A Órfã Doce

96 Os segredos do irmão


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a Morangochan :3 Esse capítulo é narrado na visão do Kentin. Esse capítulo é o PENÚLTIMO da "A órfã doce", é triste pra mim encerrar, mas é algo necessário. Boa leitura.

Talvez tudo que falo acabe nem sendo sobre mim, quando se narra algo se tem um protagonista. E acho que esse protagonista não se trata de mim. É mais fácil falar do que se tem a sua volta do que falar o que há dentro de você. Acho que Kentin é um nome francês, nem sei dizer. Meu pai não gostava muito de falar sobre minha mãe, mas das histórias que eu soube, ela era uma francesa que trabalhava numa confeitaria e ele era o soldado que foi até a França por conta de ameaças de bomba na torre Eiffel.

Nem eu mesmo gosto de falar muito da minha mãe. Apesar de que nem faz tanta diferença, já que eu não tenho muito o que falar. O que eu tenho para falar é que só sei como era seu rosto por conta de um álbum cheio de fotografias. Nunca cheguei a vê-la pessoalmente, e até hoje acredito que o motivo pelo qual meu pai era tão amargo comigo foi o fato de que minha mãe morreu quando eu nasci.

Quando estava fora da cidade, me deixava aos cuidados de uma amiga. Ela uma mulher velha, diretora da escola militar de Shapersgreen, eu sempre a chamei de vovó. Ela tinha uma filha meio maluca que sempre rondava por lá. Ela me via e sorria, perguntava como meu pai estava, dizia que precisava sair e ia embora. Eu sempre quis saber de onde aquela mulher conhecia meu pai, até tentei perguntar a ele, mas ele nunca respondia e nem tocava no assunto.

Quando tinha uns oito anos, fui estudar na Sweet Amoris. Claro que minha passagem por lá não foi algo muito longo, por conta de umas pragas que zombavam de mim por causa dos meus óculos. Quando meu pai soube, me tirou de lá e me enviou para uma escola militar na Alemanha. Por volta daqueles anos, ele havia sido transferido para uma base na Alemanha, queria que eu me mudasse porque desejava manter os olhos fincados em mim com intuito de me “consertar”.

Aqueles foram os piores anos da minha vida. Nada naquele lugar eu fazia por livre e espontânea vontade, eram todas ordens do meu pai. E se fosse contra suas ordens, cinquenta flexões. E se não as fizesse, pobre de mim. Quando me deitava de noite com gelo nos braços, ficava imaginando como tudo seria se minha mãe ainda fosse viva.

Tudo mudou naquele dia. No dia em que voltei para Shapersgreen por causa de um “concurso” idiota entre a nossa escola militar e a escola militar de Shapersgreen. Três garotas da minha turma caíram na gargalhada quando ouviram que a escola militar de Shapersgreen só havia uma única garota. Na Alemanha foi sempre comum a presença de meninas em escolas militares, na policia e nas forças armadas. A presença delas batia com o número de homens presentes por lá. A competição usava umas bolas de tinta, ou eram balas de borracha. Nem me lembro do que aquela porcaria era carregada, só sei que isso não importou nem um pouco, até porque não atiraram em mim com nenhuma dessas coisas. Quando avançamos e quando eu vi, já estava no chão. Fiquei inconsciente na hora e só acordei no hospital.

Depois daquele tiro meu pai não me obrigou mais a estar na escola militar, apesar de que eu passei mais um ano por lá. Depois que recebi a noticia de seu falecimento, meu mundo caiu. Como eu iria sobreviver? Como eu sairia da Alemanha? Como eu viveria sem meu pai? Não havia mais ninguém, ele era filho único. Meus avós já haviam morrido há muitos anos. Eu me via largado em um orfanato mofado.

Até o funeral, pude permanecer na escola militar. Era estranho ver os alunos com expressões de pena lançadas a mim, alguns até lamentavam-se em alemão. Pena que eu nunca entendi nada, cinco anos tentando inutilmente aprender alemão. Quando foi o dia do funeral, aquela mulher estava lá. A filha da diretora Shermansky de Shapersgreen. Ela me levou até um orfanato de uma conhecida e simplesmente assinou papeis de adoção. Ela agora era minha mãe. Eu não quis contestar, morria de medo de ir para um orfanato ficar sozinho. Tinha mais medo ainda de ficar em um orfanato na Alemanha. Ninguém iria me adotar por eu não saber falar alemão. No final eu acabei percebendo que não me importei nem um pouco com a morte dele, me importei só comigo. Quando percebi isso anos depois, acabei me afogando em remorso.

Aquela era a mulher mais estranha que eu já havia visto em minha vida. Ela fumava, bebia, tinha um cabelo completamente estranho e era muito paranóica dentro de casa. Concluí isso quando voltei para Shapersgreen. Ela deixava apenas algumas portas abertas em casa e disse umas trinta vezes que eu nunca deveria entrar em seu quarto e nunca deveria entrar no ultimo quarto do corredor.

— Como adota uma pessoa que nem conhece? — perguntei a ela.

— Eu sempre quis ter filhos e nunca consegui, como minha irmã. Ambas nascemos assim por causa de uns remédios que nossa mãe tomava, é algo bem complexo de se explicar. — suspirou. — Eu conhecia seu pai. E eu não poderia deixar o filho dele ir para um orfanato enquanto eu poderia muito bem ajudar.

Naquela hora estávamos na cozinha, havia uma xícara de chocolate quente em minha frente na mesa. Ela andava de um lado para outro com uma caneca de café em mãos. Meus dedos impacientes batiam na mesa.

— Eu já havia falado da senhora para meu pai. Perguntei onde se conheceram, mas ele nunca quis falar.

Ela riu, como se eu tivesse falado uma estupidez tremenda. Sentou-se na cadeira a minha frente e me encarou.

— Eu transei com seu pai e engravidei dele. — meus olhos se arregalaram. — É, eu sabia que ia fazer essa cara. – disse tranquila, dando uma pequena risada e logo em seguida tomando um gole do café.

— Como é que isso aconteceu?!

— Várias margaritas e camisinha vagabunda. — ela deu de ombros. — Na verdade eu nem tinha intenção de transar com ele, foi pelo álcool mesmo. Eu estava passando por um tratamento de fertilidade, estava louca para ter um filho, mas depois que engravidei dele, tive um aborto espontâneo e desisti do tratamento.

Eu não estava nem um pouco acostumado com alguém falando sobre sexo tão abertamente. Meu pai não falava muitas coisas comigo, mas algo que ele nunca falou mesmo foi sobre sexo. Eles pareciam tão diferentes…

— Nem sei por que se casaram. São tão… Diferentes. — ela deu uma risada tão forte que quase se engasgou com o café.

— Na sua cabeça as pessoas só transam se são casadas? — ela afagou minha cabeça. — Que gracinha você é, biscoitinho. Não sabia que seu pai iria criar o filho dele como um monge. Sinceramente, não me surpreenderia se você me olhasse e falasse que nunca viu uma mulher nua na vida.

É, aquela mulher me deixava completamente constrangido! Mas com o tempo eu me acostumei. Posso até dizer que aquele ar pervertido teve uma influência sobre mim. Aliás, não tive que me acostumar apenas com a malícia, tive que me acostumar a ser solitário. Ela viajava muito e me deixava sozinho, meu pai não era tão diferente, mas pelo menos eu tinha a companhia da Shermansky. Foi por causa daquela mulher que eu acabei vendo álcool como uma segunda opção, pelo menos essa foi a minha visão inicial e equivocada. Se álcool resolvesse problemas, o mundo não seria assim.

Ir a lanchonetes, ir ao mercado e comprar um suprimento de achocolatados para o mês inteiro. Treinar, treinar, treinar e treinar mais. Se não fizesse isso, no que iria me ocupar? Punhetar não me parecia ser uma ocupação adequada a minha situação, até porque se decidisse tornar isso uma ocupação, eu estaria com anemia e ejaculação precoce.

De vez em quando sair com os garotos até me parecia uma boa ideia para me tirar daquela rotina vazia. Mas todos aqueles caras pareciam mais vazios que a minha rotina. Quando se cresce, o mundo suga a sua vitalidade e te transforma numa uva passa cheia de hormônios e frustrações, como o Castiel por exemplo. Na verdade ele está mais para tomate desidratado depois que fez aquela porcaria no cabelo. Aposto como fez isso para mostrar que havia mudado, mas mudar por fora é diferente de mudar por dentro. E ele continuava aquele mesmo imbecil estúpido de sempre, mas eu não, eu agora sim tinha vontade de sobra para enfrentá-lo.

Mas depois eu pude perceber que não era só eu quem tinha coragem de enfrentar o Castiel. Uma garota apareceu, uma garota bem atrevida, grossa e tampinha. Bom, com essa descrição pode até parecer que a primeira vista ela me irritou muito, mas não. O que me irritava era ver Castiel reclamar sobre ela como uma garotinha histérica. Então eu procurei algumas fotos antigas do Castiel e estava disposto a entregá-las a menina, tudo para que aquele barulho acabasse. Por um lado eu pensei que talvez isso gerasse um aumento de barulho e uma confusão enorme para meu lado. Topei com a garota e conversei com ela, tinha até desistido de lhe passar as fotos, mas ela era tão…

— Eu nunca conheci minha mãe… Meu pai morreu na guerra.
Tão parecida comigo… Ela compartilhava sentimentos parecidos com os meus, sentimentos dos quais duvido que algum garoto do F4 entendesse, muito menos Castiel. Então entreguei, e parecia que já estava prevendo o futuro. Quando ela chegou na sala mostrando as fotos, ele surtou. Ela o chantageou e se recusou a dizer quem tinha lhe passado as fotos.

— Cara, quem será que foi? — Armin cochichou para mim, curioso.

— Fui eu cara, ainda não percebeu?

— É sério mesmo? — ele arregalou os olhos. — Você sabe que dança se o Castiel descobrir isso, não é?

— Quero mais é que ele saiba, eu não ligo mesmo. — cruzei os braços. — Ainda mais hoje que eu estou querendo quebrar a cara dele.

A garota saiu, Castiel teve mais uma crise de histeria. Ele gritava, bagunçava a sala enquanto Lysandre tentava acalmá-lo, Armin observava e eu revirava os olhos.

— Só pode ter sido um de vocês! — Castiel nos acusou. — Quem foi?!

— Foi o Kentin. — Armin deu de ombros.

— Quê?! — o olhei surpreso.

— Ué, você disse “quero mais é que ele saiba”. Está aí a sua chance de quebrar a cara do Castiel como você disse que tinha vontade.

— Eu já deveria desconfiar de você! — ele bradou e veio em minha direção. — Foi você, não foi? Seu desgraçado! Foi você quem deu a foto a ela, não foi?

— Daria de novo. — debochei, sem mostrar medo algum. Armin deveria estar se maravilhando com aquela discussão, mas tinha certeza que Lysandre iria intervir a qualquer momento. De qualquer forma, eu não ia apanhar do Castiel nunca mais. Até porque eu havia passado cinco anos na escola militar, apanhar dele e sair chorando novamente ia ser mais vergonhoso do que ser roubado pela Ambre.

— Cara, sua mãe é dona da escola. Você não é.

— Repita isso de novo! Repita! — como havia pensado, Lysandre entrou na frente de Castiel para intervir.

— Você não é dono da escola! — repeti lentamente e exclamei no final para fixar atrevimento, me levantei do assento.

E no final eu vi que não era o único que estava contra Castiel e em defesa da tampinha atrevida. Apanhar de uma garota não era uma vergonha, até porque eu reconheci o nível daquela menina quando brigamos no meio da escola. Eu nem suspeitei de nada, achei que ela era boa daquele jeito porque talvez estivesse treinando em uma academia de luta desde criança. Para ter aquele nível era necessário anos de treinamento. Mas não… Eu poderia ter percebido muito antes, uma vez vovó havia descrito a aparência da menina que atirou em mim, batia com a descrição dela. Também poderia ter percebido quando ela deixou escapar que tinha uma arma em casa. Pessoas da idade dela só tinham permissão para portar armas depois de dois anos dentro de uma escola militar, fora que a munição permitida era de borracha. Tudo isso percorreu em minha cabeça antes de ir dormir, quando me lembrei dos meus tempos na escola militar e do tiro que levei nas costas. E se fosse ela?

Depois que Castiel se amansou e ficou gentil com a menina de uma hora para outra, decidi colocar na cabeça dele a ideia de que seria divertido praticar tiro ao alvo. Eu vi como ela ficou nervosa quando chegamos à escola militar, até ficou pálida. Estava alguns meses sem atirar, mas nem em sonho uma menina daquelas poderia me vencer sem que se entregasse a minha teoria. Ela venceu, eu enlouqueci e saí completamente irritado de perto dela. Tive que sair antes que acabasse com a vida daquela menina. Foi tão óbvio, tão fácil de descobrir.

Alexy, o irmão de Armin tinha simpatizado muito com a garota. Até sugeriu que fossemos comer onde ela trabalhava, mas eu me recusei a ir. Fui a casa da vovó para tentar por a cabeça no lugar. Não tinha como ficar vendo aquela garota na escola todo dia, ainda mais com Castiel lambendo os pés dela toda hora.

— Eu não acredito que você conhece a menina. Porra, como ela é burra! Foi só sair daqui que ficou burra. — a diretora balançava a cabeça negativamente. — A Mika pediu para que ela não falasse com vocês. E a estúpida ainda falou, mas não posso nem culpá-la tanto assim, ela sempre teve um bom caráter e até eu sinto vontade de chutar o saco daquele cara pálida cabeça-de-fogo.

— O Castiel?

— Esse aí. — ela concordou, em seguida suspirou. — Sua mãe é tutora dela, avisou a ela porque não queria que você descobrisse. Até hoje ela não sabe que atirou em você.

— A mamãe é tutora daquela menina?! — esbravejei. — Isso eu não posso conceber!

— É claro, não pode dar de mamar.

— Vovó, não seja palhaça! Estou falando sério! — ela apenas deu uma gargalhada longa e no final tossiu.

— Não esquenta não, menino malino. Sua avó sabe quantos problemas iriam surgir se sua mãe adotasse aquela menina. Eu já falei com ela sobre isso.

— Pois fale de novo! A mamãe é cabeça dura demais! Nem sei o que sou capaz de fazer se mamãe levar aquela menina para dentro de casa. Não quero viver com alguém que quase me matou!

Era difícil mesmo aceitar que aquela menina era melhor que eu em tudo. Ela lutava melhor, atirava melhor, era mais corajosa que eu, sabia como se portar em missão. É, tive oportunidade de ver tudo isso quando trabalhamos juntos com Rosalya para resgatar os meninos. Pareceu até que aquele dia horrível foi recompensado com a vinda de Angela. Claro que não perdi a oportunidade de tentar algo com ela. Quando eu a levei para minha casa, nem pensei muito bem se ainda era apaixonado por ela como antes. Eu só queria deixar o Castiel irritado, e ela era muito gostosa. Acho que já tinha dois bons motivos. Aposto como teria conseguido se a anta do Armin não viesse atrapalhar acompanhado daquela menina odiosa. Ele fez de propósito e talvez tenha vindo por ordem do Castiel, por isso eu os tranquei e fui com Angela para um quarto bem distante.

— Ainda bem que isso aconteceu. — confessou Angela.

— Não está falando sério, está?!

— Estou. — ela umedeceu os lábios. — Olha, você é legal. Você é bem legal, e você mudou muito. Isso também é legal.

— Vá direto ao ponto, querida.

— Não vou transar com você.

— Por causa deles? — apontei para a porta. — A gente pode começar com as preliminares de novo, e se estiver com pressa eu tenho um óleo ali que…

— Kentin. — ela me cortou, balançando a cabeça negativamente. — Não rola.

— Por que não? Você acabou de dizer que eu mudei muito. Eu amadureci, não amadureci? Eu fiquei bonito, não fiquei?

— Mais ou menos. — ela fez careta. — Mas cara, você precisa entender. Você está bonito e tudo, mas eu queria continuar sendo sincera com você. Com a interrupção eu me liguei que tinha que ser. Eu ia fazer por pena, e você não ia gostar disso.

— Ia sim!

Ela deu uma risada leve para descontrair o clima tenso, pegou o casaco, a bolsa e disse que iria embora. Eu fiz a maior besteira que eu poderia ter feito na vida: eu pressionei uma mulher a transar comigo. Ela me deu um soco tão forte que eu bati na cômoda e quebrei o abajur com as minhas costas. Fui muito burro mesmo em fazer uma besteira dessas com uma lutadora de boxe, ela poderia ter quebrado meu pênis só olhando. Angela saiu furiosa, e eu fiquei todo ferrado. Ia me desculpar com ela na festa, mas Castiel foi mais esperto e pegou ela primeiro. A segunda besteira gigantesca que fiz foi me atracar com o Castiel por causa de uma garota que eu nem gostava mais. Ela ficou furiosa novamente, bateu em nós dois e saiu da festa.

É, teve muita “animação” antes que pudesse lembrar-me da garota que atirou em mim. Disse à mamãe que dormiria na outra casa, mas acabei indo para lá porque não conseguia dormir. É até engraçado eu sair de uma casa perfeitamente normal para ir dormir em uma onde estavam gêmeas, uma viva e outra morta vagando pelo corredor dos quartos e de vez em quando escrevendo coisas em meu caderno. É, ela falava comigo através de papel, mas raramente aparecia para mim.

“Tem uma pessoa estranha aqui”. — foi o que ela escreveu.

Logo em seguida passos de pés descalços soavam calmamente, passaram em frente a meu quarto e foram descendo as escadas. Peguei meu taco de beisebol e desci as escadas tentando ser o mais silencioso possível. Parei quando vi a porta da geladeira aberta, quando a mesma se fechou, eu vi a cara daquela tampinha. Ela me assustou com os gritos que deu, por um momento eu quase que gritava junto.

— O que foi? — mamãe chegou gritando na cozinha.

Olhei de cima a baixo as duas, ambas com roupas tremendamente suspeitas. Mamãe era uma mulher sozinha e solteira, por isso fiquei pensando que a tutora estava levando a protegida para a cama. Mas não, eu fui muito burro na hora e não percebi o que estava acontecendo. Depois que Lynn me estranhou por chamar sua tutora de mãe, eu tive certeza. Mamãe havia adotado aquela tampinha!

— Ah, mas isso não vai ficar assim. — sussurrei para mim mesmo.

Eu sei que sacanear ela para fazê-la ir embora não ia adiantar. Mas sacaneá-la para fazer pagar por quase me matar me parecia completamente justo. A primeira delicadeza do dia foi acordá-la com muito carinho.

— Vamos sua ameba, levanta!

— Hei, você! Isso é modo de acordar uma pessoa?

— Queria que eu fosse aí alisar você até você acordar?

— Vá direto ao assunto. Se é que você veio para falar algo.

— Mamãe precisou sair, viagem de emergência.

Depois consegui outro modo de irritá-la. É, a tampinha parecia odiar o fato de ser tampinha.

— Sai da frente. — empurrei-a da frente da geladeira. — O que? — interroguei ao vê-la me olhar estranhamente.

— Você toma isso todo dia?

— Tomo, por quê?

— Não tem medo que isso lhe faça mal?

— Não se preocupa não, florzinha. Se não quiser passar mal é só não tomar, só gente grande toma isso todo dia.

— Você sabe que eu posso ir aí e dar um puxão na sua cueca, não é?

— Sabia que agora que eu sou seu irmão eu posso descer o braço em você sem ser titulado de covarde, não é?

— Não somos irmãos.

— Queria acreditar nisso.

Com toda certeza eu queria acreditar que ela não era minha irmã. E aparentemente a freira nunca tinha convivido com um menino dentro de casa, apenas com ela e um menino dentro de casa. Vi que ainda havia milhares de formas para sacaneá-la.

— Estava olhando para baixo, não me diga que estava olhando para outros lugares? Sua safada. – ela corou, pronto! Era nesse ponto que eu queria chegar.

— O que? Está ficando maluco? Você é mesmo um pervertido.

— Seja mais discreta, se quer tanto olhar me diga que eu tiro uma foto pra você.

Aquilo não estava sendo tão ruim assim. Estava bastante divertido. Aquela pirralha achava que poderia entrar em uma casa e ir fuçando tudo que tem nela. Quando ela dormiu dentro da banheira e eu entrei, ela passou um bom tempo sem sequer olhar para aquela banheira. Pelo que pude ver lá, a pirralha não tinha um corpo de se jogar fora. Mas ainda estava fora dos padrões de beleza das garotas com quem eu costumava ficar.

Até pareceu que aquele dia de diversão foi cobrado de mim com tantos problemas que aquela menina me trouxe. Primeiro a burra esqueceu-se de voltar para casa, com isso acabei esquecendo a oração para Miki. Acabou que a Miki pirou como fez da outra vez, ela odiava o fato de ser esquecida. Se não queria ser esquecida, por que se matou? Seria uma das coisas que eu nunca diria em voz alta, aquela mulher não era como o gasparzinho camarada. E pensar que eu me acostumei com aquela história de ter um fantasma dentro de casa.

Depois que o "gasparzinho" resolveu se revoltar, tive que sair de casa com aquela pirralha. Levar minha “irmã” para uma casa onde mais funcionava como um Motel era algo muito estranho. Eu até me peguei pensando em me aproveitar da ocasião e dar um trato nela, mas não. Ela era muito magrinha e tampinha, não duraria meia hora. Mas o que tinha de tampinha, tinha de monstrinha!

— Abracadabra!

— Onde achou isso? — bradei me levantando do sofá rapidamente. Ela estava com meus antigos óculos, significava que ela havia entrado em meu quarto! — Larga isso!

— Nem pensar. Que cabelo era aquele? — ela debochava enquanto corria de mim.

Acabou que a amiga dela, que falava como a Vandinha Adams, chegou para tentar tirar Miki da casa. Que péssima ideia! Ela tentou me convencer que faria um ritual para pedir paz, mas ela só piorou as coisas! Que bom que Miki foi paciente com a burrice dela e me perdoou.

Com o passar do tempo, meu coração foi amolecendo. Acho que passei a considerá-la minha irmã mais nova. Ganhei até um instinto protetor que nem sabia que possuía. Pode até parecer que nossa relação passou a ser boa daí em diante, mas não. Ela poderia ser uma garota legal e meio monstrinha às vezes, mas mesmo assim a imagem da menina que quase me matou permaneceu em minha cabeça. Sentia que não poderia confiar nela. Sim, ainda guardava mágoa. Mas quem não guardaria depois de algo desse patamar?

Com esse bloqueio na comunicação foi que começamos a nos "afastar" um pouco. Ela não estava mais se descabelando como quando veio morar comigo. Ela era muito responsável, sempre limpava as coisas e cozinhava. Até tomei a decisão de aprender a cozinhar porque a vi se esforçando. Se soubesse que ela conseguiria abrir o diário no computador de mamãe, eu mesmo teria passado o aspirador na casa. Achei que Miki não iria se acostumar com aquela menina dentro de casa, afinal eu acabei esquecendo sua oração por causa dela. Porém, pelo modo como Lynn reagiu quando cheguei, Miki até havia aparecido para ela. Ela estava brincando com Lynn, pedindo segredo como se eu nunca tivesse visto a gasparzinha no meio da casa.

Um dos problemas é que quase sempre quando eu e Lynn tínhamos uma conversa, isso acaba em uma briga e por consequência isso só nos distanciava cada vez mais. Ela ficou tão mandona uma vez que ficou me proibindo de sair só por causa de um boato idiota que uma garota da escola teria ficado grávida de alguém do F4. Isso era uma completa besteira, nenhum daqueles virgens punheteiros sabiam o que é sexo. Quando ela me pediu para sair, também neguei. Olho por olho! Ela não queria que eu me envolvesse com qualquer garota e eu não queria vê-la saindo escondida de mim para ir se encontrar com o Castiel. Depois que ele se declarou para ela, não me impressionaria se ela fosse burra o suficiente para cair nessa e abrir as pernas para ele.

Acabou que essas brigas destruiram a porçãozinha de confiança que havíamos formado durante aquele tempo. Não contei a Lynn quando saí. Queria evitar ao máximo uma briga com ela, aquilo enchia o saco. Eu não havia percebido – como sempre – e só depois de juntar os fatos fui ver que Lynn saiu escondida também. Lynn havia tentado me sabotar para me fazer dormir e sair sem que fosse percebida. Mas confesso que isso eu não percebi na hora, até porque saí antes dela. Fui para a festa e bebi tanto que quase precisei de glicose. No outro dia Armin me passou a lista de lugares que eu vomitei e garotas que eu beijei. Isso tudo era para me sacanear, tinha vezes que ele até mentia.

A felicidade não foi tão grande assim. Alguém armou para a tampinha, tirou fotos e saiu espalhando na escola. Todo mundo estava contra ela, e ficando calado eu acabei apoiando esse grupo. Tudo o que ela precisava naquele momento era de alguém que a apoiasse, mas eu estava tão magoado por ver ela me enganando dessa forma, que não arrisquei depositar o resto de minha confiança para defendê-la. Lincharam a minha irmã, e só depois fui saber que os boatos eram a respeito dela e que EU era o membro do F4 dos boatos. E depois que iludi um pouco a Lety, ela me contou que Ambre foi a culpada.

— Então, representante. — umedeci os lábios. — Você sabe muito bem que ninguém do F4 tem algo contra você, exceto o Castiel, claro.

— Sem querer ser grosseiro, poderia apressar a conversa? Aposto como você não tem muito a dizer e eu preciso continuar com meu trabalho. — encurtou ele.

— É, tem razão. — assenti com a cabeça. — Eu quero que mande a vagabunda da sua irmã ficar bem longe da minha irmã. E se eu ao menos pensar que ela voltou a falar mal da Lynn, eu pego meu taco de beisebol, vou na sua casa e enfio no rabo dela. Pronto, era isso que eu tinha para falar. — eu tinha intenção de intimidar, mas ele apenas riu discretamente.

— Se não fosse pelos meus pais, você poderia fazer isso agora mesmo que eu nem me importaria. Mas tentarei falar com ela. Sinto muito que ela tenha causado problemas para a Lynn.

Nathaniel era um cara que captava bem as coisas. É fácil de resolver as coisas na conversa, mesmo que seja na base da grosseria. Não entendo porque Castiel não tem miolos para resolver as coisas dessa forma.

Naquela noite, fui ao quarto de Lynn para ver como ela estava. A luz da lua era tudo que precisava para ver os curativos em seus joelhos e braços. Aquilo me doía, Ambre saiu espalhando aquilo depois que viu Lynn vindo morar comigo. Também me sentia culpado por ela estar daquele jeito.

— Tampinha teimosa. — resmunguei. — Se não tivesse saído, nada disso teria acontecido. — ela se mexeu na cama, congelei um pouco pensando que tinha acordado-a, mas não. Fiquei observando-a por um bom tempo, até sentei-me na ponta da cama. — Boa noite.

Pode até parecer patético falar que o primeiro beijo que dei em Lynn foi um beijo roubado, por assim dizer. É patético dizer que ela me bateria com a cadeira se eu tentasse fazer aquilo com ela consciente. Todas as noites depois que ela dormia, ia em seu quarto, lhe dava um beijo nos lábios e saía. Sim, era muito patético. Mais patético era dizer que estava gostando daquilo, estava gostando dela.

Depois da descoberta daqueles sentimentos, entendi aquele instinto protetor que havia adquirido. Era simplesmente puro ciúme. Gostar de alguém é pedir para tomar no cu, principalmente quando a pessoa gosta de outra. Castiel gostava dela, mas ela meio que correspondia o amor de Lysandre. Ela não havia pegado Lysandre de jeito porque tinha medo de ferir os sentimentos de Castiel. Nobre da parte dela, nobre e idiota. Mas como dizer que é idiota se eu mesmo senti pena do Castiel e pedi para Lynn tentar olhar o rapaz com outros olhos? Nem sei o que tinha na cabeça quando falei aquela porcaria, odiava o fato de Castiel gostar dela, nunca ia permitir que ele transformasse Lynn em uma marionete dele. Mais idiota ainda foi tentar esconder meu ciúme tentando defender Castiel.

— Eu sei o que aconteceu, eu vi vocês dois. O que tem na cabeça?

— V-você viu? Estava me espionando?

— Eu devia bater em vocês dois. O que eu falei para você sobre o Castiel, aparentemente entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

— Eu tenho liberdade para beijar quem eu bem entender. A vida é minha.

— A vida pode ser sua, mas você vai acabar com a vida dele. Para de ser tão egoísta!

— Fala o senhor “defensor dos oprimidos”. O que te deu para ficar defendendo ele toda hora? Ele me humilhou na escola, tentou espancar você, tentou me agarrar e agora você dá um de trouxa para defender ele?

— Para de ser criança!

Outra idiotice. Outra ação movida pela raiva. É, os mandamentos que obrigavam a gente estudar na escola militar parece que não serviram de nada para mim. Um deles falava que não se devia agir pela fúria ou algo do gênero. Se tivesse me interessado por essa porcaria, talvez fosse uma pessoa diferente. Lynn quase não voltou a falar comigo. Bebi e bebi para tentar me convencer que não tinha feito aquilo.

— Está acordado?

— Sim, mamãe. – respondi. Estava saindo do banheiro, me jogando na cama. — Acabei de vomitar.

— Seu moleque horrível. Bateu na sua irmã! — ela bronqueou.

— Nem vem com moralismo. — levantei as mãos. — Ela leu o diário que a Miki escreve no seu computador. Ela entrou no seu quarto sem a sua permissão.

— Como você. — ela apontou o dedo em minha cara. — Pegou meus pornôs e achou que tinha colocado no mesmo lugar.

— Mãe, não muda de assunto.

— Não mude de assunto você, Kentin. Comporta-se como uma criança, me poupe. Você é o mais velho, porra. Honra as bolas que você tem e seja homem pelo menos uma vez na vida. Deveria defender sua irmã, e não bater nela.

Era difícil admitir para ela o que tinha feito, eu odiava isso. Também senti muito ciúme porque ela estava privilegiando a Lynn, mas mamãe estava certa. Eu tinha feito algo errado e tinha que me desculpar com a tampinha. Quando fui segui-la na escola, ela estava indo para o telhado. Mas quando cheguei e me deparei com Castiel lá, confesso que brochei completamente. Pior foi a dor de ter presenciado os dois se beijando, ela dizendo que daria uma chance para tentar algo com ele. Se ela me desse outro tiro seria menos doloroso.

— Ah meu Deus... Disse que não ia beber!

— Eu digo muitas coisas. Senta aí. Não parece que está com sono. — ela fez uma cara de safada, estava toda confiante que eu fofocaria como da ultima vez quando fiquei bêbado. — Eu já saquei qual é a sua. Vai beber também. Acha que eu vou ficar falando as coisas para você?

— Não bebo.

— Bem... O aquecedor quebrou. É bom beber, ou você não consegue dormir com esse frio, a não ser que pegue dez cobertores. E eu não quero dormir com você, você ronca.

— Eu não ronco!

— É bom beber, pra conseguir dormir e parar de encher o saco.

— Isso não é dormir, é desmaiar.

— Que diferença faz? Fica inconsciente do mesmo jeito!

— A diferença é que se um cachorro vier comer seu cu, você lembra. Já bêbado...

— E como você sabe disso?

Bebemos muito, muito mesmo. E por mais que eu bebesse e bebesse, nunca me esqueci de nada do que fiz quando estava bêbado. Já Lynn, coitada. Além de esquecer, parecia que outra pessoa tomava seu corpo. A tampinha sugeriu umas brincadeiras um tanto que peculiares. E eu, como estava muito alegrinho fui na onda sem pensar duas vezes. Eu lambia seus peitos enquanto whisky escorria por sua pele. As coisas foram esquentando e eu subi as escadas cambaleando indo até meu quarto buscar camisinha. Tinha até ficado nu para facilitar as coisas, mas desmaiei de tão bêbado que estava. Deveria ter acontecido o mesmo com ela, pois ela sequer veio me procurar.

Venhamos e convenhamos, Lynn é burra, muito burra. Mas acho que ela desconfiou ou teve quase certeza que havia rolado alguma coisa ali. Talvez ela fosse boa em fingir, quando me trouxe café no outro dia, não havia comentado nada sobre o ocorrido da noite passada. Mesmo que desse para desconfiar, parecia mesmo que ela não se lembrava de nada.

Debrah voltou depois de um ano "sumida". Parecia até uma assombração que tinha voltado para puxar o pé do Castiel e destruir tudo que ele tinha com a Lynn. Não gosto muito de admitir isso, mas amei muito quando Castiel rejeitou Lynn e a mandou ir embora. Senti um aperto no coração tanto por vê-la chorar e por ver o qual doente eu era. Sim, aquele amor era meio doentio. Ela era minha irmã e eu era egoísta o suficiente para me divertir enquanto ele a dispensava para ficar com outra. Eu amava aquilo porque ela seria só minha. Mas era bobagem pensar aquilo enquanto Lysandre estivesse por perto.

Antes Castiel morria de amores enquanto Lynn o rejeitava e correspondia Lysandre, mas o jogo havia invertido, Castiel era o beneficiado e Lysandre era o magoado. E eu fiquei observando tudo como um mero expectador, amando-a mais do que os dois juntos. Amei-a o suficiente para tentar deixar de ser egoísta e tentar ignorar aquele amor que era errado. Não tinha como ser namorado da minha irmã, mesmo que ela não fosse minha irmã de verdade.

Castiel rejeitou, Lynn chorou, carro, restaurante, acidente, hospital e Lynn. Pobre Lynn. Depois daqueles papeis, soube que em breve ela iria morrer. Eu não poderia contar para ela. Uma das mentiras que eu contava era quando dizia que ia me encontrar com Lety, quando na verdade iria conversar com a vovó. Lety era apenas uma diversão de três minutos que tinha sido descartada há muito tempo. Aliás, já me sentia culpado por ter deixado-a entrar em casa quando já sabia sobre a doença de Lynn.

— Dirigiu bêbado, não é? — ela me deu um tapa na cabeça. — O que eu te falei sobre isso?

— Eu não estava bêbado! — exclamei passando a mão na cabeça dolorida. — Eu vim aqui contar isso porque... A Lynn está muito doente e eu não sei o que fazer.

Depois que comecei a chorar, a velhota percebeu que o assunto era bem mais sério do que ela imaginava. Contei sobre a doença e tudo o que a médica me havia falado.

— Eu entendo muito bem como é a dor da morte de alguém querido, estive em mais guerras do que troquei de roupa. — ela suspirou. — E eu sei que você também sabe que dor é essa. Eu sei que é muito difícil.

— Eu também tenho outra coisa para contar. — mordi o lábio, limpei as lágrimas e respirei fundo. — Eu gosto dela.

— Isso é bom, pelo menos não está mais batendo nela como sua mãe me contou. Ainda bem que estão... — quando ela viu a expressão que fiz, ela finalmente percebeu o sentido de minhas palavras. — Ah não Ken, não! Minha mãe não matou Hitler para eu crescer e ver isso.

— Hitler não se matou?

— É isso que eles querem que você pense! — ela cruzou os braços. — Sabe que tem que parar onde já está né? É difícil, mas não pode se apaixonar pela sua própria irmã.

É, eu sabia disso. E as coisas tão misturadas faziam um problema quase insuportável. Mais insuportável era a sensação de querer fazer alguma coisa, mas não poder fazer nada. Era incrível como eu nunca tentei ajudar Lynn de verdade, e quando realmente quis, não tinha mais jeito de ajudá-la. O pior era ter que fingir que não estava acontecendo nada.

— Hei! Ainda não foi dormir?

— Por que não contou?

Aquela pergunta tinha sido a mais complicada de ser respondida. Ela já sabia. Tinha ido em meu quarto xeretar com certeza, acho que foi assim que ela encontrou Lety.

— Não podia. — sacudi a cabeça. — Não queria que ficasse triste.

— Como acha que eu estou agora? — ela chorava e chorava mais, aquilo me destruía. — O que eu tenho?

— Eu não sei! Não se desespere! Você vai ficar bem!

— Você sabe! Tem que me contar o que é! Não tem o direito de esconder isso de mim.

É, ela estava certa. Mas ainda não estava pronto para contar a verdade, ela não estava pronta para saber a verdade.

— Não, eu não sei! Não sabem o que você tem! Você foi ao meu quarto xeretar os papeis, não foi? Aqueles eram os resultados dos outros exames. Você tem alguma coisa, mas ainda não sabem o que é, entendeu?

A médica era minha amiga e acabou me ajudando a acobertar a mentira. Ela tinha feito outra analise, o resultado era praticamente o mesmo. Mas agora a doença misteriosa tinha um nome, o que ela fazia eu já tinha conhecimento. Eu jurei a neurologista que contaria a Lynn, ela facilitou muito as coisas, só tinha que contar o que era.

— A Lana falou que suas notas estão ruins.

— E o que é que tem?

— Nada, é que... Não precisa se preocupar tanto. Deveria estudar mais!

— Não preciso que me diga o que fazer. Você tem problemas maiores.

— E por que não deixa que eu cuide deles? Francamente, estou preocupada com você. Você não dorme direito, não come direito, e na maior parte do dia, eu nem sequer te vejo, você simplesmente some.

— Já brigamos sobre esse assunto das saídas! Eu estou dando o máximo de mim! O que você quer que eu faça? Todos estão sofrendo por sua culpa! Não torne as coisas piores.

Estava sendo difícil criar forças para contar. Mas difícil mesmo era ver como ela se preocupava comigo, mesmo sabendo um pouco sobre a doença e o que ela poderia fazer com seu corpo. É, foi completamente errado dizer aquelas coisas para ela. Quando passei alguns minutos em meu quarto e coloquei a cabeça no lugar, peguei o cordão da escola militar que a vovó havia me dado e fui mostrar a Lynn que já sabia que ela havia ido para a escola militar. Aquilo não era nada, mas eu queria ao menos tirar a doença da cabeça dela mesmo que só por cinco minutos. O problema é que eu não a achei em lugar algum, e quando a achei, Lynn não queria me ter por perto.

— Ah meu Deus! Por que correu?! Sua burra! Burra! Olha só o que aconteceu! Machucou muito? — eu a vi chorar tanto e havia tanto sangue, aquilo me dava um desespero muito grande. — Dói em outro lugar? Onde está doendo? — ela colocou a mão no peito, indicando que o outro lugar onde doía era seu coração. Eu a abracei, o meu também doía.

O que veio pela frente não foi pura felicidade, mas foi um alivio para meu coração oprimido. Viajamos, Castiel nem sabia da doença e não sabia do bem que estava fazendo a Lynn. Lysandre ainda estava lá para formar o terceiro lado do triângulo amoroso, prestando seu amor persistente. Houve uma confusão na ilha, Castiel bateu em Lynn, eu bati em Castiel. Lynn se zangou, até pareceu quando Angela havia se zangado conosco, tudo era melhor do que pensar naquela doença. E eu ainda continuava a beijar seus lábios enquanto a mesma dormia. Deveria ter obedecido vovó quando ela disse para tentar esquecer disso, porque era impossível levar adiante a paixão que sentia por minha irmã.

— Alô? Kentin? Aqui é a Morango.

— Alô! Algum problema?!

— Não, não! Pelo contrário. — ela riu. — Bom, primeiro eu peço mil perdões por isso. Havia algo de errado com a máquina de ressonância, nem sei como isso aconteceu se ela havia saído da manutenção há pouco tempo. Enfim, suspensa o uso da medicação da sua irmã.

— Está querendo dizer que...?

— É, ela não tem nada. O resultado saiu errado.

— Espera, espera aí. Mas ela caiu uma vez e bateu o queixo no chão, os reflexos dela não estavam funcionando direito.

— Quando estava me convencendo a mentir para ela, disse que suspeitava que ela viu os primeiros resultados do exame, não é? – concordei logo em seguida. – A resposta mais plausível é que ela sofreu um efeito placebo.

Aquela tinha sido a melhor noticia da minha vida, eu corri para o banheiro. A abracei pelada sem ao menos perceber o que estava fazendo. Pensei que depois disso e depois que Lysandre foi embora, eu teria pelo menos uma oportunidade de dizer o que sentia. Lysandre havia desistido, seu pai havia morrido e para ele não tinha mais como viver com aquela dor. Principalmente porque da ultima vez que ele viu o pai, havia brigado com ele. Devo imaginar o quão culpado ele se sentiu. É, ver oportunidade surgir com a desgraça alheia era egoísmo meu novamente. Mas Lynn sofreu tanto, ela não tinha direito de que outra pessoa tentasse fazê-la feliz? Bom... Mesmo que a outra pessoa fosse seu irmão e o conceito de felicidade fosse outro.

Não acho relevante falar sobre a mulher esquisita que nos capturou. Eu não fiz esforço para entender toda aquela história. Sei que no final eu acabei matando-a para poupar Lynn de fazer aquilo sozinha.

— Quais são suas ultimas palavras?

— Fedelha. Se achá-lo, frita ele pra mim.

Até mesmo tentei manipular a cena para que aparentasse que a grandiosa valentona tinha se suicidado. Mesmo que tentassem me explicar o porquê daquela mulher ter tomado aquelas atitudes, não havia ninguém que fizesse meu coração amolecer. Eu atirei nela de olhos abertos, vi sua cabeça se espatifando, abracei minha irmã e a tirei dali. Por um momento, senti que se ela própria não tivesse pedido, eu a teria matado por Lynn.

Lynn demorou a esquecer daquilo e voltar a carregar aquele lindo sorriso no rosto e a ter aqueles lábios doces que eu tanto amava beijar sem que ela soubesse. Ainda queria ter coragem de contar o que sentia por ela, queria muito mais do que lhe dar selinhos quando estava desacordada.

Não havia Kentin egoísta que permanecesse ali quando o resto do F4 resolveu se separar. É, aquilo parecia piada. O Castiel que um dia parecia menina agora pelo menos parecia um menino, e a garota pela qual sempre brigávamos estava com ele. Armin parecia ter mudado pelo menos um pouco, para quem havia se fechado para o mundo, ele não estava tão mal e pelo menos havia conseguido reatar os laços que tinha com o irmão. Restava apenas eu, somente eu e Lynn. Ela sofria assim como eu com a partida deles. Não havia margaritas que preenchessem o vazio da ausência de vozes eufóricas e pessoas irritantes.

Lá estava eu e ela, apenas eu e ela. Nada podia atrapalhar, ninguém. A primeira tentativa não deu certo, ela recuou. Até tive que concordar quando ela perguntou se eu havia tropeçado. É, Lynn era realmente muito lerda. Eu sei que não sou a pessoa mais óbvia do mundo, mas naquela altura já estava bem óbvio que eu gostava dela. Todos os meninos do F4 já haviam notado!

— Tequila! — exclamei para mim mesmo quando encontrei a garrafa no armário. É claro que aquilo funcionaria, funcionou da outra vez quando estavamos na escada.

Óbvio que não era certo fazer aquilo com ela, mas eu não tinha más intenções. Queria apenas tirar o fardo da solidão de cima de seus ombros e mostrar que eu estava ali para consolá-la. Prazer preenche vazios? Some com a solidão? Disso eu não sabia, mas seria ótimo descobrir. Melhor ainda seria fazer o que eu queria há tanto tempo.

— Atende.

— Não quero.

— Atende!

Quando coloquei o telefone na orelha, todo o mundo que havia sido reconstruído, desabou em cima da minha cabeça.

— Você é o filho de Mika Takamura? Preciso de você rápido, aconteceu um acidente.

Joguei as roupas em cima de Lynn, entrei no carro e dirigi tão rápido como nunca havia dirigido antes. Os bombeiros, a polícia, meus olhos se encheram de lágrimas. Chegar em casa e ver que a desgraça havia acontecido no ultimo quarto do corredor era pior ainda.

— Aparentemente o incêndio começou por causa de um cigarro. — o bombeiro explicou. — Ela estava fumando e bebendo ao mesmo tempo, acabou entrando em combustão mais rapidamente.

Eu chorava, chorava tanto. Aquela mulher tinha sido tão bondosa comigo. Por que o mundo faz isso com as pessoas boas? Por que não faz com as más? Eu vejo tantas pessoas boas perdendo as vidas e tantas más infestando esse mundo. O que há de errado com o mundo?

Quando menos esperei, Lynn havia se jogado no chão atrás de mim. Estava chorando, chorando mais que eu. E novamente eu a agarrei e tive forças o suficiente para tira-la de lá.

— Quer um docinho?

— Não vovó.

Lynn me preocupava, mal piscava. Ficava olhando para o nada com os olhos marejados, estava em choque. E sinceramente eu entendia como ela se sentia, eu me sentia igual. Quase as mesmas questões invadiam minha cabeça, eram pouco parecidas com as questões de quando meu pai morreu. Não era como eu iria viver ou estar preocupado com orfanatos. A preocupação era: como vou conseguir proceguir depois disso? Como vou conseguir viver sabendo que a pessoa mais importante do mundo não estava mais lá? Estava agora numa urna, apenas cinzas. A urna que ficaria ao lado da de sua irmã dentro de sua própria casa. A pior coisa agora era cumprir uma promessa que havia adiado há muito tempo.

— Lynn, no que está pensando?

— Não sei mais no que pensar.

— Sobre a mamãe? É, eu também não sei.

— Não só sobre ela, sobre nós.

— Isso é o de menos. Por que está falando disso num momento como esse?

— Porque enquanto ela queimava na cama, nós estávamos quase transando.

— Shh! — coloquei o indicador nos lábios, logo após olhei para a cozinha checando se vovó havia ouvido algo.

— Nada de "shh", você sabe o que fez. O que nós fizemos.

— Ninguém podia fazer nada! Não tínhamos chave e não havia como ajudar!

— Tinha que ter alguma coisa! — ela voltou a chorar novamente, inconformada.

— Sua vadia. – resmunguei. — Sua vadia burra! Burra e burra! — gritei. — Não tem que ficar se lamentando aí! Apesar de trabalhar tanto, esses últimos anos foram os melhores da vida dela. Minha mãe não teve uma vida miserável, ela luxou como ninguém. E por mais que pudesse luxar o quanto quisesse, o que lhe fazia mais feliz era voltar para casa e nos ver. Você acha que ela ia querer ver você com essa cara horrível? Sua burra! Burra! Burra!

Ela ficou parada me olhando com os olhos arregalados.

— Você é tão burra que eu não tenho palavras para descrever o quanto eu te amo e quão grande é minha raiva por você nunca ter notado isso!