A Órfã Doce
41 Parentes
Notas iniciais

– O que foi? – minha tia chegou gritando na cozinha.
“Kentin, é o Kentin. O que ele está fazendo aqui?” – pensei de olhos arregalados, logo vi que ele usava somente uma cueca box preta.- “Ele é o parceiro sexual dela, Kentin é um prostituto”. – foi o primeiro pensamento que começou a gritar dentro de mim.
– O que significa isso? – ele gritou ligando a luz.
– Você disse que ia dormir em casa. – a tia falou cruzando os braços.
– Por isso queria ficar em casa sozinha? – ele interrogou zangado. – Não me diga que a senhorita está começando a colar velcro com essa aqui. – ele apontou para mim.
– Como? – perguntei, ele estava mesmo falando sério?
– Por que está com o taco de beisebol na mão? – ela perguntou.
Para falar a verdade eu nem tinha notado isso, a situação estava confusa. Eu pensava que ele era garoto de programa e ele pensava que nós duas éramos lésbicas.
– Eu ouvi passos diferentes dentro de casa e vim ver o que era. – ele arqueou a sobrancelha.
Então eles se conheciam há muito tempo, o que eliminava a opção de Kentin ser um garoto de programa... Ou não, eu poderia estar errada. Mesmo assim... Kentin deve dormir muitas vezes aqui pra conhecer o barulho dos passos da tia dentro de casa.
– Precisava disso? – ela bronqueou fazendo uma careta.
– Mãe, não mude de assunto. – ele bradou.
“Mãe...?” – fiquei em choque, tanto que minha respiração cessou por uns segundos. – “Mãe... Ele disse mãe?”.
– Mãe...? – repeti em voz alta ainda com os olhos arregalados.
– Mãe, o que essa menina faz aqui? Se você virou lésbica deveria ter me contado antes. – ele cruzou os braços.
Acho que Kentin tinha essa teoria por causa da roupa que eu e ela usávamos no momento. Ela estava com uma camisola provocante, mas talvez ela estivesse provando o figurino de alguma revista, ela não estava com cara de quem tinha sido acordada há pouco tempo com meus gritos.
– Vamos discutir isso amanhã. – ela deu um sorriso constrangido. – Vão para os quartos de vocês.
– Não. – cruzei os braços. – Eu quase me mijei pensando que ele fosse o bicho papão, pode explicar esse papo de “mãe”.
– O que ela tem pra explicar, sua pirralha? – Kentin fez uma careta para mim. – Ela é minha mãe.
– Agora ela é sua irmã. – ela falou de uma vez morrendo de receio, aquilo era perceptível.
– Minha o que? – ele arregalou os olhos.
– Não... Isso não pode ser verdade. – coloquei as mãos na cabeça. – Por que falou que queria um filho se você já tinha?
– Queria uma menina. – ela explicou.
– Mãe, o que a senhora tinha na cabeça? – Kentin coçava a cabeça tentando manter a calma.
– Eu sou uma adulta, não preciso ficar me explicando para você. – ela retrucou.
– Era por isso que os meninos estavam tirando onda comigo? Dizendo que eu ia ter uma surpresa? – ele cruzou os braços colocando a ponta do taco no chão e se apoiando nele.
– Eles comentaram isso? – ela fez cara de desanimação. – Conversei com eles pra saber se era uma boa ideia.
– Foi uma péssima ideia. – Kentin suspirou elevando o taco, onde ele deixou repousado no ombro.
– Não perguntei. – ela arqueou a sobrancelha e fechou a cara. – Vão dormir, amanhã conversamos.
Kentin foi andando e esbarrou no meu ombro de proposito, ele estava bastante irritado. E eu? Minha opinião não contava? Como assim eu era irmã dele agora? Apesar de achar ruim eu não reclamei tanto assim, só me senti desconfortável porque fui pega de surpresa.
Fui dormir pensando na questão da noticia, a Tia disse que contou aos meninos do F4. Iam dar a matéria a Peggy de novo? Só de pensar nisso eu já ficava com dor de cabeça. Para minha sorte eu tinha me mudado numa sexta, significava que não teria aula amanhã.
Acordei super tarde com Kentin chutando a minha porta.
– Vamos sua ameba, levanta! – ele gritava do lado de fora.
– Hei, você! – abri a porta bruscamente pronta para descer o cacete nele. – Isso é modo de acordar uma pessoa?
– Queria que eu fosse aí alisar você até você acordar? – ele deu um sorriso de deboche.
– Vá direto ao assunto. – revirei os olhos. – Se é que você veio para falar algo.
– Mamãe precisou sair, viagem de emergência. – assim que ele explicou, saiu da frente da porta do meu quarto.
Entrei de novo, nem tinha notado que estava com as mesmas roupas que fui dormir, pela reação de Kentin nem ele tinha notado. Procurei roupas bem cobertas, estava fazendo frio naquela manhã, e eu também não queria um pervertido olhando todos os meus movimentos pela casa.
Ao chegar à cozinha, olhei o que tinha na geladeira. Só em uma prateleira havia achocolatados prontos em caixinhas. Estranhei, a Tia não toma essas coisas.
– Sai da frente. – Kentin falou me empurrando e pegando uma caixinha de achocolatado. – O que? – ele perguntou ao ver a cara que eu tinha feito.
– Você toma isso todo dia? – interroguei, supus isso por ver a quantidade que tinha.
– Tomo, por quê? – ele deu de ombros.
– Não tem medo que isso lhe faça mal? – perguntei ainda fazendo uma careta.
– Não se preocupa não, florzinha. – ele deu um sorriso sarcástico. – Se não quiser passar mal é só não tomar, só gente grande toma isso todo dia. – ele debochou.
– Você sabe que eu posso ir aí e dar um puxão na sua cueca, não é? – o olhei com a cara fechada.
– Sabia que agora que eu sou seu irmão eu posso descer o braço em você sem ser titulado de covarde, não é? – ele revirou os olhos.
– Não somos irmãos. – imitei o mesmo gesto que ele.
– Queria acreditar nisso. – ele saiu andando.
Aquela casa era enorme, como tinham poucas pessoas morando nela, a bagunça era pouca. Passei a manhã rodando pela casa, notei que a maioria das portas estavam trancadas. Estranhei, seria bom perguntar isso a Kentin?
Continuei a andar, a única sala sem porta era a que Kentin estava, que era a sala perto da varanda. Aquela sala era uma sala de treinamento, tinha um saco de areia e tudo. Kentin estava com um short colado, sem camisa e com uma toalha de rosto próxima a ele. Estava começando a esquentar, ele deve ter ajustado o aquecedor.
– O que está fazendo? – perguntei curiosa me aproximando.
– Não está vendo? – ele disse com um tom de saco cheio.
– Como você é azedo. – reclamei cruzando os braços.
– Eu não reclamo por você ser tampinha, reclamo? – ele se virou para mim e colocou a toalha no ombro.
Cruzei os braços e fechei a cara. Desci meus olhos até as pernas malhadas de Kentin, logo desviei o olhar segurando a risada completamente vermelha.
– O que está olhando? – ele perguntou batendo a toalha em mim.
– Nada. – arqueei a sobrancelha.
– Estava olhando pra mim e quis rir. – ele retrucou. – Eu estou com alguma coisa na cara? – logo ele me chamou atenção. – Estava olhando para baixo, não me diga que estava olhando para outros lugares? Sua safada. – ele riu, eu corei mais.
– O que? Está ficando maluco? – dei um empurrão nele. – Você é mesmo um pervertido.
– Seja mais discreta, se quer tanto olhar me diga que eu tiro uma foto pra você. – ele deu uma risada maior e voltou a treinar.
Ele parecia ser mais pervertido que Castiel. Para falar a verdade eu concluí que Castiel e Kentin se parecem muito, nem sei por que brigam tanto. Segundo a Lysandre, eles viviam brigando, não era só por causa da Angela, tinham outros motivos pelos quais eles brigavam.
Assim que dei a segunda volta pela casa checando as portas, só tinham três portas abertas: A do banheiro principal, o quarto de Kentin e o meu quarto.
O que me chamou mais atenção no banheiro principal foi o simples fato de ele ser ENORME e ter um ofurô ENORME. Meus olhos brilharam. Ao checar outras coisas, achei uma portinha que escondia uma sauna. Quase morri do coração, o que eu iria experimentar primeiro? Optei pelo ofurô. O enchi d’água, entrei dentro e esperei a água esquentar, soltei um suspiro. Aquela sensação era tão boa, já que estava tão frio. Enrolei-me numa toalha comum e esquentei mais a água. A água estava tão boa que eu acabei adormecendo.
Acordei com um barulho, abri os olhos com preguiça, a água ainda estava quentinha. Minha toalha estava aberta revelando boa parte dos meus seios, assim que vi os cobri. Ao olhar para frente vi que Kentin estava no ofurô comigo, com a cabeça virada para o lado, ele estava corado.
– O QUE FAZ AQUI? – bradei desesperada me encolhendo para um lado.
– Eu venho sempre pra cá depois do treino, até você roubar o ofurô de mim. – ele fez bico. – Você está de toalha, eu entrei de toalha, não tem problema.
– É CLARO QUE TEM PROBLEMA. VOCÊ É UM MENINO! – exclamei apontando para ele. – TEM UM MENINO PELADO NA BANHEIRA COMIGO. SAI DAQUI, SAI! – bradei.
– Eu não, se quiser saia você. – ele virou a cara, despreocupado.
– Não vou sair de toalha na sua frente. – fiz bico corando.
– Como se você tivesse muito o que mostrar. – ele debochou. – Sua toalha abriu enquanto você dormia e eu não vi nada demais.
– VOCÊ OLHOU?! – fechei o punho tentando acertar o braço dele.
– Opa, moça. – ele segurou minha mão e puxou. – Seria uma pena se o menino pelado da banheira chegasse perto de você. – ele arqueou a sobrancelha. – Deixa de cu e fica na tua, eu não estou fazendo nada. – ele soltou a minha mão e virou o rosto.
Ele olhava para oposto ao lado ao meu, de vez em quando eu o encarava e notava que ele estava meio vermelho.
– O que é que você quer agora? – ele perguntou quando me pegou olhando para ele. – Quer um biscoito?
– Por que você tem outra casa? – interroguei curiosa.
– Era a casa do meu pai. – ele respondeu se esticando no ofurô
– A tia disse que você ia dormir em casa, a menina que estava com você te deu bolo? – provoquei.
– Por que chama ela de “tia”? – ele perguntou desviando do assunto principal. – Ela é sua mãe.
– Não gosto de chamar ninguém assim. – desviei o olhar.
Da ultima vez que eu chamei alguém de pai ou de mãe, eles morreram. Mas obviamente eu não ia falar isso a Kentin, não era da conta dele.
– A menina deu um bolo em você? – persisti no assunto.
– Não tinha menina nenhuma. – ele suspirou. – Ontem pelo menos. – logo ele completou e sorriu ao ver que eu fiz uma cara de nojo. – Quando vi você, pensei que você estava se agarrando com a minha mãe. – logo ele deu um sorriso provocante. – Sempre achei que você tinha cara de sapatão.
– Quando eu vi você pensei que você fosse um prostituto e que estava acompanhando ela. – devolvi o sorriso pagando o pensamento pervertido com a mesma moeda.
O primeiro a sair do ofurô foi ele, saiu com um sorriso provocante ao ver que eu corei e virei o rosto.
Na hora do almoço Kentin pegou um pacote de salgadinhos. Observei que na cozinha e na geladeira só tinham essas coisas.
– Vai comer isso? – perguntei.
– Tem uma ideia melhor? – ele arqueou a sobrancelha.
– Sim. – respondi fazendo bico.
Tinha aprendido a fazer onigiri, que são bolinhos de arroz, com Lana e tia Cristal. Tinha esse prato no Culinária Mágica deram o nome de bolinho fofinho da sorte. O nome dos pratos eram bem femininos ou engraçadinhos. Tinha um docinho de maçã com cravo da índia que eles chamavam de brigadeiro do amor. Na religião delas, a maçã e o cravo da índia são bons para atrair amor.
– Onde aprendeu a fazer isso? – Kentin perguntou enquanto comia um bolinho seguido de outro.
– Trabalho num restaurante, esqueceu? – juntei as mãos apoiando o queixo enquanto observava ele comer com um sorriso.
– O que foi? – ele me perguntou quando me viu fixar o olhar nele.
– Você está comendo rápido, não quero perder quando você se entalar. – dei um sorrisinho.
Kentin fez uma careta para mim. Assim que terminamos de comer, eu me pus a lavar a louça até porque aquele bocó não iria fazer isso por mim.
“Essa casa é tão grande e a Tia é tão rica, por que não tem empregada ou algo do gênero?” – pensei. – “Deve ser por que é final de semana... Deve ser por isso”.
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