parou os abdominais e veio até mim. – Eu odeio café, sabe disso.
– Toma logo essa merda! – empurrei o copo para ele, exatamente como ele fez comigo ontem. Eu era uma pessoa que gostava de devolver as coisas, mais cedo ou mais tarde.
– Grossa! – ele reclamou.
– Olha quem fala! – fechei a cara.
– Hei. – ele me chamou atenção, fez uma careta ao tomar o primeiro gole do café. Aparentava que iria mudar de assunto. – Você sabe sobre a aluna nova?
– Quem? – perguntei.
– A Debrah.
Fale com o autor